terça-feira, 29 de abril de 2008

OS DALITS DA ÍNDIA - A MAIOR POPULAÇÃO PRETA DO PLANETA

* Todos as fotos postadas no texto são dos Dalits.

Por Walter Passos.
Teólogo, Historiador, Pan-africanista e Afrocentrista
Skype: lindoebano
Facebook: Walter Passos
Pseudônimo: Kefing Foluke.
Há um equívoco dos estudiosos, repetido incessantemente pela mídia e a todo o momento por militantes sobre a população preta do mundo, um desconhecimento e negação do Afrocentrismo e do povoamento da população preta no planeta. Se você for responder a indagação: Qual é o país que detém a maior população preta? E qual é o segundo? Imediatamente você responderá: O primeiro país em população preta do mundo é a Nigéria, na África, e o Brasil está em segundo lugar. Neste texto você descobrirá o quanto foi mal informado e há anos reproduz esses ensinamentos errôneos em salas de aula, nas reuniões do Movimento Negro, na conscientização dos pretos e pretas e até nas conversas informais.
Pode-se esperar por incessante negação do Afrocentrismo e do povoamento da população preta no mundo, seja ensinado que o país  que há mais pretos e pretas localiza-se na África, e o segundo, na América, por consequência do sequestro de homens, mulheres e crianças, prisioneiros das guerras e escravizados em território africano, forçados  ao regime de escravidão. Entretanto, o que te surpreenderá é que o maior país de população preta do planeta não está localizado no continente africano e nem nas Américas.
A Índia é um país localizado no centro-sul do continente asiático, com uma população de hum bilhão e 130 milhões de habitantes, este é o país com a maior população preta do planeta. Com 250 milhões de pretos e pretas, a Índia supera a população da Nigéria formada de 135 milhões de pessoas e do Brasil com 186 milhões de habitantes, ou seja, a população preta da Índia é maior que toda a população do Brasil e duas vezes a população da Nigéria.
Quem são esses pretos da Índia? Como a habitaram? Qual o interesse em negar sua existência? Só através do Afrocentrismo é possível ter esse conhecimento lato das populações pretas no planeta por entender e provar as diversas diásporas voluntárias de africanos. É através do Afrocentrismo que os africanos e africanas em diáspora e na África podem verdadeiramente compreender a dinâmica da colonização e povoamento africano em todo o mundo.

ORIGEM DA POPULAÇÃO PRETA NA ÍNDIA
A história das populações pretas na Índia remonta há milhares de anos, são originários das grandes migrações Etíopes e Egípcias para o Vale do Indos. A contribuição de Runoko Rashidi é primaz para esse entendimento. Segundo Rashidi, no século I a.C, o famoso historiador grego Diodoro da Sicília descreve a presença dos pretos na Índia: "Da Etiópia ele (Osíris) passou pela Arábia, mediante ribeirinhos do Mar Vermelho, tanto quanto na Índia... Ele construiu muitas cidades da Índia, um das quais ele chamou de Nysa, disposta a ter recordação de que (Nysa) no Egito, de onde ele se originou."E continua informando que outro importante escritor da antiguidade, Apolônio de Tiana, que visitara a Índia perto do final do primeiro século, estava convencido de que "Os etíopes colonizaram a Índia, e seguiram a tradição dos seus antepassados em sabedoria."
A obra literária dos primeiros cristão, escritas por Eusébio preserva a tradição que "No reinado de Amenophis III [o mais poderoso faraó da XVIII dinastia egípcia] um grupo de etíopes migrou de um país do Indos, e se estabeleceram no vale do Rio Nilo". E ainda outro documento de tempos antigos, o Itinerarium Alexandri, diz que "Índia, como um todo, e à Pérsia, é uma continuação do Egito e dos etíopes."A população preta da Índia, os Dalits atuais, é descendente de civilizações desenvolvidas que foi vitima da Chamada Grande Invasão Ariana em 1.500 a.C., que se apropriou do território, conhecimento filosófico da população preta e criaram um sistema de castas baseados na cor da pele e o revestiu religiosamente (Hinduísmo) para humilhar e escravizá-la economicamente.

CONHECENDO OS DALITS - A população de pretos na Índia é superior as populações da Inglaterra, França, Bélgica e Espanha e superior as populações pretas do Brasil e Nigéria também juntas.
O termo "dalit" tem raízes em sânscrito onde a terminação “dal” é usada para dividir, abrir, corromper. O vocábulo "Dalit" está relacionado a coisas ou pessoas que são cortadas, rachadas, quebradas, dispersas ou esmagadas e destruídas.
Por coincidência, existe a mesma terminação em hebraico significado baixo, fraco, pobre. Na Bíblia, diferentes formas desta expressão foram usadas para descrever pessoas que foram reduzidas a nada ou desamparados.
Com a invasão britânica na Índia foram criadas as chamadas castas programadas, com a aliança dos britânicos com a minoria que governava a Índia. Os pretos da Índia e Nepal são os mais discriminados do planeta, e por isso muitos têm se convertido ao islamismo, por causa de suas propostas de igualdade e liberdade.
Os dalitis nesses países são excluídos de todo o bem comum, todos os dias três mulheres dalitis são violentadas e obrigadas a se prostituírem; as crianças dalitis sentam na parte detrás das escolas ou assistem aula fora da sala, a cada duas horas uma casa de dalitis é incendiada; 66% dos dalitis são analfabetos e a mortalidade infantil chega a 10%.
No Nepal os pretos são 25% da população. A maioria dos dalitis é proibida de beber a mesma água que bebem as castas superiores. As mulheres dalitis de Badi são obrigadas a se prostituir e são consideradas piores de que um cão vivente de rua.
Com a opressão dos povos pretos da Índia, herdeiros de uma das maiores civilizações, a Harappan, hoje destituída do direito a dignidade e a uma vida de igualdade. Como conseqüência dos arianos se apossou de seus ensinamen­tos, fatos esses ocorridos com a África, berço dos grandes pensamentos filosóficos mundiais e das grandes religiões. Por último, o projeto Genoma Humano análise do DNA na composição dos seres humanos tem produzido evidência científica indicando que a origem genética das castas superiores na Índia é mais européia do que asiática.
Leia mais: http://www.dalitnetwork.org/go?/dfn/blog/2007/04/

FATOS SOBRE OS DALITS:
• A cada dia, três mulheres Dalits são estrupadas (leia Jovem Dalit estrupada e queimada até a morte);
• Crianças Dalits são freqüentemente forçadas a sentarem de costas nas suas salas de aula, ou mesmo fora da sala;
• A cada hora, duas casas de Dalits são queimadas;
• A maioria das pessoas das castas altas evitarão terem Dalits preparando a sua comida, por medo de se tornarem imundos;
• A cada hora, dois Dalits são assaltados.
• Em muitas partes da Índia, Dalits não são permitidos entrar nos templos e outros lugares religiosos;
• 66% são analfabetos;
• A taxa de mortalidade infantil é perto de 10%;
• 70% são negados o direito de adorarem em templos locais;
• 57% das crianças Dalits abaixo da idade de quarto anos estão muito abaixo do peso;
• 60 milhões de Dalits são explorados através do trabalho forçado;
• A maioria dos Dalits são proibidos de beber da mesma água que os de castas mais altas.
Em agosto de 1972, os Dalit Panthers anunciaram que o 25 º aniversário da independência indiana seria celebrado como um dia de luto.
É necessário que todos os pretos e pretas na África e na diáspora denunciem em todas as estâncias a situação da maior população preta do planeta confinada na Índia. Não podemos ficar calados (as) com a opressão de mais de 250 milhões de pessoas de ascendência africana.



Typical Southern India Village
I'm Dalit, how are you



ACESSE PRETAS POESIAS:

domingo, 27 de abril de 2008

LIVRO AFRO-REFLEXÕES


Por: Ulisses Passos. Acadêmico de Direito, Pan-Africanista e Presidente do CNNC/BA. Pseudônimo: Aswad Simba Foluke. E-mail: ulisses_soares@hotmail.com


video


DESCRIÇÃO
O Livro Afro-Reflexões de Walter Passos é voltado para a resignificação africana, a mudança dos conceitos eurocêntricos e um olhar afrocentrado e panafricanista. Este é, sem dúvida, um importante instrumento para o povo preto na diáspora. Serve como reflexão e introspecção ao pensarmos à nossa ascendência africana.
Com linguagem acessível o livro contém diversas reflexões acerca do dia-a-dia do povo preto. São temas cotidianos vislumbrados com uma nova perspectiva, em que o autor faz uma reflexão sobre a capa dos cadernos dos estudantes, nomes e sobrenomes da família preta, os relacionamentos amorosos, discute o mulatismo, discorre sobre o Cristianismo de Matriz Africana, a esperança da Nova Terra, a mulher preta na Bíblia, o medo das crianças pretas no Brasil, analisando o discurso de dominação e preconceitos entre outros temas de grande relevância.
Um ótimo presente para todas as idades proporcionando momentos de reflexões que mudarão sua perspectiva de enxergar o mundo.

LEIA ALGUNS TRECHOS DO LIVRO AFRO-REFLEXÕES:
O NOVO NOME A NOVA TERRA
“Essa transformação na Nova Jerusalém é um dos motivos da nossa fé, é uma das maiores esperanças da igreja, um dos maiores sonhos onde verdadeiramente todos seremos iguais, sem opressão de gênero, sexismo e racismo. Sem as importâncias intelectuais, onde os títulos obtidos nessa existência de nada valerão, mas, a fé advinda do próprio Deus, o doador da fé que nos foi dada através de Yeshua. O qual nos preparou um lugar antes da fundação do mundo, e esse lugar é a África reconstruída”.

OS MEDOS DAS CRIANÇAS
“As crianças brancas falaram abertamente que não tinham medo do bicho-papão, mas de adolescentes que vivem nas favelas e, com eles, a violência; as crianças negras tinham medo da violência de onde viviam, e uma das meninas negras dizia que os violentos eram da cor epitelial dela. Incrível essas descrições formuladas pelos detentores do saber: as crianças.”

DISCUTINDO O MULATISMO
“A ideologia do branqueamento criou cores epiteliais, estigmatizou os mestiços e assim muitos querem ser aceitos pela sociedade, reprimem e repreendem a sua identidade afro.
O racismo no Brasil foi muito bem elaborado, diferente do que ocorreu no USA aonde o racismo se determina por origem, sua ascendência preta determina se você será ou não discriminado racial, enquanto aqui à cor da pele determina o que nós somos, e o mestiço no Brasil não sabe na verdade o que é, não são culpados.”


SOLIDARIEDADE NA DIÁSPORA
“Nós pretos na diáspora africana perdemos muito do ato solidário através da escravização e forçadamente aprendemos a pensar e agir como os europeus ocidentais que invadiram o continente africano e seqüestraram os nossos antepassados, os escravizando, e nós os seus descendentes, esquecemos muito do referencial solidário vivenciado na África - Mãe e com os nossos ancestrais em terras afro-americanas. Os caucasianos nos ensinaram a olhar o nosso legado cultural com os olhos deles, articular o pensamento com as filosofias européias, como se não tivéssemos conhecimentos filosóficos antes da Europa...”


SOBRE O CRISTIANISMO DE MATRIZ AFRICANA
“A grande questão é a desinformação que o cristianismo é uma religião de matriz africana, isso se deve ao desconhecimento da África, felizmente os mais sérios pesquisadores e panafricanistas, sendo alguns deles seguidores do candomblé já afirmam categoricamente essa verdade: O Cristianismo é de Matriz Africana.
Os europeus se apropriaram do cristianismo e o transformaram em uma religião violenta que entre os seus momentos brancos instituiu as cruzadas, a inquisição, a escravidão dos povos africanos e a destruição de civilizações ancestrais em terras da Oceania e das Américas.”


O AMOR ASSENZALADO
"O homem e a mulher preta precisam se reencontrar fora da senzala e reconstruir no útero do ser preto um novo relacionamento de respeito e amorosidade, lembrando sempre que somos frutos de um amor depreciativo formulado nas senzalas da escravidão. Não estamos mais abandonados e jogados na fétida senzala de amores depreciativos, por isso não devemos ter medo de amar. O amor deve ter início na auto-afirmação do ser preto..."

DADOS TÉCNICOS:
Edição: Independente
Ano: 2008
Número de páginas: 150
Formato: Médio

segunda-feira, 21 de abril de 2008

PENTECOSTALISMO E O DESPERTAR DA AFRICANIDADE

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br
É de suma importância o Movimento Pentecostal, posto que é um fenômeno religioso de amplitude e possuidor em sua maioria de membros pretos. O interessante é que análises simplórias e discriminatórias de estudiosos o colocam diferenciado de outras igrejas protestantes, com análises ermas de dentro para fora e com olhares eurocêntricos e uso de instrumentos metodológicos os quais não permitem compreender valores africanos em sua formação e resistência aos valores europeus originários da Reforma do século XVI.
Toda a minha infância e adolescência foram bipolares, vivendo na Assembléia de Deus e na Igreja Presbiteriana. Quase em frente a casa onde cresci no município de Queimados-RJ ainda há uma grande igreja Assembléia de Deus a qual possuia cânticos alegres, manifestações espirituais de origem africana, com instrumentos não convencionais na concepção reformada e uma plenitude de pretos e pretas.
Quando falamos em consciência e escravização mental nas questões raciais colocamos no bojo todas as religiões praticadas no Brasil, porque parto dessa premissa, não há nenhuma religião no Brasil independente dos graves momentos de aumento de falta de respeitabilidade a cultos de matriz africana, que tenha em sua formação e reuniões de lideres para o combate a discriminação racial de forma organizada, e uma proposta de poder político para o povo preto sendo uma viés o caráter religioso, baseado nos princípios do Panafricanismo.
O mais recente movimento pentecostal nos USA foi um processo de despertar da africanidade, uma negação das concepções brancas de cultos e de valores eurocêntricos litúrgicos e de interpretações da divindade por um pequeno grupo de eleitos que dominam o saber teológico, possível somente pelo passar das faculdades teológicas que permitem entender o sagrado e suas manifestações somente através dos estudos acadêmicos. O pentecostalismo reage a essas concepções do distanciamento de Deus pela necessidade da própria ancestralidade, de sentir e exercer a espiritualidade de uma forma mais parecida com os seus valores ancestrais africanos, e não com a letargia caucasiana de climas gelados e cânticos anglo-saxônicos e germânicos, tornou-se necessário africanizar a Igreja e resistir às pressões raciais da fé reformada européia, tanto assim que o movimento pentecostal surge de maneira abrasiva com “O Chamado Avivamento da Rua Azusa, ocorrido em Los Angeles, nos EUA, há 100 anos, foi um dos mais importantes movimentos evangélicos da história da Igreja. No raiar do século 20, a sociedade americana, impregnada pelo racismo, presenciou uma onda carismática varrer as igrejas do país. E à frente do movimento estava justamente um pastor negro, William Joseph Seymour. De origem humilde, cego de um olho e sem formação escolar, Seymour chegou a ser discriminado na igreja - para assistir aulas numa escola bíblica freqüentada por brancos, ele tinha que se sentar no corredor, enquanto ouvia as explicações através da porta entreaberta da sala.
Após ser expulso de uma congregação afro-americana por pregar a doutrina pentecostal, Seymour iniciou uma série de reuniões inter-raciais em uma residência particular. A medida que a notícia sobre curas e milagres espirituais se espalhou, cresceu também o número de pessoas nos cultos. O grupo então mudou-se para uma estrebaria desativada na Rua Azusa. Ali, pessoas de todo o país e até do exterior vinham presenciar a manifestação do poder de Deus.
Apesar do avivamento, a questão racial provocava situações bizarras. Seymour tinha o cuidado de dispor os bancos em círculo, para que os freqüentadores negros não dessem as costas aos brancos, o que era considerado ofensivo. Como nem todos os crentes brancos aceitavam que o pastor orasse por eles, Seymour, para evitar constrangimentos, costumava ajoelhar-se atrás do púlpito feito com caixas de sapatos e orar dali. Enciumados da liderança espiritual exercida por aquele negro, os outros pastores da cidade passaram a evitá-lo. Seymour não era convidado para pregar nem participar de convenções. Quando ia a um culto, sequer tinha sua presença anunciada. Mesmo assim, William Seymour continuou com a missão da Rua Azusa - que se tornou uma igreja quase toda negra - até sua morte, em 1922".
(Marcos Stefano) Revista Eclésia Edição 108 2005
Azusa Street Revival

No Brasil está resistência continua liturgicamente e de cultos totalmente africanizados nas manifestações espirituais, assista esse vídeo:
VIGILIA DO RETETE NA ASSEMBLÉIA DE DEUS PARTE 3
Já surgem vozes discordantes de lideranças brancas contra as expressões africanizadas dentro dos cultos pentecostais como o pastor Silas Malafaia.
Embora a Africanidade esteja presente nos cultos em que pese a espiritualidade dos participantes, pretos e pretas, uma teologia prática que oferece cura para os problemas espirituais e fisicos, os valores caucasianos ainda imperam no seio das Igrejas Pentecostais, sendo representado em sua maioria pelas lideranças brancas e sua teologia de omissão para as questões raciais.
Os fundadores da Assembléia de Deus no Brasil foram dois suíços que vieram dos USA e sabiam muito bem das questões raciais e se estabeleceram na cidade de Belém, e cria-se uma ruptura na idéia de ser uma igreja nacional sem influências externas, esse movimento cresceu no Brasil alheio ao movimento pentecostal dos pretos nos USA.
Os fundadores da Assembléia de Deus em Belém foram Daniel Berg e Gunnar Vingren.
Nos USA, através dos Spirituals a comunidade preta resistiu e não aceitou ser tratada como mercadoria e surgiram diversas igrejas pretas contestatórias da discriminação racial, através de conceitos teológicos, alguns afrocentrado, e todos com a consciência da vivência na discriminação racial violenta, não significando que todas as igrejas tivessem um conceito não integracionista e seus membros ainda são desejosos de usufruir os valores europeus e se integrar na América Branca.
O Movimento Pentecostal no Brasil não discute as questões raciais,os membros de maioria preta são embranquecidos mentalmente ,outrossim, é incontestável o grande paradoxo da dominação e escravização mental, não podemos especialmente considerar a Assembléia de Deus a maior religião negra do Brasil, por negar a negrura nos sentidos psíquicos e sociais, na demonização da ascendência africana,na repulsa as culturas ancestrais e na prática teológica branca.São igrejas como ponta-de-lança de um problema ainda maior, da não resignificação simbólica da fé e da negritude e ao mesmo tempo de maior aceitação da comunidade afro-diásporica no Brasil.
A história do moderno pentecostalismo nos serve de arcabouço para entender e pontuar como igrejas de milhões de membros pretos no Brasil não assumem um questionamento da problemática racial e discriminação da maioria de seus fiéis, os colocando fora da própria realidade, como vivessem dentro de um paraíso racial, contrariamente ao Movimento pentecostal nos Usa que na sua formação teve a necessidade de separação pela discriminação racial e a fé Pentecostal assumiu uma nova postura teológica e levantou lideranças para o combate a discriminação racial.
É interessante pontuar também que nenhuma grande denominação protestante brasileira discute o racismo seriamente, e nesse ponto, todas podem ser comparadas aos pentecostais. Não temos nenhuma denominação que seja capaz de liderar e consiga reunir dentro do seu próprio grupo um grande encontro, nem cerca de 30 pastores para intervir diretamente e propor mudanças reais. As igrejas protestantes são omissas e quanto mais ”intelectualizadas” mais embranquecidas,os pretos(as)que chegam ao pastorado ensinam os padrões teológicos e litúrgicos caucasianos mantendo a mesma situação de inércia acerca da questão racial,e denominações que possuem pastorais para enfrentamento da discriminação racial os membros pedem permissão e prestam relatórios as suas lideranças brancas, as quais permitem ou não tomadas de atitudes, e outros grupos são orientados por pastores brancos os quais consideram o CNNC radical quando afirmamos a necessidade de discutirmos e planejarmos os nossos próprios caminhos.Incrível que pareça a couraça de ser anti-africano se torna mais evidente nas igrejas não pentecostais, do outro lado dentro de todas as denominações há contestações isoladas.
No Brasil, no caso especifico das Assembléias de Deus, já surgem vozes que ensaiam discutir as questões raciais: jovens seminaristas e membros que já participam do Movimento Negro timidamente e ativamente nas lutas pela terra em diversos quilombos evangélicos. No blogger do CNNC/BA foi postado um artigo de uma jovem do Paraná da Assembléia de Deus que faz um questionamento. Leia o artigo NEGROS CRISTÃOS NO SUL DO BRASIL
Uma seara de esperança surge com essas vozes, para a resignificação dos membros das Igrejas Pentecostais, e mais além de toda a Igreja de Yeshua: o redescobrimento com sua ancestralidade africana e a resistência contra a discriminação racial, nas bases do Panafricanismo e surgimento de uma Teologia Preta.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

AFRICANAS AS PRIMEIRAS MATEMÁTICAS – ISHANGO A MENSTRUAÇÃO E A MATEMÁTICA

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista . Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: kefingfoluke@hotmail.com
Facebook: Walter Passos

A todo o momento as mentiras europocêntricas são desmitificadas com as descobertas das civilizações africanas, e atualmente o véu é rasgado e novas luzes surgem sobre os primeiros saberes do planeta no berço de todas as ciências: África. Nos estudos do livro de Levítico é deveras interessante todo o direito normativo que orienta o povo hebreu, especificamente sobre a concepção de proibições às mulheres referentes à menstruação, encontrado no capítulo 15. O sangue menstrual nas sociedades primitivas foi motivo de diversas especulações e rituais que elevaram às mulheres à condição de detentoras do poder mágico do sangue, da maternidade, da perpetuação do grupo clânico, e a serem divinizadas e formarem as primeiras sociedades matriarcais e matrilineares.

A chegada da menstruação em uma das sociedades mais antigas do planeta, os BaMbuti no Congo, é motivo de festa chamada “Elima” onde todos da comunidade participam, porque é a menstruação como "ser abençoado pela Lua"
A necessidade de pensar numericamente fez com que os primeiros agrupamentos humanos do planeta criassem métodos e instrumentos matemáticos, por muito tempo os eurocêntricos forçaram que a ciência matemática surgissem entre os povos europeus, sendo desmascarados a todo o momento com as construções dos egípcios e dos núbios. Assim mesmo, os estudiosos paravam os seus estudos no nordeste da África, na civilização egípcia, bem anterior a civilização grega que teve como base do seu conhecimento filosófico e cientifico os povos africanos.

Quando as novas descobertas arqueológicas provam a todo o momento que bem antes do Egito, civilizações do Centro e Sul da África detinham conhecimentos avançadíssimos, os quais tem deixados os cientistas caucasianos perplexos, se tornam fruto de ignorância para os historiadores desconhecer civilizações primevas e de grande potencial tecnológico e cientifico. Infelizmente, na academia brasileira, os historiadores, e fora delas, os contestadores do saber acadêmico, como alguns militantes pretos, não conhecem a civilização egípcia e nem a núbia, e baseiam seus ensinamentos em algumas regiões que foram mutiladas pelos seqüestradores europeus, como se assim, possam falar da África. O continente-mãe tem que ser estudado com uma concepção abrangente e seguindo não somente a rota escravagista do Atlântico, mas a rota africana em direção a todos os continentes, nas diásporas voluntárias para o povoamento do planeta.

Os saberes africanos assustam os caucasianos e eles escrevem livros que pairam no ridículo ao afirmarem que foram extraterrestres que construíram ou ensinaram as grandes construções africanas. Incrível, a criatividade e devaneios só para negar os saberes das primeiras civilizações.
As primeiras sociedades africanas seguiam o calendário lunar que foi repassado mundialmente através das diásporas voluntárias no povoamento de todos os continentes. A importância da lua e suas fases ainda são observadas em diversas culturas pelas mulheres no que tange ao ciclo menstrual, quando citei acima o livro de Leviticio no capítulo 15- 19-33.

19 Mas a mulher, quando tiver fluxo, e o seu fluxo de sangue estiver na sua carne, estará sete dias na sua separação, e qualquer que a tocar, será imundo até à tarde.
20 E tudo aquilo sobre o que ela se deitar durante a sua separação, será imundo; e tudo sobre o que se assentar, será imundo.
21 E qualquer que tocar na sua cama, lavará as suas vestes, e se banhará com água, e será imundo até à tarde.
22 E qualquer que tocar alguma coisa, sobre o que ela se tiver assentado, lavará as suas vestes, e se banhará com água, e será imundo até à tarde.
23 Se também tocar alguma coisa que estiver sobre a cama ou sobre aquilo em que ela se assentou, será imundo até à tarde.
24 E se, com efeito, qualquer homem se deitar com ela, e a sua imundícia estiver sobre ele, imundo será por sete dias; também toda a cama, sobre que se deitar, será imunda.
25 Também a mulher, quando tiver o fluxo do seu sangue, por muitos dias fora do tempo da sua separação, ou quando tiver fluxo de sangue por mais tempo do que a sua separação, todos os dias do fluxo da sua imundícia será imunda, como nos dias da sua separação.
26 Toda a cama, sobre que se deitar todos os dias do seu fluxo, ser-lhe-á como a cama da sua separação; e toda a coisa, sobre que se assentar, será imunda, conforme a imundícia da sua separação.
27 E qualquer que a tocar será imundo; portanto lavará as suas vestes, e se banhará com água, e será imundo até à tarde.
28 Porém quando for limpa do seu fluxo, então se contarão sete dias, e depois será limpa.
29 E ao oitavo dia tomará duas rolas, ou dois pombinhos, e os trará ao sacerdote, à porta da tenda da congregação.
30 Então o sacerdote oferecerá um para expiação do pecado, e o outro para holocausto; e o sacerdote fará por ela expiação do fluxo da sua imundícia perante o SENHOR.
31 Assim separareis os filhos de Israel das suas imundícias, para que não morram nas suas imundícias, contaminando o meu tabernáculo, que está no meio deles.
32 Esta é a lei daquele que tem o fluxo, e daquele de quem sai o sêmem da cópula, e que fica por eles imundo;
33 Como também da mulher enferma na sua separação, e daquele que padece do seu fluxo, seja homem ou mulher, e do homem que se deita com mulher imunda.

Podemos observar uma seqüência de abstinência sexual e de práticas rituais dirigidas por homens, os sacerdotes, em ofertas de holocausto em sentido purificatório, mostrando uma mudança do que era considerado puro se transformando em imundo na sociedade patriarcal dos hebreus.

Ao longo dos milênios, as mulheres têm desaprendido a arte de menstruar, de fluir com a vida. Nas sociedades tribais, a menarca, o início do fluir do sangue, era celebrada com um rito de passagem, auxiliando a menina a realizar sua entrada para o reino do mana: o poder sagrado transmitido pelo sangue e que tanto podia dar como tirar a vida. Além de apaziguar o poder destruidor, o rito tinha como função auxiliar a menina a entender sua condição física e sua relação com a função procriadora da natureza. Ainda uma criança em espírito e condição social, a partir de suas regras, a jovem deve assumir o comando de sua vida. Sem ritos de passagem, o que temos para oferecer às nossas meninas, que as ajude a transformar e assumir sua nova identidade?

http://www.vadiando.com/textos/archives/000744.html

Ouvia sempre da minha falecida mãe e das “antigas” que não se devia ir ao candomblé mulher menstruada, uma espécie de proibição que na época, ainda criança não me interessava muito, mas sei que há proibições (quizilas) no cozimento de alimentações ritualísticas e oferendas proibitivas a participação de mulheres menstruadas.

A necessidade de numerar e entender a menstruação fez com que fosse criado um instrumento no centro da África entre 25.000 a 20.000 mil anos, denominado de Ishango.



The Ishango Bone



Descoberto no ano de 1950, pelo geólogo belga Jean de Heinzelin e uma equipe de pesquisadores ao realizar escavações no Congo, próximo às margens do lago Rutanzige (antigo lago Alberto), quando procuravam uma grande civilização pré-histórica nessa região vulcânica,
o geólogo encontrou esse precioso objeto de 10 cm de comprimento, ornado com um cristal de quartzo em uma extremidade e que trazia três séries de entalhe agrupados. O cristal de quartzo que não pode ser separado do instrumento comprova que era usado para a gravação, em culturas que se acreditavam não ter o conhecimento da escrita.
O que chamou a atenção dos estudiosos foram à datação, o ineditismo e o uso matemático do instrumento.
Conforme Dirk huylebrouck: “O BASTÃO COMPORTA uma primeira coluna de entalhes unidas em pequenos grupos: de 3 a 6 entalhes; 4 e 8; 10; 5; e, finalmente, 7 entalhes. Duas outras colunas são constituídas por grupos de 11, 21, 19, 9 e 11, 13,17 e 19 entalhes.
Heinzelin via nesses entalhes um jogo aritmético: uma operação de duplicação dos números aproximada na primeira coluna, seguida do “ritmo” de 10=1, 20=1, 20-1, 10-1 e, na seguinte, os números primos entre 10 e 20. Contestado em 1972 pelo jornalista americano Alexander Marshack que afirmou que o bastão era um calendário lunar, porque a soma de cada uma das duas últimas colunas (11, 21, 19,9e 11, 13, 17,19) o resultado é 60, isto é, dois meses lunares, e a primeira coluna totaliza 48 traços, ou um mês e meio lunar. O que deixou os estudiosos caucasianos perplexos foi que o bastão de Ishango é uma prova inconteste que os africanos já realizavam cálculos matemáticos 15 mil anos antes dos egípcios e 18 mil anos antes do surgimento da matemática na Grécia.


Coluna esquerda



Coluna do centro


Coluna direita

Na antigüidade o ciclo menstrual da mulher seguia as fases da lua com tanta precisão que a gestação era contada pelas luas. Com o passar dos tempos, a mulher foi se distanciando dessa sintonia e perdendo, assim, o contato com seus próprios ritmos e seu corpo, fato que teve como conseqüências vários desequilíbrios hormonais emocionais e psíquicos.
http://mulheresedeusas.blogspot.com/2008/01/lua-vermelha-da-menstruao-na-antigidade.html
Nos estudos da etnomatematica, observa-se que as primeiras comunidades tiveram a necessidade transcedental, criativa, objetivando a sobrevivência e a prosperidade grupal e o Ishango foi um instrumento que as mulheres africanas criaram através da observação da sua sexualidade e o calendário lunar adquirindo o conhecimento matemático para gerir e acompanhar os ciclos menstruais. Assim, o calendário lunar, não teria sido apenas métodos de conservação de tempo, mas também reflexiva da ressonância entre as fases da lua e do sagrado ciclos menstruais das mulheres.
Leia mais: http://paje.fe.usp.br/~etnomat/anais/CO01.html

African Mathematics Ma'at Techniques The Thoth Process


As mulheres africanas e suas descendentes são o fruto da criação original de YAH, detentoras de conhecimentos milenares e de saberes equilibrados, possuindo a nobre missão de resgatar e manter através dos conhecimentos uma sociedade igualitária, onde a opressão do gênero masculino sobre o feminino, seja a cada dia questionado; e através do afrocentrismo e panafricanismo um sonho de perfazermos uma sociedade sem opressores e oprimidas.

domingo, 13 de abril de 2008

Martin Luther King, Jeremiah Wright e Barack Obama – Profecia e Esperança


Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: kefingfoluke@hotmail.com

No fundo, tanto a segregação nos Estados Unidos quanto o colonialismo na África foram baseados na mesma coisa: superioridade branca e desprezo pela vida.
Martin Luther King Jr.

Existe toda uma mídia contra os militantes pretos que falam a verdade, e agem com voz profética para dirimir as dúvidas do grande engodo mundial que estamos próximos a era do aquário, e todos viverão bem e o racismo já é uma falácia e caminhamos para uma grande superação. Barack Obama traz em muito de suas falas uma nova concepção de paz e crescimento dentro dos USA para todas as cores epiteliais, usando o exemplo de sua ancestralidade, filho de um preto africano do Quênia e de uma branca norte-americana criado com uma avó branca, e é casado com uma mulher preta. Na sua concepção o discurso antigo não deve ser repetido como se entrássemos em uma área de aquários. Obama referindo à comunidade branca disse:
-“Na comunidade branca, o caminho para uma união mais perfeita significa reconhecer que os problemas da comunidade negra não existem apenas na cabeça dos negros; que o legado da discriminação --e incidentes atuais de discriminação, embora menos escancarados do que no passado-- existe e precisa ser corrigido. E não apenas com palavras, mas por meio de fatos --investimento em nossas escolas e comunidades, defesa dos direitos civis e de julgamento justo nos tribunais criminais...”
Seu pastor Jeremiah Wrigth em discursos proféticos alertou que os ataques terroristas de 11 de novembro foram às conseqüências das práticas genocidas da América contra os palestinos, na África do Sul sendo vítima do seu próprio terrorismo. Defensor e praticante da Teologia Negra de Libertação, o reverendo mostrou que nem tudo que reluz é ouro e em dezenas de sermões alertou a realidade de uma América racista. A grande censura ao Reverendo Jeremiah é porque ele é um afrocentrado, um defensor da família preta e não um eurocêntrico.
A mídia atacou Obama por ser membro de uma igreja afrocentrada e ter por pastor um militante preto. E foi um momento impar para atacar as igrejas pretas nos USA e a Teologia Negra. Obama teve que retrucar, mas, ele sabe que o seu pastor não mentiu e sabemos nós que caso ele seja escolhido e venha a ganhar a presidência os USA continuarão com a sua política imperialista no mundo através dele. Qualquer presidente dos USA representará os interesses de dominação mundial, independente de cor epitelial.
O sermão não agradou aos brancos e nem os pretos que acham que os problemas foram superados, não somente nos USA; também no Brasil. Os que concordaram com o reverendo são considerados radicais, anticristãos e procurando problemas onde não existe. O racismo acabou! Dizem eles, ou está em fase de superação. Por que colocar sal e vinagre nas feridas que já estão fechadas? Nos dizeres de Barack Obama:
- “Mas asseverei minha forme convicção --enraizada em minha fé em Deus e no povo dos Estados Unidos-- de que trabalhando juntos seremos capazes de curar algumas de nossas velhas feridas raciais, e que de fato não nos resta escolha se desejamos continuar no caminho de uma união mais perfeita”.
Novamente a vítima se torna algoz e nós, povo preto, fazemos o impossível “Racismo ao contrário”. Nós somos os culpados da escravidão. Nós somos os culpados da pobreza. Nós somos os culpados da violência. Nós, e somente nós, somos os culpados de nossas mazelas. Nós que escolhemos viver uma vida subumana nas periferias e guetos. Nós e nós. Nada eles fizeram. Nós fizemos tudo e hoje teríamos que sorrir e viver felizes agradecendo aos descendentes dos que seqüestraram os nossos ancestrais as migalhas atiradas ao chão. Nós que não queremos aprovar o “Estatuto de Igualdade Racial”. “Nós” que votamos em partidos como o DEM que quer acabar com a migalha das cotas e do Prouni. Nós e Nós somos mal agradecidos porque recusamos a esquecer o passado de violência e o presente de exclusão.
A grande questão é que o Afrocentrismo tem demonstrado o bem civilizatório das populações pretas no planeta, a amorosidade, a criação de todas as tecnologias e ciências. Não foram os povos pretos que jogaram bombas atômicas e invadiram territórios equilibrados para escravizar e se apropriar de riquezas de outrem; e as nações caucasianas e aliadas tentam destruir o planeta com a destruição da biodiversidade como se daqui não fizessem parte.
Há 40 anos ocorreu o assassinato de Martin Luther King Jr, um dos maiores líderes pretos contemporâneos. Ainda hoje, suas frases são repetidamente citadas por membros de diversas religiões, cores epiteliais e filosofias distintas. Na campanha presidencial nos USA é um referencial aos candidatos democratas, especialmente Barack Obama.
Dentro da história e militância preta há aqueles que admiram o método integracionista e pacifista usado por ele, outros discordaram. Independente dos posicionamentos, Martin Luther King Jr incomodou a América Branca e se tornou exemplo de dedicação e luta para o povo preto em todo o mundo.

No Brasil, as Igrejas pouco falam e se omitem sobre a vida de King. Posso afirmar, pois, cresci em igreja protestante e nunca ouvi em sermões dos pastores pretos e brancos nada sobre a luta deste pastor nos USA, nem de colegas de seminário. Na verdade, os pastores pretos foram bem domesticados por missionários dos USA e por pastores brancos brasileiros que não aceitam a realidade de discriminação racial na sociedade brasileira. A conseqüência é não desejarem conhecer a vida de King para o não comprometimento com a questão racial que assola ao Brasil. Omitir e não comentar nas igrejas é não se envolver com a luta da justiça entre todos os homens e mulheres. No dia 04 de abril li diversos jornais online de denominações protestantes e nada encontrei. Por que será que os grandes meios de comunicação protestante brasileiro omitem Martin Luther King? Por que as faculdades de teologia e seminários não organizaram semanas para discutir o seu legado? Por que os Colégios protestantes não fizeram gincanas de solidariedade inspirados sobre a sua vida? Por que a juventude preta de todas as igrejas o ignora?
- Omissão e descompromisso com a realidade de 15 milhões de pretas e pretos no Brasil, covardia dos pastores pretos e pretas protestantes em lutar contra o racismo nesse país e a denunciar dentro de suas igrejas e estruturas denominacionais a situação de prisão mental que vive a comunidade preta.
- Repetidores e repetidoras de teologias dogmáticas escravizadoras, anunciadores de céu e inferno, descompromissados com o bem comum do seu povo tornando-se embaixadores e embaixatrizes dos mais estranhos interesses de teologias caucasianas
Para a meditação de Bispos, Bispas, pastores, pastoras, presbíteros, presbíteras, diáconos, diaconisas, missionários, missionárias, obreiros e obreiras deixo-vos duas frases de Martin Luther King Jr:
- Não há nada mais trágico neste mundo do que saber o que é certo e não fazê-lo. Não posso ficar no meio de todas essas maldades sem tomar uma atitude.
- Por mais que eu deteste a violência, existe uma mal pior do que a violência: a covardia.
Na sua época Martin Luther King Jr. foi um radical e após 40 anos de sua morte ele é um símbolo da paz e fratrernidade para brancos e negros. Grande inspiração para Obama. Mas, esse simbolismo de paz na concepção de muitos brancos é que a população preta aceite passivamente as poucas reformas que o poder branco oferece, isso faz com que o sonho de Martin Luther King tenha se transformado um pesadelo, discorro sobre esse sonho-pesadelo no livro que lançarei ainda este mês: Afro-Reflexões.
Na campanha presidencial dos USA a mídia caucasiana ataca veementemente o Reverendo Jeremiah Wrigth porque afirmou que as feridas feitas pela escravidão, pelas racistas leis do Jim Crow e da atual exclusão da população preta estavam abertas. Palavras verdadeiras incomodam e ele seguidor de Yeshua que não se conformou com a situação de exploração do poder romano e da covardia dos sacerdotes, os chama de “raça de víboras e sepulcros caiados”.
E nas palavras de Barack Obama:
-“Não posso renegá-lo porque não posso renegar a comunidade negra”
Refletindo o anseio maior dentro da comunidade preta: as palavras do Reverendo Jeremiah Wright. O discurso não podia ser diferente como líder religioso experiente e comprometido com a população preta, ele tinha duas opções: omitir-se, esquecer os ensinamentos africanos de Yeshua e renegar seu povo ou alertar a sua igreja sobre as grandes mentiras preparadas para a comunidade preta nos USA, fazê-la enxergar a situação atual de 25% da sua população atrás das grades, dos problemas do Furucão Katrina, que para muitos pretos americanos foi um atentado, pela segregação racial ainda vigente, pela pobreza , drogas, Aids e todos os males que afetam os pretos e pretas. Ele tinha que ser um profeta ou um sacerdote. Ele optou para ser um profeta e denunciar as mazelas da sociedade racista da America. O profeta é aquele que está acima da instiutição religiosa e se preocupa em denunciar a verdade e isso o Reverendo Jeremiah fez e com muita praticidade; amigo de Farrankhan e com sua concepção panafricanista consegue superar as diferenças religiosas em prol do desenvolvimento e da verdadeira liberdade; colocou o poder americano em cheque-mate e podemos concluir que todos os questionamentos do reverendo Jeremiah demonstra que após 40 anos da morte de King; os brancos não permitem que as crianças dêem as mãos e subam fraternalmente as montanhas da Georgia.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

A GRANDE NANNY QUILOMBOLA - A MÃE DA JAMAICA

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: kefingfoluke@hotmail.com


Introdução
Ministrando aulas aos estudantes sempre reitero as mentiras dos livros didáticos, ratificando que todo o cuidado é pouco com a história oficial escrita, pois foi organizada para atender as elites brancas desse país. Alguns desses aspectos são interessantes: a omissão da resistência do povo preto ao lado da negação da formação civilizatória africana com todas as suas conseqüências e a fixação de explicar toda a história somente através das lutas de classes onde o povo preto é colocado como mais um entre os explorados aonde a concepção classista torna-se reducionista negando a problemática racial.
Infelizmente a maioria de educadores e educadoras de colorações epiteliais cheias de melanina é descompromissada com a descoberta da verdade, meros repetidores dos ensinamentos eurocêntricos e de professores oriundos da classe dominante que ridicularizam as resistências africanas e na diáspora. Cabe a nós, povo preto, o dever de desmitificar a história e suas linguagens que servem para escravizar e manter os afro-diásporicos com sentimentos de inferioridade. Cabe a você irmão e irmã a responsabilidade também da procura das verdades escondidas e perfazer o legado roubado do povo preto no mundo.
A reconstrução desse legado tem nas mulheres pretas grandes exemplos, senão os maiores, estas que são as mais belas do planeta e foram os ícones e representações de deidades nos primórdios civilizatórios em todos os anais da história mundial. Necessário é ressaltar que ao nos defrontarmos com os estudos afrocentrado, notamos que não é mera mudança semântica ou simplesmente a criação de mais um ismo, no devir histórico o Afrocentrismo, mas, a verdade que se revela por si mesma e nestas revelações afrocêntricas a cada dia a presença da mulher preta no desenvolvimento da humanidade, na quebra de paradigmas veiculados pelo eurocêntrismo baseadas na meia-verdade e na divulgação de machismos e achismos, na construção de uma história machista e branca onde a mulher é colocada como coadjuvante e simples ventre reprodutor, as recentes descobertas de escavações em todo o planeta de civilizações pretas comprovam poderosas civilizações matrilineares e matriarcais. Não se pode falar em Afrocentrismo e Panafricanismo sem resgatar a participação das nossas ancestrais como grandes líderes em terras afro-asiáticas e nas lutas de libertação na escravidão, na formação de identidades étnico-culturais e de novas nacionalidades na diáspora. Continuo afirmando que a concepção da não participação das mulheres nas decisões são concepções ocidentais e machistas. Ainda hoje o poder matriarcal é exercido em cultos de origem africana em muitos locais da diáspora representando através do simbolismo diferenças profundas do poder patriarcal ocidental e branco, onde as mulheres não passam de simples auxiliadoras.


A Grande Nanny
A Jamaica um país que é pouco conhecido no Brasil especialmente pela sua localização geográfica - terceira ilha em extensão no Caribe, menor do que Cuba e Hispanhola - e também da diferença lingüística. A maioria da população brasileira quando se fala em Jamaica entende como se fosse somente terra do reggae e de Bob Marley, desconhecendo a história da resistência dos pretos e das pretas jamaicanas.
A história da resistência dos pretos jamaicanos inicia com os primeiros seqüestrados do continente africano que fugiram dos navios em 1512 e se embrenharam nas florestas jamaicanas, iniciando o movimento de resistência “maroon”, em língua portuguesa é conhecido como mocambo, quilombo ou cafundó. A população jamaicana tem na pessoa da Grande Nanny, mulher preta e guerreira, seu maior ícone nacional, maior do que Zumbi dos Palmares no Brasil, ao passo que este fora incluído como herói nacional do povo preto somente nas últimas décadas por lutas do Movimento Negro, não sendo ainda consensual para as elites brancas brasileiras a sua inclusão, assim elas o fazem para não modificar a sua história embranquecida, omitindo a resistência do povo preto e a desqualificando, incorrendo no meu protesto e desabafo nos artigos escritos neste blogger: BRANCOS QUILOMBOLAS EM PALMARES: ROMANTISMO E MENTIRAS! e É NECESSÁRIO RESPEITAR NOSSAS MEMÓRIAS - QUILOMBOS E CRISTÃOS-NOVOS NO BRASIL NUNCA FORAM ALIADOS.
Fatos estes não ocorridos com Nanny: A Rainha Preta da Jamaica. Esta guerreira africana provavelmente nasceu entre os povos ashanti e veio de uma família nobre de guerreiras africanas, no nosso blogger discorremos sobre outra guerreira ashanti que convocou os homens para a guerra contra o invasor europeu, após os mesmos terem se acovardado: YAA ASANTEWAA: A RAINHA GUERREIRA ASHANTI e AS GUERRREIRAS DO DAOMÉ- A RESISTÊNCIA DA MULHER AFRICANA CONTRA O INVASOR FRANCÊS
Os documentos históricos sobre Nanny relatam a sua presença, conforme Deborah Gabriel, somente quatro vezes e de formas depreciativas, evidente que os documentos foram escritos pelos escravizadores britânicos. O seu nascimento ocorreu provavelmente em 1680 no povo Ashanti e a sua morte data de 1730, foi casada com Adou e não teve filhos. Em alguns relatos históricos Nanny não aceitou a escravização e quando desembarcou liderou a fuga e com mais cinco irmãos foram para as montanhas azuis e fundou a Nanny Town, liderando a guerra contra os britânicos por quase 50 anos.
A opressão dos escravizados na Jamaica na plantação da cana-de–açúcar transformou essa ilha como um dos maiores exportadores.

As revoltas dos quilombolas jamaicanos (marrons) foram intensas de 1655 até 1830, com um suporte religioso considerável de práticas africanas ancestrais, de respeito a memórias dos antepassados, perfazendo um grau elevadíssimo de auto-estima em ser africano em uma diáspora forçada. Os escravizados africanos na Jamaica são considerados por alguns historiadores como grandes revoltosos.
A luta de Nanny e sua liderança dos marrons foram de enfrentamento ao exército britânico baseada em confrontos de estratégia de guerrilhas, facilitadas por causa das cidades marrons situadas nos altos de montanhas como o caso de Nanny Town. Nanny era uma líder espiritual, uma zeladora do Obeah, religião de matriz africana praticada na Jamaica. O Obeah é também praticado em Suriname, Jamaica, Ilhas Virgens, Trinidad e Tobago, Guiana, Belize, Bahamas, St. Vicente e Granada, Barbados e em muitos outros países do Caribe. A religião dava forças nas lutas dos marrons contra representantes de uma religião européia deformada que escravizava e tirava a dignidade da liberdade. Nanny foi uma conhecedora das ervas e uma líder nata que dava aos guerreiros e guerreiras confiança que poderiam viver livres e vencer o inimigo.
No ano de 1994 o estado jamaicano homenageia Nanny com uma nota de 500 dólares jamaicanos. No Brasil o grande líder Zumbi nunca foi homenageado em nenhuma cédula nacional, porque para as elites e sua historiografia ele foi simplesmente um escravizado revoltoso e não é interessante o estado corroborar histórias de pretos e pretas que lutaram pela liberdade. Inclusive é espantoso que na cidade de Salvador o dia 20 de novembro ainda não seja feriado municipal, e é o momento político que nas próximas eleições municipais tenhamos Olívia Santana e Luís Alberto para candidatos a prefeito da cidade mais preta desse país.

A grande Nanny é um dos exemplos de resistência que devemos ensinar para as nossas crianças e para nossa militância. A rainha Nanny não é um exemplo somente para a Jamaica e sim de toda a Afro-América e continua através da oralidade mantendo viva a chama da liberdade.

sábado, 5 de abril de 2008

DIFERENÇAS DE EVANGÉLICO PARA PROTESTANTE


Osvaldo Freitas de Oliveira Júnior, Bacharel em Teologia e Pós-graduando em Teologia e Cultura pela Faculdade Batista Brasileira.

INTRODUÇÃO
Hoje é comum se ver discursos e associação do termo protestante ao termo evangélico, o qual historicamente não seria de todos errado, se não fosse pelo fato da maioria esmagadora das igrejas intituladas evangélicas atualmente terem abandonado e até mesmo estarem se opondo aos princípios das primeiras igrejas assim intituladas.
As primeiras igrejas que estavam associadas ao titulo Evangélico foram as igrejas surgidas com a Reforma e que tinha como pilares os seguintes dizeres: Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fide, Soli Deo Gloria, Solus Christus.
Esses princípios da Reforma foram esquecidos e distorcidos pelos movimentos e igrejas modernas que se tornaram espécies de “fast-foods” para alma, como suas “orações de Jabez” e “fortes”, promessas, “correntes”, campanhas -algumas que chegam a propor “desafios a Deus”; e objetos milagrosos, bem como o resgate do xamanismo e animismo.
Não estou querendo defender um anacronismo e um padrão frio e contrário a presença da emoção, alegria ou prazer na celebração, missa ou como quer queiram chamar o culto, mas sim, um resgate aos princípios esquecidos que caracterizaram a Reforma e o Protestantismo.
Para tanto se faz necessário explicar e comentar os pilares mencionados anteriormente, para que vejamos o quão distante das primeiras igrejas da Reforma, a maioria das igrejas atuais, se encontra a ponto de podermos considerar a titulação evangélica como algo diferente e não sinônimo de protestante.

Sola Scriptura
Somente a escritura – pilar que afirmava que a Bíblia era a fonte de Revelação suprema para as comunidades cristãs, que não deveria ser permitido à Igreja fazer doutrinas fora dela, ainda que baseadas em supostas revelações pneumáticas.
Diferente de alguns que são cessacionistas – que crêem no cessar dos dons ou carismas espirituais; não iremos “decretar” o fim dos mesmos, mas que toda e qualquer experiência de um cristão deve ser submetida e julgada a luz da Bíblia e não aceitas apenas por considerá-las como experiências tidas como a relação com o poder e ou próprio Deus. Mas, hoje na prática o que acontece é que tudo o que se é pneumaticamente revelado, ainda que contrário e ou não fundamentado na Bíblia, é aceito e tomado como verdade dentro das igrejas. Não se faz mais uma análise do que foi dito ou supostamente revelado como no exemplo bíblico que temos da igreja de Tessalônica, que analisava a luz das Escrituras tudo o que buscavam ensiná-los, nem dos fenômenos atribuídos ao Espírito Santo.
Pois isso é comum vermos hoje a busca e a retomada da figura do profeta nas igrejas, mas diferentes dos da Bíblia não pelo seu lado denunciador dos erros da igreja e da sociedade religiosa, mas pelo lado da vidência, tornado os que são tidos como profetas em verdadeiros guias e gurus espirituais, dentro das comunidades cristãs.

Sola Gratia
Somente a Graça, afirmava e baseava-se nos ensinamentos de Paulo que a salvação é resultado da ação da graça de Deus. E é neste ponto hoje que vemos discussões e retomada de idéias que iam contra a dos reformadores que tinham nesse tocante ao principio monergístico da regeneração.
Faz-se necessário então explicarmos e falarmos um pouco mais sobre essa forma de entendimento da regeneração do homem, que se baseia na totalidade da salvação creditada e promovida unicamente por Deus através da ação do Espírito Santo, sem interferência ou merecimento humano, que não possui inclinação ao bem ou santidade até ser regenerado, portanto não podendo ser cooperador do processo de regeneração e salvação. Tendo-se, portanto, um processo e visão teocêntricos da salvação.
Atualmente no meio evangélico tornou-se difundida a idéia contraria a esse princípio, predominando as idéias de regeneração sinergística, na qual o homem é cooperador de Deus no processo de salvação, considerando que o homem contém algo aproveitável e bom mesmo após a queda que lhe possibilita alcançar e ou ser merecedor da salvação. Então diferente do primeiro, o processo sinergístico apresenta um processo e visão antropocêntrica da salvação.

Sola Fide
Somente a fé, principio que está intrinsecamente ligado aos princípios monergísticos. A fé é fruto da ação da graça de Deus no homem que vai anular o pecado da incredulidade e proporcionar então a salvação, assim se harmonizando com os dizeres de Paulo, que a salvação vem por meio da fé e não por obras humanas, para que nós humanos venhamos nos gloriar pela obtenção da mesma. Assim, podemos afirmar que para os reformadores e Paulo, não existia nada que o homem pudesse fazer que lhe permitisse a apropriação da salvação.
É comum nos discursos atuais a disseminação da idéia de que o homem pode rejeitar a graça de Deus, e, por conseguinte a salvação, ou que a recebe como prêmio de suas obras, idéias essas que são contrarias as proposições dos reformadores.
Alguns evangélicos baseados na epístola de Tiago alegam que o mesmo coloca as obras como instrumento de salvação, desconsiderando o contexto maior do escrito que faz crítica aos que dizem seguir o Cristianismo e não apresentava atitudes cristãs, assim, agindo de modo hipócrita e negando a validade da fé proclamada.
Vemos, portanto, que o texto de Tiago ensina a ter uma fé evidenciada na prática, não abstrata, nem apenas em discurso; Por isso ele escreve severamente que “a fé sem obras é morta”. Ora, a fé verdadeira implica em regeneração e não em continuidade dos erros cometidos sem a ação de Deus. Assim a epístola de Tiago não pode ser tomada como base para a afirmação da apropriação ou merecimento da fé ou salvação através das obras.

Solus Christus
Somente Cristo, que através da própria vida santa, morte sacrifical na cruz e ressurreição, é responsável por nossa salvação, assim como somente Ele é o detentor de toda autoridade, inclusa a espiritual, aliado aos dizeres escrituristícos de que Ele era o único homem capaz de mediar a Deus. Os reformadores que se intitulavam evangélicos, não procuravam negar a deidade de Jesus ou anular a crença Trinitária, adotando uma visão unicista,[1] mas afirmavam tal crença, justamente para reforçar a figura de Jesus-Homem, que se ofereceu em substituição aos outros homens e mulheres, promovendo assim a salvação. Afirmando então que são os feitos de Jesus, e não os nosso, que nos permite e proporciona a salvação.
Ao longo da História do Cristianismo alguns elevaram da posição de intercessor a mediador membros da “Igreja Triunfante”, atitude criticada na Reforma. Hoje vemos alguns tomarem tais atitudes em relação a tais membros da Igreja Militante. Tornou-se comum ver pessoas irem atrás de um determinador pregador por considerarem ele como “homem de Deus”, detentor de um “ministério abençoado” que vai conseguir convencer e converter alguém que ainda não crê, ou realizar algum feito sobrenatural que vai confirmar tal poderio e autoridade para estes seguidores. Resgatando as idéias combatidas pela Reforma da concentração da autoridade e sacerdócio exclusivista dos lideres religiosos instituídos pela Igreja Católica Apostólica Romana; bem como a sujeição incondicional do apóstolo representada na figura do papa e seus subordinados componentes do clero. Vemos, então, o resgate dessas idéias nas igrejas evangélicas com os seus “apóstolos” e movimentos que produzem um sistema piramidal nicolaísta, semelhante ao criticado promovido por Roma antes da Reforma.
O Evangelicalismo, então, descarta não apenas o Solus Christus como também as postulações acerca do “sacerdócio universal dos crentes”, transformando seus lideres em gurus e guias incontestáveis, passando a serem vistos como pessoas que teriam alcançado um estado de nirvana, iluminação ou santificação transcendente aos outros que são apenas membros da igreja. Pelo menos é o que podemos observar na prática a visão que se faz acerca desses lideres que se intitulam como “apóstolos” modernos, principalmente com os que não se contentam apenas com a tradição do Cristianismo, antes, rejeitam e adotam posturas judaizantes.

Soli Deo Gloria
Somente a Deus seja a Glória, algo que já não mais acontece na pratica como podemos observar, pois a gloria e o credito de conversão ou qualquer outra coisa proveniente de Deus é dividida com os homens. Hoje as pregações são centradas no “eu” e como este pode manipular a Deus, para que este venha realizar e tornar real os desejos e ambições do “eu” (homem). Desafia-se, determina-se e faz o que se quer para conseguir que Deus faça as coisas os papeis se inverteram Deus deixou de ser o Kurios (Senhor Absoluto) e passou a ser o servo.
E a idéia de um Deus “que faz tudo conforme o conselho da Sua vontade" (Dn. 4; Ef 1:11) e para o seu próprio louvor, vai sendo deixado de lado.

Conclusão
Portanto feita essa diferenciação entre os evangélicos atuais e os da Reforma Protestante, não há mais como ainda se utilizar tais termos como sinônimos.
Os princípios dos evangélicos atuais já não são mais os mesmos dos reformados, estes aos quais se aplica corretamente a classificação protestantes. Os princípios e idéias que pudemos notar são fruto de princípios oriundos do movimento dos fundamentaisnorte americano, que é posterior a Reforma, que resignificou e buscou se afastar de qualquer coisa que remeta a Tradição, assim negando até mesmo as idéias herdadas da Reforma e abraçando outras que foram condenadas pelos reformadores e veio originar um conjunto teológico e doutrinário classificado como Evangelicalismo.

REFERÊNCIAS
BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudo pentecostal. Tradução de João Ferreira de Almeida. CPAD, 2005. 2030 p
CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2006
CALVINO, João. As Pastorais. São Paulo: Edições Paracleto, 1998.
Monergismo. [S.l.]: [s.n.], 2006. Disponível em: <http://www.monergismo.com/monergismo.htm>. Acesso em: 01 dez. 2006.
[1] Que acredita na unitariedade da pessoa divina, sendo Pai, Filho e Espirito Santo não apenas o memso Deus como a mesma pessoa que se apresenat de maneiras diferentes.
[2] Grupo dos crentes que não se encontram mais vivos conoscos, mas vivos com Cristo, portanto triunfando com este sobre a morte.
[3] Grupos dos crentes que se encontram conoscos e militam pela implantação do reino de Deus.
[4] Movimento que originou o termo fundamentalismo.

A LAVAGEM DO BONFIM E A CANTATA DE NATAL

Por Vera Nathália, Mestra em História pela Universidade Federal da Bahia
Hoje Salvador se veste de branco. É dia de subir a ladeira da Colina Sagrada e tomar banho de água de cheiro. É dia da Lavagem do Bonfim. Observando as imagens que mostravam fiéis das mais diferentes origens, cores e idades percorrendo os 8 quilômetros entre a igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia e a Igreja do Bonfim, comentei com um irmão sobre o esvaziamento das festas populares na Bahia. Para quem não sabe, entre os dias 8 de dezembro e o final do carnaval, Salvador se sacode ao longo de diversas manifestações populares, muitas em homenagens a santos católicos com, é claro, a mistura com a religiosidade afro-brasileira típica dessa cidade. Nos últimos anos, temos percebido um certo esvaziamento da maioria dessas festas, até por conta do desenvolvimento da cidade que não mais comporta tantos feriados e festividades numa rotina voltada para as atividades empresariais. É preciso fazer dinheiro na terra dos orixás.
Pois bem, comentei que é provável que daqui há alguns anos, talvez uma década, a Lavagem do Bonfim talvez seja a única a sobreviver. Bem, talvez não a única já que a festa de Yemanjá no dia 02 de fevereiro também é muito popular, mas acredito que a festa que pára parte da Cidade Baixa na terceira quinta-feira de janeiro é a mais provável candidata a continuar por muito tempo no calendário das festas populares de Salvador, cada vez mais minguado. Em resposta ouvi de meu irmão pentecostal: “Tomara que acabe.” Traduzindo: à medida que as pessoas se tornarem cristãs evangélicas (e uso a palavra já tão desgastada para designar os cristãos em geral), festas desses tipo deixarão de existir.
Fiquei pensando no que ele disse enquanto continuava assistindo às imagens da festa e fui fazer minha salada. Enquanto cortava o tomate, comecei a refletir sobre o significado do que ele havia dito e me lembrei de uma cantata de Natal que assisti numa igreja batista ao final de 2007. Muito bem ensaiada, a cantata era formada por pessoas de idades variadas, todas vestida elegantemente de preto, bem penteadas, que se colocaram organizadamente em frente à congregação. A música não era ao vivo, mas um playback sobre o qual as vozes se elevavam. Bem afinadas, com um narrador de voz grave a pontuar a narrativa, a cantata falava de Jesus e seu nascimento.
Uma pergunta não parava de rodar na minha cabeça enquanto eu picava o coentro, uma pergunta aliás que rondou na minha cabeça inclusive na hora de cantata: cadê meu Brasil na igreja evangélica? Cadê a alegria, o calor humano e a simpatia da minha Bahia na hora de cantarmos a Cristo? Cadê a musicalidade da minha origem étnica no louvor ao meu Senhor? Por que essa musicalidade norte-americana, essas histórias de “Jim” e “Betty” e esse povo todo de preto em pleno verão baiano? Por que tanta formalidade importada de anglo-saxões de sangue gelado numa igreja de gente que vive num mundo onde, com todas as dificuldades possíveis, nós ainda conversamos com nossos vizinhos, com o estranho no ônibus, com a faxineira do shopping. É, a Bahia ainda é assim. A Bahia é a Lavagem do Bonfim. É gente que gosta de louvar a Deus rindo, dançando, com suas roupas imaculadamente brancas, seus cabelos trançados, rastafáris, de teterê, seus batuques e suas danças, gente branca, preta, misturada de todos os matizes de pele, gente que tem PhD, gente que mal sabe escrever, gente que vai de Mitsubishi, gente que vai com o dinheirinho contado.
Tem coisa melhor do que saber que somos Filhos do Deus altíssimo? Que Ele nos ama incondicionalmente? Ou Deus só quer quem está no padrão? Claro, tem um padrão, mas espiritual. E as manifestações da fé? Broadway sim, Pelourinho não?
Jesus dançava? Eu gosto de ficar pensando em certas coisas a respeito de Cristo para as qual sei que não terei resposta, mas que não consigo deixar de pensar. Imaginem: Palestina, mistura de culturas, latinos, árabes, judeus. Muita cor, temperos, muito sol. Será que Jesus nunca se balançou ao som dos ritmos que ecoavam pelas ruas? Será que Ele nunca parou para ver e ouvir aqueles grupos que tocam nas ruas espontaneamente? Nem quando era menino e sumia de casa para brincar nas ruas? Eu espero que sim.
Eu não nasci na América. Eu nasci na Bahia, Brasil. Eu quero uma igreja que me dê a liberdade de saudar a Cristo com a alegria que eu aprendi na minha cultura e com minha gente. Que coisa mais linda é a Lavagem do Bonfim com sua espiritualidade viva, alegre e feliz. Que possamos ver essa mesma alegria direcionada a Cristo, que nossos queridos irmãos e irmãs que hoje subiram a colina não precisem abdicar de sua espontaneidade quando se entregarem a Jesus. Jesus é alegria, felicidade e certeza de um amor imenso. Que Cristo esteja cada vez mais presente nessa terra de tantas crenças e que Ele aceite nossa adoração e louvor assim como somos, do jeito que ele nos fez. Que a igreja na qual meu cabelo trançado não incomode, que meu balançar na hora do louvor não seja proibido, que os hinos que eu cantar sejam de gente que ama e conhece essa terra, que fala do que nós somos, sentimos e que nos levem a adorar a Deus com a riqueza cultural dessa minha Bahia tão querida.

terça-feira, 1 de abril de 2008

AS GUERRREIRAS DO DAOMÉ- A RESISTÊNCIA DA MULHER AFRICANA CONTRA O INVASOR FRANCÊS

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: kefingfoluke@hotmail.com
É deveras emocionante discorrer sobre os nossos ancestrais e suas resistências na África e na diáspora. Os estudos históricos propositadamente maculam os fatos de que milhões de vidas foram ceifadas quando o europeu com a sua ganância invadiu o território africano, após se apropriar dos conhecimentos filosóficos, científicos e religiosos e os transformaram para o mal. Quando pronunciamos a palavra EUROPA, note o EU, a idéia egocêntrica, etnocêntrica e violenta, sempre o EU, e nesse EU os outros estão fora.
Entre as inúmeras resistências ao invasor caucasiano a mulher africana teve papel fundamental na manutenção de territórios livres, esses fatos não são contados nos livros de histórias, porque não interessam que nossas crianças e militantes tenham conhecimento. Recordo-me que conversando este ano no curso pré-vestibular Quilombo do Urubu em Cajazeiras- Salvador-Bahia sobre o tema: Escravidão e Resistência, uma estudante disse que as minhas palavras eram novas, porque sempre ouviu em sala de aula a não resistência ao invasor europeu em território africano. Através da omissão histórica e do uso político, as elites objetivam continuar a dominação mental do nosso povo.
O antigo Daomé atualmente é o Benin, uma dos países que teve uma parcela da sua população seqüestrada e escravizada para as Américas, trazendo o culto dos Vodunsis no Brasil, República Dominicana, Porto Rico, Cuba, Estados Unidos e no Haiti tornando-se um dos símbolos nacionais: o culto Vodu.
A importância do Daomé para o povo brasileiro tem sido bastante estudada não só pelo fator religioso, também na questão de um grupo que retornou do Brasil e mantém sobrenomes brasileiros como os Paraíso, os Silva e os Rego usados por cristãos e muçulmanos e com tradições africanas do Brasil, “Os retornados” ou ‘repatriados” descendentes do maior traficante de escravizados, o baiano Francisco de Souza são respeitados e mantenedores de um importante legado existente hoje do outro lado do Atlântico.
AS GUERREIRAS DO REINO DE DAOMÉ
A fundação do reino de Daomé data do século XVIII e durou até o século XIX quando foi atacado por tropas senegalesas e francesas tornado-se parte do Império Colonial Francês.
A capital era a cidade de Abomei, atualmente um dos patrimônios mundiais, escolhidos pela UNESCO em 1985. A influência maléfica dos europeus fez com que o reino de Daomé mudasse a sua economia e tornar-se escravizador de comunidades vizinhas para servir aos interesses de traficantes de escravizados. No reinado de Agadjá a tropa de Daomé conquistara a cidade de Aladá e possuíam um grande rival no tráfico de escravizados que era o reino de Oió, sendo estes fatos explicativos também para entendermos a recente presença dos jejes e do que chamam iorubas em terras brasileiras, sendo o maior número de descendentes de africanos no Brasil oriundos das regiões do Congo e Angola. Os chamados jejes e iorubas foram escravizados após a derrota dos seus reinos pelos antigos corruptores e aliados de tráfico: os caucasianos.
O que nos chama a atenção é a formação de um corpo militar de mulheres daomeanas que eram selecionadas na mais tenra idade e treinadas para a guerra, servindo como uma tropa de elite e guarda pessoal do rei, sendo uma das mais conhecidas a poderosa líder Seh-Dong-Hong-Beh que significa : "Deus fala a verdade". Liderou o exército de 6.000 mulheres contra os guerreiros Egba da fortaleza de Abeokuta.

Seh-Dong-Hong-Beh, desenhada por Frederick Forbes, 1851

O treinamento dessas guerreiras era árduo, tornando-as preparadas a extinguir o medo, aptas a enfrentar a dor, não temendo a morte e sendo extremamente leais . Viviam proibidas de contrair matrimônio, exceto daquelas designadas para serem esposas do rei, usavam contraceptivos a base de ervas.
Manejavam diversas armas, especialmente espadas, cutelos e fuzis, e conforme alguns historiadores a prova principal para ser aceita como membro do corpo de elite era a decapitação de um homem e beber o seu sangue.
Quando ocorreu o ataque das tropas senegalesas e francesas objetivando a destruição do reino de Daomé, as guerreiras foram as mais preparadas para a defesa do povo daomeano. Em 18 de agosto de 1892 tropas do Coronel Dodd sobem o curso do rio Oumé para atacar o rei Gbehanzìn e sem esperar são atacados ao amanhacer do dia 19 pelas valorosas guerreiras daomenas, as quais confundem os invasores, pela valentia e intrepidez na arte da guerra, enfrentando fuzis, baionetas e canhões e lutando bravamente corpo a corpo.
Há relatos históricos que muitas dessas guerreiras cortaram um dos seios e jogaram nos rostos dos adversários, demonstrando a garra e destemor, mas, nada disso impediu a derrota do exército daomeno em frente a superioridade armamentista do Império Colonial Francês, o qual deportou o rei Gbehanzìn para a Martinica e anexou o reino de Daomé.

Lista dos Reis do Daomé:
Ganiehéssu ~1620
Dako-Donu 1620-1645
Hwegbajà 1645-1685
Akabá 1685-1708
Agadjá 1708-1732
Tegbessu 1732-1774
Kpenglá 1774-1789
Agonglô 1789-1797
Adandozan 1797-1818
Guezô 1818-1858
Glelê 1858-1889
Gbehanzìn 1889-1894
Agoli-Agbô 1894-1900
Por causa dos enfrentamentos das guerreiras e guerreiros africanos que resistiram bravamente ao invasor e colonizador europeu torno-se freqüente á exposição de pessoas como animais em diversas capitais européias e nos Estados Unidos, nos chamados ZOO HUMANS, em plena demonstração de ódio e inveja dos caucasianos aos grandes feitos dos primeiros habitantes do planeta: povos africanos.
Clique aqui e Leia mais sobre o ZOO HUMANS

Na foto acima, os africanos estão com penas, para se parecerem com animais.
Não se contentaram em somente invadir, seqüestrar, escravizar, colonizar e apropriar das riquezas africanas, mas, através de exposições tentaram levar ao ridículo os povos originais abençoados com a melanina. O nosso povo resiste e resistirá segundo os desígnios do seu Criador conhecidos por diversos nomes em diversas culturas

Que a Paz de Javé, Olorum, Nzambi estejam com todos nós amantes da Justiça!

PRETAS POESIAS

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