terça-feira, 1 de abril de 2008

AS GUERRREIRAS DO DAOMÉ- A RESISTÊNCIA DA MULHER AFRICANA CONTRA O INVASOR FRANCÊS

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: kefingfoluke@hotmail.com
É deveras emocionante discorrer sobre os nossos ancestrais e suas resistências na África e na diáspora. Os estudos históricos propositadamente maculam os fatos de que milhões de vidas foram ceifadas quando o europeu com a sua ganância invadiu o território africano, após se apropriar dos conhecimentos filosóficos, científicos e religiosos e os transformaram para o mal. Quando pronunciamos a palavra EUROPA, note o EU, a idéia egocêntrica, etnocêntrica e violenta, sempre o EU, e nesse EU os outros estão fora.
Entre as inúmeras resistências ao invasor caucasiano a mulher africana teve papel fundamental na manutenção de territórios livres, esses fatos não são contados nos livros de histórias, porque não interessam que nossas crianças e militantes tenham conhecimento. Recordo-me que conversando este ano no curso pré-vestibular Quilombo do Urubu em Cajazeiras- Salvador-Bahia sobre o tema: Escravidão e Resistência, uma estudante disse que as minhas palavras eram novas, porque sempre ouviu em sala de aula a não resistência ao invasor europeu em território africano. Através da omissão histórica e do uso político, as elites objetivam continuar a dominação mental do nosso povo.
O antigo Daomé atualmente é o Benin, uma dos países que teve uma parcela da sua população seqüestrada e escravizada para as Américas, trazendo o culto dos Vodunsis no Brasil, República Dominicana, Porto Rico, Cuba, Estados Unidos e no Haiti tornando-se um dos símbolos nacionais: o culto Vodu.
A importância do Daomé para o povo brasileiro tem sido bastante estudada não só pelo fator religioso, também na questão de um grupo que retornou do Brasil e mantém sobrenomes brasileiros como os Paraíso, os Silva e os Rego usados por cristãos e muçulmanos e com tradições africanas do Brasil, “Os retornados” ou ‘repatriados” descendentes do maior traficante de escravizados, o baiano Francisco de Souza são respeitados e mantenedores de um importante legado existente hoje do outro lado do Atlântico.
AS GUERREIRAS DO REINO DE DAOMÉ
A fundação do reino de Daomé data do século XVIII e durou até o século XIX quando foi atacado por tropas senegalesas e francesas tornado-se parte do Império Colonial Francês.
A capital era a cidade de Abomei, atualmente um dos patrimônios mundiais, escolhidos pela UNESCO em 1985. A influência maléfica dos europeus fez com que o reino de Daomé mudasse a sua economia e tornar-se escravizador de comunidades vizinhas para servir aos interesses de traficantes de escravizados. No reinado de Agadjá a tropa de Daomé conquistara a cidade de Aladá e possuíam um grande rival no tráfico de escravizados que era o reino de Oió, sendo estes fatos explicativos também para entendermos a recente presença dos jejes e do que chamam iorubas em terras brasileiras, sendo o maior número de descendentes de africanos no Brasil oriundos das regiões do Congo e Angola. Os chamados jejes e iorubas foram escravizados após a derrota dos seus reinos pelos antigos corruptores e aliados de tráfico: os caucasianos.
O que nos chama a atenção é a formação de um corpo militar de mulheres daomeanas que eram selecionadas na mais tenra idade e treinadas para a guerra, servindo como uma tropa de elite e guarda pessoal do rei, sendo uma das mais conhecidas a poderosa líder Seh-Dong-Hong-Beh que significa : "Deus fala a verdade". Liderou o exército de 6.000 mulheres contra os guerreiros Egba da fortaleza de Abeokuta.

Seh-Dong-Hong-Beh, desenhada por Frederick Forbes, 1851

O treinamento dessas guerreiras era árduo, tornando-as preparadas a extinguir o medo, aptas a enfrentar a dor, não temendo a morte e sendo extremamente leais . Viviam proibidas de contrair matrimônio, exceto daquelas designadas para serem esposas do rei, usavam contraceptivos a base de ervas.
Manejavam diversas armas, especialmente espadas, cutelos e fuzis, e conforme alguns historiadores a prova principal para ser aceita como membro do corpo de elite era a decapitação de um homem e beber o seu sangue.
Quando ocorreu o ataque das tropas senegalesas e francesas objetivando a destruição do reino de Daomé, as guerreiras foram as mais preparadas para a defesa do povo daomeano. Em 18 de agosto de 1892 tropas do Coronel Dodd sobem o curso do rio Oumé para atacar o rei Gbehanzìn e sem esperar são atacados ao amanhacer do dia 19 pelas valorosas guerreiras daomenas, as quais confundem os invasores, pela valentia e intrepidez na arte da guerra, enfrentando fuzis, baionetas e canhões e lutando bravamente corpo a corpo.
Há relatos históricos que muitas dessas guerreiras cortaram um dos seios e jogaram nos rostos dos adversários, demonstrando a garra e destemor, mas, nada disso impediu a derrota do exército daomeno em frente a superioridade armamentista do Império Colonial Francês, o qual deportou o rei Gbehanzìn para a Martinica e anexou o reino de Daomé.

Lista dos Reis do Daomé:
Ganiehéssu ~1620
Dako-Donu 1620-1645
Hwegbajà 1645-1685
Akabá 1685-1708
Agadjá 1708-1732
Tegbessu 1732-1774
Kpenglá 1774-1789
Agonglô 1789-1797
Adandozan 1797-1818
Guezô 1818-1858
Glelê 1858-1889
Gbehanzìn 1889-1894
Agoli-Agbô 1894-1900
Por causa dos enfrentamentos das guerreiras e guerreiros africanos que resistiram bravamente ao invasor e colonizador europeu torno-se freqüente á exposição de pessoas como animais em diversas capitais européias e nos Estados Unidos, nos chamados ZOO HUMANS, em plena demonstração de ódio e inveja dos caucasianos aos grandes feitos dos primeiros habitantes do planeta: povos africanos.
Clique aqui e Leia mais sobre o ZOO HUMANS

Na foto acima, os africanos estão com penas, para se parecerem com animais.
Não se contentaram em somente invadir, seqüestrar, escravizar, colonizar e apropriar das riquezas africanas, mas, através de exposições tentaram levar ao ridículo os povos originais abençoados com a melanina. O nosso povo resiste e resistirá segundo os desígnios do seu Criador conhecidos por diversos nomes em diversas culturas

Que a Paz de Javé, Olorum, Nzambi estejam com todos nós amantes da Justiça!

5 comentários:

farao disse...

E... Nossa maior missão vai ser agora e libertar os outros negros que ainda estão a merce da escravidão mental .gente pra nos negro a historia deveria ser a coisa mais importante dada em escolas ,por que so assim vamos liberta os outros quando nos verem libertos.Parebem a todos voçes ai , e vou ficar torcendo que nossa luta nunca cesce ,e que nosso trabalho seja sempre do bem! valeu!

Anônimo disse...

"segundo historiadores" (...) decaptavam a cabeça e um homem. Que historiadores? Qual historiador fez o desenho? Parece um adversário que pinta o inimigo mais pelo medo que pela bravura. "Arrancar o seio" sempre foi o atributo de uma amazona. Nisto, tb se insinua um imaginário eurocentrado pintando o inimigo com as cores que lhe convem.

Anônimo disse...

A isto no século XIX chamavam JINGOISMO. Espero que tenhas noção que misturados com factos historicos colocaste muita fantasia. Devo tambem relembrar-te que o BRANCO trouxe apenas a novidade do comércio de escravos ultramarino, porque escravatura já existia em África muito antes da chegada destes. Mais te lembro também que sempre foram os negros a controlar este mesmo tráfico.

Anônimo disse...

Belíssimo artigo, um pouco chegado a fantasias (arrancavam o seio e jogavam nos inimigos?) mas mesmo assim muito bom. Vale lembrar que apesar dos povos africanos praticarem entre eles a escravidão foi o europeu que transformou o modelo escravista em puro racismo odioso onde o branco era o senhor e o negro, irreversivelmente, o escravo , na africa a etnia não definia se você era escravo ou não.
Alem do mais o escravo sempre existiu em diferentes roupagens e em diferentes culturas (Roma, Egito, Mesopotâmia, e até mesmo entre os judeus e cristãos) e não era baseado em "raça"! É claro que todo tipo de escravidão é odiosa e desumana mas o racismo (que não foi "inventado" pelos europeus mas sim propagado por eles, principalmente como herança do Império Romano) é bem pior e deixa marcas mais profundas.
Por fim queria parabenizar por tentar mostrar um pouco mais sobre esse tipo de cultura, aquela que infelizmente não nos é passada nas escolas. Até mesmos os brancos (como eu) já estão cansados de só ouvir um lado da historia e só estudar Europa, Brasil, Europa, Brasil e Europa de novo.

Anônimo disse...

É muito bom ver a história da áfrica sendo estudada e discutida.

Gostaria apenas de lembrar que o reino do Daomé foi um grande agente escravagista e que tinha plena autonomia. Torna-se vítima posteriormente como consequencia da sua política escravagista.

É um longo assunto...

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