sábado, 5 de abril de 2008

A LAVAGEM DO BONFIM E A CANTATA DE NATAL

Por Vera Nathália, Mestra em História pela Universidade Federal da Bahia
Hoje Salvador se veste de branco. É dia de subir a ladeira da Colina Sagrada e tomar banho de água de cheiro. É dia da Lavagem do Bonfim. Observando as imagens que mostravam fiéis das mais diferentes origens, cores e idades percorrendo os 8 quilômetros entre a igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia e a Igreja do Bonfim, comentei com um irmão sobre o esvaziamento das festas populares na Bahia. Para quem não sabe, entre os dias 8 de dezembro e o final do carnaval, Salvador se sacode ao longo de diversas manifestações populares, muitas em homenagens a santos católicos com, é claro, a mistura com a religiosidade afro-brasileira típica dessa cidade. Nos últimos anos, temos percebido um certo esvaziamento da maioria dessas festas, até por conta do desenvolvimento da cidade que não mais comporta tantos feriados e festividades numa rotina voltada para as atividades empresariais. É preciso fazer dinheiro na terra dos orixás.
Pois bem, comentei que é provável que daqui há alguns anos, talvez uma década, a Lavagem do Bonfim talvez seja a única a sobreviver. Bem, talvez não a única já que a festa de Yemanjá no dia 02 de fevereiro também é muito popular, mas acredito que a festa que pára parte da Cidade Baixa na terceira quinta-feira de janeiro é a mais provável candidata a continuar por muito tempo no calendário das festas populares de Salvador, cada vez mais minguado. Em resposta ouvi de meu irmão pentecostal: “Tomara que acabe.” Traduzindo: à medida que as pessoas se tornarem cristãs evangélicas (e uso a palavra já tão desgastada para designar os cristãos em geral), festas desses tipo deixarão de existir.
Fiquei pensando no que ele disse enquanto continuava assistindo às imagens da festa e fui fazer minha salada. Enquanto cortava o tomate, comecei a refletir sobre o significado do que ele havia dito e me lembrei de uma cantata de Natal que assisti numa igreja batista ao final de 2007. Muito bem ensaiada, a cantata era formada por pessoas de idades variadas, todas vestida elegantemente de preto, bem penteadas, que se colocaram organizadamente em frente à congregação. A música não era ao vivo, mas um playback sobre o qual as vozes se elevavam. Bem afinadas, com um narrador de voz grave a pontuar a narrativa, a cantata falava de Jesus e seu nascimento.
Uma pergunta não parava de rodar na minha cabeça enquanto eu picava o coentro, uma pergunta aliás que rondou na minha cabeça inclusive na hora de cantata: cadê meu Brasil na igreja evangélica? Cadê a alegria, o calor humano e a simpatia da minha Bahia na hora de cantarmos a Cristo? Cadê a musicalidade da minha origem étnica no louvor ao meu Senhor? Por que essa musicalidade norte-americana, essas histórias de “Jim” e “Betty” e esse povo todo de preto em pleno verão baiano? Por que tanta formalidade importada de anglo-saxões de sangue gelado numa igreja de gente que vive num mundo onde, com todas as dificuldades possíveis, nós ainda conversamos com nossos vizinhos, com o estranho no ônibus, com a faxineira do shopping. É, a Bahia ainda é assim. A Bahia é a Lavagem do Bonfim. É gente que gosta de louvar a Deus rindo, dançando, com suas roupas imaculadamente brancas, seus cabelos trançados, rastafáris, de teterê, seus batuques e suas danças, gente branca, preta, misturada de todos os matizes de pele, gente que tem PhD, gente que mal sabe escrever, gente que vai de Mitsubishi, gente que vai com o dinheirinho contado.
Tem coisa melhor do que saber que somos Filhos do Deus altíssimo? Que Ele nos ama incondicionalmente? Ou Deus só quer quem está no padrão? Claro, tem um padrão, mas espiritual. E as manifestações da fé? Broadway sim, Pelourinho não?
Jesus dançava? Eu gosto de ficar pensando em certas coisas a respeito de Cristo para as qual sei que não terei resposta, mas que não consigo deixar de pensar. Imaginem: Palestina, mistura de culturas, latinos, árabes, judeus. Muita cor, temperos, muito sol. Será que Jesus nunca se balançou ao som dos ritmos que ecoavam pelas ruas? Será que Ele nunca parou para ver e ouvir aqueles grupos que tocam nas ruas espontaneamente? Nem quando era menino e sumia de casa para brincar nas ruas? Eu espero que sim.
Eu não nasci na América. Eu nasci na Bahia, Brasil. Eu quero uma igreja que me dê a liberdade de saudar a Cristo com a alegria que eu aprendi na minha cultura e com minha gente. Que coisa mais linda é a Lavagem do Bonfim com sua espiritualidade viva, alegre e feliz. Que possamos ver essa mesma alegria direcionada a Cristo, que nossos queridos irmãos e irmãs que hoje subiram a colina não precisem abdicar de sua espontaneidade quando se entregarem a Jesus. Jesus é alegria, felicidade e certeza de um amor imenso. Que Cristo esteja cada vez mais presente nessa terra de tantas crenças e que Ele aceite nossa adoração e louvor assim como somos, do jeito que ele nos fez. Que a igreja na qual meu cabelo trançado não incomode, que meu balançar na hora do louvor não seja proibido, que os hinos que eu cantar sejam de gente que ama e conhece essa terra, que fala do que nós somos, sentimos e que nos levem a adorar a Deus com a riqueza cultural dessa minha Bahia tão querida.

2 comentários:

Anônimo disse...

bcoite ba. oiá vera li teu comentario e gostei muito, é verdade o povo baiano é um povo alegre por ter herdado dos seus antepassados essa eoforia, mas infelismente quando se converte numas das igrejas, ele é adivertido para nao ser levado pelas emoçoes por causa da carne, então deixa as pessoas de certa forma mutiladas,(sem liberdade)sem expreção, tem q ser tudo arrumadinho para não causar esclando,tó falando com conhecimento porque passei por isso.Hoje vivo diferente faso parte de um movimento negro e conheci um pouco de historia sobre nossos antepasdos e perçebir que tem muitas coisas q o povo preçiza saber no meio cristão Parabens um abraço q JAH os abençoi.

Wallace disse...

Acho que é uma fase!!!!
O Despertar da Africanidade está
acontecendo cada vez mais!!!!
E por mais que os preconceitos brasileiros ainda existem,o povo não está mais ignorante como antes!!!
Abraços!!!

PRETAS POESIAS

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