sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

É NECESSÁRIO RESPEITAR NOSSAS MEMÓRIAS - QUILOMBOS E CRISTÃOS-NOVOS NO BRASIL NUNCA FORAM ALIADOS.




Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: kefingfoluke@hotmail.com


Li essa semana em diversas listas do Movimento Negro um artigo de Jane Bichmacher de Glasman, escritora e doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica da USP, o qual inicial com a seguinte frase:
"Consciência negra não é só Zumbi dos Palmares. Há muitas estórias para serem contadas. No mês da Consciência Negra, não vamos deixar de lado as boas histórias também. Você sabia que há judeus negros? Na África há dois povos muito antigos que só recentemente foram reconhecidos como judeus: os Falashas e os Lembas."

"Zumbi dos Palmares abriu o quilombo não apenas aos negros foragidos da escravidão, mas também aos judeus que estavam fugindo da inquisição"

"Com a chegada de numerosos judeus fugidos da inquisição, a população abriu-se aos brancos e estes últimos muito inspiraram a sua organização económica e política a partir de então."
E termina o artigo:
"Quando homenageamos no dia 20 de novembro a Consciência Negra, é preciso relembrar os horrores e a suprema vergonha do passado escravagista, da mesma forma que devemos relembrar os horrores do Holocausto dos judeus e outras minorias da II Guerra Mundial."

Leia todo o artigo:

http://comunidadeshemaisrael.blogspot.com/2006/11/os-negros-e-os-judeus.html
Houve alguns questionamentos e algumas sugestões de que esse assunto estivesse presente em todos os seminários do Movimento Negro e que fosse um tema sempre ventilado, trazendo-me uma forte preocupação porque nem tudo que reluz é ouro e venho compartilhar com os irmãos e irmãs pretas considerações sobre os cristãos-novos e a escravidão e a situação dos Falashas em Israel.
Em primeiro momento, foi o holocausto um crime horrível praticado pelos nazistas o qual como todos sabem levou seis milhões de seres humanos a morte, e genocídio não se esquece, tem sempre que ser lembrado de geração em geração para que não mais ocorra.
Não podemos esquecer o maior genocídio da história mundial realizado na África com quase 200 milhões de assassinatos e mais de 30 milhões de escravizados. Nós ainda não aprendemos a chorar os nossos mortos; porque dizem que devemos esquecer a escravidão e seus assassinatos. Nessa parte os judeus têm muito a ensinar e ninguém de sã consciência dirá a comunidade judaica mundial para esquecer o holocausto, porque será considerada inimiga do povo de Israel.
Falando em holocausto está havendo uma grande polêmica no carnaval do Rio de Janeiro, porque a Escola de Samba Viradouro que tem o tema ARREPIOS queria levar para a avenida uma alegoria sobre o holocausto, e teve de recuar por causa do plantão judiciário do Tribunal de Justiça do Rio o qual concedeu uma liminar, a pedido da Federação Israelita do Rio, proibindo a escola de samba de levar à Marquês de Sapucaí o carro alegórico que representa o Holocausto. Segundo decisão da juíza de plantão até a manhã de hoje, se o carro for exibido na avenida, a Viradouro terá de pagar multa de R$ 200 mil.
Leia mais:
http://www.estadao.com.br/cidades/not_cid118135,0.htm
Muito importante os israelitas preservarem a memória dos seus ancestrais vítimas da bárbarie do nazismo na segunda guerra mundial. Um exemplo que deveria ser seguido pela população preta brasileira que a todo o momento tem a sua história romantizada e seus ancestrais vítimas do maior genocídio mundial.


Operário prepara carro alegórico da escola de samba Viradouro representando o Holocausto, nesta segunda-feira, na Cidade do Samba, no Rio de Janeiro. Photo by Sergio Moraes. http://br.reuters.com/article/entertainmentNews/idBRN2848317620080128?pageNumber=2&virtualBrandChannel=0
E os protestos surgiram em uma comunidade do Orkut contra a decisão na justiça:
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=75760&tid=2580784584753995588&start=1
A Dra. Jane Bichmacher de Glasman, deixou de explicar as riquezas adquiridas pelos cristãos-novos nas Américas com o tráfico de escravizados africanos e exploração da mão-de-obra-escravizada nas fazendas açucareiras, na mineração, com os escravizados-de-ganho nas cidades coloniais e imperiais do Brasil escravocrata. Em hipótese nenhuma estou negando as perseguições inquisitoriais aos marranos em terras brasileiras, mas, estou afirmando que muitos deles conseguiram se adaptar como cristãos-novos ao modo de produção escravista colonial e dele tirarem proveitos econômicos astronômicos. Não podemos concordar com romantismos históricos simplesmente, é necessária uma análise acurada quando se tratam da história diásporica e escravagista a qual os nossos ancestrais foram submetidos.
Uma das provas incontestes que ainda se mantêm no Brasil da escravização realizada pelos cristãos-novos aos nossos ancestrais são os sobrenomes que se mantêm até hoje dentro da comunidade preta brasileira. Impostos pelos judeus aos seus escravizados pretos, e eu sou uma prova inconteste, tenho o sobrenome Oliveira, significando que um dos meus ancestrais foi escravizado de cristãos-novos, tema esse que trabalhei detalhadamente no próximo livro que lançarei em fevereiro deste ano intitulado Afro-Reflexões.
Insinuar uma coligação de escravizados pretos e cristãos-novos em formação de quilombos é deveras preocupante carecendo de dados históricos e tenta apagar a união dos cristãos-novos com as forças coloniais na opressão da população preta nas Américas.
A história não se escreve com achismos e muito menos com acomodações e junções objetivando inserir no fato ocorrido acomodações políticas. Os Judeus sefardistas, conhecidos como marranos, traficaram e escravizaram pretos, de oprimidos se tornaram opressores, e devemos ter cuidados com essas informações sobre a resistência de nossos ancestrais. É necessário exigirmos respeito a nossa memória.
Em HOLOCAUSTO NEGRO: CITAÇÕES

Escravidão Negra, o Rabino Marc Lee Raphael escreve:
"Judeus também tiveram uma ativa participação no tráfico colonial holandês de escravos; realmente, os estatutos das congregações do Recife e Maurício (1648) incluíam um imposta (taxa judia) de cinco soldos por cada escravo negro que um judeu brasileiro comprasse da Companhia das Índias Ocidentais. Leilões de escravos eram adiados se eles caíam num feriado judaico. Em Curaçao, no século dezessete, como também nas colônias britânicas de Barbados e Jamaica, no século dezoito, mercadores judeus desempenharam um papel destacado no comércio de escravo. De fato, em todas as colônias americanas, seja francesa (Martinica), britânica ou holandesa, mercadores judeus freqüentemente dominavam. "Isto não foi menos verdadeiro no continente norte-americano, onde durante o século dezoito judeus participaram do 'comércio triangular' que trazia escravos da África para as Índias Ocidentais e lá os trocava por melaço, que por sua vez era levado para a Nova Inglaterra e convertido em rum para vender na África. Isaac da Costa, de Charleston, nos anos de 1750, David Franks, de Philadelphia, nos anos de 1760, e Aaron Lopez, de Newport, nos finais dos anos de 1760 e início dos de 1770 dominaram o comércio judeu de escravos no continente americano."

Leia mais sobre a declaração do Rabino Raphael Ira Rosenwaike :
"Em Charleston, Richmond e Savannah a maioria (acima de três-quartos) das famílias judias tinham um ou mais escravos; em Baltimore, apenas uma em cada três famílias era dona de escravo; em Nova Iorque, uma em cada oito... Entre famílias donas de escravos o número médio de escravos variava de cinco em Savannah a um em Nova Iorque." ""The Jewish Population in 1820," in Abraham J. Karp, ed., The Jewish Experience in America: Selected Studies from the Publications of the American Jewish Historical Society (Waltham, Massachusetts, 1969, 3 volumes), volume 2, pp. 2, 17, 19. Cecil Roth "Os judeus de Joden Savanne (Suriname) foram também os primeiros na supressão das sucessivas revoltas negras, de 1690 a 1722: estas eram na verdade amplamente dirigidas contra eles, uma vez que eram os maiores donos de escravo da região." History of the Marranos (Philadelphia: Jewish Publication Society of America, 1932), p. 292. Jacob Rader Marcus.
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/01/301745.shtml
Sobre os cristãos-novos em Recife escreveu Ana Beatriz Magno:
"Da população civil, 1.492 moradores eram judeus, atraídos da Holanda para o Brasil pela idéia de fazer daqui filial da terra prometida. A maioria dos israelitas era de origem ibérica e correu para os países baixos durante a Inquisição.
Logo enriqueceram no Brasil e aqui brigaram pela permanência de Nassau quando, em 1644, a Holanda ordenou o retorno do conde. Dois dos mais famosos israelitas, David Coronel e Duarte Saraiva, lotearam uma rua só para seus irmãos de fé, chamados de. gente da nação.. Era a rua dos judeus, hoje do Bom Jesus, preservada no centro do agora restaurado Recife antigo.
Ali, num prédio de dois andares, fundaram a primeira sinagoga das Américas e trouxeram da Holanda Aboab da Fonseca para ser o primeiro rabino do continente. Aqui escreveu a primeira oração judaica em terras brasileiras."
http://www2.correioweb.com.br/hotsites/500anos/recifeholandes/recifehol1.htm

"Gradualmente porém, com a transferência do capital da Europa para as Américas, cristãos-novos e Judeus abertamente a professar a própria religião — estes últimos sobretudo nas Caraíbas, no Suriname e, ora sim ora não na Guiana Francesa e na Guiana Britânica — conseguiram acumular riquezas e a estabelecer-se no seio da população, contribuindo à prosperidade da colónia. Isto implicava sobretudo ser proprietários terreiros, ser donos de plantações e, óbvia e tristemente, ser donos de escravos africanos. Infelizmente, então, de opresso o Povo de Israel nas Américas, uma vez ambientado, tornou-se opressor. Nisso não havia nenhuma diferença entre eles e as suas contrapartidas de fé católica a residirem nas Américas. Foi sobretudo por esta razão, pelo facto de os Judeus/cristãos-novos terem um interesse económico na prosperidade do Brasil que as autoridades coloniais, mesmo se com uma certa relutância, lhes deram cargos administrativos. A Metrópole sabia que iam defender os seus interesses económicos."
Leia mais: http://www.triplov.com/cictsul/exodus.html
Leia mais na Visão Judaica on line:
História dos judeus no Brasil - Capitulo VIII
Período Pós-Holandês - Dispersão e Acomodação (1654 – 1700)http://www.visaojudaica.com.br/Principal/Historia/historiadosjudeusnobrasil/8.htm
Na questão das populações pretas em Israel também se torna preocupante a adaptação e inserção na soc iedade israelense e diversos casos de racismo ocorrem:
http://www.telegraph.co.uk/news/main.jhtml?xml=/news/2007/08/03/wisrael103.xml

Nascida em uma pequena cabana na Etiópia Oriental, a bela modelo Esti Mamo(foto abaixo) nascida em 1983 foi obrigada a viver em guetos falasha no sul de Israel, enfrentando o racismo por causa da sua origem africana e cor da pele. Hoje é considerada uma das mais belas modelos do mundo.
Leia mais: http://www.ajlmagazine.com/content/032006/estimamo.html

Violenta manifestación «falasha» en contra del racismo interjudaico
Los hebreos negros etíopes acusan al Gobierno y al pueblo israelíes de ejercer contra ellos la segregación racial.
Leia todo o artigo do jornal El Mundo de 29 de janeiro de 1996:
http://www.elmundo.es/papel/hemeroteca/1996/01/29/mundo/80691.html

A autora do artigo foi infeliz na comparação de “outras histórias”, quilombos e cristãos-novos no Brasil nunca foram aliados. Os quilombos de homens e mulheres escravizadas que lutaram pela liberdade e os cristãos-novos de escravizadores que lucraram com a escravidão.

5 comentários:

Ed disse...

OLÁ PESSOAL DO CNNC/BA!!
MUITO BOM ESSE ARTIGO.
SE ESSA SRA. FOSSE BURRA, EU ACHARIA QUE ELA ESTARIA MAU INFORMADA, MAS TRATANDO-SE DE UMA DOUTORA, AO MEU VER É UMA MULHER MAU INTENCIONADA, POIS O MOVIMENTO NEGRO NUNCA METEU O NARIZ NAS QUESTÕES DOS JUDEUS,MAS ELA VEM QUERER PAUTAR A NOSSA LUTA, DIRECIONAR O NOSSO GRITO DE REVOLTA A FAVOR DOS SEUS. MAS NÓS NEGROS NÃO FOMOS INDENIZADOS AO "FINAL" DA ESCRAVIDÃO E SABEMOS QUE MUITOS SENHORES DE ESCRAVOS E MUITOS DELES JUDEUS(COMO MOSTRADO NO ARTIGO), FORAM INDENIZADOS COM O FIM DA ESCRAVIDÃO, POIS PAGAR SALÁRIO AOS TRABALHADORES EUROPEUS, MUITOS DELES SEUS PARENTES, FOI UM "PREJUÍZO" REPARADO PELO GOVERNO BRASILEIRO.
SE EU FOSSE O DIRETOR DA ESCOLA DE SAMBA VIRADOURO, DESRESPEITARIA A DETERMINÇÃO DA JUSTIÇA E EXIBIRIA O CARRO QUE RETRATA O HOLOCAUSTO JUDEU, PARA QUE LEMBREM QUE FORAM OPRIMIDOS UM DIA, PARA NÃO QUERER OPRIMIR OUTROS POVOS NO BRASIL E NO MUNDO, INCLUSIVE NA TERRA SANTA.
ED (FACÇÃO X) - MNU/SP - GT MARCUS GARVEY.

André Ruas de Aguiar disse...

O Irmão esta coberto de razão ao afirmar que devemos respeitar a história de todos os povos e suas lutas por sobrevivência ao longo da história da humanidade. Mas, o mais importante deste "artigo" é que ele trouxe uma reflexão que jamais deve ser apagada de nossas mentes: a luta de nossos ancestrais, ainda em África, contra a escravidão e como àqueles que mesmo sendo oprimidos, colaboraram com o que ainda hoje, negros e negras do mundo, sofrem.
Como compor alianças com povos que ainda se recusam a aceitar a sua condição de opressores? Como respeitar as dores de um povo que fez, e ainda faz outros povos sofrerem, vide os Palestinos?
Respeito a história judaica e comungo, criticamente, de algumas de suas lutas, mas não consigo aceitar que eles são os "coitados" do mundo e que estão passivos nele.
A nossa luta contra toda espécie de Racismo e pelo resgate de nossa história, a negra, hoje mais do que nunca, está ligada a luta pela paz no mundo e contra qualquer forma de opressão.
Um grande abraço.

André Ruas - Florianópolis/SC

André Ruas de Aguiar disse...

O Irmão esta coberto de razão ao afirmar que devemos respeitar a história de todos os povos e suas lutas por sobrevivência ao longo da história da humanidade. Mas, o mais importante deste "artigo" é que ele trouxe uma reflexão que jamais deve ser apagada de nossas mentes: a luta de nossos ancestrais, ainda em África, contra a escravidão e como àqueles que mesmo sendo oprimidos, colaboraram com o que ainda hoje, negros e negras do mundo, sofrem.
Como compor alianças com estes que ainda se recusam a aceitar a condição de opressores? Como respeitar as dores de um povo que fez, e ainda faz outros povos sofrer, vide os Palestinos?
Respeito a história judaica e comungo, criticamente, com algumas de suas lutas, mas não consigo aceitar que eles sejam os "coitados" do mundo como querem nos vender.
A nossa luta contra toda espécie de racismo e pelo resgate de nossa história, a negra, penso hoje mais do que nunca, está ligada a luta pela Paz no mundo e contra qualquer forma de opressão.
Um grande abraço.

André Ruas - Florianópolis/SC

Deolindo disse...

É curioso como alguns reclamam dos outros construírem a história a partir de "achismos", mas se esquecem completamente da parte da história que não lhes interessa. Seccionar o país em racas e achar que os pretos foram coitadinhos é absurdo e exige uma formidável dose de MÁ-FÉ para que tal tese seja aceita. Só não sabe quem não quer que na própria África existia escravidão, e eram negros escravizando outros negros. Aqui no Brasil, mulatos e pretos, uma vez libertos, freqüentemente tornavam-se senhores de escravos.

Ademais, é só olhar no fantástico dicionário Houaiss para saber que a palavra "escravo" se origina de "eslavo". E quais são os povos eslavos? São os russos, poloneses, tchecos etc. Povos brancos que foram, por outros povos, escravizados. Escravidão não teve cor, e negar isso só POR ABSOLUTA IGNORÂNCIA (que se corrige com estudo) ou por ABSOLUTA INTENÇÃO DOLOSA (PERFÍDIA).

Somos TODOS, hoje em dia, descendente de culpados e, simultaneamente, de inocentes, nesse negócio horripiliante da escravidão. Não é aceitável sequer a idéia de reparação.

Anônimo disse...

fale lembrar tambem que os núbios foram tambem faraós e foram eles os que mais fizeram obras no egito usando mão escrava para isso

realmente não tem ninguem santo nesta terra não é mesmo? existe muito esperto

PRETAS POESIAS

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Poemas de amor ao povo preto: https://www.facebook.com/PretasPoesias