quinta-feira, 27 de setembro de 2007

O DIREITO DA FALA: CNNC/BA E CONNEB/BA


Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente do CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos.
Pseudônimo: Kefing Foluke.

Recebi um e-mail o qual me deixou bastante apreensivo sobre os rumos que toma o CONNEB/Bahia - Congresso de Negras e Negros do Brasil/BA - na questão da religiosidade do Povo Preto, bem diferente da decisão em Belo Horizonte, sendo assim, peço-vos que reflitam em algumas questões sobre a PLENÁRIA ESTADUAL DO CONGRESSO NACIONAL DE NEGRAS E NEGROS DO BRASIL que ocorrerá no dia 29 de setembro de 2007 (sabado), as 09h, no auditório da Faculdade Visconde de Cairu - Barris - Salvador/Ba., e um dos temas será: Religiosidade do Povo Negro.
Primeiramente parabenizo a escolha do nome de Valdina, uma irmã que conheço há 25 anos e tive o prazer em dezenas de vezes de conversar sobre diversos assuntos, e a tenho em alta consideração pela dedicação e militância em prol dos africanos na diáspora e especialmente pela defesa intransigente do povo banto no Brasil e seu verdadeiro reconhecimento, ainda velado pela crescente iorobofolia criada pela academia branca.
No que tange a minha participação a qual soube por e-mail e está para ser aprovada ou não em plenária em uma disputa com a irmã Elenira do Terreiro do Bogum, a qual será realizada hoje (27/09/07) por voto, não precisará ser realizada, eu não participarei e não permito que em nenhum momento o meu nome entre em disputa pelo direito da fala como representante de uma religião protestante. O direito da fala deve ser natural para os representantes pretos protestantes, então não haverá disputa até que sejam repensados os critérios adotados. Não irei à reunião de sábado.
Na história do candomblé da Bahia com a entrada do branco e suas influências acadêmicas a solidariedade entre as nações ficou abalada, denomino: maldade branca de divisão, de falta de respeito entre as diversas tradições africanas. O pouco que sei, acredito que nada sei sobre candomblé, e o pouco que aprendi com o meu pai e minha mãe, com os meus tios e tias, sendo eu descendente direto de sacerdotes e sacerdotisas, foram de respeito entre diversas pessoas no auge da repressão as casas de culto e na troca de experiências, exercícios de solidariedade quilombolas hoje esquecidos.
Entendo que os ensinamentos anti-solidários brancos estejam na prática inconsciente dos nossos atos, e é necessária a depuração desses atos não solidários. Não compreendo que a caminhada panafricanista não seja exercida, por isso citei o nome de algumas pessoas que sempre respeitaram a minha opção religiosa e aprendo nas trocas de experiências caminhos de respeito e solidariedade. Assim foi a minha vivência com Maria Beatriz do Nascimento e Lélia Gonzalez, mulheres quilombolas que dedicaram preciosos momentos de solidariedade e ensinamentos a um jovem protestante preto.
Um dos significados para o nome jeje na África é forasteiro, e a representação jeje também conforme desejo da plenária em Salvador passará por votação, e inclusive com uma representante dos terreiros mais tradicionais do Brasil: o Bogum, de qual conheci a falecida Doné Nicinha através de Valdina, e o Bogum nos deu tantos nomes importantes, como o falecido jornalista, advogado e poeta Jeová de Carvalho, que estudou no Colégio 02 de julho em Salvador-Bahia, e foi de origem presbiteriana, e tem em seus quadros só para citar: o Gilberto Leal, meu conhecido também de mais de 20 anos de militância. Não entendo que o povo jeje seja colocado também em votação para ter direito a fala. Pode até ser que os chamados "dinossauros" (adjetivo usado para antigos militantes do Movimento Negro), não saibam nada. Lembro-me dos conselheiros de Roboão, que execrou os “dinossauros” conselheiros do seu pai Salomão. I Reis 12:1-14.
Os meus respeitos ao povo Jeje com a irmã Elenira. Os meus respeitos ao povo Angola-Congo com a irmã Valdina e os meus respeito ao povo de Ketu com a irmã Lindinalva Barbosa. Os meus respeitos a todos os africanos na diáspora independente da religião que pratiquem, conforme sempre escrevo: não posso negar o meu irmão (a) porque professa uma fé diferente de mim e está oprimido pelo sistema branco em qualquer religião nesse país. Ele é uma vítima do racismo branco e como preto é tratado, seja protestante, católico, espírita, budista, muçulmano, de umbanda ou de candomblé.
O CONNEB a nível nacional tem como proposta reunir o povo preto no Brasil e que grande responsabilidade e desafio. Aí vem uma pergunta onde está o povo preto? Quais as religiões que praticam? Onde vivem? E por ai vai... Se desejarmos convidar o povo preto para criarmos um projeto político para esse país tem que ter representatividade, apesar de que não seja aquela dos meus sonhos, porque a dos meus sonhos pode não ser a representatividade real da qual desejo. Eu não posso criar uma falsa realidade e isso estou falando no sentido religioso especificamente. Não há como ignorar que no Brasil temos 15 milhões de pretas e pretos professando as diversas vertentes do protestantismo, e temos por alto uns 70 milhões de pretos e pretas que praticam o catolicismo romano. Não posso ficar sonhando em reuniões e quando saio das salas e dos debates acalorados chego em casa, encontro irmãos e irmãs de sangue, pais, tios, tias, primos e primas, companheiros e companheiras que não adotam o meu pensar religioso. Acredito que é necessária uma reflexão mais aprofundada sobre as religiões que estão praticando o povo preto no Brasil, e como questioná-las e inserir os seus membros nas lutas de verdadeira emancipação do nosso povo em uma rede solidaria panafricanista. Ou o CONNEB pretende através dos seus atos afirmar que a religião do preto no Brasil deve ser o candomblé? Pode até fazer politicamente e perderá a oportunidade de ouvir o povo preto brasileiro em sua diversidade religiosa.
Interessante é que alguns membros do CONNEB /BAHIA insistem em negar a voz aos protestantes pretos, mas, ainda não vi nenhuma organização religiosa que se negue a entregar projetos a organismos cristãos, como a CESE- COORDENADORIA ECUMÊNICA DE SERVIÇOS que é formada pela Igreja Católica e cinco igrejas evangélicas. Entendo que esses organismos nada fazem demais porque devem muito ao nosso povo independente de qualquer religião. Mas, será que o CNNC será bem recebido se for pedir apoio financeiro a qualquer organização de candomblé? Se a prática de algumas pessoas que se dizem porta-vozes dos terreiros é não a solidariedade e união. Não acredito que sejam os verdadeiros porta-vozes da religião praticadas pelos meus ancestrais.
O CNNC é a única organização cristã protestante preta que tem coragem de denunciar o racismo nas igrejas protestantes no Brasil e não aceita que os brancos dessas igrejas nos representem, isso deve ser levado em conta e respeitado.
Algumas sacerdotisas ainda rezam missas em seus terreiros e levam as iniciadas para a igreja católica para serem abençoadas por padres brancos, mantendo a tradição herdada do tempo da escravidão, não acredito que esta seja uma prática herdada do continente africano. Os padres brancos e seus rituais são ouvidos. Apesar de discordar dessa prática tenho todo o respeito e sempre que posso ouvir essas rainhas africanas assim o faço e o farei. Mas, conforme o desejo de algumas pessoas, os protestantes pretos devem ficar calados quando levantam as suas vozes para denunciar que as igrejas usurpadoras do Cristianismo de matriz africana os oprimem e alienam milhões de pretas e pretos nesse país, e acredito que temos que buscar apoio na irmandade preta na diáspora porque entendem e combatem o racismo.
Um debate onde somente as nações de candomblé falem não representa os cristãos protestantes pretos , acredito que também não representa os muçulmanos e nem os católicos pretos.
Como Presidente Nacional do CNNC recomendo que só participemos de debates sobre religiosidade se for de cunho panafricanista, onde todos os pretos tenham direito de fala. Temos que ouvir os protestantes, católicos, muçulmanos, umbandistas, candomblecistas e questionar que essas religiões estão propondo na luta libertária do nosso povo, no sentido prático de elaborações de propostas reais de ajuda mutua e caminhada de libertação, não sendo assim, o CONNEB não terá representatividade da maioria do povo preto neste país. O CONNEB não é uma instituição religiosa que defende uma ou aquela religião. O CONNEB acredito quer a representação dos diversos falares religiosos pretos brasileiros, se assim não o for, recomendo que o CNNC não faça mais parte da Executiva do CONNEB , deixando livremente aos seus membros a participação na construção do Congresso, se assim o desejarem.
O homem branco tentou nos calar e não permitiremos que irmãos e irmãs pretas que dizem “representar” os sábios sacerdotes e sábias sacerdotisas nos amordacem. Aprenderemos a andar como um só povo ou continuaremos dominados. Basta a Intolerância religiosa seja de quem quer que seja.

3 comentários:

SELMA BARRETO disse...

A QUEM INTERESSA A DIVISÃO DO NOSSO POVO PRETO?

No início deste congresso apesar das "vozes" que insitiam a todo o momento em desacreditar do mesmo , partimos para Minas Gerais para iniciar um processo que sabíamos que seria difícil ,mas que no final nos sentimos vitoriosos ao conseguir junto com irmãos de vários Estados brasileiros construir uma moção que foi aprovada em plenária, o direito a fala não apenas de evangélicos mas de todos os negros e negras do Brasil por entender a diversidade que nos encontramos e a pluralidade existentes em nossas famílias.

Em momento algum desrespeitamos a nenhuma organização, entidade ou indíviduo, apenas.
Começamos a desconstruir o mito dos evangélicos que não se posicionavam mostrando o trabalho de Cristãos que direta ou indiretamente colaborou na formação e crescimento do movimento negro brasileiro e continua colaborando com as suas reflexões e atitudes.

Os muros começaram a ser derrubados e finalmente passamos a ser percebidos e respeitados com as nossas peculiaridades, como um agente de transformação da realidade que em pleno século XXI nos encontramos, apesar das conquistas anteriores. O sonho de um projeto político começava a se formatar.
Quando sugeri o nome do Prof Walter Passos para a plenária estadual foi com o objetivo que as organizações,entidades e militantes independentes tivessem acesso a um panorama da nossa diáspora forçada .Como a oralidade era a forma de nossos antepassados passarem os seus conhecimentos,temo que o livro de cabeçeira de alguns seguimentos hoje seja "O príncipe " o poder acima de tudo e de todos a qalquer custo o que seria uma lástima neste momento.Espero que o parágrafo primeiro do regimento seja respeitado e haja o direito da fala para todas e todos.


Este foi e tem sido o papel do CONSELHO NACIONAL DE NEGRAS E NEGROS CRISTÃOS (CNNC)
Faço das palavras do Prof. Walter as minhas palavras .

Anônimo disse...

Ao meu ver está havendo uma premeditação quanto a alguns aspectos desta discussão. Para tanto algumas perguntas devem ser feitas e se possível respondidas pelos envolvidos na discussão:
1- O CONNEB deve priorizar a discussão sobre as religiôes de matrizes africanas?.
2- Existem vozes no CONNEB tentando silenciar ou dificultar a discussão sobre a religiosidade de matriz africana, com o falso argumento de que se deve discutir todas as religiões?

Devemos entender que a questão central, de fato é o racismo, mas, não se pode atenuar que o componente religioso está sempre presente. E sempre de forma à criar empecilhos para a religiosidade de matriz africana, via um recurso de que "deve-se discutir, dar espaço para todas as vozes, mas quem leva vantagem nisto é justamente aquelas vozes que históricamente tiveram vantagens.

Precisamos de encontrar um meio termo.

Ase

Maurílio Silva

Suzete disse...

Queridos Irmãos e Irmãs do CNNC,
Gostaria de solidarizar com todos vocês mesmos de longe porque não estive diretamente acompanhando o processo do CONNEB, porém desde o início a irmã Selma esteve representando o CNNC respeitando as diversas representações. Penso que a posição de escolher quem vai falar é um atraso porque assim os brancos sempre fizeram com os negros/as neste país, não queremos reproduzir estas estruturas, a fala foi a única maneira de o povo negro não compactuar com as injustiças cometidas com o povo preto, se assim podemos dizer, nunca aceitamos a Intolerância religiosa por parte dos "evangélicos" ou/e "protestante" seja qualquer representação, posso dizer que nasci e cresci dentro do "protestantismo branco brasileiro" e denunciei as opressões e o racismo sutil neste meio. Quero dizer também que sempre trabalhei e trabalho na base para que um dia possamos alcançar a libertação da comunidade negra, acredito que os sábios sacerdotes e sacerdotisas do Candomblé não aceitariam este tipo de coisa, eu tenho a proposta que o CNNC busque um diálogo imediatamente com os representantes do Candomblé e explique para eles o que está acontecendo, trabalhei em Cuba por dois anos com a Santeria cubana e vi o quanto aquela experiência serviu para enriquecer a minha militância religiosa, também aqui no Brasil tenho aprendido com a sabedoria dos terreiros de Candomblé. A atitude de nosso irmão Walter Passos foi correta, enquanto Secretária Executiva do CNNC propõe que façamos uma reunião no domingo a tarde para que todos possam escutar e pensar qual será o melhor caminho, se estamos na proposta do Pan Africanismo entendemos que todos/todas devem ser incluídos no projeto de libertação independente de professar a fé religiosa, foi assim, quando Luter King Jr dizia que tinha um sonho, foi assim quando Malcom X dizia para o mundo que o demônio homem branco não tinha projeto para aquele país, como o jovem Steve Biko dizia que nós estamos por nossa própria conta, sabemos também que muitos destes homens, participaram do Cristianismo de Matriz Africana, então posso dizer que somos um povo numeroso, estamos vivos e não estamos sós nesta luta, o povo preto precisa de amor entre o povo preto!!!!!!!!!
Saudações Pan Africanista!!!!!!!
Suzete Lima/Secretária Executiva do CNNC.

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