terça-feira, 11 de setembro de 2007

NEGRO OU PRETO: COMO SE DECLARAR O AFRICANO NO BRASIL

Por Walter Passos.
Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente do CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke.


Com o avançar da luta contra a discriminação racial no Brasil, grupos se auto-declaram negros ou pretos. Alguns dizem: “preto é cor e negro é raça”. Ninguém diz que é da raça preta. Sabemos que há uma só raça, que é a humana, e ela foi criada por Deus no Jardim do Édem, segundo os criacionistas. Conforme os estudos históricos, hermenêuticos e exegéticos, os homens foram criados da cor da lama preta. Os evolucionistas acreditam que houve uma evolução do ser humano; e os fósseis mais antigos estão na África. Por conseguinte, toda a humanidade surgiu nesta terra abençoada, com bastante melanina, da cor preta.
Os europeus, com as suas línguas, renomearam locais e civilizações. Como exemplo, temos a palavra Mesopotâmia, que na língua grega significa "entre rios" (meso - pótamos). Sabemos que a Grécia começou a formar-se provavelmente entre 2.000 a.C a 1800 a. C . As civilizações que estavam na Mesopotâmia já existiam há milhares de anos e chamavam essa região “terra dos étiopes”.
Não podemos perder o foco da discussão. Essas colocações acima são apenas uma chamada à reflexão sobre a palavra negro e a palavra preto. E já vos deixo estas perguntas:
Qual civilização européia denominou os habitantes da África de negro ou preto?
Como devemos nos auto-declarar, sem um conhecimento da história, etnolingüística e da semântica?
O que está por detrás da palavra negro?
Qual é o seu verdadeiro significado?
Como se auto-declaravam, nos documentos, os antigos egípcios?
O que significa nigger e black na língua inglesa?
Não sendo eu um etnolingüista, este texto é uma provocação para que as pretas e pretos lingüistas emitam opiniões e, assim, trabalhemos para a (des)construção da dominação lingüística que paira sobre o nosso povo. Sendo esse texto bem pessoal, o leitor observa a minha preferência pelo termo preto e não negro. Acredito que todo escrito traz implícita uma dose de parcialidade. Também é fato que todos os pan-africanistas que conheço se auto-declaram africanos no Brasil e pretos na diáspora.
A palavra negro vem do latim niger e nigur, que se originou do grego necro, e significa “morte”. Você pode se lembrar de quantas palavras do radical grego necro temos na língua portuguesa? A palavra necromancia, que significa adivinhação através dos mortos, se aplica como “magia negra”. Sem falar de necrotério. Uau! Só coisa de morte. E aí começam os problemas. Foram os romanos quem usaram esta palavra, que em algumas línguas neolatinas se tornou: nègre – francês, negro – espanhol, negro – português, nero – italiano.
A língua é usada para dominar, manipular, distorcer. A língua é uma das formas mais eficazes de o explorador racista dominar um povo, e a língua portuguesa é oriunda de nações escravizadoras: os gregos e os romanos.
Na África, até a chegada dos europeus, não havia “negros” e “pretos”, mas africanos de múltiplas e variadas tradições culturais. Os africanos, de múltiplas cores, tornaram-se “negros” apenas em relação aos europeus dominadores. Assim escreveram Maestri e Carboni, em A Linguagem escravizada.
É interessante notar que a antropologia européia cria o vocábulo negro para “estudar e classificar” as civilizações invadidas, especialmente da África. A antropologia é uma das mais poderosas armas do europeu para mistificar e manipular as civilizações invadidas e dominadas.
Conforme os escritos do afrocentrista Cheik Anta Diop, os egípcios se consideravam povos da pele “preta como o carvão” e tinham apenas um termo para designar a si mesmos: kmt "os pretos" (literalmente). O adjetivo kmt significa rigorosamente "preto'', ou, pelo menos, “homens pretos”. O termo é um coletivo que descrevia, portanto, o conjunto do povo do Egito faraônico como um povo preto. E eles foram uma das mais antigas civilizações da África e do planeta.
A nossa conversa está ficando muito longa e, como disse anteriormente, estamos começando a discussão.
Ser negro ou ser preto? Ou ser africano na diáspora?
Como você leitor (a) se declara?
Esse espaço está aberto para que possamos denegrir as palavras com um empretecimento do nosso ser.

14 comentários:

CRIA DE CAPOEIRA disse...

bem, antes de comentar quero parabenizar essa iniciativa, pois eu mesmo já me defino negro a algum tempo e não foi facil, o estado onde moro tem uma historia de repressão contra meu povo negro desde sua formação, e aqui quando nos declaramos negro somos tachado pelos negros de uma pessoa que fala de mais, por incrivel que pareça essa compreeção é dificil até para o negro, eu não sei te dizer como me definir hoje, pois sei que sou negro por ter me descoberto negro e por perceber que minhas atitudes são negras, meus amigos são negros minha mãe é negra. se dizer preto é para mim uma postura politica minha e até me defino assim mais acho irmão que isso é tambem uma postura pessoal d negro, e acho que ele tem é que se ver muito para se perceber um ser negro. o problema nisso é que quando nos vemos negros ou pretos isso nos faz ter que tomar atitudes quanto a historia que vieram nos contando.

um abraço irmão valeu pela iniciativa.
denis

Anônimo disse...

Só o fato de nós hoje, mulheres e homens nos declaramos negros e termos uma postura quanto a nossa situação numa sociedade racista, já é um avanço. Mas essa questão do termo NEGRO OU PRETO, já é um estudo dirigido às lideranças do movimento negro q precisam, assim como Walter faz, se dedicar mais a pesquisas.
Cada vez mais, uso o termo preta p me identificar. E para minha satisfação, no meu registro de nascimento, está escrito PRETA p identificar a minha cor.

Anônimo disse...

Esqueci de me identificar no coméntário acima.

Gicélia
Salvador_Ba.

morianihil disse...

Acho muito relevante sua postura,mas com relação a terminologias acho que você faz boas provoações.
Sou cientista social , estudo e sou apaixonado pela questão afro-brasileira.
Concordo com você que a antropologia tevce seu início marcado peloauxílio ao massacre de outras culturas e a africana foi uma delas.
Mas é importante ressaltar que isso mudou faz um bom tempo também.
E ser chamado ou se declarar negro ou preto são questões de posicionamento político,uma vez que nenhuma das duas tem boa conotação,segundo você mesmo e vários outros pesquisadores em nossa cultura brasileira.
Ainda prefiro o termo afro-brasileiro ou afro-racial a qualquer um dos dois por você citado e me declaro assim.
E quanto a seu posicionamento de "denegrir" termos...torná-los ou fazê-los na condiçãod e negro/preto? Prefiro não utilizar essa expressão.
Não somos piores do que ninguém para sermos parametro para reduzir alguém ou algo a nossa conidição.
Marcelo Evaristo .
Uberlândia -MG

soninha disse...

Adoro a oportunidade de junto com meus irmãos e irmãs, refletir sobre questão tão delicada,que a meu ver, se tornaria simples responder se tivéssemos nossa cultura valorizada,. Precisamos nos amar mais,refletir mais e debatermos mais,muito mais. A maioria dos irmãos não sabem sequer o o verdadeiro significado da palavra ou palavrão "negro" acredito que o vocábulo serviu durante anos e anos para denominar um grupo étnico oprimido,sem identidade,precisamos nos livrar dele! (do palavrão)Como elevar a estima de um afrodescendente fazendo crer ser negro?(somos afrobrasileiros!!! a cor de nossa pele preta! Por que não? O branco é branco, porque o preto é negro? Analisemos o significado da palavra "negro" e as suas referências pode nos ajudar:vala negra,situação negra, fome negra...Quem quer estar a alguma destas situações ou ser referência negativa? Podemos compreender que o vocábulo teve seu tempo (durante a escravidão), nos dias de hoje não,a estima de nossos irmãos precisa ser elevada ele precisa acreditar nele conhecer a história do seu povo,heróis e heroínas com quem possam se identificar e tenham orgulho por isso, para que protagonize a sua própria história,precisa acreditar que sua pele preta é linda! Sou brasileira,advogada,professora da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro.

Eveline de Souza disse...

CNNC/BA, enviei um comentário na sexta-feira dia 28/09/2007 usei pseudônimo soninha,mas,logo após o envio, continuei refletindo e concluí que, o que considero uma missão de todos nós homens e mulheres de cor (valorizar nossas origens sem nos deixar violentar) por trás de pseudônimos fica prejudicada,"TEMOS QUE ERRADICAR O PRECONCEITO MOSTRANDO A NOSSA CARA" devo deixar meu nome e e-mail para troca,desta maneira,solicito que seja incluido ao comentário meu nome:Eveline,brasileira,advogada,professora da SME/RJ. e mail:eveline.2006@oi.com.br

Rosa disse...

"de todos nós homens e mulheres de cor" ??????
Não acho o termo adequado.. já que o discussão é a cerca de poscionamentos em relação a comos e auto afirmar .. pessoas de cor é das referências racistas e uma das piores... e sinceramente pessoas de cor não é a melhor opção.. você pode até ter usado o a expressão por osmose.. sem querer.. mas é sempre sem querer que somos hostilizados.. e discriminados ... ninguém nunca tem a intenção e para esgotar d evez este jargão de "boa intenção" o mundo já tá cheio.
Rosa Monffort
bióloga, preta, negra, afrodescendente, afro-racial

Anônimo disse...

"Negro". É como convencionamos nos identificar desde a década de 70. Concordo que muito influenciados pelo movimento Panteras Negras, então o mais forte emblema da nossa insatisfação. Não acho que a questão mereça maior perda de tempo de nossa parte já que outras questões urgem resolver pois a exemplo da década de 60 nos EEUU hoje no Brasil o estado mata diariamente milhares de negros,pretos, escurinhos, mulatinhos sejam eles marginais ou estudantes, mecanicos ou dentistas.
Devo acrescentar que a expressão "negro" deixou de ser identificadora de pessoas "pretas" pois existem nos Movimentos Negros Brasil afora pessoas "negras" que não são necessáriamente "pretas". Eu mesmo conheço algumas pessoas que militam no Movimento e paradoxalmente são mais "negras" do que eu embora sejam menos "pretas"(refiro-me aqui ao grau de miscigenação).Soaria no mínimo estranho chamar uma pessoa de pele clara e cabelos lisos de "preta". Já a auto-definição "negra" é uma opção política que abraça todos aqueles que buscam a inexistente igualdade racial.Conheço exemplo muito singular de uma mulher que a exemplo da Paula Barreto(esposa do ex-jogador Claudio Adão) que casaram-se com homens "pretos" achando que suas vidas não seriam afetadas pela discriminação racial existente no país.Quando seus filhos atingiram a idade escolar e as escolas de classe média começaram a executar contra eles (seus filhos) as suas práticas
racistas essas mulheres se descobriram mais "negras" do que seus maridos.Elas estão aí, na luta por justiça e igualdade e muitas delas são mais "negras" do que muitas "mulatas", "morenas", "jambe
tes""ecurinhos" etc...
Quem há de lhes negar a condição de "negras" ?
Muito Axé
Adilson Xavier

Anônimo disse...

Essa questão, que parece inócua, ma realidade levanta muitas paixões. Já vi muita gente brigar por causa do uso dos termos "negro" ou "preto". Como o próprio texto sugere, não existe "o negro", assim como não existe "o branco" ou "o japonês"; existem negros, brancos, japoneses, indivíduos com personalidades distintas. No limiar, existem indivíduos com pele mais escura ou mais clara, com determinados traços fenotípicos (nariz, boca, cabelo etc.), que são classificados segundo critérios muitas vezes subjetivos. Por isso os termos são mais um campo de batalha ideológica do que termos objetivos. Fanon dizia que o negro só se torna "negro" a partir do domínio do colonizador. Portanto, o "negro" é uma categoria política, não tanto biológica. Particularmente acho o termo afro-descendente mais rico, porque evoca ancestralidade, espiritualidade, embora reconheça que para o movimento político o termo "negro" seja mais adequado, por sua conotação política. Para os movimentos culturais e artísticos o afro é melhor, não é assim que se denominam olodum e ilê aiyê, por exemplo, blocos afros?

Anônimo disse...

Caro amigo historiador, preto=pessoa de pele escura, termo criado no século V, negro=escravo, termo criado no século XV, e não tem nada haver com a cor de pele.

Abraço, que DEUS o abençoe e leia mais.

L. Valverde Santana
valverdesantana@gmail.com

Iris Agatha disse...

Concordo com a advogada Soninha e gostaria de entrar em contato com ela: iris_agatha@hotmail.com

Ayrton disse...

Pessoal, o texto e os comentários estão fantásticos! Apresentando meu ponto de vista, concordo com a associação das palavras negativas com o terno negro. Portanto, não se deve tratar um afrobrasileiro por negro, e sim por ter pele preta, que é a sua cor. Falar que a raça é negra também é errado, pois raça só existe a humana. Ninguém sai falando que é da raça alta, raça baixa, raça rápida, raça lenta, raça inteligente, raça dos olhos azuis, castanhos, verdes, e por aí vai.
Afinal, é necessário dizer que meu sangue é vermelho? Ou meus ossos são brancos? Não somos todos com a estrutura física básica iguais? Por que só a pele tem que ser um fator diferenciado?
Somos todos criados à semelhança de Deus. Cor de pele não diferencia em nada os seres humanos.
Por acaso você só teria rosas vermelhas plantadas em seu jardim? A graça e beleza da natureza é justamente a variedade de cores e a mistura delas. Só que ninguém trata uma margarida como flor amarela, nem uma violeta por flor roxa. Com o jardim humano, tem que ser assim também. Cada ser com sua beleza e característica pessoal.
Podemos acabar com essa história de cor ou raça, mas temos que nos unir para isso. Comentar em último caso, e se necessário, que uma pessoa tem a pele preta, e pronto, sem dar continuidade no assunto.
Todas as cores são lindas, tenha orgulho da sua!

Wilson disse...

Bom dia a todos .
Parabenizo o CNNC – e também Kefing Foluke pelo site e pelos assuntos abordados; agradeço também, pois as discussões abertas, em especial "NEGRO OU PRETO: COMO SE DECLARAR O AFRICANO NO BRASIL" está sendo extremamente útil para abrir horizontes numa pesquisa que estou a realizar para um portfólio acadêmico.
Depois da leitura naveguei pela web em busca de novas fontes e me deparei com o incrível e simpático Nabby Clifford no youtube sobre esse mesmo tema. As colocações de Nabby são pertinentes.
Quem ainda não conhece o Ebaixador do reggae pode encontrá-lo em : http://www.youtube.com/watch?v=ZD4JAaed7jY
Um abraço fraterno de

Wilson da Cunha Lara Jr.

Wilson disse...

Boa tarde a todos .
Parabenizo o CNNC – e também Kefing Foluke pelo site e pelos assuntos abordados; agradeço também, pois as discussões abertas, em especial "NEGRO OU PRETO: COMO SE DECLARAR O AFRICANO NO BRASIL" está sendo extremamente útil para abrir horizontes numa pesquisa que estou a realizar para um portfólio acadêmico.
Depois da leitura naveguei pela web em busca de novas fontes e me deparei com o incrível e simpático Nabby Clifford no youtube sobre esse mesmo tema. As colocações de Nabby são pertinentes.
Quem ainda não conhece o Ebaixador do reggae pode encontrá-lo em : http://www.youtube.com/watch?v=ZD4JAaed7jY
Um abraço fraterno de

Wilson da Cunha Lara Jr.