quinta-feira, 29 de novembro de 2007

ROSA PARKS: A MULHER QUE TRANSFORMOU UMA NAÇÃO E AJUDOU A ACABAR COM JIM CROW




Por: Ulisses Passos. Acadêmico de Direito, Pan-Africanista e Presidente do CNNC/BA. Pseudônimo: Aswad Simba Foluke. E-mail: ulisses_soares@hotmail.com

No mês de novembro no Blogger do CNNC/BA foram homenageados algumas personalidades que combateram pela liberdade do povo preto em diversas do planeta. Nossa última homenageada foi uma grande mulher que mudou a vida dos africanos na diáspora nos Estados Unidos da América.

Rosa Louise McCauley nasceu no dia 4 de fevereiro de 1913 em Tuskegee no Alabama – Usa, filha do carpinteiro James McCauley e da professora Leona McCaule, os seus pais se separaram e aos dois anos de idade foi residir com a sua mãe na casa da avó materna em Pinel Level no Alabama, com uma saúde frágil sofrendo de amigdalite e de baixa estatura, aos 11 anos de idade foi matriculada em uma escola industrial para meninas (Miss White's School Girls) onde aprendeu a profissão de costureira, não tendo condições de ir para Alabama State Teachers College's High School realizar o ensino secundário, forçada a abandonar os estudos para cuidar da mãe que adoecera e seu irmão menor Sylvester foi trabalhar para ajudar no sustento da família.
Na Infância foi vítima de ataques da Ku Klux Klan(KKK), organização racista formada por brancos protestantes que queimavam as casas de bairros pretos e praticavam linchamentos, e viu a sua avó com uma espingarda na mão guardando a entrada da sua residência. Houve um período que negros eram linchados sem julgamento nos Estados Unidos e as fotos são de extrema crueldade, a qual não postarei nesta página, por serem de extrema violência e as denomino exemplos do holocausto preto.
Conhecedora e vítima diariamente da segregação racial, presenciou a escola industrial em que estudava queimada duas vezes por incendiários racistas e as professoras pretas constantemente humilhadas, a menina Rosa Louise sabia que teria de enfrentar o racismo e suas seqüelas.
Em 1932 casou-se com o barbeiro Raymond Parks, um jovem de pouca educação formal por causa da segregação racial, e sua mãe Gery Parks o orientou corretamente para a sobrevivência como preto no sistema racista americano. Rosa Parks foi importante no sustento da família, vendendo a sua força de trabalho como empregada doméstica e até como ajudante em hospital, o seu marido insistiu em que terminasse os estudos e ela concluiu o ensino secundário em 1933. Raymond foi um ativista da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), organização fundada em 12 de fevereiro de 1909 por diversas pessoas entre eles o panafricanista Du Bois e brancos anti-racistas para atuar contra a discriminação racial dentro dos Estados Unidos da América, neste ano de 2007 a NAACP decretou estado de emergência pelo aumento da violência contra a juventude preta.
Na década de 30, Rosa foi uma das primeiras ativista a protestar contra a acusação injusta imposta a nove jovens pretos acusados de estuprarem duas jovens brancas, caso conhecido nos Estados Unidos como Scottsboro Boys.
Rosa Parks atuou na NACCP a partir de 1943, trabalhando de secretaria até 1957 e participando de diversas atividades pelos direitos civis.
Foi membro ativa da Igreja Metodista Episcopal Africana fundada em 1790 e antes da guerra de Secessão já possuía 20000 mil membros nos estados do norte, e enviou missionários para os estados do sul sendo a que mais combateu a segregação nos Estados Unidos antes e depois da guerra da secessão. Um dos salmos preferidos pela irmã Rosa Parks foi o salmo 23 que diz:
"O Senhor é meu pastor, nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranqüilas. Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça por amor de seu nome.
Ainda que eu andasse pelo vale das sombras da morte, não temerei mal algum, porque Tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.
Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda.
Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida e habitarei na casa do Senhor por longos dias."
Para que possamos compreendera a segregação na qual foi vítima é necessário conhecer um conjunto de leis conhecidas como Jim Crow nos estados sulistas e fronteiras dos Estados Unidos, executadas entre 1865 a 1965, que separava brancos e negros nas escolas, locais públicos, hospitais, transportes, etc.
Jim Crow foi mais do que leis, tornando-se uma maneira de vida branca americana, regras e costumes, foi à legitimação do racismo anti-preto, tendo diversos tentáculos, especialmente nos meios de comunicação em massa. O termo Jim Crow surge de uma canção feita por um ator branco Thomas Dartmouth (TD) "Daddy" Rice imitando um negro, o qual dizia ser um idoso escravizado que andava com dificuldade ou um jovem preto estereotipado. Ele foi um menestrel que ridicularizava os pretos norte-americanos no século XIX e pintava o seu rosto de preto. Leia mais: http://www.ferris.edu/jimcrow/who.htm
A contribuição de muitas igrejas brancas foi fundamental nas elaborações dessas leis e muitos teólogos e pastores brancos ensinavam nas igrejas que os negros foram amaldiçoados por Deus e estas leis eram da vontade divina, baseadas na má interpretação da maldição de Cam.
Havia toda uma regra de condutas para serem obedecidas pela comunidade africana nos USA, entre elas, exemplificamos: Relações sexuais entre brancos e pretos destruiriam a América Branca; se um homem preto estendesse a sua mão para ajudar uma mulher branca poderia ser acusado de estupro; e em hipótese alguma o preto poderia dizer que um branco estava mentindo; nunca falar que era mais inteligente que um branco,e proibido de mostrar afetividade em público,um beijo entre um casal de pretos era considerado violação da lei, etc..
Algumas dessas leis proibiam o casamento inter-racial de uma pessoa branca com uma preta até a oitava geração; se um homem preto estivesse com uma mulher branca na mesma sala à noite no trabalho, ou um homem branco com uma mulher preta, seriam presos e condenados até 12 meses de prisão; escolas para crianças brancas e pretas eram separadas, lanchonetes, restaurantes, cinemas, banheiros, bebedouros, etc. Leia mais exemplo em: http://en.wikipedia.org/wiki/Jim_Crow_laws
Em 01 de dezembro de 1955 Rosa Parks recusou-se a ordem do motorista James Blake a ceder lugar a um homem branco dentro de um ônibus, este ato de “desobediência civil” a levou a ser presa e fichada criminalmente pela polícia, acusada de violação do capitulo 6, seção 11 do Código de Segregação racial de Montgomery e condenada a pagamento de multas e prisão domiciliar . Em quatro de dezembro de 1955 as igrejas pretas começaram a organizar o boicote o qual foi referendado no dia nove de dezembro quando líderes pretos se reuniram na Igreja Metodista de Zion e o Rev. Ralph David Abernathy sugeriu o nome "Montgomery Improvement Association" (MIA). Os membros foram eleitos e como presidente, um jovem ministro desconhecido da Dexter Avenue Baptist Church, Dr. Martin Luther King, Jr. As Igrejas Pretas lideraram a luta pelos Direitos Civis nos Estados Unidos.
Não foi o primeiro fato ocorrido, outras pessoas já haviam sido presas por se recusarem a se levantar para cederem lugares em transportes públicos aos brancos, mas esse ato teve conseqüências que mudaram a vida dos descendentes de africanos nos Estados Unidos. O incidente resultou no boicote aos ônibus em Montgomery que perdurou durante 382 dias e Rosa Parks disse em uma de muitas das suas entrevistas:
-Nós não temos quaisquer direitos civis. Era apenas uma questão de sobrevivência, de existência de um dia para o outro. Eu me lembro, quando ia dormir, de uma garotinha ouvindo a “Ku Klux Klan” rondando à noite, e ouvindo um linchamento, e com medo de que a casa viesse abaixo pelo fogo.
Na mesma entrevista, ela citou sua longa convivência com o medo como a razão de sua intrepidez em decidir apelar para suas convicções, durante o boicote aos ônibus.
-“Eu não tinha qualquer espécie de medo e foi um alívio saber que eu não estava só.
Racistas retaliaram o boicote aos ônibus com o terrorismo. Igrejas Pretas foram queimadas ou dinamitadas. A casa de Martin Luther King's foi bombardeada na madrugada do dia 30 de janeiro de 1956. No entanto, a comunidade preta organizou com o boicote, um dos maiores e mais bem sucedidos movimentos populares contra a segregação racial realizado por africanos na diáspora nos USA, que originou outros protestos, e que colocou King como um dos líderes à frente do Movimento dos Direitos Civis. O Pastor Martin Luther King Jr liderou Montgomery Improvement Association, resultando em lutas que forçaram o termino da segregação racial nos transportes públicos e no fim das leis Jim Crow, se tornando um dos principais nomes nos Estados Unidos na luta contra a segregação, árduo defensor do integracionismo na sociedade branca americana sendo os seus métodos e sonhos questionados por diversos militantes, como Malcolm X, Fred Hampton, Stokely Carmichael e muitos outros panafricanistas, mas, nunca retirado os méritos de suas ações em prol da liberdade do nosso povo.
Rosa Parks desempenhou um papel importante na internacionalização da sensibilização para a situação dos pretos e pretas americanos nas lutas pelos direitos civis. O boicote aos ônibus de Montgomery também foi a inspiração para boicote na cidade de Alexandria, Eastern Cape da África do Sul, que foi um dos principais eventos na radicalização da maioria preta daquele país, sob a liderança do Congresso Nacional Africano.
Após o boicote Rosa Parks foi perseguida perdendo o emprego e seu marido também tendo que ficar desempregado.
Teve uma vida de lutas e militância pelo povo preto, tendo o seu trabalho reconhecido e homenageada por diversas autoridades, ganhando a medalha do governo americano e faleceu no dia 24 de outubro aos 92 anos, cercada de amigos e deixando pelo seu exemplo a chama acessa para o povo preto.

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