segunda-feira, 15 de outubro de 2007

AS COTAS NEGADAS: ESCOLAS CRISTÃS E O POVO PRETO


Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos.Pseudônimo: Kefing Foluke.


Completar-se-á em novembro um ano que ocorreu o I Encontro de Negras e Negros Cristãos da Bahia realizado pelo CNNC/BA no Colégio Duque de Caxias – Liberdade –Salvador – Bahia, nesta oportunidade eu fiz a proposta-denúncia de que as cotas deveriam ser também aplicadas às Igrejas Protestantes que são detentoras de Universidades, Faculdades e Escolas pelo Brasil. Atualmente já se escrevem sobre essa idéia e fico vendo novos horizontes para uma grande campanha nacional de pretas e pretos independentes de credo religioso, filosófico e político aliados aos evangélicos pretos objetivando a concretização dessa proposta.
Há um processo excludente de oportunidades aos evangélicos pretos nas igrejas brasileiras em todas as esferas de poder eclesiástico, uma continuidade da exclusão da sociedade que a Igreja não isenta o membro da discriminação racial por ser evangélico. Um fato interessante é que pessoas pretas evangélicas repetem o discurso ao serem convidadas a discutir a exclusão, e afirmam acertadamente que Deus não faz acepção de pessoas. Infelizmente acreditam que discutir a discriminação racial dentro das Igrejas é torna-se racista. A vítima se acha algoz, o preto Evangélico não entende que quando chama O DISCRIMINADOR DE IRMÃO E É CHAMADO POR ELE REPETE UMA FALACIA. “Irmão” na igreja e quando sai do templo está fora da irmandade cristã e cai na realidade de ser apenas considerado como um descendente de africano, discriminado por este.
O crescimento das igrejas evangélicas com templos suntuosos, universidades, escolas, rádios, televisões, jornais, fazendas e outros bens demonstram que há uma maneira bem capitalista de aproveitamento de ofertas e dízimos, e nesse sentido Max Weber, no livro “A Ética protestante e o Espírito do Capitalismo”, o qual conclui que na concepção protestante de ser abençoado é ter bens materiais podemos aplicar ao protestantismo brasileiro vindo dos Estados Unidos e no desenvolvimento atual da Teologia da Prosperidade. Não sendo eu Weberiano, concordo que o protestantismo e capitalismo são simbióticos.
Milhões de pessoas pretas se dedicam a evangelização, missões e manutenção de estruturas as quais não dividem os lucros com a comunidade preta. Esse fato se torna digno de estudos mais aprofundados para o entendimento de contribuições que não retornam ao contribuinte e servem para conquistar mais pretos e pretas que se tornarão dizimistas e manterão bem vivas as instituições que os excluem.
Grandes igrejas evangélicas mantêm estruturas poderosas de ensino no Brasil, conhecidas por todos nós. Os Presbiterianos, Adventistas, Metodistas, Luteranos, Batistas, Anglicanos, Assembléia de Deus e outras denominações. A Igreja Presbiteriana do Brasil possui uma das mais importantes universidades paulistas: o Mackenzie, administrada pelo Supremo Concílio da IPB além de escolas e seminários. A grande rede educacional Adventista, as Faculdades e Colégios Luteranos, as Universidades metodistas como: Instituto Metodista de Ensino Superior: Universidade Metodista de São Paulo, Colégio Metodista em São Bernardo do Campo, Colégio Metodista em Bertioga, Colégio Metodista em Itapeva, as Faculdades Integradas Bennett: o Centro Universitário Metodista Bennett e o Colégio Metodista Bennett, escolas e seminários. A Universidade Metodista de São Paulo oferece bolsas de estudos para EducaAfro, alunos africanos e tem um trabalho social. Mas, nenhuma Igreja Protestante voltou-se internamente para atender os membros pretos das suas comunidades.
Nesse pequeno artigo vou analisar superficialmente a maior denominação do protestantismo histórico brasileiro: os batistas. Possuidores de dezenas de faculdades e Escolas no Brasil desde o Rio Grande do Sul ao Amazonas, abaixo informações e links de algumas delas:
ANEB - Associação Nacional de Escolas Batistas –http://www.aneb.org.br/diretrizes.asp
As instituições de ensino batistas, subordinadas à denominação, por meio das entidades da Convenção Batista Brasileira ou das Convenções Batistas Estaduais ou Regionais; - http://www.aneb.org.br/associados_natos.asp
Escolas associadas à Convenção batista: http://www.aneb.org.br/associados_convidados.asp
Outras Instituições batistas:
http://www.aneb.org.br/associados_outras_batistas.asp
INSTITUIÇÕES COM CURSOS SUPERIORES:
a. das Convenções Batistas Estaduais:
Colégio Batista Shepard/RJIBEV/ES
Colégio Batista Mineiro/MG
CBBrasileiro/SP
CBAlagoano/AL
b. Outras: UNIGRANRIO/RJ
Faculdades Souza Marques/RJ
Faculdade Batista da Amazônia/AM
Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil/RJ
Os Colégios e Faculdades Batistas poderiam simplesmente instituir o sistema de cotas de 20% para membros batistas pretos em todo o Brasil, apesar de que a educação nestas organizações não é voltada ao povo preto. Os Colégios religiosos são considerados entidades filantrópicas e muitos deles, não posso afirmar que são todos, não cumprem a idéia de filantropia, tanto assim que abaixo no link há informação de um Colégio Batista processado:
Colégio Batista Fluminense, entidade filantrópica, não oferecia bolsa para alunos carentes. http://noticias.pgr.mpf.gov.br/noticias-do-site/direitos-do-cidadao/mpf-rj-move-acao-contra-escola-em-campos/
Notamos a falta de conscientização política pan-africanista entre os evangélicos pretos e um despertar de consciência para a realidade de inserção nas igrejas. São fatos de extrema preocupação. Esta rápida análise sobre a Educação Batista no Brasil nos leva a tecer considerações sobre a exclusão dos pretos evangélicos. Vale ressaltar que muitas dessas escolas foram fundadas há mais de 100 anos com o objetivo de manter o status quo de um ensino diferenciado de influência católica e voltada para a classe média, como modelos protestante norte-americanos e nesse projeto não fomos incluídos. Por isso tornar-se-á necessário que pastores batistas brancos ou pretos que vivem e acreditam realmente no Evangelho exijam direitos para o os pretos e pretas e questionem diretamente colegas de pastorado, igrejas e as convenções sobre a educação excludente. O inacreditável é que no censo de 2000 eram 3.162.691 de batistas brasileiros, colocando na base de 50% de pretos seriam na base de 1.581. 230 pretos que de uma maneira ou outra são dizimistas e dão ofertas, na média de 50 reais por pessoa, sendo assim por mês desembolsam mais de 75 milhões de reais e por ano mais de 948.731.000 (948 milhões e 731 mil reais) que não voltam para a educação dos seus membros pretos. Com esse montante a comunidade preta batista poderá ter as suas próprias universidades e escolas que atenderiam uma parte significativa dos seus membros. Quando trabalhamos a questão de que são 15 milhões de pretos evangélicos contribuintes mensalmente com 50 reais, fico perplexo. Porque são 15 milhões de pessoas doando voluntariamente um total de 750 milhões de reais mensais e anualmente nove bilhões de reais para manter estruturas poderosas e que continuam a exclusão do nosso povo nas suas estruturas eclesiásticas.
O movimento Negro nos Estados Unidos da América surgiu e solidificou-se dentro das Igrejas Protestantes e voltou-se para implementação de Universidades e Escolas com a contribuição das Igrejas Pretas. No Brasil há tanto dinheiro ofertado e não aprendemos que devemos caminhar para a auto-gestão.
José Carlos Barbosa escreveu um livro “Negro não entra na igreja: espia da banda de fora", eu discordo e digo o preto entra na igreja, contribui e fica do lado de fora. Mas, se não há acepção de pessoas?

5 comentários:

André disse...

Meu caro Kefing, muitíssimo interessante a sua reflexão. No caso da Igreja Católica, a situação não é diferente. Nas universidades e colégios católicos, o espaço garantido ao povo preto é a faxina, segurança, etc...

Adailton disse...

Meu amigo e irmão Negro Kefing, fico feliz que Deus tenha te dado tamanha "PERCEPÇÃO" para analisar e fazer-nos refletir sobre essa questão que me intriga tanto, e no meu caso que já tive casos na minha família então, me deixou muito indignado.
Sou Adventista desde criança e percebo que esta realidade analisada por você na igreja Batista em nada é diferente na igreja Adventista.
Mas precisamos sair da reflexão e partirmos pra ação. Que todos os negros cristãos "ABRAM A MENTE".
Parabéns meu irmão.
Por este artigo você merece milhões de "Afrosbeijos e Abraços Africanos", Fica com Deus meu irmão!!!

Pastora Edina disse...

Querido irmão, concordo plenamente com as cotas para alunos negros e as intituições religiosas deveriam ser as primeiras a corrigirem a injustiça social liberando cotas para alunos negros.Hoje vivendo na Europa me dou conta de quanto o Brasil é um pais racista e de exclusão social e religiosa .

Aydee disse...

Caso façamos esta proposta, muitos dos nossos pastores irão dizer: "Isto não tem nada haver, o is irmãos estão vendo coisa onde não existe", não é mesmo?
Muitos pretos que são crente não sabem que são pretos.

Darlete disse...

Prezado Walter,
As igrejas, em geral, insistem em afirmar que em seu seio não existe racismo, tampouco exclusão. Apregoam, convictas, que "Deus não faz acepção de pessoas"! Acertam nesta afirmação, mas se equivocam profundamente naquela. Querem fazer acreditar que, se não existe exclusão nas igrejas, para que haveria preocupação com o estabelecimento de políticas sociais de inclusão para o povo preto nas instituições de ensino que hasteiam, tão orgulhosamente, a bandeira de "evangélicas"?
É verdade! Deus não faz acepção de pessoas. Mas as pessoas o fazem, absurdamente. E a igrejas, em enorme medida. Por isso, felicito sua ousadia em trazer tão importante assunto a tona, para reflexão e, mais que isso, despertamento do desejo de uma mudança no quadro hipócrita de nossa realidade cristã.
Asantewaa.

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