sábado, 30 de janeiro de 2010

PALENQUE DE SAN BASILIO – O NEGRO NA COLÔMBIA- A INVISIBILIDADE DO NEGRO NA AMÉRICA LATINA




Por Walter Passos, historiador, panafricanista, afrocentrista e teólogo.
Pseudônimo: Kefing Foluke.
E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br
Msn: kefingfoluke1@hotmail.com

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Walter Passos


Palanqueras: Lindas mulheres do Palenque de San Basilio

Ministro aulas há mais de 20 anos e não noto até hoje os educadores ensinarem aos estudantes a presença de pretos nas Américas, especialmente na América Latina, e muito menos é estudado o processo de escravidão que aprisionou famílias, as separou e espalhou por todo o continente americano.

A visibilidade de populações negras na América Latina se dá em momentos de extrema crise como foi o caso relatado pela mídia dos problemas com os marrons no Suriname (América Holandesa), o terremoto do Haiti, atletas que fogem de delegações cubanas, e outros fatos que trazem repercussões. Não quero discutir neste momento essas categorias geográficas que nos dividiram em latinos, anglo-saxônicos, holandeses.

Os europeus após invadirem vastas regiões africanas, seqüestraram os prisioneiros de guerras e escravizaram famílias falantes da mesma língua e uma das mais nefastas conseqüências é de que hoje são obrigados a se comunicar com a língua do opressor e amaldiçoam ou consideram exóticas as línguas dos seus ancestres.

Apesar dessas divisões regionais os pretos e pretas “latino-americanos” possuem uma resistência histórica que os mantêm vivos e visíveis na América Latina, quebrando a manutenção programada da invisibilidade nos livros didáticos e da mídia eurocêntrica.

A mídia e os livros didáticos que chegam às chamadas “periferias”, fora do chamado centro de conhecimentos e do poder, ignoram as questões cruciais dos “africanos latino-americanos”, alimentando a invisibilidade perversa e a negação dos problemas cruciais de milhões de pessoas, cerceando uma pan-africanismo nas Américas.

A Colômbia possui mais pretos e pretas do que o Haiti, é o terceiro país em população africana nas Américas,sendo superado por Brasil e Estados Unidos da América, com cerca de 10 milhões. Há mais pretos e pretas na Colômbia do que em 24 países africanos, entre eles: Ruanda, Somália e Congo. A mídia não comenta sobre os pretos colombianos. Ouvimos falar das FARCS, de atentados terroristas, do tráfico de drogas, das ameaças de Hugo Chaves ao povo colombiano, dos problemas fronteiriços com o Equador. E assistimos em jogos grandes jogadores colombianos que atuam na seleção ou em clubes brasileiros.

Torna-se necessário conhecermos este país vizinho e um pouco da história afro-diásporica de pretos e pretas que foram escravizados pelos espanhóis. A escravidão espalhou africanos em toda a América escravista e as conseqüências pós- abolição deixou uma herança maldita de discriminação racial que gerou desemprego, falta de habitação, cruciais problemas de saúde, insegurança, crises de identidade, continuidade da catequização católica, alvos primordiais das evangelizações protestante, e em grande massa especialmente das igrejas pentecostais e neo-pentecostais e, a não aceitação nestes países do ser – africano, levando-os a maioria populacional a constante marginalização social, econômica, cultural e religiosa.

Na Colômbia, 80% dos pretos e pretas vivem na pobreza extrema, apesar de suas habitações estarem em áreas de riqueza e muitos sob o fogo cruzado das FARCS e do Exército Colombiano. Não me aterei a comentar sobre a população chamada afro-colombiana neste artigo, por causa da complexidade histórica e a riqueza cultural da terceira população preta nas Américas. Em breve, irei escrever sobre a resistência destes irmãos africanos no território colombiano. Convido-vos a realizar uma pequena reflexão sobre o Palenque de San Basilo.

Localizado no sopé da Serra de Maria, distante a 70 km de Cartagena das Índias, que foi o principal porto do Caribe no comércio transatlântico de escravos do século XVI ao início do século XIX, está o Palenque de São Basílio com uma população aproximada de 3.500 habitantes.

Os espanhóis tiveram que enfrentar diversas guerras dos cimarrones em suas colônias nas Américas, os escravizados da atual Colômbia fugiram dos navios, da mineração, de fazendas, e do serviço doméstico, após as fugas, se uniram para formar pequenos grupos. Muitos foram capazes de viver em quilombos protegido por pântanos e densas florestas. Protegiam-se das tropas construindo cercas de troncos de árvores, galhos e espinhos. Viviam da agricultura da subsistência de mandioca, milho, feijão, batata, banana, além da pesca e pilhagem.
Armados com arcos e flechas, garruchas e pedras, as comunidades Cimarrón lutaram bravamente contra a dominação espanhola, e muitas vezes foram para a batalha com os rostos pintados das cores vermelha e branca.

Um dos grandes líderes da resistência foi o rei Africano, Benkos Biohó, conhecido no folclore tradicional como o Rei dos Matuna. Benko é um nome de uma região no leste do rio Senegal. Foi um líder da resistência Africana, que realizou ataques organizado do porto vizinho de Cartagena com outras 10 pessoas, e fundou San Basilio de Palenque, a "aldeia lendária do Cimarróns".


A história de Benkos Biohó sempre foi de resistência, relata-se que desceu de barco o rio Madalena fugindo para a liberdade, sendo infelizmente recapturado, mas, escapou novamente em 1599 em terras pantanosas do sudeste de Cartagena, e organizou um exército de africanos que dominaram todos os montes de Maria. Possuía um serviço de inteligência e com ele conseguiu impetrar diversas derrotas as forças espanholas e abalar economicamente o império espanhol na região. Os grandes avanços das tropas de Benko levaram o governador a fazer um acordo de paz em 16 de junho de 1605. Não sendo possível derrotar os quilombolas, em 18 de julho de 1605, o governador de Cartagena, Geronimo Suazo e Casasola, ofereceu um tratado de paz para Benkos Bioho, reconhecendo a autonomia do Matuna Palenque. O tratado foi violado pelos espanhóis em 1619, quando andando descuidado Bioho foi preso, enforcado e esquartejado em 16 de março de 1621. O governador Garcia Giron, que ordenou a execução, alegando que era perigoso o respeito de que Bioho havia gerado na população e “está por trás dele e encantamento que toma todas as nações da Guiné está na cidade.

Até o final do século XVII, a região de Montes de Maria contava com mais de 600 quilombolas, sob o comando do Domingo Padilla, que reivindicou para si o título de capitão, enquanto sua esposa Jane adotou o de vice-rainha, e as tentativas de contestar com sucesso na soberania de as autoridades coloniais.

Tornou-se o primeiro local livre de toda a América escravagista por decreto real do Rei de Espanha, no ano 1713. Fato histórico notório porque se deu 18 anos após a destruição da Confederação dos Palmares (1695), 57 anos antes dos holandeses serem forçados a assinar tratados de paz com os grupos Ndyuka no atual Suriname (1760) e 91 anos antes dos africanos derrotarem o Império Frances e conseguirem a independência do Haiti (1804).

Em 1774 San Basilio, pela primeira vez figurou no censo do governo colonial espanhol.

PALENQUE SAN BASILIO, BOLIVAR, MAROON COMMUNITY IN COLOMBIA

É único local da América Latina que se fala uma língua crioula baseada no espanhol:

O The New York Times noticiou em 18 de outubro de 2007, que a língua Palenquero possa ser a única linguagem espanhola baseada em crioulo da América Latina e a gramática é tão diferente do espanhol, que os falantes do espanhol não podem entendê-lo. Alguns lingüistas acreditam que o Palenquero pode ser o último resquício de um espanhol falado pelos escravizados na América Latina. A língua crioula criada à base do vocabulário espanhol com uma forte influência de idiomas africanos de origem bantu: kikongo e kimbundu do Congo e Angola. Também pelo Português, a língua do os seqüestradores de Africanos escravizados para a América do Sul no século XVII. A língua palenquera não se limita unicamente a seus aspectos gramaticais e estruturais. A língua palenquera é toda uma construção cultural relacionada com a interpretação da realidade desta comunidade.


Em 2005 a aldeia de Palenque de São Basílio foi proclamada obra-prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade pela UNESCO.

SON PALENQUE-HIMNO DE SAN BASILIO DE PALENQUE

Oh, Oh, Oh, Oh, Oh...
Palenque fue fundado, fundado por Benkos Biohó

Y el esclavo se liberó hasta que llegó a famoso
(bis)
África, África, África, África...
Yo tengo mi rancho grande, también tengo mi machete

Lo tengo dentro de mi rosa, en el pueblo de Palenque
(bis)
África, África, África, África...
Contra los blancos luchó con todos sus cimarrones,

Y vencido los españoles la libertad nos brindó
(bis)
África, África, África, África.

A riqueza ancestral do Palenque de San Basilio é diversificada, um pedaço da África na Colômbia, um forte conhecimento medicinal africano, com técnicas de curas das enfermidades.

“Como botánicos o yerbateros son conocidos los depositarios del saber médico tradicional basado en la combinación de plantas y de partes de animales que se administran en momentos y modalidades determinadas. Las tomas, baños o emplastos son las modalidades más comunes de administración de los medicamentos tradicionales; los cuales van generalmente acompañados de rezos (secretos) como complemento o condición necesaria de su actuación terapêutica”.

Os rituais fúnebres na religião de matriz africana, conhecida como lumbalú:

El origen del lumbalú se remonta al territorio bantú en el continente africano.47 Etimológicamente está compuesto por el pre.jo /lu/ que significa colectivo y /mbalú/ que significa melancolía, recuerdos o re.exión. Este rito se lleva a cabo cuando fallece una persona en Palenque, y se celebra por medio de cantos y bailes alrededor del cadáver, cuando una voz líder es acompañada por un coro que la sigue de manera espontánea durante nueve días y nueve noches. En el lumbalú se condensan las concepciones de Palenque ya que: “En el lumbalú se relacionan íntimamente el baile, la música y el canto. El lumbalú en sí mismo es música, a un nivel rítmico, es canto en cuanto manifestación oral, es baile (baile ri muerto) como expresión corporal y es un ritual.

No Palenque se conservou a música africana e a tradicional forma de fabricação de instrumentos para interpretá-la, como tambores (os mais conhecidos são: o pechiche, o bongó, a timba, o bombo, o llamador e o alegre), a marimbula e as maracas.

O bullerengue sentado: é um canto feminino que em suas origens se associava às mulheres grávidas. Hoje em dia, é cantado pela voz feminina que interpreta os versos que são respondidos por um coro de mulheres.

A chalupa: é o ritmo mais alegre da música palenquera.
O som de negros: é uma dança onde se mostra o cortejo de namoro entre o homem e a mulher.
A chalusonga: é a mistura da música do continente africano com alguns estilos do Caribe insular e a imitação destes últimos nos instrumentos do Palenque.

O som Palenquero: é o formato do som cubano trazido pelos trabalhadores cubanos aos talentos açucareiros no Caribe colombiano o século XX que se fusionou com a música da região.
Saiba mais sobre o Palenque de San Basilo, acessando:
http://palenquedesanbasilio.masterimpresores.com/files/index.asp

Na Colômbia, como no Brasil, a mestiçagem programada para o embranquecimento da população africana, originou diversas colorações epiteliais, criando crise do chamado mulato ou mestiço, e a negação de ser africano, por isso a identidade e preservação do Palenque de São Basílio serve como parâmetro identitário para milhões de colombianos, que estão se auto-descobrindo como originários da Mãe-Africa.

CENSO AFROCOLOMBIANO 2005/ AFROCOLOMBIAN CENSUS


2 comentários:

. disse...

Novamente O CNNC e vc Walter Passos(Kefing Foluke) nós traz mais um riquíssimo texto. E completamente extraordinário o trabalho de análise, estudo e pesquisa que sempre resulta em artigos fantásticos. Eu particularmente não me canso de ler os textos publicados nesta página.

E impressionante a disposição intectual que vocês do CNNC tem para revelar e trazer aspectos relevantes da história negra.

Afrocentricidade e disso que os Pretos necessitam para se libertarem, das imposições formuladas e transmitidas pelo ensino eurocêntrico.

Eu sempre estudei em escolas públicas, e mesmo tendo alguns professores pretos nunca senti por partes dele nenhum tipo, de conhecimento aprofundando sobre a história africana. No máximo todos eles eram apenas reprodutores estéril do pensamento acadêmico europeu.

Por este motivo considero de fundamental, importância o trabalho realizado pelo CNNC. Continuem nessa árdua caminhada em busca da defesa e do resgate de nossa história.

sara santana disse...

Parabéns Walter pela matéria! Suas matérias nos acrescenta bastante.Sucesso!

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