segunda-feira, 28 de setembro de 2009

MUTILAÇÃO GENITAL FEMININA - VIOLAÇÃO DO CORPO DA MULHER

Por Aidan Foluke, membro da COPATZION, Tesoureira do CNNC/BA e Acadêmica de Enfermagem. E-mail: vanessasoares13@hotmail.com

Skype: aidanfoluke


Desde os primórdios as questões fisiológicas feminina sempre foram ponto de questionamento, principal quanto se fala nos seus órgãos sexuais/reprodutores. Sabe-se que o sistema reprodutor feminino é divido em órgãos genitais internos e externos. Na sua porção interna encontramos o útero, tubas uterinas, ovário, vagina e na parte externa os lábios maiores e menores, o monte púbico, o vestíbulo da vagina, o clitóris, o bulbo do vestíbulo e as glândulas vestibulares maiores. A partir desse pontuamento dos órgãos genitais, vamos entender o que significa a tão complexa e polêmica circuncisão feminina.

A circuncisão feminina pode ser chamada de mutilação genital feminina (MGF) ou castração feminina. O geógrafo Agatharchides de Cnido, no século II a.C. relatou nos seus escritos a prática dessa cirurgia mutiladora nas comunidades que habitavam na costa ocidental do Mar Vermelho (agora atual Egito). Com base nessa localização geográfica, parece que a origem desse ato é Egípcia e se espalhou em direção ao sul e ao oeste. Alguns pesquisadores acreditam que a circuncisão feminina estava enraizada na mitologia de Kemet da bissexualidade dos deuses, sendo refletida aos mortais essa característica a cada indivíduo possuidor de uma alma masculina e uma alma feminina. A alma feminina do homem foi localizada no prepúcio do pênis e a alma masculina da mulher no clitóris. Para que houvesse o desenvolvimento saudável e equilibrado dos gêneros, a alma feminina tinha que ser extirpada do homem e a alma masculina da mulher.
A circuncisão foi, portanto a prática essencial para a transição dos meninos em homens e das meninas em mulheres. Entretanto, é questionável o conhecimento das populações que praticam a circuncisão feminina com a mitologia de Kemet.

Em muitas comunidades a maior justificativa para circuncisão feminina é o controle sexual das mulheres. Tal controle psicofísico é imposto de maneira tão violenta que deixam seqüelas por toda vida. Esse controle sexual pode ser pontuado como:
1. Preservação da virgindade;
2. Ajuda a ter uma boa saúde;
3. Tem um valor estético muito grande;
4. Previne a promiscuidade;
5. Cria mais oportunidade de matrimônio;
6. A conservação da fidelidade;
7. Aumenta a fertilidade;
8. Potencializa a desempenho sexual e o prazer masculino;
9. Promove a coesão política e social;
10. A conservação da opção sexual – não lesbianismo.
FEMALE GENITAL MUTILATION...WHY SHOULD WE CARE??

A mutilação foi e é comum em diversas culturas. Sendo praticada por indígenas da América Central e do Sul e ainda faz parte do cotidiano cultural dos Shipibo-Conibo do Peru, um povo guerreiro da família Pano que vive na região do Ucayali. Segundo sua tradição, depois da menarca, toda jovem deve se submeter à circuncisão. Eles abordam outras justificativas muito interessantes como: “se não tirasse cresceria um pênis ali”; “se não todas as suas inimigas caçoariam dela”; “ela seria discriminada”; “a verdadeira mulher não tem”.
Na América do Norte os puritanos praticaram a mutilação como respostas médicas a masturbação das mulheres. O Dr. AJ Bloco de New Orleans, em um artigo intitulado "Sexual Perversion in the Female" (1894) cita um de seus casos, e descreveu como uma estudante de quatorze anos que sofria de nervosismo e palidez tinha sido curada por "liberar o clitóris de suas adesões" e se livrou da lepra moral. Em 1866, um jornal médico americano discutindo o trabalho de um médico britânico, Dr. Isaac Brown Baker, que afirmou ter sucesso no tratamento de epilepsia e outras perturbações do sistema nervoso em pacientes do sexo feminino por excisão do clitóris. Depois de notar que a grande massa da opinião médica inglesa foi de forte oposição às idéias de Baker e "irrestritamente condenou" o seu funcionamento. O editor americano concordou com a profissão médica Inglês, declarando que a retirar do clitóris é "para acalmar a irritabilidade sexual é tão filosófico como a retirar o órgão análogo do macho”. Entre outros artigos médicos defendiam nos U.S.A a extirpação do clitóris para curar o lesbianismo e mulheres ninfomaníacas.
No continente Africano a circuncisão feminina surgiu antes da invasão do Islamismo. A lei islâmica, conhecida como sharia é baseado especialmente no Alcorão, que segundo os islamitas contém proclamações do próprio Deus ao profeta Maomé não diz nada de suporte em apoio à circuncisão feminina. Na igreja Copta, uma das igrejas mais antiga do cristianismo fundada segundo a tradição pelo apóstolo Marcos no Egito em meados do I século d.C. há prática da circuncisão feminina, porém sem bases na doutrina teológica. Mas seguindo parte da tradição religiosa, que as mulheres devem permanecer castas até o casamento. Apesar de altos líderes religiosos manifestarem oposição a esta prática, é ainda apoiada por séculos de tradição e fé da família.
Uma tradição relata que Sara esposa de Abraão, percebendo o interesse crescente de Abrão por Agar, uma princesa de Khemeth que foi escolhida para engravidar, ficou enciumada e irada, mandando mutilar os órgãos sexuais de Agar, tendo ai uma circuncisão.
Inicialmente as circuncisões eram feita por mestres homens, os quais decidiam sobre a função sexual feminina. Reforçando historicamente a idéia de que as mulheres são propriedades de seus maridos que lhe devem toda e total submissão, que os corpos femininos necessitam de correção, a contestação do respeito, dignidade e pudor das mulheres e especialmente a independência e diferenciação na aparência natural da sua genitália e sua função sexual normal. Essas mulheres são submetidas à circuncisão há milhares de anos, e o costume está profundamente enraizado no pensamento humano de cada região. Muitas vezes é a própria mulher que deseja dar continuidade a esse ritual. É uma prática de diversas culturas em todos os continentes, e utilizada em diversos países da África, da Ásia, ente populações de imigrantes africanos na Europa.
No mapa há uma relação das nações que grupos culturais continuam com a mutilação feminina.
A circuncisão feminina é característica pela retirada totalmente ou parcial das partes da genitália externa feminina, principalmente do clitóris, órgão que quando estimulado proporciona o prazer sexual feminino. A Organização Mundial da Saúde (OMS) condena a prática da mutilação genital feminina tão prejudicial à mulher, tanto física como emocionalmente. Geralmente é feito sem anestesia ou antibióticos. Esta prática é agonizante, dolorosa e extremamente perigosa. Muitas meninas morrem de hemorragia, muitas têm infecções crônicas que dura toda a vida, como também muitos problemas com parto, no relacionamento conjugal, na menstruação e de caráter psicológico.
Female Genital Mutilation (Circumcision)

A Organização Mundial de Saúde conjuntamente com nove dos mais representativos organismos das Nações Unidas, publicou o acordo específico sobre a Mutilação Genital Feminina, com a reclassificação dos quatro tipos de identificados:
1. Remoção parcial ou total do clitóris e/ou do prepúcio (clitoridectomia).
• Tipo I a - remoção apenas do prepúcio (capuz) do clitóris;
• Tipo I b - remoção do clitóris com o prepúcio.
2. Remoção parcial ou total do clitóris e dos pequenos lábios, com ou sem excisão dos grandes lábios (excisão).
• Tipo II a - remoção apenas dos pequenos lábios;
• Tipo II b - remoção parcial ou total do clitóris e dos pequenos lábios;
• Tipo II c - remoção parcial ou total do clitóris, dos pequenos lábios e dos grandes lábios.
3. Estreitamento do orifício vaginal através da criação de uma membrana selante, pelo corte e aposição dos pequenos lábios e/ou dos grandes lábios, com ou sem excisão do clitóris (infibulação).
• Tipo III a - remoção e aposição dos pequenos lábios;
• Tipo III b - remoção e aposição dos grandes lábios.
4. Atos não classificados: todas as outras intervenções nefastas sobre os órgãos genitais femininos por razões não médicas, por exemplo: punção/picar, perfuração, incisão/corte, escarificação e cauterização.

Qualquer tipo de MGF provoca danos nos genitais femininos e no seu funcionamento,
originando complicações físicas que podem ser mais ou menos severas consoante o tipo de corte e sua extensão; quem realiza a mutilação, a existência ou não de condições assépticas e a própria condição física da mulher, jovem ou menina.
Profissionais de saúde que realizem MGF violam o princípio fundamental de ética médica de “primeiro, não prejudicar”.
Os riscos imediatos de complicações de saúde resultantes dos Tipos I, II e III:
• Dor intensa devido ao corte de terminações nervosas e de tecido genital;
• Choque hipovolêmico;
• Sangramento excessivo e choque séptico;
• Dificuldades na eliminação de urina ou fezes;
• Infecções;
• Vírus de Imunodeficiência Humana;
• Morte por hemorragia ou infecções diversas, incluindo tétano e septicemia.
Os riscos em longo prazo para a saúde resultantes dos Tipos I, II e III
• Dor crônica;
• Infecções;
• Infecções pélvicas crônicas;
• Infecções do trato urinário;
• Quelóides;
• Infecções do aparelho reprodutivo e infecções sexualmente transmissíveis;
• Vírus de Imunodeficiência Humana;
• Aumento da prevalência de herpes genital;
• Complicações no parto;
• Fístulas obstétricas devido a um parto mais demorado e obstruído;
• Perigos para os recém-nascidos;
• Diminuição da qualidade de vida sexual.
Os riscos adicionais de complicações resultantes do Tipo III (infibulação)
• Intervenções cirúrgicas subseqüentes;
• Problemas urinários e menstruais;
• Incontinência urinária;
• Relações sexuais dolorosas;
• Infertilidade.
Alguns estudos revelam um aumento de:
• Medo/receio de ter relações sexuais;
• Síndrome de stress pós-traumático;
• Ansiedade, depressão e perda de memória;
• Perturbações psicossomáticas com quadros de sintomatologia como insônia, pesadelos, perda de apetite, perda de peso ou ganho de peso excessivo, pânico, dificuldades desconcentração e aprendizagem, Cleptomania.
Disfunção sexual feminina e dispareunia(…), alterações no relacionamento do casal ou da sexualidade masculina. Existem estudos que referem que homens casados com mulheres excisadas procuram, fora do contexto do casamento, mulheres não excisadas que descrevem como “completas” e “quentes”.
Texto modificado o original é encontrado no site: http://www.apf.pt/cms/files/conteudos/file/folhas%20de%20dados/MGF2009.pdf
Estudos atuais afirmam que mesmo após a circuncisão a mulher continua tendo libido sexual em suas relações. Sendo mutilação genital feminina é uma operação destrutiva com resultados altamente patológicos, entretanto, é uma questão cultural de milhares de anos, praticadas em diversas culturas e religiões. Na nossa concepção é uma violação fundamental dos direitos humanos e viola o corpo das mulheres. Nós mulheres e homens que acreditamos na respeitabilidade da infância, na dignidade e espiritualidade dos seres humanos, temos que levantar a nossa voz de protesto e na desmistificação das suas justificativas.Maasai Female Circumcision Dance

14 comentários:

Anônimo disse...

ola a todos os irmaos e irmaes unidos pelo evangelho e pela identidade africana.

A circusisao FEMININA Em África e uma das maiores questoes desse século sem qualquer sombra de duvida, as coisas em ÁFRICA SE INTERLIGAM DE MANEIRA PROFUNDA e respostas acerca do que é certo e errado dentro da tradiçao ja nao sao mais suficientes. O que as africanas falam de si mesmas?O QUE A VIVENCIA ANCESTRAL NOS PROPORCIONA...DOR?NAO ABSOLUTAMNETE NAO

CACAU DE BRITO - Em Defesa do Cidadão disse...

Veja este site: http://kemetandyisrael.blogspot.com/

Anônimo disse...

VEJA ESTE SITE: http://kemetandyisrael.blogspot.com/

Luiz L. Marins disse...

Este é mais dos grandes absurdos que precisam ser extintos.

Quando uma religião traz dor e sofrimento, ela deve ser abandonada.

Nalui disse...

Ansiava por um texto sobre Mutilação Genital Feminina ...
é algo muito importante e que deve ser discutido.
Tenho buscado informações sobre circuncisão feminina pra tentar entender e conseguir formar uma opinião, dificilmente acho alguma coisa e quando encontro é sempre com um olhar extremamente eurocentrico que sempre condena e nunca questiona a origem da mutilação.

O texto contribuiu muito extinguiu grande parte das minhas dúvidas.
Obrigada

negobrown disse...

absurdo infelizmente em nome de crencas e religioes aqui nesse planeta se comete tantos absurdos por isso q eu tenho dois pes atraz quando se fala em qulaquer tipo de religiao q devia sempre falar e praticar o AMOR!!!!!


God bless you...peace.

Pergunte que a XANA Responde. disse...

Vamos acabar com isso gente!
Pelamordedeus!
NÃO à mutilação das mulheres e NÃO ao apedrejamento das mulheres (vítimas) das leis religiosas sem fundamento.

farao disse...

NOSSAAAAA olha já faz tempo que eu pesquiso história e sempre ouvi dizer acerca desta circuncisão na cultura Africana ,nunca quis saber o que era mas agora que descobrir não estou nem um pouquinho orgulhoso , isso na verdade e uma violação a mulher !!!! , olha chega dar arrepio na frieza dessas pessoas que fazem uma coisa desta , bem mas como julgar uma cultura com meus conceitos ......... olha fico muito grato com mais uma aula da CNNC valeu e parabéns mas uma vez !

Negra Rô disse...

olha, estou super assustada com essa reportagem pois, eu sei que isso acontece mas, lendo essa reportagem que vemos que isso tudo acontece por conta da religião e não só isso, por conta do machismo também na minha opinião
isso não póde mais acontecer eu não consegui nem ver os videos pois, devem ser mais dolorosos imagina a dor que essas mulheres sentem e, a vida delas modifica por completo pois, as mesmas não conseguem ser felizes pois, devem passar a vida toda sentindo dor devem não passam.
esse tipo de coisa não pode continuar, tem que ser feita uma manifestação em relação a isso
parabéns pela iniciativa de retratar assuntos relacionados a nos mulheres negras

diomar ferreira dos santos disse...

Na minha opinião acho que para ser lésbica ,acho que com clitoris ou não a mulher vai,essa opção é questão de comportamento ou de vida.Enfim...Cada povo com a sua cultura ,né.

REDE VOZES disse...

nossa meu Deus não sou contra a cultura de um povo.mais me questiono quem é pior^: a africa ou a india em relação ao tratamento com as mulheres.pocha eles tem de acordar pro século 21.

nany disse...

SE EXISTE DEUS , ESSE DEUS PODE SER ALÁ,JESUS,PROFETA ,OU QUAL SEJA O NOME LOCAL DADO A ELE , COM CERTEZA ELE É O CRIADOR ,E O CRIADOR É PERFEITO, JAMAIS CRIARIA MULHERES E HOMENS DE FORMA ERRADA OU PRECISANDO DE CONCERTOS, HIPOCRISIA HÁ 2000 ATRÁS ERA TOLERAVEL,POIS NÃO EXISTIA MEDICINA E OS MITOS MANTINHAM NO DIRECIONAMENTO ,PORÉM AINDA HJ 2012 DEPARO COM PESSOAS QUE ECEITAM E JUSTIFICAM ESSE MACHISMO E MONSNTRUOSIDADE COMO SENDO PRATICA CULTURAL E RELIGIOSA,QTAS MULHERES PASSARAM A VIDA SOFRENDO,ENQUANTO SEUS PARCEIROS ESTÃO COM MULHERES COMPLETAS E QUENTES** MEU DEUS MESMO! ATO DESUMANO,CRUEL E COVARDE! ESSE DEUS CRUEL COM SUAS FILHAS E FILHOS ...EU DESCONHEÇO.

Anônimo disse...

se retirando o clitoris a mulher não sentir mais prazer e não sera mais pinico de homens é muito valido pois eu quero retirar o meu para nunca mias ser de homem nenhum

Romilson da Silva Sousa disse...

Eu tenho cautela no ponto de vista ocidental sobre QUALQUER aspecto da cultura oriental. Sendo mais objetivo, tenho resistência a posicionamento muito focado em algo que é certo e algo que é errado. Venho estudando e continuarei estudando. Entretanto acho estranho uma civilização tão avançadas, para os dias atuais inclusive, como a ciência egípcia, ser simplesmente primitiva e ignorante sobre essa questão. Tenho prudência em inferiorizar os saberes e conhecimento e a cientificidade das praticas culturais de um povo. Continuo pesquisando, pois me recuso a assumir uma posição de superioridade da cultura ocidental e branca, que continua a desvalorizar e inferiorizar o outro.