segunda-feira, 10 de novembro de 2008

NOVO MOVIMENTO NEGRO

Por Jose Raimundo. Pan-africanista, Afrocentrado. Membro da Igreja Pan-Africanista Tzion. Pseudônimo: Thembi Sekou Okwui. E-mail: soulafrica@hotmail.com

Há quem afirme que nenhum acontecimento do passado se perde no tempo, mas sim, transforma-se. Pelo visto, a transformação, dando origem a algo novo, é um processo natural da existência das coisas. E por ser um processo natural, a transformação é inevitável. Existindo ou não uma força contrária, ela sempre irá acontecer, mesmo que parcialmente, para o benefício da continuidade da existência.
Hoje, acontece algo de crucial importância para sobrevivência do movimento negro, e porque não dizer da comunidade negra, no Brasil, qual seja, a existência de análises e avaliações aprofundadas das ações e políticas do movimento negro nos últimos tempos e seus possíveis avanços. O fruto destas análises e avaliações é o advento da necessidade de renovação do movimento negro contemporâneo, seja pela mudança estrutural e ideológica do que concebemos tradicionalmente, no Brasil, como movimento negro (o movimento social negro), seja pelo surgimento de um novo segmento do movimento negro de caráter libertário, que seguirá seu caminho próprio e natural.
No entanto, a meu entender, só uma mudança estrutural e ideológica do tradicional movimento social negro no Brasil não significa necessariamente um avanço se a finalidade do mesmo ainda for à mesma: a busca incessante por integração racial e aceitação do desumano projeto de relações humanas que esta ai posto. Acredito que o avanço essencial compreende, para além da necessária mudança estrutural e ideológica, uma mudança da própria finalidade do movimento negro e do rumo por ele a ser tomado. Apesar do momento histórico “não ser favorável à existência de um movimento negro de caráter libertário”, pois as relações raciais entre negros e brancos, e a dominação (política, social e, sobretudo, econômica) deste último se dar, no Brasil e no mundo, sob o discurso da “democracia”, dos “diretos humanos universais” e da “igualdade entre os povos”, nos permitindo ter a falsa impressão de que “estamos chegando lá”, acredito que é necessário transcendermos a esta realidade ideológica e analisar as relações raciais sob a luz do fato de que nós estamos, na essência da verdade, em todas as partes do mundo, por nossa própria conta em risco e que os brancos não estão afim de viverem junto com os negros numa sociedade igualitária, justa e solidária.
Mais do que em tempos passados, quando tínhamos que reagir contra o inimigo certo e visível, e não tínhamos esta falsa sensação de liberdade, e deste falso tributo ideológico a igualdade, presentes como velcro da dominação branca, precisamos ser a força reacionário e subversiva que vai possibilitar o surgimento de um novo contexto histórico de luta para o nosso povo. E é justamente a percepção desta necessidade de forçar a mudança do contexto histórico que nos envolve que surge, como efeito colateral, a necessidade de mudança da finalidade do movimento negro, adquirindo este uma percepção de luta de caráter libertário, com vistas a autodeterminação do povo preto-africano.
No entanto, é de se perceber que a necessidade do surgimento de um novo movimento negro, ou de um novo segmento do movimento negro, de caráter libertário, deve emergir antes da desconfortável realidade de subjugação e dominação que se abate sobre a população negra do que do contexto histórico que nos faz pensar o mundo. Apesar de ser compreensível que o contexto histórico é um fator determinante para a constituição e significação das ações e percepções humanas, não é menos verdade que a realidade vivenciada por um determinado grupo também determina, ou pelo menos deveria determinar, suas ações e percepções. Por exemplo, quando afirmam que o pan-africanismo não tem mais razão para existir porque o contexto histórico que permitiu seu nascimento desapareceu, nada mais estão fazendo os observadores limitados do que condicionar as ações e percepções de luta de um povo ao contexto histórico controlado pelo opressor.
Daí, na contramão desta afirmativa errônea, surge uma outra afirmativa, a de que: a existência da ideologia pan-africanista é necessária antes porque a realidade do povo preto ainda é de subjugação, de humilhação em suas condições, de desesperanças, de falta de autonomia para realizar o básico por si, sem o real poder de interferir no seu destino (O Poder Negro), de falta de identidade e sentimentos coletivos, etc., do que do fato de o contexto histórico atual permitir ou não, ou ser favorável ou não, a existência do mesmo. O pan-africanismo encontra razão para existir porque ainda somos um povo escravizado, sendo que, enquanto estivermos subjugados pelos dogmas do racismo, que é a continuação da escravidão numa perspectiva moderna, deve existir a necessidade da ideologia libertária pan-africana.
O pan-africanismo é a única saída para o povo negro do mundo encontrar-se consigo mesmo num futuro de paz e liberdade O pan-africanismo é a mais eficaz ferramenta de unificação dos povos africanos do mundo, nos possibilitando pensar num real projeto de libertação negra, para além das fronteiras e identidades nacionais que limitam o nosso pensamento, nos dando um sentido para vivermos enquanto uma nação negra. Seja lá qual for os rumos e as finalidades dos movimentos negros no Brasil, pois sua complexidade e pluralidade é visível, o que mais deve deixar a comunidade negra tranqüila é o fato de existir dentro do movimento negro um segmento transformador, revolucionário e libertário, que soube, e esta sabendo, transcender na análise do contexto histórico controlado e imposto pelo opressor e buscar uma real e verdadeira saída para libertação do povo preto, sem acreditar que somente a vivência conjunta com os brancos é a única solução para os nossos problemas.
Um novo movimento negro não significa, necessariamente, a mudança dos quadros dos militantes e das ideologias políticas integracionistas que norteiam as ações e pensamentos do movimento negro social. Até porque sempre existirão os “Pai Tomas” que estarão atrelados à estrutura de Poder Branca e fazendo o jogo do opressor. Um novo movimento negro significa o surgimento de uma militância negra alternativa, liberta da cosmovisão européia de mundo, que está preocupada em trabalhar para construção de uma nação africana, seja continentalista seja diaspórica, forte e auto-suficiente. O novo movimento negro (libertário) pode e vai co-existir paralelamente ao velho (integracionista). Mas o novo é preciso e já está nascendo. O novo movimento negro é aquele que acredita que a liberdade africana do passado é a mesma que deve ser reconquistada no futuro. Ou façamos por nós mesmos em vistas de nossa liberdade e dignidade, ou deixemos os outros fazerem aquilo que nós deveríamos fazer por nós mesmo e nos dominar eternamente. Nós, do CNNC, acreditamos nessa perspectiva.
BOB MARLEY - ONE LOVE

3 comentários:

Anônimo disse...

GOSTEI DA POSIÇÃO DO CNNC/BA SOU DE RORAIMA E MOREI NO AMAZONAS, ESTUDEI NA BAHIA ,HOJE ESTOU MORO SANTOS/BA.MAS TENHO ANDADO EM MUITO ESTADOS DO BRASIL E VISITADO TAMBÉM OUTROS PAÍSES.
EM UMA VISÃO HOLISTICO DO MOVIMENTO NEGRO NO MUNDO,CREIO QUE O BRASIL PRECISA TOMAR UM POSIÇÃO E SAIR DO DISCURSO NA QUESTÃO RACIAL...E NESTE MOMENTO O CNNC/BA LEVANTA ESTA BANDEIRA NA HORA PROPRIA PARA ESTE DEBATE,PARABÉNS,
EPITÁCIO BARROS
PR.CAPELÃO

Anônimo disse...

Ficou evidente a finalidade do CNNC. Muito bom.
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Enquanto parte do povo preto brasileiro, vivo me perguntando:
Se os órgãos de pesquisa estimam que até o final do ano seremos maioria no país, porquê continuamos elegando a maioria branca nos poderes públicos para nos representar e governar???

Anônimo disse...

Poema. Protesto de Carlos de Assunpção

Mesmo que voltem as costas
Às minhas palavras de fogo
Não pararei de gritar
Não pararei
Não pararei de gritar

Senhores
Eu fui enviado ao mundo
Para protestar
Mentiras ouropéis nada
Nada me fará calar

Senhores
Atrás do muro da noite
Sem que ninguém o perceba
Muitos dos meus ancestrais
Já mortos há muito tempo
Reúnem-se em minha casa
E nos pomos a conversar
Sobre coisas amargas
Sobre grilhões e correntes
Que no passado eram visíveis
Sobre grilhões e correntes
Que no presente são invisíveis
Invisíveis mas existentes
Nos braços no pensamento
Nos passos nos sonhos na vida
De cada um dos que vivem
Juntos comigo enjeitados da Pátria

Senhores
O sangue dos meus avós
Que corre nas minhas veias
São gritos de rebeldia

Um dia talvez alguém perguntará
Comovido ante meu sofrimento
Quem é que esta gritando
Quem é que lamenta assim
Quem é

E eu responderei
Sou eu irmão
Irmão tu me desconheces
Sou eu aquele que se tornara
Vitima dos homens
Sou eu aquele que sendo homem
Foi vendido pelos homens
Em leilões em praça pública
Que foi vendido ou trocado
Como instrumento qualquer
Sou eu aquele que plantara
Os canaviais e cafezais
E os regou com suor e sangue
Aquele que sustentou
Sobre os ombros negros e fortes
O progresso do País
O que sofrera mil torturas
O que chorara inutilmente
O que dera tudo o que tinha
E hoje em dia não tem nada
Mas hoje grito não é
Pelo que já se passou
Que se passou é passado
Meu coração já perdoou
Hoje grito meu irmão
É porque depois de tudo
A justiça não chegou

Sou eu quem grita sou eu
O enganado no passado
Preterido no presente
Sou eu quem grita sou eu
Sou eu meu irmão aquele
Que viveu na prisão
Que trabalhou na prisão
Que sofreu na prisão
Para que fosse construído
O alicerce da nação
O alicerce da nação
Tem as pedras dos meus braços
Tem a cal das minhas lágrima
Por isso a nação é triste
É muito grande mas triste
É entre tanta gente triste
Irmão sou eu o mais triste

A minha história é contada
Com tintas de amargura
Um dia sob ovações e rosas de alegria
Jogaram-me de repente
Da prisão em que me achava
Para uma prisão mais ampla
Foi um cavalo de Tróia
A liberdade que me deram
Havia serpentes futuras
Sob o manto do entusiasmo
Um dia jogaram-me de repente
Como bagaços de cana
Como palhas de café
Como coisa imprestável
Que não servia mais pra nada
Um dia jogaram-me de repente
Nas sarjetas da rua do desamparo
Sob ovações e rosas de alegria

Sempre sonhara com a liberdade
Mas a liberdade que me deram
Foi mais ilusão que liberdade

Irmão sou eu quem grita
Eu tenho fortes razões
Irmão sou eu quem grita
Tenho mais necessidade
De gritar que de respirar
Mas irmão fica sabendo
Piedade não é o que eu quero
Piedade não me interessa
Os fracos pedem piedade
Eu quero coisa melhor
Eu não quero mais viver
No porão da sociedade
Não quero ser marginal
Quero entrar em toda parte
Quero ser bem recebido
Basta de humilhações
Minh'alma já está cansada
Eu quero o sol que é de todos
Ou alcanço tudo o que eu quero
Ou gritarei a noite inteira
Como gritam os vulcões
Como gritam os vendavais
Como grita o mar
E nem a morte terá força
Para me fazer calar.
Organização Negra Nacional Quilombo ONNQ 20/11/1970 –
quilombonnq@bol.com.br

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