domingo, 21 de setembro de 2008

PEDAGOGIA AFROCENTRADA

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Poesta, Pan-africanista, Afrocêntrico  E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br

Desde implementada a lei 10.639, e posterior reformulação na lei 11.645, universidades, escolas e movimentos sociais buscam alternativas e novas práticas pedagógicas para sua implementação. Dirimam respostas de melhor obter sucesso na elaboração de material didático, como dizem, contemple os diversos falares brasileiros.
Entretanto, não se deve omitir que a história da pedagogia e suas práticas nunca contemplaram os africanos no Brasil. Na elaboração dos diversos materiais, os quais vêm a meu conhecimento, noto a falta de concepções afrocentradas. Não nego, contudo, as contribuições e propostas para a formação de uma educação crítica realizada por educadoras e educadores discordantes da educação privilegiada aos valores eurocêntricos.
Mister ressaltar que desde a década de 80 do século passado além de mim outros educadores e educadoras na Bahia voltaram as suas preocupações para um ensino direcionado a África, necessário a formação do nosso povo, a saber: Ana Célia, Valdina Pinto, Arany Santana, Jorge Conceição, Manoel Almeida e entre outros.
Entre os poucos evento e palestras, foi ministrado um curso no CEAO (Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia) em 1986 que ampliou a visão dos conhecimentos acerca do continente africano, sendo um dos professores, ministrando a matéria geografia da África, Jorge Conceição, nome que não deve ser esquecido na história da militância preta no Brasil quando trabalharmos os estudos africanos e propostas alimentares necessários ao reencontro da ancestralidade.
Há um desconhecimento ou omissão da história recente do Movimento Negro Brasileiro acerca de diversas conquistas das décadas de 80 e 90 do século XX, especialmente no que concerne a propostas educacionais, decisórias na transformação do agir da sociedade brasileira e resultou em um movimento negro mais consistente e aguerrido. Hoje as propostas educacionais são a continuidade de discussões e trabalhos feitos por mulheres e homens pretos que enfrentaram a academia de valores europeus afirmando que a educação era excludente e racista, entre esses nomes se destacam o de Manoel de Almeida Cruz e de Ana Célia Silva, a qual na minha concepção, é uma das maiores intelectuais que marcou e marca a história da educação nesse país.
Na resistência de elaboração de propostas educacionais a contribuição de um amigo já falecido que ousou discutir uma nova fórmula pedagógica, deve ser sempre relembrada: Manoel de Almeida Cruz. Publicou em 1989, ALTERNATIVAS PARA COMBATER O RACISMO SEGUNDO A PEDAGOGIA INTERÉTNICA.Manoel elaborou um projeto de pedagogia que deve ser discutido e lembrado por educadores e militantes pretos mais jovens, uma proposta revolucionária para a época e nos traz ainda hoje reflexões, apesar de falhar em não ter uma dinâmica afrocentrada, foi um marco feito há 19 anos.
Não foi compreendido por diversos setores do Movimento Negro, inclusive considero que há ainda um autofagismo que deve ser discutido e curado entre nós. E faltou-lhe o apoio necessário dos setores acadêmicos em uma maior divulgação. A lembrança de Manoel Almeida nos mostra a capacidade que temos de gerir os nossos caminhos, foi ela um marco advindo de um sociólogo preto sem mídia, poder e dinheiro. Leia mais sobre a obra de Manoel Almeida.
No que concernem as propostas pedagógicas, o ensino da história é fundamental como base de iniciação de pressupostos de encaminhamentos. A história por ter sido manipulada e mascarada tornou-se objeto de questionamentos no âmago de formação educacional, permitindo rever normas há muito inquiridas em uma sociedade herdeira de um modo de produção escravagista e conseguintemente anti-preto e anti-África.
As diversas escolas pedagógicas não contemplam as necessidades de uma população afro-diasporica no caminho de afirmação como povo, porque não há um reconhecimento positivo da nossa herança africana e, se trabalhou de diversas formas que a herança fosse esquecida na divulgação de uma sociedade sem conflitos, de um povo miscigenado, morenado, mulatado, de diversas colorações epiteliais, sem identidade e sem perspectiva afirmativa, restando o seu encontro da falsa felicidade no espelhar e desejar se apropriar do passado do seu escravizador e renegar o seu passado histórico. Foi este ato pedagógico bem planejado objetivando que ficássemos alienados, o qual não obteve êxito pela reação especialmente através de educadores e educadoras pretas, e não posso deixar de citar na minha formação de militância a saudosa Bia (Maria Beatriz do Nascimento) a qual considero a minha mentora na luta contra a discriminação racial e inúmeras conversas e encontros com a saudosa Lélia Gonzalez.
No momento que a percepção dos estudantes é aguçada, trabalhada, provocada na afrocentricidade há o encontro dentro do âmago e surgem os questionamentos de que algo está errado, e a criticidade permite a introjeção analítica de como são vistos na sociedade brasileira, e concomitantemente aos educadores e educadoras buscarem alternativas de uma nova visibilidade real da sua africanidade. Ocorre apenas quando os educadores e educadoras renascerem na sua pretitude, sendo este é o maior desafio na educação.
Alguns questionamentos os educadores e educadoras pretas necessitam refletir quando se deparam com esses desafios:
- Como educar na afrocentricidade se ainda estou embranquecido nos meus conceitos pedagógicos?
- Como educar na afrocentricidade se ainda vejo os estudantes pretos com os olhares discriminatórios?
- Como educar na afrocentricidade se ainda repito os conceitos de que os estudantes pretos são incapazes?
- O que posso fazer e como procurar ajuda se ainda não me encontrei na minha africanidade e tenho que ser o condutor-educador de formação de consciências de crianças, jovens e adultos que como eu sou o próprio instrumento de libertação?

Estas perguntas e outras deveriam ser feitas por todo educador e educadora preta que recebe os novos desafios educacionais e se compromete em transformar a escola como força-motriz geradora de mudanças sociais; apesar de ter que enfrentar oposições constantes de mentes escravizadas.
As idéias perpassadas de que somos somente um povo originário do tráfico africano, demarca a nossa história criando uma poderosa mentira e negação de milhares de anos formativos de desenvolvimento africano e afro-diásporico civilizatório, outrossim, faz com que haja a idéia de uma simples adequação ao modelo educacional vigente, o qual afirma as diferenças e dessemelhanças, com um único padrão copiado e defendido pelas elites descendentes de escravizadores: o modelo educacional branco.
As propostas “inclusivas” no currículo escolar, na concepção de muitos educadores, perpassam apenas com participações de danças, cantos e manifestações do lúdico, que de longe não contemplam integralmente a verdade histórica do resgate da afrocentricidade da educação e filosofia educacional afrocentrada, a qual poderá urgentemente reformular o cerne metodológico-histórico-pedagógico. Apenas afirmam que nunca estivemos dentro do modelo educacional vigente e mais uma vez a tenacidade de militantes pretos tem que fazer a diferença, apesar de que falta o interesse maior de educadores e educadoras pretos e pretas formados no academicismo ocidental e desconhecem que foram as maiores vitimas do racismo, sendo educados como reprodutores da dominação e da escravização mental reproduzida nas salas de aula, principalmente através dos livros didáticos base da formação na infância os quais ainda continuam nas salas de aula. Um bom início de desconstrução é ler os livros da Profa. Dra. Ana Célia Silva da UNEB (Universidade Estadual da Bahia), especialmente “A discriminação do negro no livro didático” e “A representação social do negro no livro didático: o que mudou?”Não há mais uma proibição normativo-pedagógica de trabalhar a história e a afrocentricidade como o caminho restaurador das mentes dominadas por valores eurocêntricos; existe o medo das mudanças de se olhar a si mesmo como um educador-condutor da liberdade e, não um escravizado-condutor da paidagogia helênica.
Ainda é totalmente questionável a apresentação de discursos e práticas de educadores pretos e brancos, quando problematizam e propõem alternativas para a formação dos estudantes, desconhecendo a história do saber, o inicio da capacidade humana de construir conhecimento. Simplesmente recorrem à pedagogia grega, como o início estrutural e formativo da educação no planeta. A pedagogia não é originária da Grécia, apesar da palavra paidagogia ser de origem grega. O início do saber e de diversas maneiras de educar é africana.
Os gregos aprenderam com os africanos que a educação constituiria o início de todo esforço humano. Ela seria a justificativa ao mesmo tempo da existência individual e do grupo. A palavra educar (em Latim, educare) é uma tradução do grego paidagogia: pais (criança) e ago (conduzo), que significa a educação integral da pessoa: física, estética, moral, intelectual e religiosa. A própria percepção helênica, apesar de ser repetida por pedagogos e pedagogas não é desenvolvida na formação educacional, e temos que ressaltar que o conhecimento grego foi uma cópia dos conhecimentos de Kemet (Egito) e dos primeiros pretos que desenvolveram a civilização em terras da Grécia. Nas cidades-estados da Grécia ensinavam-se concepções escravagistas, sexistas e patriarcais, bem diferentes do saberes africanos ancestrais e matriarcais.
As mentes estão infectadas pelas mentiras eurocêntricas, dos seus racionalismos e cartesianismos que apregoam nas formações acadêmicas a incapacidade africana e ensinam com desenvoltura o “saber” surgido na Grécia e desenvolvido no mundo ocidental branco. Se a base formativa do conhecimento, do saber, é helênica, e os métodos pedagógicos usados na escola originam-se de educadores e filósofos ocidentais, nada como se adequar a estas escolas e adaptar as alternativas educacionais ao pensamento do construtivismo de Jean Piaget e de Emilia Ferrero, e de outras concepções européias. Aflorar nas discussões as propostas de Paulo Freire como metodologias a serem inseridas nos projetos escolares, sem maiores contestações ao que o povo preto entende e almeja como construção de uma liberdade educacional afrocentrada.
As alternativas pedagógicas atualmente defendidas são de uma simplória inserção no currículo escolar, especialmente através do ensinamento da história sem criticidade e moldada em autores e autoras que entendem a história africana como uma simples contribuição na formação da sociedade brasileira, infelizmente está obtendo sucesso, aliás, tornando-se verdadeira e validada pela maioria de educadores e educadores desconhecedores da afrocentricidade, cujo desenrolar de ensinamentos é de contribuir na difusão de conhecimentos de inclusão, com ensinamentos de uma África colonizada e distribuída para os seus algozes após a conferência de Berlim. Uma África que se restringe ao Golfo de Benin e a Angola, esquecendo-se que o tráfico seqüestrou populações de diversões rincões e de múltiplas culturas, inclusive islamizadas. Negando a diversidade cultural africana e sua diversidade através de migrações antes do tráfico que povoou e civilizou regiões diversas em todos os continentes. Recorta-se o conhecimento de um continente quase quatro vezes maior do que o Brasil. Nega-se a sua formação como originário de civilizações incluindo a Ásia, Oceania, Américas e Europa antes do surgimento das populações brancas.
É de práxis o entendimento dos diversos questionamentos realizados por educadores e educadoras militantes do Movimento negro sobre o modelo educacional vigente no Brasil, deram o primeiro passo de negação e contestação das práticas pedagógicas eurocentradas. Disseram não e propuseram novos modelos, mas faltou nessas propostas a afrocentricidade e esse é o desafio. Conclui-se da discriminação na educação brasileira e caminhos novos teriam que ser tomados de inserção da população preta, de dar visibilidade, de se conhecer o que chamam de “contribuição do negro” na formação da sociedade brasileira. Mas, não houve ainda a formulação de uma pedagogia afrocentrada, pois a afrocentricidade é um renascer preto da consciência, alterando-se o foco de aprendizado europeu que busca a mera inclusão discursiva, baseada na democracia racial, a proposta da afrocentricidade caminha-se para a PRÁTICA de resgate e a vivência histórica da África, a mãe-geradora do conhecimento da humanidade. Temos sempre quer dizer aos estudantes quando ministramos aulas em todas as áreas: A África é a matriz de todo o conhecimento humano.
A pedagogia eurocêntrica é inserida a todo o momento através da comunicação especialmente do poder televisivo. A mídia tornou-se o grande caminho de desconstrução das diversas tradições da oralidade ainda existentes, e paradoxalmente de formação que invade os neurônios e afirma o projeto mistificador de uma pedagogia inclusiva de direitos a todos, através de programas beneficentes de leis como cotas, retirando a palavra reparação da escravidão.
A idéia de diversidade cultural, pluriétnica, multifacetada, demonstra etimologicamente e na praticidade que a maioria da população preta está fora do poder real, apesar de que aspectos da ludicidade sejam admirados e colocados como apresentação para turista ver e principalmente para gerir rendas, as quais não são investidas diretamente no desenvolvimento econômico-educacional dos seus atores e atrizes, que vivem nos chamados guetos e periferias, em uma geopolítica perversa e excludente, como o caso do carnaval, capoeira, acarajé, etc.
As manifestações culturais de protesto através da musicalidade, como o reggae, rap, hip-hop, as artes como o grafite e vestimentas não européias são consideradas marginais. Inclusive em um estado como a Bahia a calça jeans tornou-se obrigatória como parte do uniforme escolar, sem preocupações maiores do desconforto de um clima tropical.
A Pedagogia eurocêntrica e a sua história demonstram a falta de respeitabilidade com o outro, pois no ínterim, há a idéia de superioridade racial das nações que impuseram um modelo de vida e de pensamento, como o primevo, real e verdadeiro. O caminho que temos é a prática do panafricanismo e na difusão dos ensinamentos afrocentrados, especialmente na reescrita da história africana e afro-diásporica. Na publicação de material didático que possa suprir as dificuldades encontradas por educadoras e educadores questionadores do material didático das grandes empresas. Na formação de educadores e educadoras que possam trabalhar uma pedagogia afrocentrada e direcionada a nossa população a qual desde a escravização esteve fora do interesse formativo e somente por pressões do Movimento Negro conseguimos algumas vitórias, sendo o momento de ampliar a luta pela educação e de se planejar uma pedagogia afrocentrada.
Temos que explicar aos coordenadores pedagógicos que estão com as mentes voltadas para as experiências norte-americanas, européias e israelenses de educação, e seguem esses modelos tentando-os dar aplicabilidade para a formação de um novo pensar educacional, que não conseguirão êxito porque continuarão a contribuir diretamente na concepção de superioridade européia de tentar explicar a história e a educação suas metodologias e olhares não pretos, apesar de falarem dos pretos. Temos respostas de gerir uma pedagogia afrocentrada de resgate da auto-estima e de retirar o véu branco que paira sobre a história preta formativa do planeta.
Temos que começar a trabalhar conjuntamente para a realização de encontros educacionais onde todos e todas que acreditam na afrocentricidade e no panafricanismo objetivem a maior difusão de um novo modelo educacional libertador e formulem projetos que possam gerir nos meios populares essas mudanças.
A educação é o melhor caminho na inserção de transformações imediatas que ampliem os horizontes na construção de um projeto político-libertador dos descendentes de africanos no Brasil.

2 comentários:

Kwevodun disse...

Oi, tudo bem?
Li a palavra ancestralidade nesta postagem. Acredito que um dos principais valores de nossos ancestrais africanos é exatamente a ancestralidade. O que não consigo conceber são negros que, negando sua ancestralidade, pois regeitam o culto seus orixás, principais símbolos da resistência negra não só durante a escravidão, como durante a perseguição policial que o Candomblé sofreu até final da década de 70, vêm hoje esses negros cristianizados, cultuando um mito (Jesus) criado em cima de personagens reais (Sócrates) e outros vivenciados na atitude humana (Exu). Jesus é imagem e semelhança de Sócrates e se Ele transformou a água em vinho, Exú a fi okutá di pó yó (Exú transformou a pedra em sal), além de que, Yeshua seria pronuncia do nome jESÚs em yorubá, onde se tirando a letra "J" e o último "S" deste nome, leremos EXÚ, o que torna tudo possível. O primogênito de Olodumare.
Negar a ancestralidade, é negar a existência.
Um abraço!

LúChiyere disse...

Olá!!
Muito bom este artigo! Ele é muito importante para mim pessoalmente que sou filha de um igbo em SP e que trabalha com a questão do imigrante africano.
Ótima contribuição para discussões e para maior conhecimento sobre a nossa histórias negra! Grande abraço!

PRETAS POESIAS

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