sábado, 4 de maio de 2013

O MENINO E A VOVÓ



  










Por Malachiyah Ben Ysrayl - Historiador e Hebreu-Israelita
Skype: lindoebano
Facebook: Walter Passos


Todos os dias, ao cair da tarde, uma idosa bem preta de lenço branco na cabeça, saia comprida e com um andar sereno, descia a rua apoiada em sua bengala na mão direita, sempre sorridente.


Ao avistá-la, as crianças paravam de brincar de pique, bandeirinha, amarelinha, quebra-pião, em um período onde ainda se podia brincar nas ruas sem os atrativos da vida moderna, e, respeitosamente, paravam e diziam:


- A benção Vovó!


Vovó a todos abençoava e seguia seu caminho para onde não sei.


Foram anos e anos, a Vovó descendo a rua e todos os dias o mesmo ritual, uma coisa bonita, a relação de respeitabilidade entre as crianças e a idosa, que conhecia rezas e chás. Os adultos comentavam que ela tinha uma Casa de Umbanda; as crianças a consideravam um anjo de pessoa, a querida Vovó.


Certo dia, uma das crianças, uma daquelas que mais gostava da Vovó, um menino preto de seis ou sete anos de idade, que corria atrás dela para pedir a benção, foi levado a uma igreja protestante e se tornou, como se dizia antigamente, um Bíblia ou um Crente, época em que os protestantes eram considerados pessoas de bem.


Na Igreja, o menino ouviu também falar da Vovó, mas não da maneira que ouvira na rua ou dos adultos.


Ele se sentia uma pessoa diferente das outras, mais importante, deveria ser “uma luz no mundo”, como “um sal na terra”, um diferencial. Colocam essas coisas nas cabeças das crianças. 


Certo dia, em uma discussão com um menino de cor branca, também crente, de outra denominação, ele cheio de orgulho disse:


- Não vou brigar com você! Sou crente e crente não briga com irmão.


Então, ele ouviu rispidamente do “irmão”:


- Preto só entra na igreja para chamar branco de irmão.


O resultado foi desastroso e os “irmãos” brigaram. Brigas de crianças, elas são muito sensíveis as palavras.


Outro dia, a maioria das crianças brincando, quando mais uma vez, a vovó desce a rua e todos pedem a benção, exceto o neófito, o menino preto, o crente. Os colegas estranharam porque ele era o mais animado para ser abençoado.


Ao ser indagado:


- Por que você não pediu a benção da Vovó?


Ele, tristemente e cabisbaixo, respondeu:


- Na Igreja, disseram que Vovó é do povo que segue a religião do Diabo.



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Um comentário:

Mercedes disse...

Que triste historia.

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