sábado, 5 de novembro de 2011

HISTÓRIAS CRUZADAS - EMPREGADAS PRETAS E AS CASAS BRANCAS


Por Ulisses Passos.

Bacharel em Direito (Estácio de Sá/FIB),
Acadêmico de Línguas Estrangeiras da UFBA,
Pan-Africanista.
Pesquisador das relações étnico-raciais e jurídicas.
Pseudônimo: Aswad Simba Foluke.
E-mail: ulisses_soares@hotmail.com.
Facebook: Ulisses Passos.






O objetivo desse artigo é indicar ao publico do blogger BAYAH o filme Histórias Cruzadas (The Help, USA. 2011), destacando seus principais elementos e introduzindo reflexões acerca do papel da afro-americana empregada domestica no Sul dos Estados Unidos em meados da década de 60.

O Filme

The Help, romance escrito pela estadunidense Kathryn Stockett, foi adaptado ao cinema com nome homônimo (Histórias Cruzadas, no Brasil) pela Dreamworks e lançado no dia 12 de agosto deste ano.

O filme, a exemplo do livro, busca retratar a relação racialista entre as empregadas domésticas afro-americanas e as brancas para as quais elas trabalhavam, em Jackson no Mississipi, durante os anos 60.

O enredo se desenvolve através da perspectivas de duas empregas domésticas (Aibileen e Minny) e de Skeete, uma jovem branca recém-graduada que sonha em ser escritora. Ao perseguir seus objetivos, ela perde Demetrie, a empregada negra que foi seu porto seguro em uma infância fraturada pelas separações e ausências dos pais, após uma atitude arbitraria de sua mãe.

Motivada por esse fato, Skeete decide pesquisar e entrevistar mulheres pretas que servem e cuidam das “boas famílias cristãs do sul” dos Estados Unidos. Apesar das proibições legais, das ameaças e da vigilância da sociedade racista em Jackson, Skeeter consegue o apoio de Aibileen (Viola Davis), governanta de um amigo, que por sua vez conquista a confiança de outras mulheres que têm muito que contar. No entanto, relações são forjadas e irmandades surgem em meio à necessidade que muitos têm a dizer antes da mudança dos tempos atingirem a todos.





Análise da Obra

O filme busca retratar através do olhar das empregadas afro-americanas a sociedade racialista do sul dos Estados Unidos e da paixão fervorosa de uma jovem branca americana em ser escritora.

A estrutura social onde se desenvolve a obra é marcada pela desigualdade formal, através de um conjunto de leis chamados Jim Crow, e material, através do racialismo segregacional e ideológico intenso. Para entender com profundidade as relações apresentadas pelo filme, é necessário compreender o complexo sistema racial estadunidense, antes e depois da luta pelos Direitos Civis.



Para entender mais sobre o Jim Crow, clique aqui.

O filme, em si, consegue retratar a opressão vivenciada pelas domésticas afro-americanas, através de recortes bem elaborados do ponto de vista social e psicológico, destacando sutilmente a violência gratuita dos homens negros, não retratados na história, e a continuidade da posição socialmente estigmatizada de geração em geração daquelas mulheres.

Antes de concluir, todavia, destaco a crítica realizada pela Associação de Mulheres Pretas Historiadoras (tradução livre de The Association of Black Women Historians - ABWH) que em comunicado oficial ressaltou que "Apesar dos esforços para comercialização do livro e do filme e seu objetivo em contar um progressivo triunfo sobre a injustiça racial, The Help distorce, ignora, e banaliza as experiências das pretas empregadas domésticas”.

A crítica acima se baseia nos estudos realizados pela ABWH, cujo filme apresenta um retrato quase uniforme dos homens negros, como cruéis ou ausentes, além de velar os constantes assédios sexuais dos patrões brancos sofridos pelas empregadas afro-americanas.

Por fim, entendo proceder à crítica realizada pela ABWH, mas ressalto que nem o livro, nem o filme se propõem a discutir profundamente os recortes dados pelo ABWH, mas retratar a visão de Kathryn Stockett, uma branca norte-americana, acerca das relações étnico-raciais, utilizando para isso as histórias de mulheres pretas, mantidas no anonimato.

Assim, o blogger BAYAH deseja a todos e todas boas reflexões e um ótimo filme.




quinta-feira, 2 de junho de 2011

OS CONFLITOS DE BETA ISRAEL COM OS CRISTÃOS ETÍOPES – PERSEGUIÇÃO MILENAR AOS HEBREUS NA ETIÓPIA – IIª PARTE


Por Walter Passos
, Historiador,Panafricanista,
Afrocentrista e Teólogo.
Pseudônimo: Kefing Foluke.
E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br

Msn: kefingfoluke1@hotmail.com

Skype: lindoebano
Facebook: Walter Passos.











"Eu sou preta, e formosa, ó
filhas de Jerusalém, como
as tendas de Quedar, como as
cortinas de Salomão ". Cantares de Salomão 1:5.



A modelo Esti Mamo nasceu em 1983 em Chilga, no noroeste da Etiópia. Ela é membro da comunidade Beta Israel.




Dando continuidade ao artigo anterior sobre a Beth Israel (Casa de Israel) notamos que há um desconhecimento de alguns irmãos e irmãs de como a tradição oral e a história documental interpretam o surgimento dos hebreus na Etiópia. Sabemos que os melhores historiadores sobre Beta Israel são os membros daquela comunidade, porque mantém tradições vivas comprovadas através da oralidade e um pertencimento milenar oriundo da tradição mosaica que não deixa dúvidas da sua originalidade, apesar de historiadores brancos tentarem colocar em dúvida uma das mais antigas comunidades hebréias existentes no mundo. Dúvida esta desfeita pelos próprios rabinos do judaísmo (askenazis e sefarditas) os quais sem saída tiveram discussões em exaustivas reuniões e chegaram à conclusão: A Casa de Israel é composta de verdadeiros hebreus.

Entre algumas hipóteses que criaram sobre Beta Israel, uma tenta colocar em dúvida a sua origem hebraica, as outras três informam a sua provável origem, sendo a nº 1 aceita pela oralidade da comunidade, a saber:

(1) O Beta Israel são descendentes da tribo israelita de Dan.
(2) São descendentes de Menelik I, filho do rei Salomão e da rainha de Sabá.
(3) São descendentes dos cristãos etíopes e de “pagãos” que se converteram ao judaísmo séculos atrás.
(4) São descendentes de hebreus que fugiram de Israel para o Egito depois da destruição do Primeiro Templo em 586 a.C, e acabaram por se instalar na Etiópia.

As hipóteses um, dois e quatro se completam na própria explicação da comunidade, corrobora o histórico de suas migrações de Israel. A tradição oral, preservada pelos sacerdotes da comunidade, explica que houve uma migração dos filhos de Israel para o exílio no Egito, após a destruição do Primeiro Templo pelos assírios no ano de 586 a.C. e também no exílio babilônico. Estes hebreus permaneceram por centenas de anos no Egito até o reinado de Cleópatra que a auxiliaram na guerra contra Cesar Augustus, sendo derrotados na guerra, eles fugiram para a Arábia do Sul, posteriormente foram para o Yemen; outros se dirigiram para o Sudão até chegarem à Etiópia.

Alguns membros da comunidade de Beta Israel afirmam que as suas origens são Danitas contemporânea a Moisés, quando alguns Danitas partiram após o Êxodo e mudaram-se para sul, até a Etiópia. Eldad, o Danita, realmente descreve ao menos três ondas de imigração israelita para a esta região, criando outras tribos israelitas e reinos, incluindo as primeiras levas que se instalaram em um remoto reino da "tribo de Moisés": este foi o mais forte e mais seguro reino hebreu de todos, com aldeias agrícolas, cidades e grande riqueza. É importante ressaltar que houve diversos reinos israelitas na África os quais não são citados porque são provas incontestes da cor dos descendentes de Avraham (o pai de muitas nações pretas).

Os hebreus na Etiópia mantiveram os seus costumes da época mosaica sem influência do judaísmo (não existe esta palavra nos escritos sagrados) e seus talmudes (interpretações da lei criada pelos askenazis). As tradições de Beta Israel estão baseadas no Torá que está escrito em pergaminhos e outros livros considerados sagrados como o de Enoque, seus costumes são bem antigos e muitos deles somente praticados pela comunidade e eram desconhecidos pelos chamados judeus (origem européia) atuais.

Beta Israel viveu no Norte e Noroeste da Etiópia, em mais de 500 vilarejos espalhados por um vasto território, entre populações muçulmanas e populações cristãs. A maioria se concentrava na área em torno do lago Tana e ao norte no Tigre, Gonder Wello e regiões, e entre os Semien, Wolgait, Dembia, Segelt, Lasta, Quara, Belesa, e um pequeno número viveu nas cidades de Gonder e Adis Abeba.

Os hebreus da Etiópia sempre foram considerados estrangeiros, pessoas estranhas a região, por manterem vivos os costumes ancestres do mosaismo, foram discriminados e perseguidos, tendo resistidio por milhares de anos. Tanto assim que o termo falasha significa estrangeiros.

O Kebra Nagast, relato escrito em Ge'ez das origens da linha salomônica dos Imperadores da Etiópia, é legitimamente questionado pela casa de Beth Israel. O objetivo do livro é proclamar a Glória dos Reis. Não a glória dos reis hebreus, mas a glória dos reis cristãos, escrito, em sua maioria, provavelmente no século XIV para deslegitimar a dinastia Zagwe, e proclamar a dinastia salomônica que é uma dinastia cristã reverenciada como legitima na Etiópia e pelos grupos rastafáris nas Américas, considerada pelo Beth Israel como uma dinastia usurpadora do trono hebreu e transformadora das tradições ancestrais. O Kebra Nagast é considerado uma falácia pelos verdadeiros hebreus.

A resistência dos hebreus após a conversão de Ezana ao cristianismo (religião branca européia) realizado por Frumêncio foi ativa, onde se recusaram a adotar o cristianismo e ocorreu uma guerra civil entre os hebreus e os cristãos, os hebreus migraram para a serra de Siemen e fundaram o Reino de Siemen (Reino dos Gideões) na parte oeste-norte da Etiópia, cujo primeiro rei foi Fineas.

As guerras foram constantes por causa das perseguições do império cristão etíope. No século nono, durante uma batalha, o rei hebreu foi morto, assumindo o reinado a sua filha que se tornou a imperatriz hebréia Judith que aliada ao povo de Agaw investiu contra o império axumita no ano de 960. As tropas da confederação das tribos de Israel e Agaw, lideradas pela Rainha Judith, invadiram a capital de Axum conquistando-a e destruindo-a, queimaram inúmeras igrejas e impuseram o Estado hebreu sobre Axum. Além disso, o trono Axumita foi arrancado e as forças da Rainha Judith saquearam e incendiaram o mosteiro de Debre Damo, que a época era um tesouro e uma prisão para os parentes do sexo masculino do imperador da Etiópia, matando todos os herdeiros potenciais do imperador. A rainha hebréia Judith governou por 40 anos, tendo os seus sucessores governados por mais de 400 anos toda a Etiópia.


"CAMPO DE JUDITH": uma área repleta de ruínas de prédios destruídos, que segundo a tradição foram arruinadas pelas forças da Rainha Judith.


A Idade de Ouro do reino de Beta Israel ocorreu, de acordo com a tradição etíope, entre os anos 858-1270, na qual o reino hebreu floresceu. Durante esse período, os israelitas espalhados pelo mundo ouviram falar pela primeira vez as histórias de Eldad ha-Dani que aparentemente visitou o reino. Marco Polo e Benjamin de Tudela também mencionaram um reino israelita independente na Etiópia nos escritos desse período. Este período termina com a ascensão da dinastia cristã salomônica.


No ano de 1270, os cristãos assumem de novo o poder e longas guerras começam, e no reinado do imperador cristão Yeshaq (1414-1429) o reino hebreu é invadido e dividido em três províncias, sendo forçada a conversão de muitos israelitas ao cristianismo, sob a ameaça de que ou se convertiam ou perdiam as terras. Yeshaq decretou: "Aquele que é batizado na religião cristã pode herdar a terra de seu pai, caso contrário, deixá-lo ser um Falāsī". Isso pode ter sido a origem do termo "Falasha" (falāšā, "andarilho", ou "pessoa sem-terra"). Neste período os hebreus foram considerados pessoas de segunda categoria, inferiores aos cristãos.

Os israelitas não se curvaram as humilhações e a apropriação de suas terras pelos cristãos e em 1450 após reativarem o exército invadiram o império cristão etíope, mas foram derrotados, resultando no massacre durante sete anos de milhares de hebreus.

Quando os muçulmanos invadem a Etiópia na sua guerra de expansão pelo território africano, os hebreus fazem um pacto de paz e auxiliam os exércitos cristãos contra o inimigo do Islã, sendo derrotados pelos muçulmanos e sofrendo mais uma vez um violento massacre das tropas otomanas e do sultanato de Adal. Como apoio do império cristão axumita e de seus aliados portugueses e das ordens dos jesuítas conseguem expulsar os muçulmanos, mas, com o auxílio das forças de Portugal e da Ordem dos Jesuítas, o império etíope, sob o domínio do imperador Gelawdewos, invadiu o reino hebreu e executou o rei Jorão. A conseqüência dessa traição dos cristãos foi que o reino hebreu se tornou restrito a região das Montanhas Semien.

Com a morte de Jorão, o rei Radi assume o trono hebreu e faz guerra contras o imperador cristão Menos, conseguindo reforçar as suas defesas das montanhas Semien. No governo do imperador cristão Sarsa Denge, o reino hebreu é novamente invadido e o rei hebreu Gósen e muitos de seus soldados foram executados. O desespero dos hebreus levou a muitos membros do reino a cometer o suicídio. Em 1627, o imperador Susenyos invade o reino hebreu e após derrotá-lo, anexa-o ao império etíope.

"Os homens e mulheres Falasha lutaram até a morte das alturas escarpadas da sua fortaleza... lançaram-se sobre o precipício ou cortaram a gargantas uns dos outros ao invés de serem presos, era um Masada Falasha. [Os líderes rebeldes] queimaram toda a história escrita dos Falasha e todos os seus livros religiosos, era uma tentativa de erradicar para sempre a memória hebraica da Etiópia” "(Righteous Judeus, AAEJ Imprensa, 1981).

Os hebreus foram capturados e vendidos como escravos, forçados ao batismo cristão, e tiveram negado o direito à própria terra. A independência de Beta Israel foi retirada, assim como ocorreu com seus irmãos israelitas em Massada, séculos antes em Israel.


Alpha Blonde - Massada


Continua no próximo artigo.

Shalom!



sábado, 21 de maio de 2011

OS CONFLITOS DE BETA ISRAEL COM OS CRISTÃOS ETÍOPES – PERSEGUIÇÃO MILENAR AOS HEBREUS NA ETIÓPIA.



Por Walter Passos, Historiador,Panafricanista,
Afrocentrista e Teólogo.
Pseudônimo: Kefing Foluke.
E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br
Msn:kefingfoluke1@hotmail.com
Skype: lindoebano
Facebook: Walter Passos.

É deveras complicado para muitas pessoas entender as interpretações histórico-religiosas sobre a Etiópia. O desconhecimento das populações do Vale do Nilo proporciona uma historiografia e analises étnico-sociais duvidosas, obtusas e confusas difundidas por escritores e pensadores eurocentristas, acadêmicos pretos, estudiosos religiosos e grupos afro-americanos.

Durante toda história etíope, advieram diferentes interesses econômicos que conseqüentemente geraram conflitos pelo poder político, tais conflitos alteraram a tradição oral e as concepções do sagrado. São distintas cosmovisões anacrônicas em um mesmo território e sempre estiveram em conflito, apesar de no primeiro olhar parecerem estar entrelaçadas. Sendo assim, é muito importante a compreensão desses ethos pelos afro-diaspóricos, principalmente os grupos que se utilizam daquela ancestralidade na fundamentação de seus posicionamentos filosóficos e religiosos.

A Etiópia, décimo maior país da África em extensão territorial, abrange cerca de 1.138.512 km² e principal constituinte da região conhecida como Chifre da África. É limitada a norte e a nordeste pela Eritréia, a leste por Djibuti e Somália, a sul pelo Quênia e a oeste e a sudoeste pelo Sudão.
A Etiópia é conhecida por suas medalhas de ouro olímpicas, igrejas esculpidas em rochas, o lugar onde se originou o grão de café e por ser um dos locais descritos pela ciência como origem dos primeiros seres humanos.

Há cerca de 80 diferentes grupos étnicos na Etiópia, os dois maiores são: Oromo e Amhara, ambos falam línguas afro-asiáticas. O grupo Oromo (Galla) é aproximadamente 40% da população e concentra-se principalmente na parte sul etíope. Os grupos Amhara e Tigrean correspondem a 32% da população e tradicionalmente dominam a política etíope. O grupo Sidamo vive nos sopés ao sul e nas regiões de savana correspondendo a 9%, enquanto o Shankella compõe cerca de 6% da população e residem na fronteira ocidental. O somali (6%) e Afar (4%) habitam as regiões áridas do leste e sudeste. Os povos do Nilo vivem no oeste e sudoeste ao longo da fronteira do Sudão. O Gurage representam 2% da população, e 1% restante é composto de outros grupos. O Beta Israel (chamados pejorativamente de Falashas e conhecidos como "judeus negros") vive nas montanhas de Simen e atualmente são cerca de 4.500 pessoas, isto porque a maioria dos 140 mil migrou para Israel. Outros grupos minoritários como os Beja vivem na região norte, o Agau no planalto central, e o povo Sidamo na encosta sul e regiões da savana são os remanescentes dos primeiros grupos que habitaram a Etiópia.


FACES OF ETHIOPIA



Entre os diversos grupos que formaram a história etíope, dois nos dão subsídios ao que desejamos pontuar: Beta Israel e os membros da Igreja Ortodoxa Etíope (Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo, que se compõe pelas diversas etnias). E, na Afro – América, os seguidores da filosofia Rastafari que tem como referencial e utopia a Etiópia, pátria espiritual do movimento religioso Rastafari.

Logo, ressalto que não há pretensão em um artigo de um blogger escrever uma tese. O principal objetivo deste texto é iniciar uma discussão para entendermos melhor estas diferenças no território etíope, as causas e conseqüências do exílio dos hebreus de Beta Israel, a formação do cristianismo ortodoxo e a referencia da história etíope por grupos afro-americanos.

BETA ISRAEL

Beta Israel (Casa de Israel), erroneamente chamados de Falashas (estrangeiros), é formada por hebreus que saíram de Israel a milhares de anos atrás e depois de varias migrações se instalaram nas montanhas de Gondar na Etiópia, tendo como referência a terra dos seus ancestrais (Israel), sabedores que não pertencem originariamente ao território etíope.


IGREJA CRISTÃ ETIOPE

A Igreja Cristã Ortodoxa Etíope surge no século IV com a conversão do rei Ezana de Axum, foi um dos mais influentes e poderosos impérios mundiais e um dos primeiros a instituir o cristianismo como religião oficial de Estado. Saiba mais lendo o artigo: AXUM - AS IGREJAS ESCULPIDAS EM ROCHAS NA ETIÓPIA


Ethiopian Orthodox Church Song




RASTAFARI

A filosofia rastafari é pan-africanista, oriunda da interpretação de uma revelação do grande líder Jamaicano Marcus Garvey, tornando-se conhecida internacionalmente a partir da década de 60 do século passado, tendo como um dos principais objetivos a repatriação dos africanos nas Américas. Como disse, a Etiópia é a pátria espiritual do movimento religioso Rastafari.

Como vimos, são períodos linearmente diferentes que em certo momento na história se encontram: o Mosaismo de Beta Israel e o Cristianismo de Ezana criando conflitos de poder, perseguições e no século XX exílio para o primeiro grupo. Por outro lado, o Movimento Rastafari surge após a escravidão nas Américas, intimamente ligado à história da Igreja Cristã Etíope.

Os rastafaris que tem como um dos seus princípios a genealogia salomônica descrita no livro Kebra Nagast, assim legitimam as dinastias etíopes como descendentes diretos de Menelik, filho do rei Salomão e da rainha Makeda de Sabá. Devemos atentar que o Kebra Nagast apresenta Salomão como descendente da tribo de Judá, por isso os rastafaris elegeram o imperador etíope Haile Sellasie, como o Leão de Judá, o Mashiach (Messias). Título e função não reconhecidos pelo próprio monarca, um fervoroso seguidor da Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo.

Peter Tosh "Rastafari Is"



A Etiópia tem laços históricos com as três mais importantes religiões do mundo que se dizem abraâmicas. Foi um dos primeiros países cristãos no mundo, tendo adotado oficialmente o cristianismo como religião do Estado no século IV d.C. Mantêm algumas observâncias do Tora, como: a guarda do sábado, a circuncisão masculina após o nascimento e regras alimentares,entre elas, a proibição da ingestão de carne de porco. Além disso, as mulheres da Igreja Ortodoxa Etíope são proibidas de entrar nos locais de adoração quando menstruadas, cobrem a cabeça com um lenço e sentam-se separadas nas igrejas, os homens sempre à esquerda e as mulheres à direita (quando de frente para o altar).


Um importante diferencial da Igreja Etíope e de outras igrejas cristãs é a tradição de que Menelik levou a Arca da Aliança para a Etiópia. Sendo cristã compactuam com a concepção européia de um messias branco (Jesus Cristo) e não compactuam com a filosofia Rastafári sobre Haille Selassie como sendo o Messias. Na fé dos Rastas, Haile Selassie é reverenciado como Jah Ras Tafari I, o Messias, o “Cristo Negro” que ascendeu ao Trono do Rei Davi em Adis Abeba, capital da Etiópia.

Em certos escritos e vídeos alguns grupos rastafaris colocam Beta Israel como referência, causando uma enorme confusão.

Deixando essas duas linhas de interpretação da Igreja ortodoxa Etíope e dos Rastafaris, iremos nos centrar no conflito milenar entre a maioria etíope cristã e a minoria hebréia de Beta Israel. É muito importante pontuar que Beta Israel não aceita o Kebra Nagast, concomitantemente, não veio com Menelik conforme os escritos e tradição etíope. Beta Israel, segundo a sua própria oralidade, é da tribo de Dan (danitas) não são da tribo de Judá (judeus). Não aceitam a Trindade, ao contrário, são monoteístas, e tem como base de fé o Torá e o Tanach. Ignoram a tradição etíope e a filosofia rastafari. É importante ressaltar, que Beta - Israel e os hebreu-israelitas nas Américas não se utilizam do termo JAH, porque não existe no Torá e no Tanach. O nome do Eterno é YHWH e em muitos trechos do Tanach é citado como YAH.

Não confunda a tribo de Judá e a dinastia salomônica com Beta Israel que é da tribo de Dan. Não esqueçam Jacó (Israel) foi pai de 12 filhos, e originou as 12 tribos de Israel, sendo a tribo de José, dividida em duas: Mannasés e Efraim. Beta Israel e a dinastia salomônica foram para a Etiópia em momentos distintos e por razões diferentes, apesar de serem da descendência de Israel. Beta Israel não aceita como verdadeiro o cristianismo etíope.

Ressaltando mais uma vez, a história dos hebreus (Beta Israel) foi de extrema perseguição desde que o cristianismo chega à Etiópia, com as transformações da tradição oral e as novas concepções de poder criadas pela suposta dinastia salomônica. Neste sentido, no próximo artigo discorremos sobre a negação do Kebra Nagast por Beta Israel e as guerras de sobrevivência dentro da Etiópia dos hebreus da tribo de Dan (Beta Israel), enfrentando guerras violentas contra o império cristão axumita, perseguição do fascismo de Mussolini e vitimas da ditadura etíope, da guerra civil e da fome, até que fugiram retirados por tropas israelitas (askenazis), através da Operação Moisés (1984) e da Operação Salomão (1991).



Shalom!!!

sexta-feira, 13 de maio de 2011

UMBANDA E O DIA 13 DE MAIO - DIA DOS PRETOS VELHOS



Por Walter Passos, Historiador,Panafricanista,
Afrocentrista e Teólogo.
Pseudônimo: Kefing Foluke.
E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br

Msn:kefingfoluke1@hotmail.com

Skype: lindoebano

Facebook:
Walter Passos.


Recordo-me da minha infância, quando crianças pediam a benção a uma idosa da cor de ébano que calmamente andava na rua onde morava, sempre no mesmo horário:

- A Benção, Vovó!

E ela respondia alegremente:

- Que Deus te abençoe, meu netinho.

Era uma zeladora de Umbanda. A Nós não nos interessa sua religião, porque ela demonstrava carinho e amorosidade com todos na mesma medida. Também pedíamos a benção aos padres capuchinhos, por interesse de ganhar laranja, uma benção, uma laranja. Até hoje não sei como aqueles homens idosos possuíam tantas laranjas. Era um pedido de benção interesseira.

Cresci indo a diversas sessões de umbanda, acompanhando o meu irmão que era fotografo na época, e quando já adolescente para jogar capoeira, antes das chamadas giras. Foi um bom tempo e muito aprendizado da diversidade religiosa brasileira. Sempre admirei a umbanda pelas suas propagandas de caridade e ficava impressionado por um dia ter visto um hospital umbandista no bairro de Mesquita - RJ.

Certa feita, ocorreu um fato interessante. Meu pai fora um comunista convicto, admirador da Rússia, de Carlos Prestes e do Partidão. Gostava de nenhuma religião, todavia solicitou a minha mãe que confeitasse um bolo para a festa de homenagem a São Jorge, em um terreiro de Umbanda, atendendo a um pedido de um zelador que era colega dele no Cais do Porto. Meu pai se orgulhava de ver os lindos bolos confeitados pela minha mãe e alegremente construía as suas armações. O bolo para São Jorge foi um dos mais belos que eu vi na vida. Mas, senti que a minha mãe o fez e o confeitou sem mostrar a mesma alegria como naqueles que fazia gratuitamente para as festas na Igreja Presbiteriana de Queimados -RJ, aniversários, batizados e de casamentos de jovens que ela gostava.

Meu pai foi estivador e na infância aprendeu o ofício de carpinteiro. Minha mãe, na época já era presbiteriana, não gostava de comentar o seu passado no candomblé, em Salvador-Bahia. Relatava que foi convidada para ser mãe-pequena. Viveu toda a sua infância, adolescência e inicio da vida adulta freqüentando e convivendo em terreiros de candomblé. O pouco que sei, e nada sei, das cantigas e danças cerimoniais foram mostradas através da minha mãe nos momentos de paciência e recordações. Ela me ensinou que Deus era conhecido por Zambi. Não gostava da Umbanda, achava muito diferente do candomblé e as danças “sem graça”.

Quando fui estudar teologia no Seminário Presbiteriano de Campinas-SP, um grande amigo me convidou para irmos a um centro de Umbanda pregar o evangelho e pela primeira vez vi a maioria dos fieis brancos. Nós entregamos folhetos na entrada daquele templo religioso, e após minutos de “evangelização” o sacerdote, um homem branco, calmo e paciente, nos convidou para entrar e falar da nossa fé. Logo em seguida, perguntou se ele podia ir ao seminário falar da Umbanda. Ficamos sem resposta, agradecemos e nunca mais tive a coragem de distribuir folhetos naquele templo.

Na década de 80 do século passado, a umbanda se transformou em estudos sociológicos dos teólogos protestantes. Apesar de contestações por estudiosos, foi considerada a religião que mais crescia; um fenômeno: a religião autenticamente brasileira.

Com o crescimento dos cultos neopentecostais e o acirramento exarcebado de ataques as religiões afro-brasileiras aumenta os episódios de intolerância religiosa, sendo a Umbanda a maior de suas vítimas. Acompanhei esse fato de perto, porque ministrei aulas de História da Igreja em um seminário da Igreja Universal do Reino de Deus, o qual foi precocemente fechado por ordens da direção.

Li um pouco da história da umbanda e sua linguagem popular que conseguiu quebrar preconceitos do espiritismo com a comunidade de descendentes de africanos. Sou a favor de toda a liberdade religiosa e de expressão, e de antemão, destaco que o cristianismo em suas diversas matizes é participe direto das mazelas do nosso povo. Fato este que a umbanda não foi.

O dia 13 de maio me traz ruins recordações: Na escola primária, todos os anos os colegas brancos e as professoras relembravam a data com sorrisos maléficos. E diziam frases como: “Agradeça a Princesa Isabel” ou “a culpa de vocês estarem aqui é da Princesa Isabel”. Eu estudei em colégios privados onde os pretos sempre foram minoria.

O dia 13 de maio é um dia festivo para a Umbanda, sendo comemorado o “Dia dos Pretos Velhos”. Abaixo, um vídeo exibido na Rede Globo em sua homenagem:

SAGRADO - Rede Globo comemora o Dia do Preto Velho - TV Globo (2011)



A mensagem trazida pelo vídeo é de amorosidade, de perdão e de esquecimento das mazelas que sofreram os escravizados no Brasil: “Destinados a todos que acreditam na humildade e no perdão”.

A escravidão dos africanos foi um crime lesa-humanidade nos conceitos atuais do direito internacional e todas as pessoas que lutam contra a discriminação racial interpretam desta maneira.

O 13 de maio é uma data controversa, poucas organizações a defendem como um dia realmente especial que merece comemorações, e historiadores proeminentes como Mario Maestri Filho já escreveu artigos sobre a importância revolucionária desta data. Por outro lado, a maioria das organizações do Movimento Negro coloca o dia 13 de maio como o “Dia Nacional de denúncia contra o Racismo”. O dia 13 de maio foi recusado pela maioria dos militantes que festejam o dia 20 de novembro, a maior data da comunidade preta, em homenagem a Zumbi dos Palmares.

A Umbanda está no primeiro grupo, tanto assim, que homenageia os “Pretos velhos” nesta data, sendo estes especiais para a existência desta religião. Achei deveras interessante, as análises feitas através da psicografia do Pai João das Almas, no site do POVO DE ARUANDA, publicado em 06 de dezembro de 2006, entre diversas informações destaco:

- A senzala era o único lugar onde o negro conseguia ser livre. Minha história de vida foi muito triste, mas aprendi muito. O sinhô era um homem muito refinado e não me tratava mal, mas a sinhá era uma mulher muito infeliz. Seu coração cheio de fel não sabia amar. Era temida e detestada. Por muito pouco mandava chicotear os escravos da senzala e o sinhô fazia todas suas vontades. Negrinhos eram afastados das suas mães, velhos escravos iam para o tronco e as escravas caseiras tremiam com as ordens da caprichosa sinhá. Eu não me queixava e jamais cultivei o ódio e a vingança. Alguns escravos odiavam os senhores com todas as forças até à morte. No plano espiritual, continuavam a perseguição perturbando os senhores com a força da magia negra e da vingança. Como é bom ser bom! Como é triste ser mau! Quantas lágrimas e sofrimentos os senhores plantaram através de suas atitudes. No entanto, todos caminharemos para a Eterna Felicidade! O caminho mais sublime é o Amor, mas alguns só evoluem através da Dor!

As palavras do Preto Velho são de extrema submissão e aceitação da escravidão, uma negação das lutas de resistência:
A senzala como local de liberdade:

A senzala era o único lugar onde o negro conseguia ser livre.

O elogio a passividade:

Eu não me queixava e jamais cultivei o ódio e a vingança.

A censura à resistência dos escravizados:
Alguns escravos odiavam os senhores com todas as forças até à morte. No plano espiritual, continuavam a perseguição perturbando os senhores com a força da magia negra e da vingança.

O senhor do escravizado sofria mais:

Pior que a escravidão os grilhões da maldade e do preconceito. Muito pior que nosso sofrimento era o peso dos pecados daqueles que oprimiam seus irmãos de cor.

Sobre o dia 13 de maio, conclui que teve uma vida sem lutas pelo povo preto na escravidão:

No dia 13 de maio, a alforria! No entanto, as lembranças marcaram minha vida para sempre. Foi minha encarnação mais proveitosa. Nessa vida de martírios, cultivei a renúncia e a humildade.

http://povodearuanda.wordpress.com/2006/12/06/pretos-velhos/

No município Rio de Janeiro se aprovou uma lei que institui o ensino de holocausto. Os judeus não esquecem e nem perdoam os crimes do nazismo. Imagine em um espaço religioso, um ancestral se dizendo judeu se manifestar como vítima das mazelas do nazismo e repetir as palavras do Pai João das Almas. Haverá uma contestação da comunidade judaica? O que você acha?

Para a maioria das organizações do Movimento Negro no Brasil no dia 13 de maio nada tem a ser comemorado, e sim, relembrar como um dia de protesto de uma abolição mal acabada, e conforme as frases do poeta Limeira: "Hábil Lição da escravatura." Para os espíritos desencarnados da Umbanda e seus seguidores juntamente com uma pequena parcela do Movimento Negro é dia de comemoração e de alegrias. Quem está com a razão?

domingo, 1 de maio de 2011

A MASSAI BRANCA – A VERDADEIRA FACE DO AMOR INTER-RACIAL


Por Aidan Foluke
,
Acadêmica de Enfermagem.
MSN: vanessasoares13@hotmail.com
Skype: aidanfoluke


Cotidianamente nos deparamos com slogans que exaltam a miscigenação racial. Há mais ou menos um mês, ouvi um pesquisador, titular de uma grande Instituição Científica, afirmar que: “Quanto mais mistura melhor. Por isso o brasileiro é forte. Nem 100% branco, nem 100% negro, mas 100% vira-lata.”

A princípio, não fiquei tão indignada com tal afirmativa, pois meus ouvidos já funcionam como “peneiras” para estas propostas maliciosas e destruidoras, principalmente porque no local as pessoas pretas eram nitidamente contadas. Mas, ao ler um Best-seller escrito por Corinne Hofmann, “A MASSAI BRANCA – MEU CASO DE AMOR COM GUERREIRO AFRICANO” e assistir ao filme tive a certeza que o sinônimo de Demônio para os povos brancos, foi palavra extremamente bondosa e caridosa do Profeta Malcolm X. Pergunto-me: Como é possível um guerreiro de um grupo africano tão resistente, os Samburu, sujar e prostituir o seu corpo e sua comunidade com uma MULHER BRANCA? Por que a comunidade Samburu aceitou este ser estranho em seu meio? Durante o filme é bastante visível os conflitos culturais e raciais que uma relação dessa espécie pode trazer sendo os relatos escritos em seu livro mais deprimentes e repugnantes.


TRAILER DE A MASSAI BRANCA


O povo Samburu é originário de Nubia-Kush e se estabeleceram ao norte do Monte Quênia e ao sul do Lago Turkana, na área do Vale do Rift, desde o século XV. Possuem uma existência de semi-nomadismo e a sua economia é baseada no pastoreio - na criação de gado, ovelhas, cabras e camelos - que representa riqueza e status. O povo Samburu celebra os nascimentos, os rituais de iniciação e casamentos com muita pompa e cerimônia. O apogeu da vida de um Samburu é o ritual iniciático à vida adulta.

Os casamentos são estruturados por uniões poligâmicas, onde um homem pode casar-se com tantas esposas que for capaz de pagar o dote. Quanto mais animais possuir, mais fácil será obter uma esposa. O dote para a família da noiva é tipicamente pago com gado. Os casamentos intra-clãs são proibidos e os casais escolhidos pelas famílias.

Falam a língua Maa, e são primos dos Massai, sendo normalmente confundidos. Os Samburu possuem uma história de resistência singular, não aceitando as imposições culturais do colonizador inglês, apesar das missões católicas e protestantes estarem presentes em suas terras, para destruir a sua cultura e dominá-los mentalmente.

Glory Outreach in Samburu


Uma das vitórias do povo samburu é manter a língua Maa e preservar as tradições dos seus ancestrais, apesar de que muitos guerreiros tiveram de participar nas tropas inglesas na 2ª Guerra Mundial e outros trabalham nas forças policiais do Quênia.

SAMBURU DANCE Vol.1


O filme de Hermine Huntgeburth deveria ser THE WHITE SAMBURU, isto é, se a mesma não desestruturasse a comunidade. O marketing europeu divulga os massai, por serem mais conhecidos, abertos ao contato com os brancos e muitos falarem o idioma inglês. O filme conta de forma deturpado o que está escrito no livro, a dita paixão sentida pela protagonista do filme por um Guerreiro Samburu, não passava de promiscuidade comumente sentida por brancos pelo nosso povo. A masculinidade do homem preto africano e diasporico desperta além de fantasias sexuais a representação de virilidade e um troféu. O envolvimento deles leva ao rompimento de praticas ancestral, como o não beijo na boca, para os samburu a boca é feita para alimentação e não com fins eróticos. A comunidade altera sua vivência e rotina com a introdução de objetos, costumes e alimentos europeus. É fortalecido o etilismo e uso de ervas de maneira depravada, sendo essas ervas usada de maneira sacerdotal e curativa por grupos religiosos de forma equilibrada, e não como objeto de alienação, fuga da realidade. Corinne Hofmann uma viciada na maconha alimentou tráfico de drogas no Quênia, como a mesma relata no seu livro na página 361:
“De acordo com o seu ponto de vista, Edy naturalmente vem por causa de mim e certo dia ele me pega comprando maconha de Edy. Ele ralha comigo como seu fosse uma fora-da-lei perigosa e ameaça me denunciar a polícia. Fico parada, perplexa, e nem seque consigo chorar. Afinal preciso dessa coisa para poder agüentá-lo. Tenho de lhe prometer que nunca mais fumarei maconha, senão ele me denunciará”.

Observa-se o quanto foi, é e será perigoso o envolvimento racial entre pessoas brancas e pretas, pois sempre a comunidade africana estará prejudicada. Como foi escrito no titulo do livro e do Filme: MEU CASO DE AMOR COM GUERREIRO AFRICANO, amor este destruidor, violento e egoísta. Realmente foi um caso, um momento na vida da mulher branca que volta para seu país de origem e lá continua sua vida sem maiores problemas ou alterações, mas para aquele homem preto que quebrou laços ancestrais, que negou sua forma de olhar o mundo e de se relacionar com ele foi simplesmente um iniciar de uma história catastrófica e irreparável, que não terá um fim tão breve, pois diferente dos brancos e seus atos egocêntricos, nós pretos compartilhamos com a nossa comunidade tudo a nos ofertado. Um provérbio africano diz assim: “A ruína de uma nação começa nas casas de seu povo”.

O Guerreiro Samburu Lektinga iniciou a destruição de seu povo no momento que olhou para aquela mulher branca de espírito prostituto e demoníaco e a deu valor de uma mulher. Não é possível amar alguém que bagunça nossa casa e nos leva a cometer delitos brutais contra si mesmo e aos seus. Manter laços afetivos com o estranho é suicídio e genocídio. O maior problema neste tipo de relacionamento é o fruto gerado, no caso deles uma filha chamada Napirai. Um ser mestiço é a peça mais perigosa dentro de uma comunidade, com certeza a crise existencial dessas pessoas, as torna uma arma de autodestruição, pois podem assumir a identidade do povo preto tanto quanto do povo branco e até mesmo formarem outro grupo pró mestiçagem. É relatado no livro que ao retornar da Suíça, Napirai chora ao olhar os rostos pretos da comunidade dos Samburu. O filme também não relata a sua carta de despedida na página 364, onde em um trecho ela escreveu:

"Mas, agora, depois da última chance que tivemos em Mombaça, reconheço que você não é feliz e eu muito menos. Nós ainda somos jovens e não poderemos continuar assim. Agora você não me entenderá, mas depois de algum tempo você também verá que vai poder ser feliz com outra. Para você é fácil achar uma nova mulher que viva no mesmo mundo. Mas dessa vez procure uma mulher samburu, não uma branca, somos diferente demais. Um dia você terá muitos filhos".

Corine tenta impor a sua cultura européia a um Guerreiro Samburu e à sua comunidade, como sempre o europeu projeta suas concepções de superioridade e de conquistas. Ela é oriunda da Suiça-Alemã. Os alemães, nesse período da história recente, construíram um legado de destruição e genocídio no continente africano. Nunca podemos esquecer o massacre dos Hereros e Nama, na Namíbia em 1905.

Clique aqui e leia mais sobre O GENOCÍDIO ESQUECIDO – A REVOLTA DOS HEREROS E NAMA NA NAMÍBIA


Assista ao filme e leia o livro que estão disponíveis em diversos sites. Veja com os seus próprios olhos e reflita sobre os fatos que acabei de relatar.


Informações Técnicas
Título no Brasil: A Massai Branca
Título Original: Die Weisse Massai
País de Origem: Alemanha
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 132 minutos
Ano de Lançamento: 2005
Estreou no Brasil: 21/09/2007
Site Oficial: http://www.dieweissemassai.film.de
Estúdio/Distrib.: Europa Filmes
Direção: Hermine Huntgeburth

terça-feira, 26 de abril de 2011

REBECCA LOLOSOLI –UMOJA ALDEIA DA LIBERDADE


Por Walter Passos
, Historiador,Panafricanista,
Afrocentrista e Teólogo.
Pseudônimo: Kefing Foluke.
E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br

Msn:kefingfoluke1@hotmail.com

Skype: lindoebano

Facebook:
Walter Passos.




Conforme os costumes dos Samburu do Quênia, meninas são iniciadas no “ritual de passagem” onde ocorre a retirada do clitóris, na preparação para o casamento, geralmente com homens bem mais velhos. Igualmente, Rebecca Satta Lolosoli foi mutilada aos 15 anos de idade, nos moldes tradicionais das suas antepassadas.

Clique Aqui e Leia mais sobre Mutilação Genital Feminina.


FEMALE GENITAL MUTILATION AND THE SAMBURU TRIBE



A vida das mulheres Samburu, de acordo com a tradição, deve ser integralmente submissa ao pai e ao esposo. Elas constroem as habitações, ordenham as vacas, catam lenha, buscam água em grandes distâncias, cuidam dos filhos e preparam as refeições, conforme relato da própria Rebecca. Por sua vez, os homens são guerreiros tradicionais, cuidam dos rebanhos de gado, das ovelhas e dos camelos e da proteção da comunidade.

A vida de Rebeca Lolosoli passou por uma mudança drástica, após ser atacada e quase estuprada por soldados ingleses, sediados no Quênia.

A VILA DE REFÚGIO: UMOJA


Em suaíli, Umoja significa unidade. Muitas das 64 mulheres que lá vivem são sobreviventes de estupro. Os estupradores foram soldados britânicos que estavam estacionados nas proximidades, há mais de 50 anos.

“Vestindo uniformes verdes, misturados com as árvores, enquanto as mulheres recolhiam a lenha, os soldados saltavam da floresta para estuprá-las, rindo como se fosse um jogo”, conta Lolosoli.

As mulheres estupradas foram ridicularizadas e expulsas das aldeias por seus maridos, algumas foram presas por tentar sobreviver vendendo cerveja caseira, ao ser expulsas e tentar sobreviver sozinhas nas florestas do Quênia, muitas foram comidas por hienas.

Revoltando-se, Rebecca, discursou nas reuniões dos Samburu contra aquelas atitudes, reivindicando os direitos das mulheres, que violentadas pela ineficaz proteção dos homens - responsáveis tradicionalmente por conferir a proteção às aldeias - não possuíam sequer apoio de sua comunidade, ao contrário delas foram expulsas. Em consequência, foi espancada por quatro guerreiros Samburu, durante uma viagem do seu marido. Ao sair do hospital, retornou para o lar e relatou o caso a seu esposo que nada fez. Não tendo apoio do próprio companheiro e percebendo que se nada fizesse seria assassinada, Rebecca resolveu dar novos rumos a sua própria vida e de inúmeras outras mulheres vítimas do patriarcalismo e das injustiças, fundando a vila UMOJA em 1991, apesar de todas as dificuldades.

As mulheres lideradas por Rebecca Lolosoli travaram uma árdua luta contra as autoridades britânicas para que se fizesse justiça pelas violências sofridas, várias delas repetidamente, por soldados britânicos durante exercícios militares no Quênia, nos anos 80 e 90. Como prova, algumas exibiam seus filhos mestiços. No final, venceram a batalha judicial.

"Nossa cidade se transformou em um abrigo", diz Lolosoli. Mulheres e meninas que fogem do casamento forçado, ou são vitimas do ostracismo após serem estuprada, ou tentando salvar-se da mutilação genital feminina, vão à Umoja para a segurança. Filhos são bem-vindos, contanto que eles estejam dispostos a seguir as regras da aldeia e não tentem dominar as mulheres seguindo o combatido exemplo dos demais Samburu.

As mulheres vivem ali em conjunto e criaram um centro cultural e um camping para os turistas que visitam a vizinha Reserva Nacional de Samburu. Com os benefícios obtidos, elas conseguiram replantar a vegetação do local e inclusive se permitem contratar os serviços de vários homens para transportar lenha, que tradicionalmente no Quênia é um trabalho executado por mulheres.

UMOJA, LE VILLAGE INTERDIT AUX HOMMES - Bande-annonce (français)




As mulheres da Vila Umoja sobrevivem da fabricação do artesanato samburu: pequenos colares, pulseiras e ornamentos feitos de miçangas. Apesar da vida difícil e dos olhares desconfiados das outras comunidades samburu, estas mulheres, vítimas de violência do tradicionalismo patriarcal samburu, reuniram-se para viver em paz, longe dos opressores, livres e com dignidade. Umoja é hoje um povoado que tem uma fama tão sólida que mulheres de todo o Quênia vão até ali em busca de ajuda ou simplesmente de conselhos.


Rebecca Lolosoli ganhou o direito ao divórcio e outras trezentas mulheres se reuniram para comemorar.


"Muitas das nossas mulheres morreram em silêncio, sem direitos", disse Rebeca Lolosoli, e continuou: "Queremos mostrar às mulheres que elas também são humanas, que podem fazer algo para si, e que elas podem cuidar de si mesmas e de seus filhos."

quarta-feira, 20 de abril de 2011

NINA SIMONE – UMA DIVA PAN-AFRICANISTA


Por Walter Passos
, Historiador,Panafricanista,
Afrocentrista e Teólogo.
Pseudônimo: Kefing Foluke.
E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br
Msn:kefingfoluke1@hotmail.com
Skype: lindoebano





Completar-se-á no dia 21 de abril, oito anos da morte de uma das mais importantes mulheres pretas, agraciada com uma das mais belas vozes da diáspora, que não se calou e lutou contra o racismo : Nina Simone, seu nome tem um significado especial, Nina vem de pequena e Simone de uma atriz da qual era fã: Simone Signoret.

Nascida em 21 de fevereiro de 1933, em Tryon, Carolina do Norte, era a sexta filha dos oitos filhos de Mary Kate e John D. Waymon, um pastor metodista. O seu nome de nascimento foi Eunice Kathleen Waymon. A sua casa estava sempre cheia de música, e ela aprendeu a tocar piano no início de sua infância.

Foi a sua voz de contralto, seu timbre rico e sua interpretação distinta dos padrões, blues e composições de jazz, que a levou à fama na música, apelidada de "Alta Sacerdotisa do Soul", é conhecida como um das mais talentosas cantoras, compositoras e pianistas de seu tempo, se tornou parte integrante do movimento dos direitos civis e depois abraçou o movimento Black Power.

As canções de Nina Simone foram adotadas pelo movimento dos direitos civis, incluindo hinos como Backlash Blues, Old Jim Crow, Four Women e To Be Young, Gifted and Black. A última foi composta em homenagem a sua amiga Lorena Hansberry e se tornou um hino para o poder crescente do movimento negro.

Nina analisa de forma contundente em Four Women a situação das mulheres pretas.

Nina Simone - Four Women



A primeira é Tia Sara, representa a escravidão das africanas na América, mulher forte e resistente.

"Minha pele é negra
Meus braços são longos
Meu cabelo é de lã
Minhas costas são fortes
Forte o suficiente para tirar a dor
Tem sido infligida novamente e novamente
O que eles me chamam
Meu nome é tia Sarah
Meu nome é tia Sarah"

A segunda é apelidada de “Siffronia”, uma mulher mestiça forçada a viver “entre dois mundos”, uma mulher oprimida , e destaca o sofrimento do povo preto nas mãos de pessoas brancas em posições de poder.

"Minha pele é amarela
Meu cabelo é longo
Entre dois mundos
Eu pertenço
Meu pai era rico e branco
Ele forçou minha mãe numa noite
O que eles me chamam
Meu nome é siffronia
Meu nome é siffronia"

A terceira mulher é uma prostituta que se refere à canção como "uma coisa doce".

"Minha pele está bronzeada
Meu cabelo é bom,
Meus quadris convidá-lo
E meus lábios são como o vinho
Garotinha sou eu?
Qualquer um que tenha dinheiro para comprar
O que eles me chamam
Meu nome é coisa doce
Meu nome é coisa doce"

A última é uma mulher amargurada e volátil, um produto das gerações de opressão e sofrimento cometidos pela sociedade racista e suportados pelo povo africano nas Américas.

"Minha pele é marrom
E a minha forma é difícil
Eu vou matar a primeira mãe que eu vejo
Porque minha vida tem sido muito áspera
Estou terrivelmente amarga nestes dias
Porque meus pais eram escravos
O que eles me chamam
Meu Nome é Pêssegos."

Outra bela canção de Nina foi Mississippi Goddamn, escrita na década de 1960, em resposta ao assassinato de Medgar Evers no Mississipi e quatro garotas em um bombardeio de uma igreja preta no Alabama.

Ela canta "Tudo que eu quero é a igualdade para a minha irmã, meu irmão, meu povo e eu", continua: "Ah, mas este país está cheio de mentiras.



Em Backlash Blues, Ela canta:

"Você levanta os meus impostos, congela o meu salário
E manda meu filho para o Vietnã...
Você me dá casas de segunda classe
E escolas de segundo classe..."



TO BE YOUNG, GIFTED AND BLACK



"Ser jovem, talentoso e negro,
que precioso sonho lindo
Ser jovem, talentoso e negro,
Abra seu coração para o que quero dizer

Em todo o mundo sabe
Há bilhões de meninos e meninas
Quem é jovem, talentoso e negro,
E isso é um fato!

Jovem, talentoso e preto
Temos de começar a dizer aos nossos jovens
Há um mundo esperando por você
Esta é uma missão que está apenas começando

Quando você se sente realmente mal
Sim, há uma grande verdade que você deve saber
Quando você é jovem, talentoso e preto
Sua alma está intacta

Jovem, talentoso e preto
Como eu desejo saber a verdade
Há momentos em que eu olhe para trás
E eu sou assombrado por minha juventude

Ah, mas a minha alegria de hoje
Será que todos nós podemos ter orgulho de dizer
Ser jovem, talentoso e preto
É onde se deve estar"

OLD JIM CROW



"Old Jim Crow
Está aqui há muito tempo
Começou as obras do diabo
Até o morto e enterrado
Old Jim Crow
Sim, você não sabe
Está tudo acabado agora
Está tudo acabado agora

Old Jim Crow
Você sabe que é verdade
Quando você fere meu irmão
Você me machucou demais
Old Jim Crow você não sabe
Está tudo acabado agora"

Leia mais sobre o que foi o Jim Crown, clicando aqui.



WHY (THE KING OF LOVE IS DEAD)



"O que vai acontecer agora? Em todas as nossas cidades?
Meu povo está subindo, pois eles estão vivendo em mentiras.
Mesmo que tenha que morrer
Mesmo se tiver que morrer no momento em que eles sabem que é a vida
Mesmo nesse momento que você sabe que é a vida
Se tiver que morrer, está tudo certo
Porque você sabe que é a vida
Você sabe o que é liberdade para um momento de sua vida

Mas ele tinha visto da montanha
E ele sabia que não podia parar
Sempre que vivem com a ameaça de morte à frente
Gente é melhor você parar e pensar
Todo mundo sabe que estamos à beira
O que vai acontecer, agora que o rei está morto?

Todos nós podemos derramar lágrimas, não vai mudar nada
Ensine o seu povo: Será que eles vão aprender?
Você deve sempre matar com queima e queima com armas
E matam com armas de fogo e queimar - você não sabe como nós temos que reagir?

Mas ele tinha visto da montanha
E ele sabia que não podia parar
Sempre que vivem com a ameaça de morte à frente
Gente é melhor você parar e pensar
Todo mundo sabe que estamos à beira
O que vai acontecer, agora que o Rei do amor está morto?"

A sua vida foi de muitas lutas dentro dos Estados Unidos da América e o racismo fez com que deixasse aquele país, indo viver em diversos locais do planeta, inclusive na Libéria, morreu na França em 2003 e suas cinzas foram espalhadas por países africanos.

Suas músicas continuam a ser o baluarte do jazz e do blues ao redor do mundo, fornecendo a muitos cantores e grupos, inspirando gerações de grande talento, de Aretha Franklin até Índia Aire e Norah Jones.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

FOR COLORED GIRLS (FILME) - MULHERES PRETAS E AS VIOLÊNCIAS COTIDIANAS


Por Ulisses Soares Passos, Bacharel em Direito (Estácio de Sá), Acadêmico de Línguas Estrangeiras (Universidade Federal da Bahia - UFBA.
Presidente do Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos, seccional Bahia - CNNC/BA.
Pseudônimo: Aswad Simba Foluke.
E-mail: ulisses_soares@hotmail.com




For Colored Girls Who Have Considered Suicide When the Rainbow is Enuf (Para Mulheres Pretas que Têm Considerado o Suicidio Quando o Arco-íris é suficiente) um filme baseado em peça de teatro homônima de 1975, de autoria da americana Ntozake Shange,na qual são mostrados diversos poemas de mulheres sem nome, unidas pelos problemas cotidianos enfrentados das mulheres pretas, que falam sobre amor, aborto, estupro, violência, religiosidade e abandono.

TRAILLER DO FILME (EM INGLÊS)


O filme retrata a vida de nove mulheres afro-americanas que têm suas vidas unidas em determinado momento, todas enfrentando problemas muito comuns às mulheres pretas na sociedade contemporânea. Embora, o texto original seja de 1975 seu conteúdo continua inerte, assim como a degradação vivenciada pelas mulheres pretas.

Longe de se pretender trazer uma análise esmiuçada do conteúdo do longa, podemos elencar diversos fatores que o legitimam, fazendo da sua real abordagem, uma das melhores, senão a melhor, cinematografia acerca das mulheres pretas, seus desafios e opressões dentro de uma sociedade machista, racista e putrefata pelas conseqüências de séculos de escravização.

Seria nefasto eleger partes a comentar, pois do início ao fim podemos perceber o quão presente é sua contextualização dentro da nossa vivência. Os diversos recortes apresentados pelo filme descrevem com perfeição as mazelas enfrentadas e compartilhadas em nossa comunidade: ausência de planejamento familiar, aborto clandestino, violência doméstica, estupros, proliferação do HIV etc.

Nesse sentido, destacamos dois trechos do filme que retratam, respectivamente, com singularidade única, o aborto clandestino e o extremo da violência familiar pelos homens pretos cumulada com o consumo de álcool, ambos bastante comuns dentro de nossa comunidade.

ABORTO CLANDESTINO (EM PORTUGUÊS)



VIOLÊNCIA FAMILIAR (EM PORTUGUÊS)



Outrossim, é necessário destacar a aplicabilidade irrestrita desse filme no processo de conscientização das mulheres pretas, principalmente às jovens, suscetíveis a esses embates, independente da classe social que ocupem, pois o que as unem é a sua condição de mulher preta, como bem restou demonstrado no filme.

Além disso, o longa também destaca o papel fundamental dessas mulheres na construção da sociedade, retratando trabalhos comunitários de resgate e educação de outras mulheres, representantes do sustento familiar, gerência de grandes empresas, estudantes, garçonetes, enfim, mulheres pretas independentes, autônomas, repletas de sonhos, com papéis estruturantes dentro da sociedade.

Por fim, um filme a ser difundido dentro da nossa comunidade, como o retrato de nós mesmos, percebidos de forma ímpar por Ntozake Shange, cujo conhecimento se torna obrigatório para nossa formação enquanto homens e mulheres pretas.

Publicação dedicada a TODAS as mulheres pretas violentadas cotidianamente pelo Estado, pelo machismo, pelo racismo e por quem mais deveria amá-las: os homens pretos.

Download do filme em português: http://www.fileserve.com/file/GGMD87H

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

BRASIL: CARTA MAGNA DO RACISMO



Por Aidan Foluke, membro da COPATZION,
Tesoureira do CNNC/BA e Acadêmica de Enfermagem.
E-mail: vanessasoares13@hotmail.com
Skype: aidanfoluke



Ulisses Soares Passos, concluiu o curso de Ciências Jurídicas e Sociais (Direito), com 22 anos de idade, na Estácio/FIB, apresentando a monografia de final curso com o tema BRASIL: CARTA MAGNA DO RACISMO, auferindo nota máxima com louvor pela banca examinadora. Diante disso, presta-se o devido reconhecimento ao presente estudo, com objetivo de difundí-lo e incentivar novas pesquisas correlatas entre Direito e Escravização.


Sinopse da monografia:



Todos os seres humanos nascem com direitos inalienáveis. Estes direitos capacitam os indivíduos a buscarem uma vida digna — sendo assim, nenhum governo pode conferi-los, mas todos os governos devem protegê-los.

A liberdade, construída sobre uma base de justiça, tolerância, dignidade e respeito — independentemente da etnia, religião, convicção política ou classe social — permite aos indivíduos desse Estado buscar esses direitos fundamentais. Quando tal premissa é respeitada, tem-se a verdadeira democracia, haja vista que esta é o conjunto de princípios e práticas que protegem a liberdade humana em seu sentido lato, seus direitos fundamentais e sociais.

Acontece que o processo de formação do Estado brasileiro, assim como o da maioria dos Estados Americanos, ocorreu com a constituição de uma colônia de exploração e sob o manto do trabalho escravizado, do racismo institucionalizado e das relações sociais verticalizadas, todos fundamentados no massacre aos Direitos Humanos e na destituição integral de grupos étnicos, culturas, idiomas, costumes e, principalmente, identidades, com intuito único de satisfação econômica às antigas metrópoles e seus reinados.

A opressão e a supressão aos direitos humanos, à época, foram patrocinadas pelas mais variadas formas de governo, dentro de suas estruturais estatais e normativas, entretanto foi abominada com a instituição da democracia e a necessidade, por vezes oportunidade, da instituição do Estado democrático de Direito, cuja função primaz é proteger direitos humanos fundamentais como a liberdade de expressão e de religião; o direito a proteção legal igual; e a oportunidade de organizar e participar plenamente na vida política, econômica e cultural da sociedade.

Diante disso, o Estado brasileiro foi o principal causador da supressão desses direitos, fomentando em si os mais variados tipos de desigualdades, em especifico a étnico-racial, refletida em sua maioria por diferenças sociais, econômicas e pelas mais variadas formas de preconceito, em que esta nação patrocinou legalmente durante mais de quatro séculos o massacre físico e psicológico daqueles que teriam direitos sob sua proteção.

Nesse contexto, pós-abolicionismo nenhuma medida pelo Estado foi aplicada, omitindo-se este em relação àqueles em cujo poder de império fora utilizado, e hoje, sendo maioria da população, exigem que ações reparatórias, e não somente afirmativas, sejam devidas pelo Estado brasileiro, àqueles que são herdeiros das incontáveis conseqüências advindas do maior meio de destituição e destruição da figura humana: a Escravização.

Para tanto, principia–se, no Capítulo 1, a análise da escravidão no Brasil, seus princípios e conjunturas, assim como o seu histórico fundamentado no modo de produção escravista que fundamentaram o seqüestro e morte de milhões de africanos. Assim como, a análise da legitimidade do direito no estudo da escravidão.

No Capítulo 2, tratando de apresentar as legislações do escravismo que continuam a propagar os pensamentos de diferenciação étnica, como a chegada dos imigrantes e a eugenia, aplicada principalmente na criminologia e nos estudos forenses.

No Capítulo 3, tratando de descrever a constituição outorgada de 1824 e as leis abolicionistas e as influências de outras manifestações e conquistas jurídicas dos afro-descendentes.

Quanto à Metodologia empregada, registra-se que, que na investigação foi utilizado o Método Indutivo Bibliográfico, cuja coleta de dados obedeceu todo rigor cientifico e encontra-se com as bibliografias destacadas.

Ao praticar, adaptar e desenvolver os conteúdos estudados para elaboração de um trabalho científico é possível delimitar um paralelo entre a teoria e a realidade, utilizando-se de uma metodologia científica. Pode-se empregar mais de um método de análise, portanto, é possível realizar uma pesquisa ao mesmo tempo qualitativa e quantitativa.

No caso em tela, a pesquisa foi de analise bibliografia, delineada a partir de análise crítica de livros, artigos, teses, notícias, leis, jurisprudências e documentários ligados à temática.

Destaca-se que diante do escasso material disponível na área jurídica, as fontes bibliográficas pairam sobre analises importantes de historiadores, antropólogos e sociólogos, o que não prejudica a presente monografia, posto que a relação intrínseca entre as ciências sociais e jurídicas quanto ao aspecto do fato jurídico e fato social garante a fidedignidade das informações prescritas e da analise jurídica do fato em tela.

Ainda ressalta-se por oportuno não se aplicar a costumeira divisão – Direito Civil e Direito Criminal - enquadrada nos estudos de Direito e Escravidão. No presente trabalho a escravidão não é fim de si mesma, mas ponte para o entendimento das conseqüentes políticas de igualdade material, diante das mazelas por aquela deixadas em todo o seio social, fazendo do estudo de seus melindres indispensável à justificativa das políticas sociais afirmativas e reparatórias.

Conclui-se ser inegável que o sistema jurídico se fizesse valer na escravidão desde sua gênese, enquanto norma e fato social desde início. Ao analisar os institutos normativos da escravização, encontram-se de bulas papais até códigos completos, ambos disciplinando relações dos escravizados com seus mercadores e proprietários, além de suas relações internas, como casamentos e cultos religiosos, como as externas como a alforria e sua repersonificação no julgamento em instância criminal.

Ao analisar as normas percebeu-se que o direito disciplinou veementemente as relações escravizado X escravizador, assegurando ao segundo todos os alicerces na exploração do primeiro, indenizando-o inclusive quando aquele tinha o seu direito de propriedade sobre outrem tolhido.

Nesse Diapasão, resta declarar que desde gênese, quando América portuguesa, as discriminações étnico-raciais se fizeram presentes dentro do ordenamento jurídico aplicados no Brasil, e mesmo diante, da ruptura do maior processo de exploração da história da humanidade, nada foi estabelecido aos milhões de africanos e seus descendentes no Brasil. A estes foram reservados as favelas, guetos, e todos os espaços ora constituídos para abrigar aos que ao Estado não mais serviam.

Por fim, cita-se Roberto Lyra Filho, hoje reconhecido como patrono da teoria crítica no Brasil, quem desenvolveu o conceito de direito como "um processo histórico de legítima organização social da liberdade", afirmando a necessidade de a ciência jurídica, com o apoio da sociologia e da filosofia jurídicas, voltar-se também para a análise histórica dos processos sociais em busca daqueles critérios de atualização dos padrões de justiça (finalidades éticas) e de legitimidade (mecanismos razoáveis de decisão e de aplicação do direito), na incessante busca de Justiça por aqueles que durante quatro séculos só presenciaram a diferença.

PRETAS POESIAS

PRETAS POESIAS
Poemas de amor ao povo preto: https://www.facebook.com/PretasPoesias