Bacharel em Direito (Estácio de Sá/FIB),
Acadêmico de Línguas Estrangeiras da UFBA,
Pan-Africanista.
Pesquisador das relações étnico-raciais e jurídicas. Pseudônimo: Aswad Simba Foluke.E-mail: ulisses_soares@hotmail.com.Facebook: Ulisses Passos.
Um ótimo filme de produção inglesa para a televisão estreou no Channel 4, em 30 de agosto de 2010, é uma excepcional história de luta de uma mulher para a liberdade da escravidão moderna. Dirigido por Gabriel Ranger e escrito por Jeremy Block, estrelados pela linda atriz nigeriana de 25 anos de idade, radicada na Inglaterra, Oluwunmi Olapeju Mosaku. Deleita-nos com uma interpretação brilhante, onde Malia nos leva a uma reflexão aprofundada e visceral do problema que passou a personagem e sua luta de superação.
Malia nunca esqueceu quem ela é: uma jovem Nuba orgulhosa que teve uma infancia feliz com os seus pais amorosos e dedicados. O costa-marfinense, Isaach de Bankolé, que já participou de mais de 30 filmes, interpreta Bah, o pai de Malia, um guerreiro Nuba que amava a sua família. Outra personagem de destaque é a atriz belga de origem árabe, Lubna Azabal, que interpreta a senhora opressora.
O filme busca retratar, principalmente, a história de Mende Nazer, escritora e ativista dos direitos humanos e uma ex- escravizada no Sudão. Mende Nazer é uma princesa do povo Nuba, seqüestrada aos doze anos de idade e escravizada após ataque de milícias muçulmanas pós-governo a sua aldeia nas montanhas. Durante seis anos foi escravizada por uma família na cidade de Cartum, capital do Sudão, vítima de pressões psicológicas, forçada ao trabalho doméstico e abusada sexualmente. No ano de 2000, aos 18 anos de idade foi enviada como escravizada para o diplomata sudanês Abdel al Koronky na cidade de Londres, onde o seu martírio continuou. Conseguindo fugir da escravidão em 11 de setembro de 2000 com a ajuda de um compatriota do Sudão.
Empreendeu uma grande luta para conseguir asilo político na Inglaterra, tendo seu pedido negado, recebeu apoio de grupos importantes anti-escravidão moderna, e teve a autobiografia, intitulada: Slave – The True Story Of Girl’s Lost Childhood and Her Fight for Survival escrita por ela e Damien Lewis publicada na Alemanha, com o impacto do livro a Inglaterra lhe concedeu asilo permanente.
A imprensa britânica , após esse episodio, tem constatado a veracidade de milhares de fatos, recentemente o jornal Daily Telegraph publicou um artigo do jornalista Heidi Blake o qual entrevistas policiais que investigam e vítimas da escravidão. O Diretor-Superitendente de Polícia Richard Martin, relatou:
- "Algumas das experiências, as vítimas são literalmente acorrentadas a pia da cozinha, trabalhando 20 horas por dia, 7 dias por semana para ganhar pouco ou nada.
-"Há outras que só foram autorizadas a comer as migalhas da mesa da cozinha, deixadas pelas crianças no fim das refeições, para que eles não eram sequer alimentados corretamente. E em torno de tudo o que você tem pessoas sendo agredidas e abusadas pelas famílias que estão dentro. Tivemos mulheres que foram estupradas. "Ela acrescentou que um número de casos suspeitos em curso envolvidos com imunidade diplomática. Esta é uma criminalidade grave perpetrada pelos diplomatas estrangeiros, alguns dos quais estão envolvidos em um sistema de escravidão moderna.Os casos que foram relatados têm sido horríveis, de terror e brutalidade, enfrentada por aquelas presas pela escravidão doméstica em Londres e no Reino Unido."
- "Kalayaan, uma instituição de caridade com base no oeste de Londres, ajuda cerca de 350 trabalhadores migrantes que foram forçadas à escravidão a cada ano. Cerca de 20 por cento deles relatam ter sido agredidas fisicamente por seus empregadores."
A escravidão moderna de homens e mulheres pretas africanos, infelizmente, ainda é uma realidade em países europeus, asiáticos e africanos. Supõem que na Inglaterra existam 5.00 mil escravizadas e no Sudão 20.00 mil. Famílias inglesas trazem 15.00 trabalhadores domésticos a cada ano e centenas empreendem fuga
Um bom filme para toda a família, ótimo para se fazer uma reflexão sobre a situação de africanos que ainda sofrem o descaso nos seus países e servem como mão-de-obra escravizada nos países europeus, outrora escravizadores.
Afrocentrista e Teólogo. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br Msn: kefingfoluke1@hotmail.com Skype: lindoebano Facebook: Walter Passos
O colonialismo europeu na África foi baseado na apropriação das materias primas, exploração da mão-de-obra, brutalidade e racismo. Após a Conferencia de Berlim a Alemanha dominou diversas regiões e estes territórios usurpados foram denominados de África Alemã (em azul); o sudoeste Africano Alemão (alemão: Deutsch-Südwestafrika, DSWA). No mapa, em vermelho, vemos a África Oriental Alemã (em alemão Deutsch-Ostafrika) territórios posteriormente conhecidos como Tanganica (a porção continental do que é hoje a Tanzânia, Burundi e Ruanda) e parte de Moçambique, alem do Togo e Camarões, Sua área foi 994,996 km2, quase três vezes o tamanho da Alemanha de hoje.
BANDEIRA DAS COLONIAS ALEMÃS NA ÁFRICA
Os alemães, de 1884 até 1916, marcaram a África com sangue e ódio, baseados na idéia do Herrenvolk (raça supeior). Período em que as idéias da eugenia estavam no mundo cientifico europeu. Não podemos dissassociar os invasores alemães e os missionarios cristãos. As regiões invadidas por tropas alemãs concomitantemente chegavam com missionarios, ambos acreditavam de que os povos nativos eram estúpidos e primitivos e precisavam ser resgatados das garras de Satã, a idéia do Herrenvolk se concretizava nas mentes invasoras, e se sentiam com o “direito divino” de governar e explorar.
A farsa do cristianismo se mostra em toda a história colonial africana, tanto assim que os nativos eram obrigados a chamar todos os invasores e também os missionarios alemães do título: "Bwana" que significa "Senhor". A raça constituia uma identidade de grupo e determinava o status nas regiões invadidas, sendo necessário a crueldade para manter uma pretensa supremacia racial, tendo como a finalidade a subtração das riquezas das populações autctones. E o cristianismo. mais uma vez, cumpriu bem o se papel de exclusão e discriminação racial, como tem feito através da história.
Entre os alemães que exerceram influências que marcaram a África Colonial Alemã Oriental estava Karl Peters, conhecido pelos africanos com o nome "Milkono wa Damu", (homem com sangue nas mãos). Peters fora defensor do darwnismo social e um dos mais violentos em contatos com os populações nativas. Na foto abaixo, ele está com um "servo", mostrando a sua empáfia e poder. Tão cruel foi a sua rerlação com os africanos e os seus escritos defedendo a superioridade racial alemã que Adolf Hitler em 1941, usou a sua vida como propaganda nazista, patrocinando um filme ideologico, intitulado Karl Peters, dirigido por Herbert Selpin e estrelado por Hans Albers. As colonias na África foram o solo fertil de formação ideologica para a futura elite do nazismo.
Gustav Adolf von Gotzen (a foto acima à direita) foi o primeiro europeu a visitar o Lago Kivu. Governou a Deutsch-Ostafrika de 1901-1906 e usou de extrema violência na repressão as populações nativas.
O outro foi o governador Albrecht von Rechenberg (Georg Albrecht Julius Heinrich Friedrich Carl Ferdinand Maria Freiherr von Rechenberg) assumiu a responsabilidade por 6.000 alemães e quase oito milhões de habitantes. Fez um governo de exploração e foi acusado de homoafetividade com os nativos. Governador da colônia de setembro de 1906 a outubro de 1912, foi acusado de ter mantido relações sexuais com um dos seus servos do sexo masculino. Os juízes fizeram o possível para conter o escândalo e a propagação de rumores decorrentes da acusação de uma série de processos judiciais sob a acusação de difamação, falso testemunho, a homossexualidade, e nativos atraentes para fazer declarações sobre a supostos encontros homossexuais entre o governador Rechenberg, de alta funcionários do governo, e outros europeus uns com os outros e com os não-europeus.
Os alemães defendiam a pureza racial e os casamentos inter-raciais eram proibidos na colonia, por causa da chamada degeneração racial, e estes casos de relações homoafetivas afetavam a família alemã e o mito do “gentleman” e o seu peso moral de manter a ideologia de superioriodade da raça branca e a masculinidade.
A exploração se tornou insuportavel quando o governador conde Adolf von Gotzen obrigou as populações dominadas a plantarem algodão e sisal para a exportação, o trabalho extenuante juntamente com o imposto criado por cabeça para a população adulta masculina, fazendo com que as mulheres assumissem funções masculinas na sociedade para ao sustento da família, porque os homens foram retirados para o trabalho fora das áreas de suas residências. Este fato gera um conflito na sociedade. Já explorados na construção de ferrovias, estradas, portos e outras obras. Alteraram a vida cotodiana e os missionários se encarregaram de combater as crenças nativas, destruindo as mahokas, cabanas sagradas, locais de veneração dos espiritos ancestrais, sendo os rituais religiosos, as danças e cerimonias ridicularizadas e demonizadas.
As populações da Tanganyca sofreram esteriotipos raciais, desprezo aos milenares conceitos ancestrais, sendo impostos a exploração psicologica e do seus bens materias. Tentaram quebrar a auto-estima para dominar e a opressão se tornou insuportavel, se criou o momento para a reação contra os colonizadores alemães.
Em julho de 1905, a rebelião eclodiu na zona sul de Dar es Salaam (Tanzânia), contra o recrutamento recém-instituído do trabalho obrigatório para a Alemanha da plantação de algodão e de sisal. Conhecida como a guerra Maji Maji liderada pelo povo Ngonis, combatida sem piedade, e foi a mais sangrenta na história da Tanganyika. E relembrada pelo habitantes da Tanzania como um das datas mais importantes de sua história.
LÍDERES DA RESISTÊNCIA AO IMPERIALISMO ALEMÃO
DEUTSCHE KOLONIEN (2) - 3/5 - AFRIKA BRENNT
Observamos que a influência religiosa-mágica teve um papel fundamental na organização da resistência. A religião do invasor branco: o cristianismo , experiente em invasões territorias, torturas e genocidios, não interessavam aos nativos, e foi através da fé tradicional ancestral que o sacerdote Kinjikitile "Bokero" Ngwale, seguidor e afirmando ser possuído pelo deus Cobra HONGO, afirmou de que a guerra era ordenada por Deus e os antepassados retornariam parta ajudá-los, o ordenara liderar a rebelião contra o Império Colonial Alemão e encorajou os seus seguidores a ignorar as diferenças etnicas e unir-se contra os alemães, e a unidade e a liberdade de todos os africanos era um principio fundamental. Edificou um altar para as celebrações religiosas, o qual chamou da “Casa de Deus”. Disse ter um poder mágico, a água especial das montanhas Uluguru (maji: suaíli para "água"), uma água misturada com oleo de mamona e sementes de milho que protegeria os guerreiros contra as balas alemãs, e seriam transformadas em água. Os africanos estvam armados com pistolas rudimentares, lanças e flechas e usando talos de milho em volta das cabeças. Alaidos ao povo Matumbi, estavam o Mbunga, Kichi, Ngoni, Ngindo e Pogoro, uma base de vinte nações . A guerra durou de julho de 1905 a agosto de 1907. Foi o primeiro movimento em massa da África, o levante durou dois anos e envolveu pessoas em mais de 10.000 quilômetros quadrados. Embora em menor número, as forças alemãs e os nativos aliados tinham um poder de fogo superior e milhares de guerreiros foram trucidados pelos tiros das metralhadoras e canhões.
Guerreiros aprisionados
MAJI MAJI REBELLION REENACTMENT
Em julho de 1905, Kinjikitile foi capturado e enforcado em 04 de agosto de 1905, condenado por traição ao Império Alemão. Seu irmão continuou a guerra até 1907. Obtiveram sucessos iniciais e depois a repressão alemã foi de extrema violência, destruíram aldeias e plantações. Como resultado da rebelião mal sucedida, o grande chefe Mputa, chefe Songea, e outros líderes Njelu foram executados, enquanto outros fugiram. Alguns líderes continuaram uma guerra de guerrilha, até que também eles foram feitos prisioneiros e executados em julho de 1908.
PRISONEIROS ANTES DA EXECUÇÃO
PRISIONEROS ENFORCADOS
Sofreram grandes perdas nas batalhas em campos abertos e mudaram a estratégia de combate, começaram a se esconder nas florestas e usando a tática da guerrilha, atacando as tropas alemãs em emboscada, e este fato novo, teve uma resposta cruel. A vingança alemã foi terrível, estima-se que entre 250 mil a 300 mil pessoas foram dizimadas, entre elas, crianças, mulheres e idosos pela fome. A Alemanha usou a tática genocida, a política da terra queimada em aldeias e plantações, destruição de poços de água e outras fontes de alimentos. Em 1905, um dos líderes das tropas alemãs, o capitão Wangenheim, escreveu a von Gotzen, "Só a fome pode trazer uma solução final. As ações militares serão mais ou menos uma gota no oceano"
"Em minha opinião, a fome e a angústia levaram a uma submissão final e completa. Ações militares, mais ou menos, continuar a ser uma propaganda"(de acordo com Gotzen 1909: 149).. Gotzen governador concordou com esta opinião e justifica as ações tomadas pelos alemães como se segue: "Como em todas as guerras contra os povos não civilizados (...) também no caso em apreço, era indispensável para implicar bem planejada danos a bens e haveres da população hostil. A destruição de valores econômicos, como o incêndio de assentamentos e de alimentos, pode parecer bárbara para o estrangeiro. Se percebe, no entanto, por um lado, a rapidez com que as habitações dos negro são construídas de novo e como o crescimento exuberante da natureza tropical produz culturas novo campo e, por outro lado, que na maioria dos casos, o que foi confirmado por este levante também, a subjugação dos povos hostis só foi possível por tais procedimentos. Em conseqüência, uma virá para uma visão mais branda sobre este assunto (como dirá necessitas)."
As conseqüências da destruição foram enormes, todo o sul da África Oriental Alemã foi completamente devastada e o poder político e a estrutura econômica do povo Ngoni totalmente aniquilada.
INACREDITÁVEL:
Liwale é um dos seis distritos da Região Lindi da Tanzânia, e a Igreja Católica Apostólica Romana conseguiu uma grande vitória, perfazendo a incongruência da história:muitos descendentes dos grupos étnicos massacrados pelos alemães, hoje cristãos, peregrinam considerando os religiosos alemães mortos na Guerra dos Maji-Maji como mártires.
Durante a Revolta de Maji-Maji, em 1905, foram assassinados, no caminho para Peramiho, o Bispo Cassian Spiss com dois Irmãos Beneditinos, e nossas Irmãs Felicitas Hiltner e Cordula Ebert.
No centenário do assassinato houve uma peregrinação e solene celebração naquele lugar.
Na página das BENEDITINAS MISSIONÁRIAS DE TUTZING, encontramos: No dia 29 de agosto de 1905, perto de Nyangao, faleceu a nossa Irmã Walburga Diepolder, vitimada pelos guerreiros da Guerra de Maji-Maji.
“Inaugurou Fotos da bela peregrinação por ocasião do Centenário do assassinato do Bispo Cassian Spiss, dos dois Irmãos e das duas Irmãs, em Liwale, em agosto de 2005. Foi celebrada a Bênção da Pedra comemorativa”.
O genocídio cometido pelo Império Alemão no oeste africano nos traz reflexões de como o mito de superioridade racial, filosófico e religioso, baseado na intolerância trouxe conseqüências destrutivas porque depois do massacre e da fome os povos ficaram marcados por toda uma existência, tendo os seus modos produtivos transformados, experiências religiosas destruídas e grupos étnicos com histórias milenares abalados.
A experiência desta guerra serviu como inspiração para as grandes batalhas panafricanistas do século XX. Não devemos esquecer que o sangue derramado de 300 mil crianças, mulheres, idosos e guerreiros germinaram a semente da África para os africanos.
VILAS QUEIMADAS - 1907
Este genocídio foi quatro vezes maior do que o genocídio feito contra os povos Herero e Nama, que aconteceu no mesmo período, onde a Alemanha havia arrasado as nações Herero e Nama na Namíbia, matando de fome quase 75 mil pessoas. Vede: O GENOCÍDIO ESQUECIDO – A REVOLTA DOS HEREROS E NAMA NA NAMÍBIA
Bacharel em Direito (Estácio de Sá/FIB), Acadêmico de Línguas Estrangeiras da UFBA, Pan-Africanista. Pesquisador das relações étnico-raciais e jurídicas. Pseudônimo: Aswad Simba Foluke. E-mail: ulisses_soares@hotmail.com. Facebook: Ulisses Passos.
O objetivo desse artigo é indicar ao publico do blogger BAYAH o filme Histórias Cruzadas (The Help, USA. 2011), destacando seus principais elementos e introduzindo reflexões acerca do papel da afro-americana empregada domestica no Sul dos Estados Unidos em meados da década de 60.
O Filme
The Help, romance escrito pela estadunidense Kathryn Stockett, foi adaptado ao cinema com nome homônimo (Histórias Cruzadas, no Brasil) pela Dreamworks e lançado no dia 12 de agosto deste ano.
O filme, a exemplo do livro, busca retratar a relação racialista entre as empregadas domésticas afro-americanas e as brancas para as quais elas trabalhavam, em Jackson no Mississipi, durante os anos 60.
O enredo se desenvolve através da perspectivas de duas empregas domésticas (Aibileen e Minny) e de Skeete, uma jovem branca recém-graduada que sonha em ser escritora. Ao perseguir seus objetivos, ela perde Demetrie, a empregada negra que foi seu porto seguro em uma infância fraturada pelas separações e ausências dos pais, após uma atitude arbitraria de sua mãe.
Motivada por esse fato, Skeete decide pesquisar e entrevistar mulheres pretas que servem e cuidam das “boas famílias cristãs do sul” dos Estados Unidos. Apesar das proibições legais, das ameaças e da vigilância da sociedade racista em Jackson, Skeeter consegue o apoio de Aibileen (Viola Davis), governanta de um amigo, que por sua vez conquista a confiança de outras mulheres que têm muito que contar. No entanto, relações são forjadas e irmandades surgem em meio à necessidade que muitos têm a dizer antes da mudança dos tempos atingirem a todos.
Análise da Obra
O filme busca retratar através do olhar das empregadas afro-americanas a sociedade racialista do sul dos Estados Unidos e da paixão fervorosa de uma jovem branca americana em ser escritora.
A estrutura social onde se desenvolve a obra é marcada pela desigualdade formal, através de um conjunto de leis chamados Jim Crow, e material, através do racialismo segregacional e ideológico intenso. Para entender com profundidade as relações apresentadas pelo filme, é necessário compreender o complexo sistema racial estadunidense, antes e depois da luta pelos Direitos Civis.
O filme, em si, consegue retratar a opressão vivenciada pelas domésticas afro-americanas, através de recortes bem elaborados do ponto de vista social e psicológico, destacando sutilmente a violência gratuita dos homens negros, não retratados na história, e a continuidade da posição socialmente estigmatizada de geração em geração daquelas mulheres.
Antes de concluir, todavia, destaco a crítica realizada pela Associação de Mulheres Pretas Historiadoras (tradução livre de The Association of Black Women Historians - ABWH) que em comunicado oficial ressaltou que "Apesar dos esforços para comercialização do livro e do filme e seu objetivo em contar um progressivo triunfo sobre a injustiça racial, The Help distorce, ignora, e banaliza as experiências das pretas empregadas domésticas”.
A crítica acima se baseia nos estudos realizados pela ABWH, cujo filme apresenta um retrato quase uniforme dos homens negros, como cruéis ou ausentes, além de velar os constantes assédios sexuais dos patrões brancos sofridos pelas empregadas afro-americanas.
Por fim, entendo proceder à crítica realizada pela ABWH, mas ressalto que nem o livro, nem o filme se propõem a discutir profundamente os recortes dados pelo ABWH, mas retratar a visão de Kathryn Stockett, uma branca norte-americana, acerca das relações étnico-raciais, utilizando para isso as histórias de mulheres pretas, mantidas no anonimato.
Assim, o blogger BAYAH deseja a todos e todas boas reflexões e um ótimo filme.
"Eu sou preta, e formosa, ó filhas de Jerusalém, como as tendas de Quedar, como as cortinas de Salomão ". Cantares de Salomão 1:5.
A modelo Esti Mamo nasceu em 1983 em Chilga, no noroeste da Etiópia. Ela é membro da comunidade Beta Israel.
Dando continuidade ao artigo anterior sobre a Beth Israel (Casa de Israel) notamos que há um desconhecimento de alguns irmãos e irmãs de como a tradição oral e a história documental interpretam o surgimento dos hebreus na Etiópia. Sabemos que os melhores historiadores sobre Beta Israel são os membros daquela comunidade, porque mantém tradições vivas comprovadas através da oralidade e um pertencimento milenar oriundo da tradição mosaica que não deixa dúvidas da sua originalidade, apesar de historiadores brancos tentarem colocar em dúvida uma das mais antigas comunidades hebréias existentes no mundo. Dúvida esta desfeita pelos próprios rabinos do judaísmo (askenazis e sefarditas) os quais sem saída tiveram discussões em exaustivas reuniões e chegaram à conclusão: A Casa de Israel é composta de verdadeiros hebreus.
Entre algumas hipóteses que criaram sobre Beta Israel, uma tenta colocar em dúvida a sua origem hebraica, as outras três informam a sua provável origem, sendo a nº 1 aceita pela oralidade da comunidade, a saber:
(1) O Beta Israel são descendentes da tribo israelita de Dan. (2) São descendentes de Menelik I, filho do rei Salomão e da rainha de Sabá. (3) São descendentes dos cristãos etíopes e de “pagãos” que se converteram ao judaísmo séculos atrás. (4) São descendentes de hebreus que fugiram de Israel para o Egito depois da destruição do Primeiro Templo em 586 a.C, e acabaram por se instalar na Etiópia.
As hipóteses um, dois e quatro se completam na própria explicação da comunidade, corrobora o histórico de suas migrações de Israel. A tradição oral, preservada pelos sacerdotes da comunidade, explica que houve uma migração dos filhos de Israel para o exílio no Egito, após a destruição do Primeiro Templo pelos assírios no ano de 586 a.C. e também no exílio babilônico. Estes hebreus permaneceram por centenas de anos no Egito até o reinado de Cleópatra que a auxiliaram na guerra contra Cesar Augustus, sendo derrotados na guerra, eles fugiram para a Arábia do Sul, posteriormente foram para o Yemen; outros se dirigiram para o Sudão até chegarem à Etiópia.
Alguns membros da comunidade de Beta Israel afirmam que as suas origens são Danitas contemporânea a Moisés, quando alguns Danitas partiram após o Êxodo e mudaram-se para sul, até a Etiópia. Eldad, o Danita, realmente descreve ao menos três ondas de imigração israelita para a esta região, criando outras tribos israelitas e reinos, incluindo as primeiras levas que se instalaram em um remoto reino da "tribo de Moisés": este foi o mais forte e mais seguro reino hebreu de todos, com aldeias agrícolas, cidades e grande riqueza. É importante ressaltar que houve diversos reinos israelitas na África os quais não são citados porque são provas incontestes da cor dos descendentes de Avraham (o pai de muitas nações pretas).
Os hebreus na Etiópia mantiveram os seus costumes da época mosaica sem influência do judaísmo (não existe esta palavra nos escritos sagrados) e seus talmudes (interpretações da lei criada pelos askenazis). As tradições de Beta Israel estão baseadas no Torá que está escrito em pergaminhos e outros livros considerados sagrados como o de Enoque, seus costumes são bem antigos e muitos deles somente praticados pela comunidade e eram desconhecidos pelos chamados judeus (origem européia) atuais.
Beta Israel viveu no Norte e Noroeste da Etiópia, em mais de 500 vilarejos espalhados por um vasto território, entre populações muçulmanas e populações cristãs. A maioria se concentrava na área em torno do lago Tana e ao norte no Tigre, Gonder Wello e regiões, e entre os Semien, Wolgait, Dembia, Segelt, Lasta, Quara, Belesa, e um pequeno número viveu nas cidades de Gonder e Adis Abeba.
Os hebreus da Etiópia sempre foram considerados estrangeiros, pessoas estranhas a região, por manterem vivos os costumes ancestres do mosaismo, foram discriminados e perseguidos, tendo resistidio por milhares de anos. Tanto assim que o termo falasha significa estrangeiros.
O Kebra Nagast, relato escrito em Ge'ez das origens da linha salomônica dos Imperadores da Etiópia, é legitimamente questionado pela casa de Beth Israel. O objetivo do livro é proclamar a Glória dos Reis. Não a glória dos reis hebreus, mas a glória dos reis cristãos, escrito, em sua maioria, provavelmente no século XIV para deslegitimar a dinastia Zagwe, e proclamar a dinastia salomônica que é uma dinastia cristã reverenciada como legitima na Etiópia e pelos grupos rastafáris nas Américas, considerada pelo Beth Israel como uma dinastia usurpadora do trono hebreu e transformadora das tradições ancestrais. O Kebra Nagast é considerado uma falácia pelos verdadeiros hebreus.
A resistência dos hebreus após a conversão de Ezana ao cristianismo (religião branca européia) realizado por Frumêncio foi ativa, onde se recusaram a adotar o cristianismo e ocorreu uma guerra civil entre os hebreus e os cristãos, os hebreus migraram para a serra de Siemen e fundaram o Reino de Siemen (Reino dos Gideões) na parte oeste-norte da Etiópia, cujo primeiro rei foi Fineas.
As guerras foram constantes por causa das perseguições do império cristão etíope. No século nono, durante uma batalha, o rei hebreu foi morto, assumindo o reinado a sua filha que se tornou a imperatriz hebréia Judith que aliada ao povo de Agaw investiu contra o império axumita no ano de 960. As tropas da confederação das tribos de Israel e Agaw, lideradas pela Rainha Judith, invadiram a capital de Axum conquistando-a e destruindo-a, queimaram inúmeras igrejas e impuseram o Estado hebreu sobre Axum. Além disso, o trono Axumita foi arrancado e as forças da Rainha Judith saquearam e incendiaram o mosteiro de Debre Damo, que a época era um tesouro e uma prisão para os parentes do sexo masculino do imperador da Etiópia, matando todos os herdeiros potenciais do imperador. A rainha hebréia Judith governou por 40 anos, tendo os seus sucessores governados por mais de 400 anos toda a Etiópia.
"CAMPO DE JUDITH": uma área repleta de ruínas de prédios destruídos, que segundo a tradição foram arruinadas pelas forças da Rainha Judith.
A Idade de Ouro do reino de Beta Israel ocorreu, de acordo com a tradição etíope, entre os anos 858-1270, na qual o reino hebreu floresceu. Durante esse período, os israelitas espalhados pelo mundo ouviram falar pela primeira vez as histórias de Eldad ha-Dani que aparentemente visitou o reino. Marco Polo e Benjamin de Tudela também mencionaram um reino israelita independente na Etiópia nos escritos desse período. Este período termina com a ascensão da dinastia cristã salomônica.
No ano de 1270, os cristãos assumem de novo o poder e longas guerras começam, e no reinado do imperador cristão Yeshaq (1414-1429) o reino hebreu é invadido e dividido em três províncias, sendo forçada a conversão de muitos israelitas ao cristianismo, sob a ameaça de que ou se convertiam ou perdiam as terras. Yeshaq decretou: "Aquele que é batizado na religião cristã pode herdar a terra de seu pai, caso contrário, deixá-lo ser um Falāsī". Isso pode ter sido a origem do termo "Falasha" (falāšā, "andarilho", ou "pessoa sem-terra"). Neste período os hebreus foram considerados pessoas de segunda categoria, inferiores aos cristãos.
Os israelitas não se curvaram as humilhações e a apropriação de suas terras pelos cristãos e em 1450 após reativarem o exército invadiram o império cristão etíope, mas foram derrotados, resultando no massacre durante sete anos de milhares de hebreus.
Quando os muçulmanos invadem a Etiópia na sua guerra de expansão pelo território africano, os hebreus fazem um pacto de paz e auxiliam os exércitos cristãos contra o inimigo do Islã, sendo derrotados pelos muçulmanos e sofrendo mais uma vez um violento massacre das tropas otomanas e do sultanato de Adal. Como apoio do império cristão axumita e de seus aliados portugueses e das ordens dos jesuítas conseguem expulsar os muçulmanos, mas, com o auxílio das forças de Portugal e da Ordem dos Jesuítas, o império etíope, sob o domínio do imperador Gelawdewos, invadiu o reino hebreu e executou o rei Jorão. A conseqüência dessa traição dos cristãos foi que o reino hebreu se tornou restrito a região das Montanhas Semien.
Com a morte de Jorão, o rei Radi assume o trono hebreu e faz guerra contras o imperador cristão Menos, conseguindo reforçar as suas defesas das montanhas Semien. No governo do imperador cristão Sarsa Denge, o reino hebreu é novamente invadido e o rei hebreu Gósen e muitos de seus soldados foram executados. O desespero dos hebreus levou a muitos membros do reino a cometer o suicídio. Em 1627, o imperador Susenyos invade o reino hebreu e após derrotá-lo, anexa-o ao império etíope.
"Os homens e mulheres Falasha lutaram até a morte das alturas escarpadas da sua fortaleza... lançaram-se sobre o precipício ou cortaram a gargantas uns dos outros ao invés de serem presos, era um Masada Falasha. [Os líderes rebeldes] queimaram toda a história escrita dos Falasha e todos os seus livros religiosos, era uma tentativa de erradicar para sempre a memória hebraica da Etiópia” "(Righteous Judeus, AAEJ Imprensa, 1981).
Os hebreus foram capturados e vendidos como escravos, forçados ao batismo cristão, e tiveram negado o direito à própria terra. A independência de Beta Israel foi retirada, assim como ocorreu com seus irmãos israelitas em Massada, séculos antes em Israel.
É deveras complicado para muitas pessoas entender as interpretações histórico-religiosas sobre a Etiópia. O desconhecimento das populações do Vale do Nilo proporciona uma historiografia e analises étnico-sociais duvidosas, obtusas e confusas difundidas por escritores e pensadores eurocentristas, acadêmicos pretos, estudiosos religiosos e grupos afro-americanos.
Durante toda história etíope, advieram diferentes interesses econômicos que conseqüentemente geraram conflitos pelo poder político, tais conflitos alteraram a tradição oral e as concepções do sagrado. São distintas cosmovisões anacrônicas em um mesmo território e sempre estiveram em conflito, apesar de no primeiro olhar parecerem estar entrelaçadas. Sendo assim, é muito importante a compreensão desses ethos pelos afro-diaspóricos, principalmente os grupos que se utilizam daquela ancestralidade na fundamentação de seus posicionamentos filosóficos e religiosos.
A Etiópia, décimo maior país da África em extensão territorial, abrange cerca de 1.138.512 km² e principal constituinte da região conhecida como Chifre da África. É limitada a norte e a nordeste pela Eritréia, a leste por Djibuti e Somália, a sul pelo Quênia e a oeste e a sudoeste pelo Sudão. A Etiópia é conhecida por suas medalhas de ouro olímpicas, igrejas esculpidas em rochas, o lugar onde se originou o grão de café e por ser um dos locais descritos pela ciência como origem dos primeiros seres humanos.
Há cerca de 80 diferentes grupos étnicos na Etiópia, os dois maiores são: Oromo e Amhara, ambos falam línguas afro-asiáticas. O grupo Oromo (Galla) é aproximadamente 40% da população e concentra-se principalmente na parte sul etíope. Os grupos Amhara e Tigrean correspondem a 32% da população e tradicionalmente dominam a política etíope. O grupo Sidamo vive nos sopés ao sul e nas regiões de savana correspondendo a 9%, enquanto o Shankella compõe cerca de 6% da população e residem na fronteira ocidental. O somali (6%) e Afar (4%) habitam as regiões áridas do leste e sudeste. Os povos do Nilo vivem no oeste e sudoeste ao longo da fronteira do Sudão. O Gurage representam 2% da população, e 1% restante é composto de outros grupos. O Beta Israel (chamados pejorativamente de Falashas e conhecidos como "judeus negros") vive nas montanhas de Simen e atualmente são cerca de 4.500 pessoas, isto porque a maioria dos 140 mil migrou para Israel. Outros grupos minoritários como os Beja vivem na região norte, o Agau no planalto central, e o povo Sidamo na encosta sul e regiões da savana são os remanescentes dos primeiros grupos que habitaram a Etiópia.
FACES OF ETHIOPIA
Entre os diversos grupos que formaram a história etíope, dois nos dão subsídios ao que desejamos pontuar: Beta Israel e os membros da Igreja Ortodoxa Etíope (Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo, que se compõe pelas diversas etnias). E, na Afro – América, os seguidores da filosofia Rastafari que tem como referencial e utopia a Etiópia, pátria espiritual do movimento religioso Rastafari.
Logo, ressalto que não há pretensão em um artigo de um blogger escrever uma tese. O principal objetivo deste texto é iniciar uma discussão para entendermos melhor estas diferenças no território etíope, as causas e conseqüências do exílio dos hebreus de Beta Israel, a formação do cristianismo ortodoxo e a referencia da história etíope por grupos afro-americanos.
BETA ISRAEL
Beta Israel (Casa de Israel), erroneamente chamados de Falashas (estrangeiros), é formada por hebreus que saíram de Israel a milhares de anos atrás e depois de varias migrações se instalaram nas montanhas de Gondar na Etiópia, tendo como referência a terra dos seus ancestrais (Israel), sabedores que não pertencem originariamente ao território etíope.
IGREJA CRISTÃ ETIOPE
A Igreja Cristã Ortodoxa Etíope surge no século IV com a conversão do rei Ezana de Axum, foi um dos mais influentes e poderosos impérios mundiais e um dos primeiros a instituir o cristianismo como religião oficial de Estado. Saiba mais lendo o artigo: AXUM - AS IGREJAS ESCULPIDAS EM ROCHAS NA ETIÓPIA
Ethiopian Orthodox Church Song
RASTAFARI A filosofia rastafari é pan-africanista, oriunda da interpretação de uma revelação do grande líder Jamaicano Marcus Garvey, tornando-se conhecida internacionalmente a partir da década de 60 do século passado, tendo como um dos principais objetivos a repatriação dos africanos nas Américas. Como disse, a Etiópia é a pátria espiritual do movimento religioso Rastafari.
Como vimos, são períodos linearmente diferentes que em certo momento na história se encontram: o Mosaismo de Beta Israel e o Cristianismo de Ezana criando conflitos de poder, perseguições e no século XX exílio para o primeiro grupo. Por outro lado, o Movimento Rastafari surge após a escravidão nas Américas, intimamente ligado à história da Igreja Cristã Etíope.
Os rastafaris que tem como um dos seus princípios a genealogia salomônica descrita no livro Kebra Nagast, assim legitimam as dinastias etíopes como descendentes diretos de Menelik, filho do rei Salomão e da rainha Makeda de Sabá. Devemos atentar que o Kebra Nagast apresenta Salomão como descendente da tribo de Judá, por isso os rastafaris elegeram o imperador etíope Haile Sellasie, como o Leão de Judá, o Mashiach (Messias). Título e função não reconhecidos pelo próprio monarca, um fervoroso seguidor da Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo.
Peter Tosh "Rastafari Is"
A Etiópia tem laços históricos com as três mais importantes religiões do mundo que se dizem abraâmicas. Foi um dos primeiros países cristãos no mundo, tendo adotado oficialmente o cristianismo como religião do Estado no século IV d.C. Mantêm algumas observâncias do Tora, como: a guarda do sábado, a circuncisão masculina após o nascimento e regras alimentares,entre elas, a proibição da ingestão de carne de porco. Além disso, as mulheres da Igreja Ortodoxa Etíope são proibidas de entrar nos locais de adoração quando menstruadas, cobrem a cabeça com um lenço e sentam-se separadas nas igrejas, os homens sempre à esquerda e as mulheres à direita (quando de frente para o altar).
Um importante diferencial da Igreja Etíope e de outras igrejas cristãs é a tradição de que Menelik levou a Arca da Aliança para a Etiópia. Sendo cristã compactuam com a concepção européia de um messias branco (Jesus Cristo) e não compactuam com a filosofia Rastafári sobre Haille Selassie como sendo o Messias. Na fé dos Rastas, Haile Selassie é reverenciado como Jah Ras Tafari I, o Messias, o “Cristo Negro” que ascendeu ao Trono do Rei Davi em Adis Abeba, capital da Etiópia.
Em certos escritos e vídeos alguns grupos rastafaris colocam Beta Israel como referência, causando uma enorme confusão.
Deixando essas duas linhas de interpretação da Igreja ortodoxa Etíope e dos Rastafaris, iremos nos centrar no conflito milenar entre a maioria etíope cristã e a minoria hebréia de Beta Israel. É muito importante pontuar que Beta Israel não aceita o Kebra Nagast, concomitantemente, não veio com Menelik conforme os escritos e tradição etíope. Beta Israel, segundo a sua própria oralidade, é da tribo de Dan (danitas) não são da tribo de Judá (judeus). Não aceitam a Trindade, ao contrário, são monoteístas, e tem como base de fé o Torá e o Tanach. Ignoram a tradição etíope e a filosofia rastafari. É importante ressaltar, que Beta - Israel e os hebreu-israelitas nas Américas não se utilizam do termo JAH, porque não existe no Torá e no Tanach. O nome do Eterno é YHWH e em muitos trechos do Tanach é citado como YAH.
Não confunda a tribo de Judá e a dinastia salomônica com Beta Israel que é da tribo de Dan. Não esqueçam Jacó (Israel) foi pai de 12 filhos, e originou as 12 tribos de Israel, sendo a tribo de José, dividida em duas: Mannasés e Efraim. Beta Israel e a dinastia salomônica foram para a Etiópia em momentos distintos e por razões diferentes, apesar de serem da descendência de Israel. Beta Israel não aceita como verdadeiro o cristianismo etíope.
Ressaltando mais uma vez, a história dos hebreus (Beta Israel) foi de extrema perseguição desde que o cristianismo chega à Etiópia, com as transformações da tradição oral e as novas concepções de poder criadas pela suposta dinastia salomônica. Neste sentido, no próximo artigo discorremos sobre a negação do Kebra Nagast por Beta Israel e as guerras de sobrevivência dentro da Etiópia dos hebreus da tribo de Dan (Beta Israel), enfrentando guerras violentas contra o império cristão axumita, perseguição do fascismo de Mussolini e vitimas da ditadura etíope, da guerra civil e da fome, até que fugiram retirados por tropas israelitas (askenazis), através da Operação Moisés (1984) e da Operação Salomão (1991).
Recordo-me da minha infância, quando crianças pediam a benção a uma idosa da cor de ébano que calmamente andava na rua onde morava, sempre no mesmo horário:
- A Benção, Vovó!
E ela respondia alegremente:
- Que Deus te abençoe, meu netinho.
Era uma zeladora de Umbanda. A Nós não nos interessa sua religião, porque ela demonstrava carinho e amorosidade com todos na mesma medida. Também pedíamos a benção aos padres capuchinhos, por interesse de ganhar laranja, uma benção, uma laranja. Até hoje não sei como aqueles homens idosos possuíam tantas laranjas. Era um pedido de benção interesseira.
Cresci indo a diversas sessões de umbanda, acompanhando o meu irmão que era fotografo na época, e quando já adolescente para jogar capoeira, antes das chamadas giras. Foi um bom tempo e muito aprendizado da diversidade religiosa brasileira. Sempre admirei a umbanda pelas suas propagandas de caridade e ficava impressionado por um dia ter visto um hospital umbandista no bairro de Mesquita - RJ.
Certa feita, ocorreu um fato interessante. Meu pai fora um comunista convicto, admirador da Rússia, de Carlos Prestes e do Partidão. Gostava de nenhuma religião, todavia solicitou a minha mãe que confeitasse um bolo para a festa de homenagem a São Jorge, em um terreiro de Umbanda, atendendo a um pedido de um zelador que era colega dele no Cais do Porto. Meu pai se orgulhava de ver os lindos bolos confeitados pela minha mãe e alegremente construía as suas armações. O bolo para São Jorge foi um dos mais belos que eu vi na vida. Mas, senti que a minha mãe o fez e o confeitou sem mostrar a mesma alegria como naqueles que fazia gratuitamente para as festas na Igreja Presbiteriana de Queimados -RJ, aniversários, batizados e de casamentos de jovens que ela gostava.
Meu pai foi estivador e na infância aprendeu o ofício de carpinteiro. Minha mãe, na época já era presbiteriana, não gostava de comentar o seu passado no candomblé, em Salvador-Bahia. Relatava que foi convidada para ser mãe-pequena. Viveu toda a sua infância, adolescência e inicio da vida adulta freqüentando e convivendo em terreiros de candomblé. O pouco que sei, e nada sei, das cantigas e danças cerimoniais foram mostradas através da minha mãe nos momentos de paciência e recordações. Ela me ensinou que Deus era conhecido por Zambi. Não gostava da Umbanda, achava muito diferente do candomblé e as danças “sem graça”.
Quando fui estudar teologia no Seminário Presbiteriano de Campinas-SP, um grande amigo me convidou para irmos a um centro de Umbanda pregar o evangelho e pela primeira vez vi a maioria dos fieis brancos. Nós entregamos folhetos na entrada daquele templo religioso, e após minutos de “evangelização” o sacerdote, um homem branco, calmo e paciente, nos convidou para entrar e falar da nossa fé. Logo em seguida, perguntou se ele podia ir ao seminário falar da Umbanda. Ficamos sem resposta, agradecemos e nunca mais tive a coragem de distribuir folhetos naquele templo.
Na década de 80 do século passado, a umbanda se transformou em estudos sociológicos dos teólogos protestantes. Apesar de contestações por estudiosos, foi considerada a religião que mais crescia; um fenômeno: a religião autenticamente brasileira.
Com o crescimento dos cultos neopentecostais e o acirramento exarcebado de ataques as religiões afro-brasileiras aumenta os episódios de intolerância religiosa, sendo a Umbanda a maior de suas vítimas. Acompanhei esse fato de perto, porque ministrei aulas de História da Igreja em um seminário da Igreja Universal do Reino de Deus, o qual foi precocemente fechado por ordens da direção.
Li um pouco da história da umbanda e sua linguagem popular que conseguiu quebrar preconceitos do espiritismo com a comunidade de descendentes de africanos. Sou a favor de toda a liberdade religiosa e de expressão, e de antemão, destaco que o cristianismo em suas diversas matizes é participe direto das mazelas do nosso povo. Fato este que a umbanda não foi.
O dia 13 de maio me traz ruins recordações: Na escola primária, todos os anos os colegas brancos e as professoras relembravam a data com sorrisos maléficos. E diziam frases como: “Agradeça a Princesa Isabel” ou “a culpa de vocês estarem aqui é da Princesa Isabel”. Eu estudei em colégios privados onde os pretos sempre foram minoria.
O dia 13 de maio é um dia festivo para a Umbanda, sendo comemorado o “Dia dos Pretos Velhos”. Abaixo, um vídeo exibido na Rede Globo em sua homenagem:
SAGRADO - Rede Globo comemora o Dia do Preto Velho - TV Globo (2011)
A mensagem trazida pelo vídeo é de amorosidade, de perdão e de esquecimento das mazelas que sofreram os escravizados no Brasil: “Destinados a todos que acreditam na humildade e no perdão”.
A escravidão dos africanos foi um crime lesa-humanidade nos conceitos atuais do direito internacional e todas as pessoas que lutam contra a discriminação racial interpretam desta maneira.
O 13 de maio é uma data controversa, poucas organizações a defendem como um dia realmente especial que merece comemorações, e historiadores proeminentes como Mario Maestri Filho já escreveu artigos sobre a importância revolucionária desta data. Por outro lado, a maioria das organizações do Movimento Negro coloca o dia 13 de maio como o “Dia Nacional de denúncia contra o Racismo”. O dia 13 de maio foi recusado pela maioria dos militantes que festejam o dia 20 de novembro, a maior data da comunidade preta, em homenagem a Zumbi dos Palmares.
A Umbanda está no primeiro grupo, tanto assim, que homenageia os “Pretos velhos” nesta data, sendo estes especiais para a existência desta religião. Achei deveras interessante, as análises feitas através da psicografia do Pai João das Almas, no site do POVO DE ARUANDA, publicado em 06 de dezembro de 2006, entre diversas informações destaco:
- A senzala era o único lugar onde o negro conseguia ser livre. Minha história de vida foi muito triste, mas aprendi muito. O sinhô era um homem muito refinado e não me tratava mal, mas a sinhá era uma mulher muito infeliz. Seu coração cheio de fel não sabia amar. Era temida e detestada. Por muito pouco mandava chicotear os escravos da senzala e o sinhô fazia todas suas vontades. Negrinhos eram afastados das suas mães, velhos escravos iam para o tronco e as escravas caseiras tremiam com as ordens da caprichosa sinhá. Eu não me queixava e jamais cultivei o ódio e a vingança. Alguns escravos odiavam os senhores com todas as forças até à morte. No plano espiritual, continuavam a perseguição perturbando os senhores com a força da magia negra e da vingança. Como é bom ser bom! Como é triste ser mau! Quantas lágrimas e sofrimentos os senhores plantaram através de suas atitudes. No entanto, todos caminharemos para a Eterna Felicidade! O caminho mais sublime é o Amor, mas alguns só evoluem através da Dor!
As palavras do Preto Velho são de extrema submissão e aceitação da escravidão, uma negação das lutas de resistência: A senzala como local de liberdade:
A senzala era o único lugar onde o negro conseguia ser livre.
O elogio a passividade:
Eu não me queixava e jamais cultivei o ódio e a vingança.
A censura à resistência dos escravizados: Alguns escravos odiavam os senhores com todas as forças até à morte. No plano espiritual, continuavam a perseguição perturbando os senhores com a força da magia negra e da vingança.
O senhor do escravizado sofria mais:
Pior que a escravidão os grilhões da maldade e do preconceito. Muito pior que nosso sofrimento era o peso dos pecados daqueles que oprimiam seus irmãos de cor.
Sobre o dia 13 de maio, conclui que teve uma vida sem lutas pelo povo preto na escravidão:
No dia 13 de maio, a alforria! No entanto, as lembranças marcaram minha vida para sempre. Foi minha encarnação mais proveitosa. Nessa vida de martírios, cultivei a renúncia e a humildade.
No município Rio de Janeiro se aprovou uma lei que institui o ensino de holocausto. Os judeus não esquecem e nem perdoam os crimes do nazismo. Imagine em um espaço religioso, um ancestral se dizendo judeu se manifestar como vítima das mazelas do nazismo e repetir as palavras do Pai João das Almas. Haverá uma contestação da comunidade judaica? O que você acha?
Para a maioria das organizações do Movimento Negro no Brasil no dia 13 de maio nada tem a ser comemorado, e sim, relembrar como um dia de protesto de uma abolição mal acabada, e conforme as frases do poeta Limeira: "Hábil Lição da escravatura." Para os espíritos desencarnados da Umbanda e seus seguidores juntamente com uma pequena parcela do Movimento Negro é dia de comemoração e de alegrias. Quem está com a razão?
Cotidianamente nos deparamos com slogans que exaltam a miscigenação racial. Há mais ou menos um mês, ouvi um pesquisador, titular de uma grande Instituição Científica, afirmar que: “Quanto mais mistura melhor. Por isso o brasileiro é forte. Nem 100% branco, nem 100% negro, mas 100% vira-lata.”
A princípio, não fiquei tão indignada com tal afirmativa, pois meus ouvidos já funcionam como “peneiras” para estas propostas maliciosas e destruidoras, principalmente porque no local as pessoas pretas eram nitidamente contadas. Mas, ao ler um Best-seller escrito por Corinne Hofmann, “A MASSAI BRANCA – MEU CASO DE AMOR COM GUERREIRO AFRICANO” e assistir ao filme tive a certeza que o sinônimo de Demônio para os povos brancos, foi palavra extremamente bondosa e caridosa do Profeta Malcolm X. Pergunto-me: Como é possível um guerreiro de um grupo africano tão resistente, os Samburu, sujar e prostituir o seu corpo e sua comunidade com uma MULHER BRANCA? Por que a comunidade Samburu aceitou este ser estranho em seu meio? Durante o filme é bastante visível os conflitos culturais e raciais que uma relação dessa espécie pode trazer sendo os relatos escritos em seu livro mais deprimentes e repugnantes.
TRAILER DE A MASSAI BRANCA
O povo Samburu é originário de Nubia-Kush e se estabeleceram ao norte do Monte Quênia e ao sul do Lago Turkana, na área do Vale do Rift, desde o século XV. Possuem uma existência de semi-nomadismo e a sua economia é baseada no pastoreio - na criação de gado, ovelhas, cabras e camelos - que representa riqueza e status. O povo Samburu celebra os nascimentos, os rituais de iniciação e casamentos com muita pompa e cerimônia. O apogeu da vida de um Samburu é o ritual iniciático à vida adulta.
Os casamentos são estruturados por uniões poligâmicas, onde um homem pode casar-se com tantas esposas que for capaz de pagar o dote. Quanto mais animais possuir, mais fácil será obter uma esposa. O dote para a família da noiva é tipicamente pago com gado. Os casamentos intra-clãs são proibidos e os casais escolhidos pelas famílias.
Falam a língua Maa, e são primos dos Massai, sendo normalmente confundidos. Os Samburu possuem uma história de resistência singular, não aceitando as imposições culturais do colonizador inglês, apesar das missões católicas e protestantes estarem presentes em suas terras, para destruir a sua cultura e dominá-los mentalmente.
Glory Outreach in Samburu
Uma das vitórias do povo samburu é manter a língua Maa e preservar as tradições dos seus ancestrais, apesar de que muitos guerreiros tiveram de participar nas tropas inglesas na 2ª Guerra Mundial e outros trabalham nas forças policiais do Quênia.
SAMBURU DANCE Vol.1
O filme de Hermine Huntgeburth deveria ser THE WHITE SAMBURU, isto é, se a mesma não desestruturasse a comunidade. O marketing europeu divulga os massai, por serem mais conhecidos, abertos ao contato com os brancos e muitos falarem o idioma inglês. O filme conta de forma deturpado o que está escrito no livro, a dita paixão sentida pela protagonista do filme por um Guerreiro Samburu, não passava de promiscuidade comumente sentida por brancos pelo nosso povo. A masculinidade do homem preto africano e diasporico desperta além de fantasias sexuais a representação de virilidade e um troféu. O envolvimento deles leva ao rompimento de praticas ancestral, como o não beijo na boca, para os samburu a boca é feita para alimentação e não com fins eróticos. A comunidade altera sua vivência e rotina com a introdução de objetos, costumes e alimentos europeus. É fortalecido o etilismo e uso de ervas de maneira depravada, sendo essas ervas usada de maneira sacerdotal e curativa por grupos religiosos de forma equilibrada, e não como objeto de alienação, fuga da realidade. Corinne Hofmann uma viciada na maconha alimentou tráfico de drogas no Quênia, como a mesma relata no seu livro na página 361: “De acordo com o seu ponto de vista, Edy naturalmente vem por causa de mim e certo dia ele me pega comprando maconha de Edy. Ele ralha comigo como seu fosse uma fora-da-lei perigosa e ameaça me denunciar a polícia.Fico parada, perplexa, e nem seque consigo chorar. Afinal preciso dessa coisa para poder agüentá-lo.Tenho de lhe prometer que nunca mais fumarei maconha, senão ele me denunciará”.
Observa-se o quanto foi, é e será perigoso o envolvimento racial entre pessoas brancas e pretas, pois sempre a comunidade africana estará prejudicada. Como foi escrito no titulo do livro e do Filme: MEU CASO DE AMOR COM GUERREIRO AFRICANO, amor este destruidor, violento e egoísta. Realmente foi um caso, um momento na vida da mulher branca que volta para seu país de origem e lá continua sua vida sem maiores problemas ou alterações, mas para aquele homem preto que quebrou laços ancestrais, que negou sua forma de olhar o mundo e de se relacionar com ele foi simplesmente um iniciar de uma história catastrófica e irreparável, que não terá um fim tão breve, pois diferente dos brancos e seus atos egocêntricos, nós pretos compartilhamos com a nossa comunidade tudo a nos ofertado. Um provérbio africano diz assim: “A ruína de uma nação começa nas casas de seu povo”.
O Guerreiro Samburu Lektinga iniciou a destruição de seu povo no momento que olhou para aquela mulher branca de espírito prostituto e demoníaco e a deu valor de uma mulher. Não é possível amar alguém que bagunça nossa casa e nos leva a cometer delitos brutais contra si mesmo e aos seus. Manter laços afetivos com o estranho é suicídio e genocídio. O maior problema neste tipo de relacionamento é o fruto gerado, no caso deles uma filha chamada Napirai. Um ser mestiço é a peça mais perigosa dentro de uma comunidade, com certeza a crise existencial dessas pessoas, as torna uma arma de autodestruição, pois podem assumir a identidade do povo preto tanto quanto do povo branco e até mesmo formarem outro grupo pró mestiçagem. É relatado no livro que ao retornar da Suíça, Napirai chora ao olhar os rostos pretos da comunidade dos Samburu. O filme também não relata a sua carta de despedida na página 364, onde em um trecho ela escreveu:
"Mas, agora, depois da última chance que tivemos em Mombaça, reconheço que você não é feliz e eu muito menos. Nós ainda somos jovens e não poderemos continuar assim. Agora você não me entenderá, mas depois de algum tempo você também verá que vai poder ser feliz com outra. Para você é fácil achar uma nova mulher que viva no mesmo mundo. Mas dessa vez procure uma mulher samburu, não uma branca, somos diferente demais. Um dia você terá muitos filhos".
Corine tenta impor a sua cultura européia a um Guerreiro Samburu e à sua comunidade, como sempre o europeu projeta suas concepções de superioridade e de conquistas. Ela é oriunda da Suiça-Alemã. Os alemães, nesse período da história recente, construíram um legado de destruição e genocídio no continente africano. Nunca podemos esquecer o massacre dos Hereros e Nama, na Namíbia em 1905. Clique aqui e leia mais sobre O GENOCÍDIO ESQUECIDO – A REVOLTA DOS HEREROS E NAMA NA NAMÍBIA
Assista ao filme e leia o livro que estão disponíveis em diversos sites. Veja com os seus próprios olhos e reflita sobre os fatos que acabei de relatar.
Informações Técnicas Título no Brasil: A Massai Branca Título Original: Die Weisse Massai País de Origem: Alemanha Gênero: Drama Tempo de Duração: 132 minutos Ano de Lançamento: 2005 Estreou no Brasil: 21/09/2007 Site Oficial: http://www.dieweissemassai.film.de Estúdio/Distrib.: Europa Filmes Direção: Hermine Huntgeburth
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