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domingo, 5 de agosto de 2012

QUILOMBO E MATRIARCADO - RAINHA NGOLA NA REGIÃO AMAZÔNICA





Walter Passos - Historiador
Skype: lindoebano

Facebook: Walter Passos


Os estudos sobre o matriarcado deveriam pautar a historiografia brasileira, mas o poder patriarcal e androcêntrico nos estudos acadêmicos cerceam e omitem o matriarcalismo nas reconstruções de sociedades africanas no Brasil.

Quando falamos em quilombo, mocambo, cafundó, terra de preto e outras designações pelos quais os estudiosos adjetivam a resistência dos escravizados através da fuga e da formação de aldeamentos, é deveras importante entender a questão de poder e as relações sociais capazes de permitir por séculos que estas experiências se tornassem viáveis até os dias atuais.

O matriarcado esteve presente em todas as migrações voluntárias dos africanos pelo planeta. Trazida com os prisioneiros (as) das guerras travadas em Mãe áfrica (sociedades matriarcais) pelos cristãos europeus (sociedades patriarcais), esse modelo de organização será o tema que discutiremos em breve.

Os bantus (“humanos”, na linguagem do Kongo) que falam cerca de quatrocentos idiomas e habitam do oeste para leste o Gabão, Camarões e norte ao sul do Sudão até a Namíbia. Os vários grupos étnicos Bantus dominaram a metalurgia do ouro e do ferro, usando este último, produziram machados, espadas, enxadas e enxós. Além disso, as habitações têm uma arquitetura particular de cabanas circulares ou aldeias chamadas de Msonge. Tais avanços permitiram a colonização de seus territórios ao longo de um período de cerca de quatro mil anos. Muitos grupos étnicos bantus foram sequestrados para as Américas e trouxeram consigo as suas experiências matriarcais.

No seu último livro, que não viu impresso, Décio Freitas visitou uma das menos conhecidas revoltas populares da história brasileira, o movimento que nos livros escolares aprendemos com o nome de Cabanagem. Dizendo em palavras vagas, foi uma insurreição ocorrida principalmente em Belém, entre 1835 e 1840, e reprimida sangrentamente – teriam morrido no total umas 30 mil pessoas, cerca de 25% da população do Pará na época. Foi designada com esse nome por motivos triviais: é que de fato a maior parte dos envolvidos vivia em cabanas pobres, em malocas improvisadas, numa vida miserável que foi, sem dúvida, o combustível da revolta.No livro A Miserável Revolução das Classes Infames, Freitas relata sobre a existência de um quilombo matriarcal na floresta amazônica, liderado pela rainha NGola e outras guerreiras, informação obtida após a tradução de cartas de Jean-Jacques Berthier, um francês que aos 14 anos de idade teve que fugir da França para Guiana Francesa após ser assediado por um pedófilo que o condenou na Revolução francesa.

Fugindo das batalhas que assolaram o país depois da independência, ele foi parar num desses mocambos matriarcais – justamente o da rainha Ngola – e viveu lá entre 1824 e 1828. Sua carta enviada ao irmão Guillaume, em Nantes, na França, foi pesquisada pelo historiador Décio Freitas para o livro A Miserável Revolução das Classes Infames e mostra com riqueza de detalhes como era a vida nesse pedaço da África em plena floresta amazônica.

Berthier informa que eram quatro quilombos adjacentes com 300 moradores em cada um deles e um principal com uma média de 700 moradores, sendo um total de 1900 habitantes. Assevera de que o quilombo principal já tinha cinquenta anos de existência e a rainha que governava já era a terceira Ngola. Um detalhe chama a atenção da descrição da rainha. ela estava em uma cadeira de espaldar alto colocada em uma plataforma, via-se na altura do espaldar uma serpente de ouro encastoada.

No decorrer do relato sobre os mocambos o poder da rainha é demonstrado com castigos impostos aos homens que só podia conversar com ela prostados de joelhos, e quando falavam algo não consensual eram castigados com até três bastonadas na cabeça. Berthier ao ser recebido para solicitar asilo não se prostou sendo imediatamente castigado, e aprendeu a lição de respeito ao matriarcado, recebendo também uma bastonada e prostou-se. Asilo aceito e algumas condições foram expostos:

- Poderia viver na comunidade como irmão, mas, não era permitido relações sexuais com as mulheres pretas, nem se pagasse o dote. O motivo apresentado pela rainha era porque as mulheres eram poucas e necessárias para a reprodução da raça preta sem mistura de sangue branco ou indígena. Mas, poderia casar com uma mulher nativa e tornaria capitão das milícias nas lutas contra os brancos que não permitiam a liberdade dos pretos e eram pérfidos.

Interessante são os relatos do francês sobre o poder matriarcal que o deixou embasbacado

A RELAÇÃO CONJUGAL POLIANDRICA

As mulheres escolhiam os companheiros e eles passavam pelo teste da convivência por alguns meses, só assim ela analisava se ele era satisfatório. Se por acaso fosse aprovado tinha que pagar um dote requisitado pela noiva e ela declarava a todos da aldeia que ele era a partir daquele momento o seu marido. As mulheres podiam ter até cinco maridos, robustos e ágeis, escolhendo qual deles ela manteria relações sexuais e os mandava embora no momento que assim entendessem. Os maridos moravam em suas próprias cabanas e elas escolhiam entre eles um que era o responsável de supervisionar a família que poderia ter 20 filhos, este “privilegiado” morava em sua cabana. Outra atribuição masculina era carregar a esposa nas costas, quando ela não queria andar a pé.

Em Moçambique, existem ainda sociedades matriarcais e poliandricas, onde as mulheres têm voz mais ativa e poder. Estas sociedades remanescentes encontram-se no norte de Moçambique. Um amigo relatou que encontrou uma mulher que teve um marido, filhos e depois o deixou, e ela encontrou outro e outro e voltou a relacionar-se com o primeiro e tem um outro que vive em casa. Eles se coordenam e visitam aquela mulher sem conflitos com o atual, aquele que vive em casa é o atual marido, enquanto os outros são SOBRESSALENTES, como elas chamam.

ECONOMIA

A economia da comunidade baseava-se no trabalho masculino na agricultura, caça, pesca, tecelagem, olaria, serralheria, extrativismo e mineração de ouro vigiados por guerreiros da rainha. O ouro era utilizado para confecção de joias para a rainha e o restante para conseguir armas. Realizavam também trocas de gêneros com holandeses da Guiana. também vendiam tabaco e mandioca para as populações ribeirinhas e praticavam a pirataria: os soldados de Ngola atacavam canoas em rios distantes, roubando os viajantes – ou então saqueavam povoações de brancos.

FORÇA DE DEFESAEra composta de guerreiros de cabeça raspada e não trabalhavam para a suas esposas e tinham o privilegio de obedecer somente à rainha Ngola. Constantemente realizavam ataques de guerrilhas a povoações dos brancos para o saque.


RELIGIÃOMantinham as práticas das religiões ancestrais e conforme relato do Frances:

"Reverenciam ídolos com feições de homens, mulheres e feras, aos quais periodicamente fazem sacrifícios. Qualquer celebração religiosa deve ser autorizada pelo feiticeiro, que é também o curandeiro em suas doenças."


Notamos um desconhecimento completo da metafísica religiosa bantu por Berthier, embasado de preconceitos cristãos sobre o que não entendia.

LAZER
Dança e música usando os instrumentos “pungo” e marimba. O missivista demonstra perplexidade com as mulheres que passavam o tempo sentadas no chão conversando, cantando e fumando tabaco.

O machismo de Berthier não entendia o matriarcalismo e na sua visão androcentrica as mulheres deveriam servir aos homens.

EDUCAÇÃOA oralidade através de contadores de histórias.


Relata Freitas: "É uma pena que Berthier não se alongue mais na narrativa sobre a sua experiência no mocambo. Seria nada menos que sensacional se desse mais informações sobre aquela sociedade poliândrica, semelhante à de Palmares e às de algumas regiões da África. Mas não indica sequer aproximadamente a localização geográfica do mocambo, embora certas referências permitam supor uma região para os lados da Guiana Francesa.
O laconismo talvez se deva ao fato de ter jurado, com sangue, perante a rainha Ngola, guardar rigoroso segredo sobre o mocambo."


Concluo este artigo citando um provérbio que com certeza se aplicou a Berthier:

"O olho nunca se esquece do que o coração vê."
-
Provérbio bantu.


  Acesse:
 
Poemas de amor ao povo preto:


ACESSE PRETAS POESIAS:

segunda-feira, 22 de junho de 2009

SARAMAKAS - SAMARAKANS

Por Walter Passos, historiador, teólogo e membro da COPATZION (Comunidade Pan-Africanista de Tzion). Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br
Skype: lindoebano
SURINAME
O Suriname encontra-se na parte norte da América do Sul, costa Atlântica a 2 ° -6 ° de latitude norte, 54 ° -58 ° de longitude Oeste (163.266 km²). Limita-se a leste com a Guiana Francesa, a oeste com a Guiana e ao sul com o Brasil. O interior está coberto de florestas e os rios convertem-se em um único acesso. O Suriname é extremamente diversificado etnicamente, linguisticamente, e religiosamente, os muçulmanos constituem 20% da população do Suriname, a percentagem mais elevada de muçulmanos em todos os países das Américas; a sua população estimada em cerca de 470.000 pessoas. “Consiste de aproximadamente 38 % de “Hindustanis” (descendentes de trabalhadores contratados que importou da Índia durante o final do século XIX), 31 % de “crioulos” (descendentes de escravizados africanos), 15 % de “javaneses” (descendentes dos indonésios importados como trabalhadores contratados no início do século XX), 10% de "quilombolas" (descendentes de escravizados africanos, que escaparam das plantações e formaram suas próprias comunidades no interior das florestas), e menor número de Portugueses judeus (sefardistas), chineses e libaneses. As primeiras populações do Suriname, cerca de 12.000 descendentes dos habitantes originais ameríndios ainda sobrevivem: Caribes e Arawaks na planície costeira; Trio, Wayana, Warrau, Wayarekule e algumas dezenas de Akurio no interior do país.
Quase toda a população vive ao longo da faixa costeira, a metade reside na capital, Paramaribo. Sendo o menor estado em território e população da América do Sul e tem como língua oficial o neerlandês, única no hemisfério ocidental e não faz parte dos Países Baixos.
A região havia sido observada pelos holandeses, mas a invasão das terras dessas populações pelos europeus foi em 1630, quando colonos Ingleses liderados pelo Capitão Marshall objetivaram fundar uma colônia. Tentaram desenvolver culturas de tabaco, mas o empreendimento fracassou financeiramente. Em 1650 Lord Willoughby governador de Barbados resolveu fundar uma colônia no Suriname.
Em 26 de fevereiro de 167O a região foi novamente invadida por sete navios holandeses liderados por Abraham Crijnssen e após três horas de lutas venceram e colocaram o nome da região de Forte Zelândia. Em 31 de julho de 1667, os Ingleses e os holandeses assinaram o Tratado de Breda, no qual, de momento, o status quo foi respeitado: os holandeses poderiam manter a ocupação britânica do Suriname e da ex-colônia holandesa New Amsterdam (moderna Nova York). A região invadida e nomeada pelos ingleses de Willoughbyland foi renomeada Guiana Holandesa. A França também ocupou a região a qual foi devolvida aos holandeses em 1816 após a derrota de Napoleão.
Em 1954, o Suriname adquire o autogoverno, e os Países Baixos mantiveram o controle da defesa e os negócios estrangeiros. Em 1973, o governo local, liderado pelo NPK (uma grande parte partido crioulo) iniciou negociações com o governo holandês sobre a independência, que foi concedida em 25 de novembro de 1975.
O CATIVEIRO E EXPLORAÇÃO DOS AFRICANOS
Os protestantes calvinistas holandeses traficaram 300.000 africanos, homens e mulheres da costa ocidental e de regiões centrais para as plantações de açúcar, café, cacau, algodão, extração de madeiras e diversos serviços de exploração. A apropriação da doutrina da predestinação dos verdadeiros hebreus foi dada nova ressignificação e simbolismos, sendo fundamental para os calvinistas holandeses e ingleses para a escravização e exploração e dos povos originais. Não somente entraram em guerra no Suriname, também na África do Sul onde criaram baseados na doutrina da predestinação o sistema do apartheid.

http://bibliodyssey.blogspot.com/2007/08/surinam-slave-trade.html
Poucos professores de história sentem-se preparados para discutir tão importante tema nas escolas e universidades. Recordo-me quando iniciei os estudos sobre as comunidades quilombolas no início da década de 80 do século passado no estado da Bahia e era censurado por militantes negros que não compreendiam a existência dessas comunidades, e hoje se arvoram em “doutores e doutoras de quilombos”, fui inúmeras vezes censurado por afirmar que milhares de quilombos ainda existiam em uma época que só se falava no quilombo de Palmares, e alguns historiadores pesquisavam resistência escravizada quilombola somente em arquivos. Tenho grandes agradecimentos ao Mario Maestri Filho, meu ex-professor de história, aos seus ensinamentos e compreensão ao ensinar-me que estudar história do Brasil sem entender escravidão não era possível, e ao pesquisador Guilherme que em 1981 me fez compreender que quilombos se estudam in loco, visitando as comunidades.
O estudo dos quilombolas ainda está em fase inicial, apesar de algumas regularizações de “terra de preto”, não há condições de estudos mais aprofundados no que tange a história, sobretudo iniciaram-se incipientes e recentes escavações arqueológicas em Palmares. Torna-se necessário a formação de arqueólogos pretos objetivando a pesquisa em comunidades quilombolas em toda a América-Africana. No geral poucos estudos lingüísticos estão sendo realizados nas comunidades em território brasileiro, as quais ainda sofrem um processo de discussões políticas e ataques da grande mídia, porque terra de pretos é um problema que afeta os interesses dos latifundiários.
Os pretos escravizados se rebelaram de diversas maneiras, e entre elas a formação de quilombos em toda a América-Africana, sendo este fato histórico essencial para a compreensão do escravismo e sua derrocada. Muitas designações foram dadas, no Suriname receberam o nome de “bush negroes” nas colônias inglesas, de “maroons”, cimarrons, em Cuba, de 'palenques'. Novos estudos são feitos dessas comunidades em diversos países, como na Jamaica, USA, Venezuela, Equador, Republica Dominicana, etc.
Na verdade, ainda a muito de se estudar este fenômeno em toda a América-Africana. No Brasil, estas comunidades eram chamadas de quilombos, mocambos, coitos, palmares, cafundós, terra de pretos, entre outras.
Uma das mais importantes comunidades de descendentes de escravizados fugidos é a dos Saramakas do Suriname que ainda hoje é atuante e ainda resiste, com uma identidade própria, um estado dentro do estado surinamês. Enfrentaram o estado em uma guerra violenta iniciada no ano de 1986, obrigando milhares de quilombolas a se refugiarem na Guina Francesa, e em pleno século 21 é considerado o maior quilombo sobrevivente da América-Africana.
Infelizmente pouco se fala dessa resistência do povo Saramaka nos meios populares e os militantes pretos a desconhecem em sua maioria, este é o assunto que compartilharei com as leitoras e leitores desse blogger, de antemão, será apenas um escurecimento das informações relegadas nos bancos de educação eurocentrados.
OS SARAMAKAS




Diversos grupos de escravizados fugidos do Suriname se organizaram em quilombos, e os ancestrais dos Saramaka foram africanos capturados e vendidos para a escravidão no final do século XVII e início do século XVII para trabalhar nas plantações de açúcar, madeira, e cafezais. Oriundos de vários povos Africanos e falando muitas línguas diferentes, fugiram para a densa floresta tropical, individualmente e em pequenos grupos e, por vezes em grandes grupos. Realizaram rebeliões por quase 100 anos lutando uma guerra de libertação. Um século antes da emancipação dos escravizados, o estado holandês foi obrigado a assinar um tratado com os saramakas e vivem como um estado dentro do Suriname.

A FAMÍLIA SARAMAKA
Acredito que a organização familiar é à base da manutenção da herança ancestral das pretas e dos pretos e os saramakas conseguiram manter a unidade familiar, apesar de terem se refugiado na floresta e convivido com os nativos, conseguiram preservar as suas tradições africanas. Evidente que as inferências ocorreram, mas não foram determinantes e não mudaram na continuidade da africanidade deste povo.
Entre eles os princípios da matrilinearidade são importantes e, pois determinam os bens materiais e espirituais, é importante entender que matrilinearidade não é matriarcalidade.
O casamento é precedido de permanentes agrados entre os homens e mulheres, apesar de que muitos homens tenham até sete esposas durante a vida com a prática da poligamia.
A fertilidade das mulheres celebrada, e a prática da amamentação das crianças se prolonga por um bom tempo, diferente dos padrões ocidentais.
As crianças têm uma educação matrilinear sendo orientados pela família materna e as jovens estão aptas ao casamento aos quinze anos de idade e os rapazes aos vinte anos.
Possuem uma economia baseada no extrativismo, na caça e na pesca, praticando também a agricultura com as culturas do arroz, mandioca, taro, quiabo, milho, plátanos, banana, cana de açúcar, e o amendoim. Cuidam também de plantas nativas como a fruta-pão, coco, laranja, mamão e abóbora. A caça e a pesca são partilhadas entre os parentes. Os homens constroem casas e canoas e esculpem uma vasta gama de objetos de madeira para uso doméstico, tais como cadeiras, pás, bandejas, utensílios para cozinhar, pentes e outros utensílios. As mulheres costuram e bordam as roupas e fazem panelas de cabaça e trabalham na cerâmica e na produção de cestas. Atualmente já lideram comunidades.



O trabalho assalariado fora das aldeias é de prática masculina como também as viagens para ganhar dinheiro no litoral do Suriname e da Guiana Francesa para fornecer as mercadorias ocidentais consideradas essenciais para a vida em suas casas e aldeias, tais como espingardas, pólvora, ferramentas, vasos, tecidos, espreguiçadeiras, sabão, querosene e rum. Durante a segunda metade do século XX, as pequenas lojas aparecerem em muitas aldeias, e peças de motores, rádios transistores, e gravadores . Hoje em dia, telefones celulares são onipresentes e a comunicação com Paramaribo, tanto por homens como por mulheres, tem aumentado bastante. E novas oportunidades econômicas na indústria de mineração do ouro - para os homens, a prostituição de mulheres - estão atualmente a ser explorada.
Pela importância deste fato histórico será dividido em duas partes, na segunda parte versaremos sobre as religiões e muitas formas de adivinhação para descobrir as causas das doenças ou infortúnio; rituais, incluindo a bela percussão e danças, a veneração dos ancestrais e a adoração do deus-serpente, os espíritos das florestas e rios; as crenças sobre várias almas; idéias sobre as maneiras que o conflito social pode causar a doença; os extensos ritos dos gêmeos; o culto secreto dos guerreiros, os funerais como o mais importante de todos os rituais.
A medicina africana atendia aos brancos e no século XVIII apesar da presença de oito médicos brancos na colônia, os escravizados desempenharam crucial papel com as suas ervas e curas, tanto entre os cristãos e os judeus. Também iremos escrever sobre a língua e a guerra dos Saramakas (OCORRIDA NO FINAL DA DÉCADA DE 80 DO SÉCULO PASSADO AOS ANOS 90).


quinta-feira, 8 de maio de 2008

QUILOMBO, EVANGELIZAÇÃO E CONTRADIÇÃO CULTURAL

Kelly, 23 anos, recém-casada. Pseudônimo Nzinga Mbandi.

Localização: O Quilombo Campinho da Independência está localizado ao sul do Estado do Rio de Janeiro, a 20 km da cidade de Paraty, entre os povoados de Pedras Azuis e Patrimônio. É banhado pelo rio Carapitanga e servido por cachoeiras e pela exuberante Mata Atlântica.
Histórico: A origem do Quilombo Campinho da Independência é muito peculiar. Todos os moradores são descendentes de três escravas: Antonica, Marcelina e Luiza. Segundo as histórias contadas pelos mais velhos as três não eram escravas comuns, pois tinham cultura, posses e habitavam a Casa Grande. Conta-se que no local existiam grandes fazendas, sendo a Fazenda Independência a mais importante. Após a abolição da escravatura os fazendeiros abandonaram suas propriedades e as terras foram divididas entre aqueles que nela trabalhavam.


Eu nasci, cresci, vivi e vivo até hoje em um quilombo, logo, sou quilombola. Já nasci em um lar cristão, nunca fui de outra religião.
Até certo momento da minha vida, confesso que achava que deveria separar a religião da cultura. Nós temos festas comemorativas que acontecem anualmente: dia de São Benedito, Festas Juninas e Julinas, Encontro da Cultura Negra e etc, aonde são dias em que quase toda a comunidade se reúne para se alegrar, dançar, brincar, sorrir... Mas esse evento é freqüentado apenas pelos católicos da região.
Meu quilombo é formado por 400 pessoas, sendo boa parte delas membros da Igreja Assembléia de Deus, onde se encontra mais problemas na hora de “liberar” seus membros para quaisquer eventos “mundanos” no quilombo. Temos a Igreja Batista da qual sou membro. O pastor nunca fica sabendo para onde vamos e o que faremos lá, pois ele também é contra essa mistura de religião com cultura. Acontece se passarmos muito tempo freqüentando esses eventos e festas e sermos excluídos, bem mais pra frente, por intermédio de “irmãos” que vão até o pastor criticar nossa “má conduta”. Existe aqui também, como já falado anteriormente, a Igreja Católica, que é a que está mais presente em tudo. E temos umas duas, três ou mais pessoas que são admiradores ou até mesmo seguem Umbanda e Candomblé, ressaltando que, não temos terreiro em nossa comunidade. Já tivemos um, mas a pessoa que o mantinha não mora mais em nosso quilombo e a grande vontade dos que a esta, é reconstruir um templo, um terreiro por lá. Com certeza, haverá “quebra-pau”, pois o preconceito ainda é muito grande. Se me perguntarem o que eu acho de tudo isso, eu responderia que não tenho nenhuma opinião formada a respeito. A evangelização nos dividiu demais, não somos unidos como deveríamos ser. Tínhamos conseguido resgatar o jongo depois de um considerável esforço e hoje ele já não existe mais tão fortemente como antes, pois a maioria dos componentes era da Assembléia de Deus e o pastor os impedem completamente de continuar a fazer parte, assim como também no futebol.
Temos um grupo de Hip Hop, aonde no penúltimo evento que nos apresentamos, não contamos com a presença de um dos componentes que nos “deixou na mão” sem prévio aviso e logo quando contatado, disse que seu pastor (Assembléia de Deus), achou melhor que não fosse tocar conosco. Ele é do grupo já há um tempo, e hoje não sabemos se ainda o é. O que falta é reunião para redefinir.
Aos poucos, tudo vai sendo destruído pela forte “pressão religiosa”. E sobre isso, eu tenho uma opinião formada. No passado, Yeshua não falou em evangelização. As palavras de Yeshua foram mudadas conforme os europeus quiseram. Yeshua veio pra fazer a diferença. Assim como veio Ghandi, Tchê Guevara, Zumbi, esses nomes tão fortes e ilustres. Yeshua falou em amor, união, paz. No Velho Testamento, vemos passagens de sacrifícios/oferendas que eram oferecidos a Deus e, claro, ainda hoje o sacrifício é realizado. Ao contrário do que dizem, ele não é, nunca foi e nunca será pecado. Por acaso é pecado oferecermos a Deus nossas vidas, nossas casas e tudo o que temos? Por um acaso é pecado oferecer o meu animal mais forte, mais bonito e vistoso a Deus? Eu me disponho a responder: Não. Não é!
Isso foi à forma mais fácil que os europeus encontraram de começar a conversão, a mudança, e transformar a nossa religião, a religião dos pretos, em uma religião abominável como hoje o é aos olhos de muita gente. Aos poucos foram excluindo isso e aquilo e quando demos conta, já estavam lá, suspendendo a imagem de um Yeshua branco, ensangüentado, totalmente diferente da realidade. Começaram a apelação: Se não creres, se não vieres até ele, será lançado no inferno juntamente com o diabo. Diabo... está aí outra criação deles para conversão pelo temor. No quesito artístico, tenho que admitir, eles tiveram talento e criatividade. É muito fácil conseguir arrastar milhares e milhares de “fiéis” para os bancos das igrejas alegando que se morrerem sem estar em “comunhão” com Deus, irão para o inferno. Só não percebe que isso é completamente inviável quem não quer. Mas não pretendo falar sobre diabos e demônios agora.
Deixe-os para aqueles que adoram os invocar e fazem questão de trazê-los pra dentro das igrejas gritando pelo seu nome e fazendo fileiras de oração depois do culto com as mãos postas sobre as cabeças, dando show de graça para todos que quiserem ouvir, e também ver as pessoas se contorcendo no chão, duros e fazendo caretas. Eu sou amante de psicologia e sei bem que, mexemos com energias, nosso corpo sempre responderá positivamente a um comando, pois somos energias. Isso se chama Hipnose.
Acho engraçado, as pessoas vão até a igreja sem problema algum e muitas das vezes saem pior do que entraram, com o corpo totalmente sobrecarregado (Claro! Depois de uma sessão de espiritismo, não tem como ser diferente). Absolutamente nada contra os espíritas, mas é que em muitas igrejas, me sinto sentada em uma “mesa branca” assistindo todos os espíritos baixarem. Muitas igrejas trabalham desta forma, “acham lindo”, e ainda “metem o pau” nos espíritas e macumbeiros. Por que será? A forma de trabalho é praticamente a mesma, não consigo ver muita diferença. Acho que a única, é que os espíritas assumem que são espíritas.
Eu, como protestante preta, não mais sigo o Cristianismo enquanto instituição. Eu sigo o Cristianismo de Matriz Africana. Esse acaba com o ódio que muitos sentem do cristianismo enquanto instituição, que é uma religião que massacra, aterroriza, impede as pessoas de serem felizes e as obrigam a viver sob fortes regras, as transformando em bonecos de corda, marionetes.
Em um Domingo, presenciei um irmão de a igreja pedir que oremos, pois nossa igreja está sendo perseguida sem um porquê. Agora eu pergunto, sem um por quê? Absolutamente! Claro que tem um porque. Qual a religião que sempre invadiu terreiros nessa vida? Qual a religião que sempre deu showzinho em público quebrando imagens de santos? Que religião segue o prefeito de Salvador que mandou derrubar todos os terreiros? Eu respondo: O Cristianismo enquanto instituição. Muitos crentes vieram me dizer: “Ah, mas não podemos ser todos incriminados por uma coisa que só esse prefeito fez”. Quando me voltei pra essa pessoa e perguntei se ela achava que o prefeito estava errado, não soube me dizer. Ou seja, considera apelação do prefeito, mas acha que ele está no caminho certo.
Infelizmente, tudo isso reflete dentro do meu quilombo. O mesmo preconceito!
E eu digo, é possível sim, crer em Cristo e manter as tradições. Por mais que muitos pensem o contrário, Cristo está mais próximo das tradições do que imagina e um dia essa verdade, irá ser revelada para rompimento do sofrimento do meu povo preto. Eu creio!
Graças à capacitação de historiadores, esse mistério vem sendo desvendado com certezas. E o rancor, o ódio de algumas pessoas de outras religiões, vem sendo quebrado. Vão percebendo que os europeus se apropriaram do cristianismo e o transformaram em uma religião violenta. Falo com bases nas posturas de meu marido hoje, comparando com as que ele tinha assim que nos conhecemos e começamos a namorar. Tinha pudor, tinha ódio do Cristianismo e hoje, não mais. Não é seguidor de Umbanda, mas falo sem nenhuma vergonha que suas crenças são voltadas pra tal. Nem falava no nome de Jesus de tanto ódio. Hoje me deparo com frases como estas: “Fulano está de um jeito que só Jesus”. E pra isso, não precisei evangelizá-lo. Até seu irmão, que antes tinha o mesmo pudor do Cristianismo, me deparei com uma comunidade em seu Orkut que diz: “Jesus! Eu te amo!” Tudo isso, graças ao desvendamento que se vem dando em relação a isso.
Acho o máximo. Vejo o progresso, graças a Deus! E é disso que precisamos: união entre o povo preto e não precisamos arrastar ninguém de uma religião à outra pelos cabelos.

Deus há de julgar a todos com sua benevolência. Só me pergunto: Como Deus julgará civilizações que usando o seu Santo nome trucidaram 200 milhões de seus filhos e filhas na África e seqüestraram quase 30 milhões para as Américas? Qual será o julgamento para a escravidão de homens e mulheres que se apropriaram da força de trabalho, mudaram as línguas, os nomes, costumes e cometeram atrocidades inimagináveis? Que enforcaram milhares de negros e depois foram para os cultos como nada tivessem feito, com sensação de missão cumprida, com “a alma limpa”, simplesmente por acharem que haviam feito um grande favor pra Deus, matando estes filhos do demônio. Já chegaram a dizer que Deus é branco e que o diabo é que é preto. Quem foram os seguidores e adoradores do diabo e satisfizeram os desejos do mal, foram os seqüestradores ou os meus ancestrais que viviam nas suas florestas e savanas, fazendo seus cultos nos terreiros em paz?
As civilizações ocidentais que se diziam seguidoras de Yeshua foram tão perversas, que hoje, a maioria de nossos irmãos e irmãs se calam, sendo subserviente com medo de clamar e lutar por justiça, porque se consideram descendentes de amaldiçoados e acham que a vontade dos opressores é a vontade de Deus. Veremos!
Grande Asè!




Jongo - Quilombo Campinho da Independência

PRETAS POESIAS

PRETAS POESIAS
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