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segunda-feira, 10 de novembro de 2008

NOVO MOVIMENTO NEGRO

Por Jose Raimundo. Pan-africanista, Afrocentrado. Membro da Igreja Pan-Africanista Tzion. Pseudônimo: Thembi Sekou Okwui. E-mail: soulafrica@hotmail.com

Há quem afirme que nenhum acontecimento do passado se perde no tempo, mas sim, transforma-se. Pelo visto, a transformação, dando origem a algo novo, é um processo natural da existência das coisas. E por ser um processo natural, a transformação é inevitável. Existindo ou não uma força contrária, ela sempre irá acontecer, mesmo que parcialmente, para o benefício da continuidade da existência.
Hoje, acontece algo de crucial importância para sobrevivência do movimento negro, e porque não dizer da comunidade negra, no Brasil, qual seja, a existência de análises e avaliações aprofundadas das ações e políticas do movimento negro nos últimos tempos e seus possíveis avanços. O fruto destas análises e avaliações é o advento da necessidade de renovação do movimento negro contemporâneo, seja pela mudança estrutural e ideológica do que concebemos tradicionalmente, no Brasil, como movimento negro (o movimento social negro), seja pelo surgimento de um novo segmento do movimento negro de caráter libertário, que seguirá seu caminho próprio e natural.
No entanto, a meu entender, só uma mudança estrutural e ideológica do tradicional movimento social negro no Brasil não significa necessariamente um avanço se a finalidade do mesmo ainda for à mesma: a busca incessante por integração racial e aceitação do desumano projeto de relações humanas que esta ai posto. Acredito que o avanço essencial compreende, para além da necessária mudança estrutural e ideológica, uma mudança da própria finalidade do movimento negro e do rumo por ele a ser tomado. Apesar do momento histórico “não ser favorável à existência de um movimento negro de caráter libertário”, pois as relações raciais entre negros e brancos, e a dominação (política, social e, sobretudo, econômica) deste último se dar, no Brasil e no mundo, sob o discurso da “democracia”, dos “diretos humanos universais” e da “igualdade entre os povos”, nos permitindo ter a falsa impressão de que “estamos chegando lá”, acredito que é necessário transcendermos a esta realidade ideológica e analisar as relações raciais sob a luz do fato de que nós estamos, na essência da verdade, em todas as partes do mundo, por nossa própria conta em risco e que os brancos não estão afim de viverem junto com os negros numa sociedade igualitária, justa e solidária.
Mais do que em tempos passados, quando tínhamos que reagir contra o inimigo certo e visível, e não tínhamos esta falsa sensação de liberdade, e deste falso tributo ideológico a igualdade, presentes como velcro da dominação branca, precisamos ser a força reacionário e subversiva que vai possibilitar o surgimento de um novo contexto histórico de luta para o nosso povo. E é justamente a percepção desta necessidade de forçar a mudança do contexto histórico que nos envolve que surge, como efeito colateral, a necessidade de mudança da finalidade do movimento negro, adquirindo este uma percepção de luta de caráter libertário, com vistas a autodeterminação do povo preto-africano.
No entanto, é de se perceber que a necessidade do surgimento de um novo movimento negro, ou de um novo segmento do movimento negro, de caráter libertário, deve emergir antes da desconfortável realidade de subjugação e dominação que se abate sobre a população negra do que do contexto histórico que nos faz pensar o mundo. Apesar de ser compreensível que o contexto histórico é um fator determinante para a constituição e significação das ações e percepções humanas, não é menos verdade que a realidade vivenciada por um determinado grupo também determina, ou pelo menos deveria determinar, suas ações e percepções. Por exemplo, quando afirmam que o pan-africanismo não tem mais razão para existir porque o contexto histórico que permitiu seu nascimento desapareceu, nada mais estão fazendo os observadores limitados do que condicionar as ações e percepções de luta de um povo ao contexto histórico controlado pelo opressor.
Daí, na contramão desta afirmativa errônea, surge uma outra afirmativa, a de que: a existência da ideologia pan-africanista é necessária antes porque a realidade do povo preto ainda é de subjugação, de humilhação em suas condições, de desesperanças, de falta de autonomia para realizar o básico por si, sem o real poder de interferir no seu destino (O Poder Negro), de falta de identidade e sentimentos coletivos, etc., do que do fato de o contexto histórico atual permitir ou não, ou ser favorável ou não, a existência do mesmo. O pan-africanismo encontra razão para existir porque ainda somos um povo escravizado, sendo que, enquanto estivermos subjugados pelos dogmas do racismo, que é a continuação da escravidão numa perspectiva moderna, deve existir a necessidade da ideologia libertária pan-africana.
O pan-africanismo é a única saída para o povo negro do mundo encontrar-se consigo mesmo num futuro de paz e liberdade O pan-africanismo é a mais eficaz ferramenta de unificação dos povos africanos do mundo, nos possibilitando pensar num real projeto de libertação negra, para além das fronteiras e identidades nacionais que limitam o nosso pensamento, nos dando um sentido para vivermos enquanto uma nação negra. Seja lá qual for os rumos e as finalidades dos movimentos negros no Brasil, pois sua complexidade e pluralidade é visível, o que mais deve deixar a comunidade negra tranqüila é o fato de existir dentro do movimento negro um segmento transformador, revolucionário e libertário, que soube, e esta sabendo, transcender na análise do contexto histórico controlado e imposto pelo opressor e buscar uma real e verdadeira saída para libertação do povo preto, sem acreditar que somente a vivência conjunta com os brancos é a única solução para os nossos problemas.
Um novo movimento negro não significa, necessariamente, a mudança dos quadros dos militantes e das ideologias políticas integracionistas que norteiam as ações e pensamentos do movimento negro social. Até porque sempre existirão os “Pai Tomas” que estarão atrelados à estrutura de Poder Branca e fazendo o jogo do opressor. Um novo movimento negro significa o surgimento de uma militância negra alternativa, liberta da cosmovisão européia de mundo, que está preocupada em trabalhar para construção de uma nação africana, seja continentalista seja diaspórica, forte e auto-suficiente. O novo movimento negro (libertário) pode e vai co-existir paralelamente ao velho (integracionista). Mas o novo é preciso e já está nascendo. O novo movimento negro é aquele que acredita que a liberdade africana do passado é a mesma que deve ser reconquistada no futuro. Ou façamos por nós mesmos em vistas de nossa liberdade e dignidade, ou deixemos os outros fazerem aquilo que nós deveríamos fazer por nós mesmo e nos dominar eternamente. Nós, do CNNC, acreditamos nessa perspectiva.
BOB MARLEY - ONE LOVE

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

ROSA PARKS: A MULHER QUE TRANSFORMOU UMA NAÇÃO E AJUDOU A ACABAR COM JIM CROW




Por: Ulisses Passos. Acadêmico de Direito, Pan-Africanista e Presidente do CNNC/BA. Pseudônimo: Aswad Simba Foluke. E-mail: ulisses_soares@hotmail.com

No mês de novembro no Blogger do CNNC/BA foram homenageados algumas personalidades que combateram pela liberdade do povo preto em diversas do planeta. Nossa última homenageada foi uma grande mulher que mudou a vida dos africanos na diáspora nos Estados Unidos da América.

Rosa Louise McCauley nasceu no dia 4 de fevereiro de 1913 em Tuskegee no Alabama – Usa, filha do carpinteiro James McCauley e da professora Leona McCaule, os seus pais se separaram e aos dois anos de idade foi residir com a sua mãe na casa da avó materna em Pinel Level no Alabama, com uma saúde frágil sofrendo de amigdalite e de baixa estatura, aos 11 anos de idade foi matriculada em uma escola industrial para meninas (Miss White's School Girls) onde aprendeu a profissão de costureira, não tendo condições de ir para Alabama State Teachers College's High School realizar o ensino secundário, forçada a abandonar os estudos para cuidar da mãe que adoecera e seu irmão menor Sylvester foi trabalhar para ajudar no sustento da família.
Na Infância foi vítima de ataques da Ku Klux Klan(KKK), organização racista formada por brancos protestantes que queimavam as casas de bairros pretos e praticavam linchamentos, e viu a sua avó com uma espingarda na mão guardando a entrada da sua residência. Houve um período que negros eram linchados sem julgamento nos Estados Unidos e as fotos são de extrema crueldade, a qual não postarei nesta página, por serem de extrema violência e as denomino exemplos do holocausto preto.
Conhecedora e vítima diariamente da segregação racial, presenciou a escola industrial em que estudava queimada duas vezes por incendiários racistas e as professoras pretas constantemente humilhadas, a menina Rosa Louise sabia que teria de enfrentar o racismo e suas seqüelas.
Em 1932 casou-se com o barbeiro Raymond Parks, um jovem de pouca educação formal por causa da segregação racial, e sua mãe Gery Parks o orientou corretamente para a sobrevivência como preto no sistema racista americano. Rosa Parks foi importante no sustento da família, vendendo a sua força de trabalho como empregada doméstica e até como ajudante em hospital, o seu marido insistiu em que terminasse os estudos e ela concluiu o ensino secundário em 1933. Raymond foi um ativista da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), organização fundada em 12 de fevereiro de 1909 por diversas pessoas entre eles o panafricanista Du Bois e brancos anti-racistas para atuar contra a discriminação racial dentro dos Estados Unidos da América, neste ano de 2007 a NAACP decretou estado de emergência pelo aumento da violência contra a juventude preta.
Na década de 30, Rosa foi uma das primeiras ativista a protestar contra a acusação injusta imposta a nove jovens pretos acusados de estuprarem duas jovens brancas, caso conhecido nos Estados Unidos como Scottsboro Boys.
Rosa Parks atuou na NACCP a partir de 1943, trabalhando de secretaria até 1957 e participando de diversas atividades pelos direitos civis.
Foi membro ativa da Igreja Metodista Episcopal Africana fundada em 1790 e antes da guerra de Secessão já possuía 20000 mil membros nos estados do norte, e enviou missionários para os estados do sul sendo a que mais combateu a segregação nos Estados Unidos antes e depois da guerra da secessão. Um dos salmos preferidos pela irmã Rosa Parks foi o salmo 23 que diz:
"O Senhor é meu pastor, nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranqüilas. Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça por amor de seu nome.
Ainda que eu andasse pelo vale das sombras da morte, não temerei mal algum, porque Tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.
Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda.
Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida e habitarei na casa do Senhor por longos dias."
Para que possamos compreendera a segregação na qual foi vítima é necessário conhecer um conjunto de leis conhecidas como Jim Crow nos estados sulistas e fronteiras dos Estados Unidos, executadas entre 1865 a 1965, que separava brancos e negros nas escolas, locais públicos, hospitais, transportes, etc.
Jim Crow foi mais do que leis, tornando-se uma maneira de vida branca americana, regras e costumes, foi à legitimação do racismo anti-preto, tendo diversos tentáculos, especialmente nos meios de comunicação em massa. O termo Jim Crow surge de uma canção feita por um ator branco Thomas Dartmouth (TD) "Daddy" Rice imitando um negro, o qual dizia ser um idoso escravizado que andava com dificuldade ou um jovem preto estereotipado. Ele foi um menestrel que ridicularizava os pretos norte-americanos no século XIX e pintava o seu rosto de preto. Leia mais: http://www.ferris.edu/jimcrow/who.htm
A contribuição de muitas igrejas brancas foi fundamental nas elaborações dessas leis e muitos teólogos e pastores brancos ensinavam nas igrejas que os negros foram amaldiçoados por Deus e estas leis eram da vontade divina, baseadas na má interpretação da maldição de Cam.
Havia toda uma regra de condutas para serem obedecidas pela comunidade africana nos USA, entre elas, exemplificamos: Relações sexuais entre brancos e pretos destruiriam a América Branca; se um homem preto estendesse a sua mão para ajudar uma mulher branca poderia ser acusado de estupro; e em hipótese alguma o preto poderia dizer que um branco estava mentindo; nunca falar que era mais inteligente que um branco,e proibido de mostrar afetividade em público,um beijo entre um casal de pretos era considerado violação da lei, etc..
Algumas dessas leis proibiam o casamento inter-racial de uma pessoa branca com uma preta até a oitava geração; se um homem preto estivesse com uma mulher branca na mesma sala à noite no trabalho, ou um homem branco com uma mulher preta, seriam presos e condenados até 12 meses de prisão; escolas para crianças brancas e pretas eram separadas, lanchonetes, restaurantes, cinemas, banheiros, bebedouros, etc. Leia mais exemplo em: http://en.wikipedia.org/wiki/Jim_Crow_laws
Em 01 de dezembro de 1955 Rosa Parks recusou-se a ordem do motorista James Blake a ceder lugar a um homem branco dentro de um ônibus, este ato de “desobediência civil” a levou a ser presa e fichada criminalmente pela polícia, acusada de violação do capitulo 6, seção 11 do Código de Segregação racial de Montgomery e condenada a pagamento de multas e prisão domiciliar . Em quatro de dezembro de 1955 as igrejas pretas começaram a organizar o boicote o qual foi referendado no dia nove de dezembro quando líderes pretos se reuniram na Igreja Metodista de Zion e o Rev. Ralph David Abernathy sugeriu o nome "Montgomery Improvement Association" (MIA). Os membros foram eleitos e como presidente, um jovem ministro desconhecido da Dexter Avenue Baptist Church, Dr. Martin Luther King, Jr. As Igrejas Pretas lideraram a luta pelos Direitos Civis nos Estados Unidos.
Não foi o primeiro fato ocorrido, outras pessoas já haviam sido presas por se recusarem a se levantar para cederem lugares em transportes públicos aos brancos, mas esse ato teve conseqüências que mudaram a vida dos descendentes de africanos nos Estados Unidos. O incidente resultou no boicote aos ônibus em Montgomery que perdurou durante 382 dias e Rosa Parks disse em uma de muitas das suas entrevistas:
-Nós não temos quaisquer direitos civis. Era apenas uma questão de sobrevivência, de existência de um dia para o outro. Eu me lembro, quando ia dormir, de uma garotinha ouvindo a “Ku Klux Klan” rondando à noite, e ouvindo um linchamento, e com medo de que a casa viesse abaixo pelo fogo.
Na mesma entrevista, ela citou sua longa convivência com o medo como a razão de sua intrepidez em decidir apelar para suas convicções, durante o boicote aos ônibus.
-“Eu não tinha qualquer espécie de medo e foi um alívio saber que eu não estava só.
Racistas retaliaram o boicote aos ônibus com o terrorismo. Igrejas Pretas foram queimadas ou dinamitadas. A casa de Martin Luther King's foi bombardeada na madrugada do dia 30 de janeiro de 1956. No entanto, a comunidade preta organizou com o boicote, um dos maiores e mais bem sucedidos movimentos populares contra a segregação racial realizado por africanos na diáspora nos USA, que originou outros protestos, e que colocou King como um dos líderes à frente do Movimento dos Direitos Civis. O Pastor Martin Luther King Jr liderou Montgomery Improvement Association, resultando em lutas que forçaram o termino da segregação racial nos transportes públicos e no fim das leis Jim Crow, se tornando um dos principais nomes nos Estados Unidos na luta contra a segregação, árduo defensor do integracionismo na sociedade branca americana sendo os seus métodos e sonhos questionados por diversos militantes, como Malcolm X, Fred Hampton, Stokely Carmichael e muitos outros panafricanistas, mas, nunca retirado os méritos de suas ações em prol da liberdade do nosso povo.
Rosa Parks desempenhou um papel importante na internacionalização da sensibilização para a situação dos pretos e pretas americanos nas lutas pelos direitos civis. O boicote aos ônibus de Montgomery também foi a inspiração para boicote na cidade de Alexandria, Eastern Cape da África do Sul, que foi um dos principais eventos na radicalização da maioria preta daquele país, sob a liderança do Congresso Nacional Africano.
Após o boicote Rosa Parks foi perseguida perdendo o emprego e seu marido também tendo que ficar desempregado.
Teve uma vida de lutas e militância pelo povo preto, tendo o seu trabalho reconhecido e homenageada por diversas autoridades, ganhando a medalha do governo americano e faleceu no dia 24 de outubro aos 92 anos, cercada de amigos e deixando pelo seu exemplo a chama acessa para o povo preto.

sábado, 10 de novembro de 2007

Yaa Asantewaa: A Rainha Guerreira Ashanti


Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista 
Kefing Foluke. E-mail: kefingfoluke@hotmail.com
 Skype: lindoebano
Facebook: Walter Passos

Nesse Novembro Negro, hoje iremos discorrer sobre uma das poderosas mulheres pretas da Historia da África recente que empreendeu guerra contra o dominador europeu. As mulheres africanas sempre estiveram na direção de grandes reinos e prontas para o comando de seu povo, muitas dessas civilizações possuíam o modo de produção matrilinear.
Uma dessas mulheres foi Yaa Asantewaa, líder da última resistência realizada no século passado em território africano, diretamente contra o colonialismo britânico feito pela civilização Ashanti, uma confederação de reinos que se desenvolveu no sul de Gana nos séculos XVIII e XIX, tendo a sua capital na cidade de Kumasi, com edifícios feitos de terra, madeira e palha, que hoje são considerados patrimônios da humanidade.
Esta civilização originou-se dos Akan que criaram o Sankofa. O Sankofa é uma metáfora usada em Gana para simbolizar a necessidade de voltar para trás, para recuperar as coisas perdidas, demonstrando que sempre podemos retificar nossos erros; aprender do passado e construir alicerces para o futuro. Sankofa é olhar para trás, manter os pés no chão e direcionar os ombros para frente, buscando a melhoria individual intrínseca na melhoria coletiva. Em Akan existem duas palavras que estão relacionadas à família. A palavra "abusua" é um grupo de descendência corporativa, enquanto que a palavra "fifo" (literalmente pessoas de casa) significagrupo residencial, construindo as bases do Sankofa.
Símbolo do Sankofa

As mulheres africanas Ashantis escolhiam os líderes das aldeias e da civilização com um todo. O poder matrilinear estava instituído dentro do Direito Ashanti, bastante organizado, com regras de condutas consuetudinárias que determinavam o comportamento das relações comerciais, políticas, bélicas, familiares e principalmente políticas.


Os Ashantis desenvolveram dentro de seu arcabouço tecnológicos uma comunicação bastante eficiente, com duzentos quilômetros de alcance, através dos tambores fazendo a transformação do próprio idioma, incluindo acentos, vírgulas e demais estruturas gramaticais para sons em tambores.
Além da estrutura bélica bastante organizada e matrilinear, outra característica fantástica do povo Ashanti é a forma de organização da comunidade através de normas de conduta, ou seja: o Direito Ashanti. Grande parte das normas Ashanti, apesar de não estarem delimitas em normas literais, ainda são utilizadas em Gana, trazendo grande influência a doutrina jurídica daquele país.
Os Ashantis são sete milhões de pessoas, cerca de 30% da população atual de Gana e não devemos confundir com o Império da Gana que perdurou até o ano 1.200 d.C. Há pormenores interessantes nessa civilização, um equilíbrio no poder no que tange a matrilinearidade.
O Império britânico manteve em guerra a civilização Ashantis durante o período de cem anos. No final do século XIX o império britânico após aprisionar o herdeiro do reino Ashanti o Asantehene Prempeh enviou a capital Kumasi o Lord Hodgson, e mandaram um ultimato as lideranças objetivando conseguir o cetro dourado, símbolo da união, poder e soberania Ashanti e houve uma reunião com todos os chefes e nenhum deles contestou a exigência feita, demonstrando covardia perante o branco invasor .Então repentinamente Yaa Asantewaa Rainha -Mãe de Ejisu(1850-1921) levantou-se e falou:
- “Agora eu vejo que alguns de vocês temem ir adiante para lutar pelo nosso rei. E se fosse nos dias heróicos de Osei Tutu, Okomfo Anokye e Opoku Ware que foram chefes e não se sentariam para ver o seu rei ser levado para longe sem disparar uma bala, nenhum homem branco temeu falar para o líder dos Ashantis do jeito que o governador falou para o chefe de vocês hoje de manhã. É verdade que a bravura dos Ashantis acabou? Eu não poso acreditar. Isto não pode ser. Eu tenho que falar isto: Se você é um homem Ashanti e não for adiante , então nós iremos. Nós as mulheres iremos. Eu chamarei as minhas companheiras. Nos lutaremos contra o homem branco. Lutaremos até que a última de nós caia em campo de batalha. ”
Esta intervenção recobrou os ânimos dos guerreiros Ashantis para combater os homens brancos até que eles libertassem o Asantehene Prempeh. Durante meses os Ashantis foram liderados por Yaa Asantewaa que pela sua coragem e determinação manteve os ingleses no Forte. O exército inglês enviou mais soldados e com melhores armamentos invadiram a cidade de Kumasi. Yaa Asantewaa e outros líderes foram capturados e enviados ao exílio.
Yaa Asantewaa fez a última guerra liderada por uma mulher dentro do território africano para defender o seu povo do domínio branco e morreu longe de sua terra no ano de 1921 com 71 anos de idade.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

JOÃO CÂNDIDO O METODISTA


Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: kefingfoluke@hotmail.com


"As vozes murmuram nos ouvidos como se ainda estivéssemos com medo nas senzalas e não falamos em sons altos iguais aos tambores africanos, e mais um aniversário da Revolta da Chibata se completará, e o povo preto evangélico desse país está calado. As pretas e pretos deve repudiar as senzalas, não acreditar nas mentiras da Casa Grande e tomar atitudes quilombolas em busca da própria dignidade. Os brancos metodistas tentam esconder que João Cândido foi membro dessa denominação."

É inaceitável como às lideranças brancas evangélicas brasileiras dominantes nas igrejas, direcionam e ensinam o que a população preta nas igrejas protestantes deve ter como referência na história brasileira, colocando os heróis e heroínas pretas no esquecimento, negando as suas participações na história da igreja, pensando que não temos consciência histórica, nos tratando como se fossemos desprovidos de inteligência. Na verdade ainda não dominamos como deveríamos as cátedras das faculdades de teologia, não escrevemos os artigos das grandes revistas evangélicas, não opinamos na educação bíblica dominical e os pretos que estão perto do poder recebem migalhas e se dizem satisfeitos e nada farão pela maioria da população preta. Não temos liderança preta evangélica ou de outras religões. Não conheço nenhum preto ou preta que possa convocar 10% da população preta para uma caminhada, como fez o líder muçulmano Louis Farrakan nos USA que convocou 1 milhão de homens negros para marchar sobre Washigthon, em 16 de outubro de 1995. Especialistas da Universidade de Boston afirmam que o número de pessoas na Marcha de 1 Milhão de Homens foi de 870 mil pessoas, com margem de erro de 25% (de 655 mil a 1,1 milhão). Sendo assim, ainda estamos muito longe de unificar o nosso povo preto e entendermos as nossas dificuldades e deixarmos a ilusão de sermos estrelas e lideranças sem povo.
Conforme o último censo somos 15 milhões de pretas e pretos evangélicos, então 1% são 150 mil pessoas pretas que podem participar de uma caminhada, infelizmente, ainda não temos essa mobilização e nenhuma religião tem de tal amplitude, os evangélicos pretos organizados tomarão essa dianteria. Somos milhões amordaçados e com os olhos vendados. Em igrejas que possuem uma concepção mais aberta para as questões sociais, como é o caso da Igreja Metodista do Brasil a qual possui um grande ícone da luta contra a discriminação racial como o reverendo Sant Anna, e referenciais como a pastora Maria da Fé – Fezinha -, a Pastora Laiza, a irmã Diná, o antropólogo Rolf, entre tantos outros. Têm pastorais para atuarem contra a discriminação racial, as lutas são de muitas dificuldades e conforme o prof. metodista José Carlos Barbosa: A Igreja Metodista é a única denominação protestante que tem uma Pastoral de Combate ao Racismo,que, por outro lado, não tem apoio nem recursos humanos e financeiros para o seu funcionamento. É só para inglês ver.
Há alguns anos tenho conversado com o Sant`Anna e insistido sobre o reconhecimento de um dos maiores heróis pretos da história que foi o marinheiro João Cândido, e ainda não sei se somente a luta do Reverendo Antonio Sant Anna dentro do metodismo fará os metodistas reconhecer seriamente a importância desse homem preto que lutou pela dignidade dos marinheiros pretos e no final de sua dura vida morreu como um metodista. Está na hora de escrevermos e-mails para os bispos e bispas brancas metodistas cobrando o reconhecimento de João Cândido. As vozes murmuram nos ouvidos como se ainda estivéssemos com medo nas senzalas e não falamos em sons altos iguais aos tambores africanos, e mais um aniversário da Revolta da Chibata se completará, e o povo preto evangélico desse país está calado. As pretas e pretos deve repudiar as senzalas, não acreditar nas mentiras da Casa Grande e tomar atitudes quilombolas em busca da própria dignidade. Os brancos metodistas tentam esconder que João Cândido foi membro dessa denominação.
Vamos conhecer um pouco dessa história:
João Cândido Felisberto nasceu no município de Rio Grande no estado do Rio Grande do Sul, filho de João Cândido Velho e dona Inácia Felisberto, sendo seus pais ex-escravizados. Entra aos 14 anos de idade na escola de aprendizes de marinheiros no Rio Grande do Sul, conduzido pelo poderoso Almirante Alexandrino de Alencar, também gaúcho. Em 1895, com 15 de anos de idade, tornou-se marujo e no Rio de Janeiro embarcou no Cruzador Andrada. É transferido para o encouraçado Riachuelo e conheceu Montevidéu, Buenos Aires, e no pequeno navio Jutay visitou Belém e Manaus, quando em direção ao Acre em 1909 esteve em New Castle, na Inglaterra, se aprimorando nos conhecimentos do navio Minas Gerais. Aos 30 anos de idade em 22/11/1910 liderou 2 mil homens pretos na maior revolta armada em poder do fogo da história brasileira. O Brasil na época era possuidor dos mais poderosos navios de guerra, comprados na Inglaterra. Os oficiais eram oriundos das camadas poderosas da sociedade brasileira, filhos de cafeicultores, profissionais liberais, políticos. Os marinheiros eram meninos pretos, presos pela polícia nas ruas de diversas cidades brasileiras, habitantes dos quilombos urbanos.
Vai se reproduzir dentro dos navios uma relação antagônica entre o descendente do senhor colonial X descendente do escravizado. Feridas que até hoje não foram cicatrizadas na sociedade brasileira e estavam muitas abertas. Havia passado somente 22 anos da abolição da escravatura. É provável que alguns marinheiros tenham sido escravizados.
Homem com pouca alfabetização, mas muita criatividade e vivacidade, não tinham uma falangeta do dedo indicador na mão direita em virtude de uma computação traumática ao carregar um canhão. Esse peso do canhão contribuiu para que sua letra fosse defeituosa. Foi o primeiro marinheiro do mundo a comandar uma esquadra, com uniforme branco de praça, apenas com distintivo, um lenço de seda vermelho ao pescoço, um apito e uma velha espada de abordagem. Após a revolta, João Cândido, foi preso, internado, julgado e libertado aos 32 anos de idade, tuberculoso, totalmente desprovido de qualquer bem, foi lutar para ganhar o pão de cada dia, tendo uma vida dura e nunca alheia aos movimentos que ocorriam no Brasil, teve 03 esposas e diversos filhos. João Cândido, depois de Zumbi dos Palmares foi um dos mais importantes pretos na história de resistência do nosso povo no Brasil. Foi um homem de extrema sensibilidade e fé, um servo de Yeshua o aceitando como Salvador pessoal na Igreja Metodista de Jardim América-RJ e por causa da doença e idade freqüentava a Igreja Metodista de São João de Meriti-RJ. Vindo a falecer no dia 06 de novembro de 1969 na cidade do Rio de Janeiro, com o ofício fúnebre sendo realizado pelo Reverendo Metodista Lucas Mazon.

sábado, 3 de novembro de 2007

Nat Turner o Profeta-Guerreiro: Líder da Insurreição Escrava na Virginia.


Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: kefingfoluke@hotmail.com



No mês de novembro através do nosso blogger, com média 51 visitas diárias, o CNNC/Ba (Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos da Bahia) homenageará diversos homens e mulheres que lutaram pela liberdade do povo negro. A nossa concepção panafricanista é que todos e todas que lutaram na África e na diáspora são exemplos de resistência na história do nosso povo independente onde estejamos. É o Novembro Negro onde os nossos leitores (as) conhecerão a biografia de eminentes defensores (as) do passado e do presente que dedicaram e dedicam a sua vida no combate ao racismo e procuram caminhos reais de liberdade.

O nosso primeiro homenageado será o profeta batista Nat, que teve o sobrenome do escravizador Benjamin Turner. Nat Turner nasceu em 02 de outubro de 1800 em Southampton County- Virginia –USA, Sua mãe e avó haviam sido seqüestradas da África e escravizadas, e possuíam um profundo ódio a escravidão.
Nat Turner era apenas um garoto quando as pessoas o ouviram descrever acontecimentos que haviam ocorrido antes do seu nascimento e foi considerado um profeta e tornou - se profundamente religioso. Nat aprendeu ler e escrever ainda na tenra idade, considerado extremamente inteligente, tendo recebido da sua mãe uma revelação sobre a sua função na comunidade, especialmente pelas marcas na cabeça e no peito que possuía. A sua mãe o ensinou a combater a escravidão, ai vemos a função da família negra como mentoras da liberdade. O exemplo da avó e mãe de Nat nos ensina que no processo educativo familiar primeiro é necessário liberta-se da escravidão mental a qual fomos submetidos. Em toda a escravidão tentaram programar e introjetar pela educação deformada e a religião sem libertação o medo, influenciando o subconsciente da população escravizada que não deveria resistir e hoje continuam com os meios de comunicação na diáspora, especialmente nos evangélicos brasileiros, mas, a cada dia irmãs e irmãos de diversas denominações e muitos pastores e pastoras já não aceitam mais o racismo e estão se organizando em todo o país.
Nat estava a todo o momento lendo histórias da Bíblia e era um fervoroso crente sempre orando e jejuando. Acreditava no batismo do Espírito Santo e que poderia ter um relacionamento direto com Deus e tinha o dom das visões, comum à comunidade preta na África e na diáspora, independente de credo religioso, realidade não entendida pelo racionalismo ocidental que tenta explicar o inexplicável e coloca Deus como inacessível a humanidade. Deus está e sempre esteve e estará presente direcionando os caminhos do povo preto.
Já na idade adulta tornou-se um pregador batista e acreditava que Deus o chamou para libertar o seu povo da escravidão. No seu relacionamento direto com Deus por meio de orações e jejuns compreendeu que deveria combater a opressão do seu povo a todo o custo e entendeu que a escravidão era obra do Satanás e os escravizadores não estavam a serviço do Eterno.
Nas suas pregações admoestou um branco chamado Etheldred T. Brantley que ficou doente e foi curado após nove dias pelas orações de Nat. Teve como auxiliares diretos 04 escravizados também batistas: Henry, Hark, Nelson e Sam.
Foram três visões que marcaram profundamente a sua vida. A primeira ocorreu em 1821 após fugir para a floresta e passar trinta dias; a segunda visão ocorreu em 1825 quando viu luzes no céu e gotas de sangue como orvalho caindo na plantação do milho e em 12 de maio de 1828 teve a terceira visão quando o Espírito Santo o mandou lutar contra Satanás que escravizava o seu povo e um sinal do céu seria dado para começar a rebelião. Em 1831, foi vendido a Joseph Travis e em fevereiro do mesmo ano um eclipse do Sol foi entendido por Turner como um sinal divino para que iniciasse a revolta e com mais 04 escravizados planejaram o ataque para 04 de julho dia da independência dos Usa, mas caiu doente e o ataque teve que ser adiado. Em 21 de agosto, ele e mais sete outros escravos mataram Joseph Travis e sua família e deram início a uma rebelião que resultou em 55 brancos mortos.
Porém, ao contrário da insurreição maciça de escravizados que esperava desencadear, somente 75 juntaram-se a ele. A resposta dos escravizadores brancos, no entanto, foi extrema: 3000 homens da guarda estadual foram enviados para abafar a insurreição, o que rapidamente conseguiram. Seguiu-se o massacre de quase 200 escravizados e até na Carolina do Norte bem distante da Virginia posteriormente houve execuções dos que não haviam participado da insurreição pela liberdade. A rebelião terminou quando as milícias começaram a perseguir Nat e os outros escravizados, sendo capturados quinze guerreiros e imediatamente enforcados. Nat escapou e escondeu-se por cerca de seis semanas até que foi preso em 05 de novembro e executado em 11 de novembro de 1831, sendo decapitado e esquartejado e alguns brancos que por sinal eram cristãos guardaram partes do seu corpo como recordação.
Livros e filmes foram feitos sobre Nat Turner: “As Confissões de Nat Turner”, um romance de William Styron ganhou o Prêmio Pulitzer de Ficção em 1968. Este livro teve grande aclamação crítica e popular, mas vários criticos da comunidade preta o considerou racista.
Nat Turner: A Troublesome Property, um filme de Charles Burnett, foi lançado em 2003.
Sua "confissão", ditada para Thomas R. Gray, foi tomada quando estava detido na prisão: http://www.melanet.com/nat/nat.html
Nat Turner deixou-nos uma lição de luta contra a escravidão e a sua vida de fé demonstrou que a oração e jejum lhe deram forças e coragem para enfrentar os escravizadores. Sabia através da leitura bíblica que Deus não aceita a discriminação e a opressão do homem pelo homem e no dia 11 de novembro contemos para as nossas crianças a história do homem de Deus, o pregador batista Nat Turner que como Zumbi dos Palmares lutou pela liberdade.

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