grandes polêmicas e embates. Já fizeram parte de dispositivos de leis em diversos países escravizadores, como a Inglaterra, e até há pouco tempo nos USA, como o sistema legislativo Jim Crow, que proibia a união inter-racial prevendo o julgamento dos infratores e sua condenação.Clique aqui e leia mais sobre as leis do Jim Crow
Até mesmo em âmbito religioso as proibições foram bem explicitas como orientações de igrejas brancas, como no caso dos adventistas, quando Ellen G. White escreveu: “Mas há uma objeção ao casamento da raça branca com a preta. Todos devem considerar que não têm o direito de trazer à sua prole aquilo que a coloca em desvantagem; não têm o direito de lhe dar como patrimônio hereditário uma condição que os sujeitariam a uma vida de humilhação. Os filhos desses casamentos mistos têm um sentimento de amargura para com os pais que lhes deram essa herança para toda a vida.”(Ellen Gould White, Mensagens Escolhidas - vol.2; Editora Casa Publicadora, Sto. André - SP; 1985 - pág. 343 e 344).
Ellen White continua: "Em resposta a indagações quanto à conveniência de casamento entre jovens cristãos de raças branca e preta, direi que nos princípios de minha obra esta pergunta me foi apresentada, e o esclarecimento que me foi dado da parte do Senhor foi que esse passo não deveria ser dado...Nenhuma animação deve ser dada a casamentos dessa espécie entre nosso povo..." (Ellen Gould White op.cit.).Se por um lado, em diversas sociedades e organizações religiosas houve proibições nas relações inter-raciais, em outras, como a arquitetura racial do Brasil, isso foi bem difundida e elaborada como sistema de dominação e manipulação.
Gilberto Freire no seu livro Casa Grande e Senzala e Sobrados Mocambos demonstra com uma sagacidade perversa a falsa formação do Brasil baseados em relações de senhores brancos com escravizadas pretas, o qual ainda hoje tem servido como parâmetros e defesas de um país miscigenado, reforçado também pelos escritos de Darcy Ribeiro, no seu socialismo moreno.
No Orkut, site de relacionamento de maior acesso no Brasil, encontramos dezenas de comunidades exaltando os relacionamentos inter-raciais e citamos algumas:
O Amor Não Tem Cor
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=15109546
Amor Interacial
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=11849495
Relacionamento Interracial
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=2389862
No entanto, a miscigenação no Brasil não dever ser vista sob a ótica pacífica e amorosa de uma pura e simples integração racial, construída pelos pensadores acima referidos e difundida pelas escolas, universidades, igrejas, mídia e outros intelectuais brancos. Na verdade, a miscigenação tem que ser vista sob a ótica da exploração sexual de homens e mulheres negras, para atender o desejo da elite branca de fazer deste país uma nação “quase” européia.
No Livro Rediscutindo a mestiçagem no Brasil – Identidade nacional versus Identidade negra,
Kabengele Munanga explica como a mestiçagem serviu como mecanismo de aniquilação da identidade negra, servindo ao propósito do racismo para desmobilizar, criar falácias de igualdade racial e inserir na mente da população negra o desejo de branqueamento.
Acreditamos que a mestiçagem foi um plano elaborado para enfraquecimento e dominação dos africanos no Brasil, pois com a existência de mestiços, há uma população em crise, sem identidade definida, que opta em se manter ao lado do projeto de sociedade do opressor, trazendo conseqüências psicológicas danosas a sua existência, como aborda a grande pensadora negra Neusa Santos em seu livro “Torna-se Negro”, pag. 7,:
“Os esforços para curar a “ferida” vão então suceder-se numa escalada patética e dolorosamente inútil. Primeiro tenta-se metamorfosear o corpo presente, atual, de modo penoso e caricato. São os “pregadores de roupa” destinados a afilar o nariz ou os produtos químicos usados para alisar o “cabelo ruim”. Em seguida, vêm as tentativas de aniquilar, no futuro, o corpo rebelde à mutação, no presente. São as uniões sexuais com o branco e a procriação do filho mulato. O filho mulato e o neto talvez branco representam uma louca vingança, suicida e homicida, contra um corpo e uma “raça” que, obstinadamente, recusam o ideal branco assumido pelo negro. “
O sociólogo Roquildes Ogunbá, militante do movimento negro, assevera na comunidade do orkut MULHER NEGRA & HOMEM NEGRO:
"A miscigenação está na ordem do dia: brancas com negros e brancos com negras. A idéia de mistura tem sido manipulada pela mídia, imprensa, tv, rádio etc, como uma prova de que não existe racismo e nem discriminação racial. Muitos negros e negras têm pego carona em tal discurso e afirmam que quando rola o amor é o que vale. Sendo assim, temos assistido a cada dia um número "privilegiado" de casais que têm se unido para "clarear" as futuras gerações. Este fato tem contribuído para desaparecimento da família negra e modificado certos valores entre negras e negros."
Ultimamente a juventude preta militante tem discutido em alguns fóruns sobre relacionamentos, e recusado participar destas relações inter-raciais como forma de afirmação e prática de vida africana. Exemplo disso na Bahia o Grupo Mídia Étnica criou o dia: Beije sua preta ou seu preto.
- Quase duas décadas depois, o Instituto de Mídia Étnica está reativando essa campanha, denunciando o estereotipo de casais negros nos meios de comunicação, criticando a nossa invisibilidade nas propagandas e criando elementos para elevação da auto-estima de homens e mulheres pret@.
Participe de nosso “beijaço”: dia 12 de junho às 17h30 no Passeio Público.
Os jovens do CNNC/BA e da Igreja Preta (COPTAZION) se orgulham pelas suas namoradas e namorados pretos.
Kefing Foluke no livro Afro-Reflexões, também discorreu sobre a temática:
“O homem e a mulher negra precisam se reencontrar fora da senzala e reconstruir no útero do ser negro um novo relacionamento de respeito e amorosidade, lembrando sempre que somos frutos de um amor depreciativo formulado nas senzalas da escravidão. Não estamos mais abandonados e jogados na fétida senzala de amores depreciativos, por isso não devemos ter medo de amar. O amor deve ter início na auto-afirmação do ser negro, assim redescobriremos à vontade de sentir profundamente a intensidade de um beijo bem gostoso entre uma negra e um negro.”
Segundo o membro da Igreja Preta - COPATZION-(Comunidade Pan-africanista de Tzion) José Raimundo, ativista pan-africanista, ratificando o posicionamento do CNNC, acrescenta que essa falsa democracia racial no Brasil é tão forte que influenciou as relações afetivas no próprio movimento negro; exemplo disso é que um dos maiores expoentes do Movimento Negro, o nonagenário Abdias do Nascimento, apesar de tentado desconstruir o mito da democracia racial, possuí em sua prática afetiva um relacionamento com uma mulher branca, sendo um dos grandes vacilos que marcará a sua trajetória.Pois num país que tem como sistema de dominação uma política intensa de mistura entre raças, a ação mais enérgica e reacionária que um militante do movimento negro pode ter é manter relacionamentos com pessoas de sua própria espécie, ou seja, pretas. Isso, aliás, não é só reacionário, num país como o Brasil, isso chega ser uma arma revolucionária contra a dominação racial.
Por fim, que nós pretas e pretos saíamos da escravidão mental que nos aprisiona, abandonemos a contemplação daqueles que descendem dos escravizadores, não nos permitamos vivenciar a “Síndrome de Estocolmo” e busquemos o amor entre as pessoas africanas: o amor preto. Pois, para preservação da nossa história, cultura, valores e legados é necessário preservarmos a integridade do nosso povo através da reconstituição / reconstrução de famílias pretas. É necessário dizermos não a miscigenação racial.
Richie Stephens - where is the love



Hoje, acontece algo de crucial importância para sobrevivência do movimento negro, e porque não dizer da comunidade negra, no Brasil, qual seja, a existência de análises e avaliações aprofundadas das ações e políticas do movimento negro nos últimos tempos e seus possíveis avanços. O fruto destas análises e avaliações é o advento da necessidade de renovação do movimento negro contemporâneo, seja pela mudança estrutural e ideológica do que concebemos tradicionalmente, no Brasil, como movimento negro (o movimento social negro), seja pelo surgimento de um novo segmento do movimento negro de caráter libertário, que seguirá seu caminho próprio e natural.


















É o primeiro CD Infantil com história e jogos interativos sobre História da África direcionado especificamente para as crianças e adolescentes.