sábado, 11 de outubro de 2008

IGBOS - OS JUDEUS NEGROS NA NIGÉRIA


Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrado e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br


Os Ibos (Igbo) são um dos maiores grupos étnicos na África, tendo a maioria da população concentrada na Nigéria, dominando parte do sul e o oeste desta com cerca de 25 milhões de pessoas. Encontram-se também em Camarões, Guiné Equatorial (Ilha de Fernando Po), Gana, Serra Leoa, Costa do Marfim, Gabão, Libéria e Senegal e atualmente milhares nos USA.
A tradição oral mais antiga afirma que sua presença, no que é chamada de Terra dos Igbo, decorre de mais de 1500 anos.


Face feita em bronze. Os Igbos foram os primeiros a desenvolver a metarlugia com grandes técnicas.

Os Igbos envolveram-se no conflito mais sangrento da história do continente africano no século XX, a guerra de Biafra (1966-1970), que resultou em cerca de um milhão de mortes, Igbos em sua grande maioria.
De 1995 a 1997 o Primeiro Ministro de Israel Yitzhak Rabin, de origem Askenazi - população caucasiana européia convertida à religião dos hebreus a cerca de 1000 anos atrás, originários da região da Geórgia, no antigo reino da Kazaria, e que hoje se auto-determinam Benei-Yisrael (Linhagem de Sangue dos Hebreus) - enviou uma equipe para a Nigéria em busca das tribos perdidas de Israel, objetivando constatar a história do povo Igbo que guardam as tradições hebréias bem antes dos Askenazis.
No momento, existem 26 sinagogas em toda a Nigéria e a comunidade de Hebreus Igbo está estimada em cerca de 40000 pessoas, em uma população total de 140.000.000 de igbos, yorubás e outros grupos étnicos. Algumas das maiores comunidades incluem o Instituto Gihon em Abuja, assim como as comunidades do sul, como Port Harcourt. A Ibo Benei Yisrael atualmente é liderada pelo conservador / Masorti Rabino Howard Gorin.
Algumas fontes afirmam que havia a presença de hebreus na Nigéria a partir de 638 a.C. Acredita-se que os Hebreus retornaram para a África após a destruição do Primeiro e Segundo Templo, em Jerusalém, e estabeleceram comunidades em todo o continente Africano.

Hebreus cativos na Babilônia

Outras fontes sugerem que descendentes de hebreus também poderiam ter surgido a partir de migrantes de Djerba, na Tunísia, que tinham fugido para o Norte de África após a destruição dos templos.
Na história recente há provas incontestes de outros grupos de hebreus estabelecendo-se no sul da África subsaariana e a oeste em toda a África do Norte, possivelmente seguindo o caminho da conquista árabe.
Através da mais antiga tradição oral, os Igbos afirmam ser de ascendência Israelita e descendentes diretos de três tribos de Israel: Gade, Zebulom, e Manassés. Alguns sustentam que, entre as famílias da comunidade estão os descendentes de Cohanim (descendente masculino de Arão, irmão de Moises) e Levitas, sacerdotes hebreus e seus assistentes, que cuidavam do Templo de Jerusalém. A comunidade nigeriana hebraica é composta quase exclusivamente de descendentes de Cohanim.

LINHAGENS
Os Igbos apresentam três linhagens que definem sua ascendência:
Benei Gath: Os Igbos afirmam que descendem da Tribo de Gath ben-Ya `aqov (Gade), que foi o 8 º filho do patriarca Israelita Ya` aqov (Jacó). Este grupo tem vestígios da sua linhagem através de Eri ben-Gath, filho de Gade. Os clãs a partir desta linhagem são compostos pelos Aguleri, Umuleri, Oreri, Enugwu Ikwu, Ogbunike, Awkuzu, Nteje, e Igbariam.
Benei Zevulun: Os Igbos afirmam serem descendentes da tribo de Zevulun ben-Ya `aqov (Zebulom), que foi o 5 º filho de Ya` aqov (Jacó). Esta linhagem compreende os Ubulu Okiti e Ubulu Ukwu, no Estado Delta, que se fixaram na Ubulu Ihejiofor. Segundo a tradição oral, é dito que um descendente da Tribo de Zevulun chamado Zevulunu, aconselhado por certo Levita, a casar-se com uma mulher de origem Oji, que era descendente da tribo de Judá, e a partir desta união nasceu Ozubulu ben-Zebulunu. Diz-se que Ozubulu teve quatro filhos que se fixaram em outras regiões. Esses filhos foram: Amakwa, entre os quais um clã no Neni, o descendente do estado de Anambra, e Egbema, de quem o clã está em Egbema Ugwuta, no estado de Imo e no clã Ohaji Egbema, descendentes no estado dos Rios.
Benei Menashe: Igbos também são descendentes da Tribo de Menasheh ben-Yoseph (Manassés). Menasheh foi um dos netos de Ya `aqov (Jacó) através do seu 11 º filho Yoseph (José). De acordo com a Torá, Jacó reivindicou tanto Manassés e quanto seu irmão Efraim como seus próprios filhos. Sua linhagem é descrita como os Amichi, Ichi e Loures-Ichi.

Ibo Benei-Yisrael: Família do Clã Ozubulu na Nigéria.

É bem possível que certamente os Ibo Benei-Yisrael descendem da família dos sacerdotes levitas, migrantes de Jerban (Tunísia), já que estes afirmaram ter saído de Judá e fixaram-se no Norte da África antes e depois do 1º e 2º templo, em Jerusalém. O cenário mais provável é que os antepassados dos Ibo Benei-Yisrael foram constituídos de clãs familiares de israelitas que, por diversas razões, deixaram Israel antes e durante o exílio assírio e babilônico. Isso explicaria como sua tradição oral contém as tribos originarias desses clãs especificados.
No século IX o judeu-viajante Eldad ben-Mahli (Eldad, o Danita), afirmou que o Ibo Benei-Yisrael pode ser descendente de vários membros das "Tribos Perdidas de Israel." Ele argumentou que os judeus da África vieram das tribos de Dan, Naftali, Gade e Aser, os quais tinham fugido da Terra de Israel, de modo a não participar da guerra civil entre Israel e Judá durante o tempo de Jereboão, adversário de Roboão (Filho de Salomão) (922-901AC ou 931-910 AC). Eldad sustentou que esses judeus inicialmente estiveram em Havilá, além dos rios da Etiópia. Possuíam uma cópia do Tanach, menos os livros de Ester e Lamentações. Esses judeus não tinham conhecimento da Mishna ou Talmude babilônico, mas possuíam sua própria tradição Talmúdica em que todas as leis foram creditadas aos Yehoshua bin Nun, que as recebeu de Moisés.
O Primeiro Testamento relata fatos que ocorreram principalmente na Afro – Ásia, e como sempre tenho escrito, era um só continente antes da criação do canal de Suez pelos europeus, é de mister importância estudar as relações comercias dos hebreus; entre elas, cito um dos períodos mais prósperos de Israel, o reinado de Salomão e as viagens mercantes:
I Reis 10:22 - Porque o rei tinha no mar uma frota de Társis, com a de Hirão; de três em três anos a frota de Társis voltava, trazendo ouro e prata, marfim, bugios e pavões.
Eze 27:12 - Társis negociava contigo, por causa da abundância de toda a casta de riquezas; com prata, ferro, estanho e chumbo, negociavam em tuas feiras.
Nas escavações em sítios arqueológicos na Nigéria e especialmente na terra dos Igbos encontram-se centenas objetos feitos em bronze e chumbo representando navios, demonstrando que essa civilização realizou viagens longínquas e foram exímios marinheiros e comerciantes.
Teólogos e historiadores brancos que tentam negar o conhecimento africano chegam ao cúmulo do ridículo e afirmam que Társis foi a região da Bretanha ou da Península Ibérica, que na época possuía marfim, ouro, pavões, prata, ferro, bronze... Sem comentários.

PRÁTICAS RELIGIOSAS
Os Igbos praticam diversas religiões sendo o cristianismo seguido pela maioria da população. Nas religiões tradicionais chamam a Deus pelo nome de Chukwu "Chi" (ser espiritual) e "Figueira da Foz", sem distinção de gênero, sendo impossível descrevê-lo. É Onipotente e Onipresente, o ser humano, a terra e o céu estão sobre o seu controle e a sua vontade. É o que gera todas as coisas, em algumas comunidades Igbo o significado pode ser também olisa (orisa). O Mundo espiritual é a morada do criador também dos orixás, dos desincorporados e espíritos malignos e do espírito ancestral. É a futura morada do ser vivo após a morte. . O mundo dos mortos é cheio de atividades sobrenaturais. Entre o homem e Deus estão os espíritos dos antepassados do homem que viveu de acordo com as leis e costumes comunitários e que tenha praticado a sua sabedoria para aqueles que vivem na terra.
Muitas práticas religiosas Igbo apresentam marcantes semelhanças com costumes judaicos mencionado no Torá e mesmo nos dias de hoje. Esses costumes incluem: circuncisão com oito dias após o nascimento de uma criança do sexo masculino, a proibição de comer animais impuros, separação das mulheres durante o ciclo menstrual, a colocação de Tallit e Kippah, e as comemorações de feriados como o Yom Kippur e Rosh Hashaná. Nos últimos tempos, as comunidades têm adotado feriados, como Hannukah e Purim, que só começaram a ser observados depois de muitas das tribos de Israel já terem se dispersado.
Um fato interessante é o relacionado à Figueira no Primeiro Testamento que representa o povo hebreu (Israel).


Rabino Howshua Amariel apresenta Rabino Ben Oi Daniel, o chefe da Comunidade Judaica Igbo com uma placa.

Quando os primeiros missionários fizeram a sua invasão na África Ocidental, o clã Ozubulu do Ibo Benei-Yisrael resistiu à cristianização e nunca se converteu. Nos últimos anos, os descendentes de Ozubulu estão modernizando muito a antiga forma de fé que os seus antepassados praticavam.
Há também entres os Igbos uma forte presença cristã católica. Tanto assim que o Cardeal Francis Arinze é de origem Igbo, nigeriano, líder da Igreja na África e foi amigo próximo do Papa João Paulo II. Arinze é considerado um conservador, mas um interlocutor crucial para melhorar o diálogo do Vaticano com grupos muçulmanos, budistas e hindus, principalmente nos países empobrecidos, filho de um chefe Igbo, nasceu em 1º de novembro de 1932 e foi um dos cardeais cotados para ser escolhido como Papa.
Os Igbos têm como a sua principal alimentação o inhame e realizam festivais anuais de agradecimento pela colheita, sendo usado também na medicina e rituais religiosos oferecidos às divindades e aos ancestrais.
Com o tráfico de africanos durante a escravidão, milhares de Igbos foram seqüestrados paras as Américas e dispersos para colônias como a Jamaica, Cuba, Haiti, Estados Unidos, Brasil, Belize, Trinidad e Tobago, entre outros. Elementos da cultura Igbos ainda podem ser encontrados nestes locais.


Universitárias Igbo na Nigéria.

É uma minoria da população Igbo que continua resistindo e seguindo a religião dos seus antepassados hebreus, após sofrerem a invasão dos países brancos cristãos e de pretos islamizados.
Além dos Igbos serem de origem Hebraica, estudos têm demonstrado que outros grupos de pretos africanos também a possui. Há indícios de que os Yorubás, um dos principais grupos étnicos da Nigéria, importante referencial das pretas e pretos no Brasil, também possui origem hebraica, sendo tema de um futuro artigo.

Jews of Nigeria 2 - Shabbat Service 1ab

domingo, 21 de setembro de 2008

PEDAGOGIA AFROCENTRADA

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Poesta, Pan-africanista, Afrocêntrico  E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br

Desde implementada a lei 10.639, e posterior reformulação na lei 11.645, universidades, escolas e movimentos sociais buscam alternativas e novas práticas pedagógicas para sua implementação. Dirimam respostas de melhor obter sucesso na elaboração de material didático, como dizem, contemple os diversos falares brasileiros.
Entretanto, não se deve omitir que a história da pedagogia e suas práticas nunca contemplaram os africanos no Brasil. Na elaboração dos diversos materiais, os quais vêm a meu conhecimento, noto a falta de concepções afrocentradas. Não nego, contudo, as contribuições e propostas para a formação de uma educação crítica realizada por educadoras e educadores discordantes da educação privilegiada aos valores eurocêntricos.
Mister ressaltar que desde a década de 80 do século passado além de mim outros educadores e educadoras na Bahia voltaram as suas preocupações para um ensino direcionado a África, necessário a formação do nosso povo, a saber: Ana Célia, Valdina Pinto, Arany Santana, Jorge Conceição, Manoel Almeida e entre outros.
Entre os poucos evento e palestras, foi ministrado um curso no CEAO (Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia) em 1986 que ampliou a visão dos conhecimentos acerca do continente africano, sendo um dos professores, ministrando a matéria geografia da África, Jorge Conceição, nome que não deve ser esquecido na história da militância preta no Brasil quando trabalharmos os estudos africanos e propostas alimentares necessários ao reencontro da ancestralidade.
Há um desconhecimento ou omissão da história recente do Movimento Negro Brasileiro acerca de diversas conquistas das décadas de 80 e 90 do século XX, especialmente no que concerne a propostas educacionais, decisórias na transformação do agir da sociedade brasileira e resultou em um movimento negro mais consistente e aguerrido. Hoje as propostas educacionais são a continuidade de discussões e trabalhos feitos por mulheres e homens pretos que enfrentaram a academia de valores europeus afirmando que a educação era excludente e racista, entre esses nomes se destacam o de Manoel de Almeida Cruz e de Ana Célia Silva, a qual na minha concepção, é uma das maiores intelectuais que marcou e marca a história da educação nesse país.
Na resistência de elaboração de propostas educacionais a contribuição de um amigo já falecido que ousou discutir uma nova fórmula pedagógica, deve ser sempre relembrada: Manoel de Almeida Cruz. Publicou em 1989, ALTERNATIVAS PARA COMBATER O RACISMO SEGUNDO A PEDAGOGIA INTERÉTNICA.Manoel elaborou um projeto de pedagogia que deve ser discutido e lembrado por educadores e militantes pretos mais jovens, uma proposta revolucionária para a época e nos traz ainda hoje reflexões, apesar de falhar em não ter uma dinâmica afrocentrada, foi um marco feito há 19 anos.
Não foi compreendido por diversos setores do Movimento Negro, inclusive considero que há ainda um autofagismo que deve ser discutido e curado entre nós. E faltou-lhe o apoio necessário dos setores acadêmicos em uma maior divulgação. A lembrança de Manoel Almeida nos mostra a capacidade que temos de gerir os nossos caminhos, foi ela um marco advindo de um sociólogo preto sem mídia, poder e dinheiro. Leia mais sobre a obra de Manoel Almeida.
No que concernem as propostas pedagógicas, o ensino da história é fundamental como base de iniciação de pressupostos de encaminhamentos. A história por ter sido manipulada e mascarada tornou-se objeto de questionamentos no âmago de formação educacional, permitindo rever normas há muito inquiridas em uma sociedade herdeira de um modo de produção escravagista e conseguintemente anti-preto e anti-África.
As diversas escolas pedagógicas não contemplam as necessidades de uma população afro-diasporica no caminho de afirmação como povo, porque não há um reconhecimento positivo da nossa herança africana e, se trabalhou de diversas formas que a herança fosse esquecida na divulgação de uma sociedade sem conflitos, de um povo miscigenado, morenado, mulatado, de diversas colorações epiteliais, sem identidade e sem perspectiva afirmativa, restando o seu encontro da falsa felicidade no espelhar e desejar se apropriar do passado do seu escravizador e renegar o seu passado histórico. Foi este ato pedagógico bem planejado objetivando que ficássemos alienados, o qual não obteve êxito pela reação especialmente através de educadores e educadoras pretas, e não posso deixar de citar na minha formação de militância a saudosa Bia (Maria Beatriz do Nascimento) a qual considero a minha mentora na luta contra a discriminação racial e inúmeras conversas e encontros com a saudosa Lélia Gonzalez.
No momento que a percepção dos estudantes é aguçada, trabalhada, provocada na afrocentricidade há o encontro dentro do âmago e surgem os questionamentos de que algo está errado, e a criticidade permite a introjeção analítica de como são vistos na sociedade brasileira, e concomitantemente aos educadores e educadoras buscarem alternativas de uma nova visibilidade real da sua africanidade. Ocorre apenas quando os educadores e educadoras renascerem na sua pretitude, sendo este é o maior desafio na educação.
Alguns questionamentos os educadores e educadoras pretas necessitam refletir quando se deparam com esses desafios:
- Como educar na afrocentricidade se ainda estou embranquecido nos meus conceitos pedagógicos?
- Como educar na afrocentricidade se ainda vejo os estudantes pretos com os olhares discriminatórios?
- Como educar na afrocentricidade se ainda repito os conceitos de que os estudantes pretos são incapazes?
- O que posso fazer e como procurar ajuda se ainda não me encontrei na minha africanidade e tenho que ser o condutor-educador de formação de consciências de crianças, jovens e adultos que como eu sou o próprio instrumento de libertação?

Estas perguntas e outras deveriam ser feitas por todo educador e educadora preta que recebe os novos desafios educacionais e se compromete em transformar a escola como força-motriz geradora de mudanças sociais; apesar de ter que enfrentar oposições constantes de mentes escravizadas.
As idéias perpassadas de que somos somente um povo originário do tráfico africano, demarca a nossa história criando uma poderosa mentira e negação de milhares de anos formativos de desenvolvimento africano e afro-diásporico civilizatório, outrossim, faz com que haja a idéia de uma simples adequação ao modelo educacional vigente, o qual afirma as diferenças e dessemelhanças, com um único padrão copiado e defendido pelas elites descendentes de escravizadores: o modelo educacional branco.
As propostas “inclusivas” no currículo escolar, na concepção de muitos educadores, perpassam apenas com participações de danças, cantos e manifestações do lúdico, que de longe não contemplam integralmente a verdade histórica do resgate da afrocentricidade da educação e filosofia educacional afrocentrada, a qual poderá urgentemente reformular o cerne metodológico-histórico-pedagógico. Apenas afirmam que nunca estivemos dentro do modelo educacional vigente e mais uma vez a tenacidade de militantes pretos tem que fazer a diferença, apesar de que falta o interesse maior de educadores e educadoras pretos e pretas formados no academicismo ocidental e desconhecem que foram as maiores vitimas do racismo, sendo educados como reprodutores da dominação e da escravização mental reproduzida nas salas de aula, principalmente através dos livros didáticos base da formação na infância os quais ainda continuam nas salas de aula. Um bom início de desconstrução é ler os livros da Profa. Dra. Ana Célia Silva da UNEB (Universidade Estadual da Bahia), especialmente “A discriminação do negro no livro didático” e “A representação social do negro no livro didático: o que mudou?”Não há mais uma proibição normativo-pedagógica de trabalhar a história e a afrocentricidade como o caminho restaurador das mentes dominadas por valores eurocêntricos; existe o medo das mudanças de se olhar a si mesmo como um educador-condutor da liberdade e, não um escravizado-condutor da paidagogia helênica.
Ainda é totalmente questionável a apresentação de discursos e práticas de educadores pretos e brancos, quando problematizam e propõem alternativas para a formação dos estudantes, desconhecendo a história do saber, o inicio da capacidade humana de construir conhecimento. Simplesmente recorrem à pedagogia grega, como o início estrutural e formativo da educação no planeta. A pedagogia não é originária da Grécia, apesar da palavra paidagogia ser de origem grega. O início do saber e de diversas maneiras de educar é africana.
Os gregos aprenderam com os africanos que a educação constituiria o início de todo esforço humano. Ela seria a justificativa ao mesmo tempo da existência individual e do grupo. A palavra educar (em Latim, educare) é uma tradução do grego paidagogia: pais (criança) e ago (conduzo), que significa a educação integral da pessoa: física, estética, moral, intelectual e religiosa. A própria percepção helênica, apesar de ser repetida por pedagogos e pedagogas não é desenvolvida na formação educacional, e temos que ressaltar que o conhecimento grego foi uma cópia dos conhecimentos de Kemet (Egito) e dos primeiros pretos que desenvolveram a civilização em terras da Grécia. Nas cidades-estados da Grécia ensinavam-se concepções escravagistas, sexistas e patriarcais, bem diferentes do saberes africanos ancestrais e matriarcais.
As mentes estão infectadas pelas mentiras eurocêntricas, dos seus racionalismos e cartesianismos que apregoam nas formações acadêmicas a incapacidade africana e ensinam com desenvoltura o “saber” surgido na Grécia e desenvolvido no mundo ocidental branco. Se a base formativa do conhecimento, do saber, é helênica, e os métodos pedagógicos usados na escola originam-se de educadores e filósofos ocidentais, nada como se adequar a estas escolas e adaptar as alternativas educacionais ao pensamento do construtivismo de Jean Piaget e de Emilia Ferrero, e de outras concepções européias. Aflorar nas discussões as propostas de Paulo Freire como metodologias a serem inseridas nos projetos escolares, sem maiores contestações ao que o povo preto entende e almeja como construção de uma liberdade educacional afrocentrada.
As alternativas pedagógicas atualmente defendidas são de uma simplória inserção no currículo escolar, especialmente através do ensinamento da história sem criticidade e moldada em autores e autoras que entendem a história africana como uma simples contribuição na formação da sociedade brasileira, infelizmente está obtendo sucesso, aliás, tornando-se verdadeira e validada pela maioria de educadores e educadores desconhecedores da afrocentricidade, cujo desenrolar de ensinamentos é de contribuir na difusão de conhecimentos de inclusão, com ensinamentos de uma África colonizada e distribuída para os seus algozes após a conferência de Berlim. Uma África que se restringe ao Golfo de Benin e a Angola, esquecendo-se que o tráfico seqüestrou populações de diversões rincões e de múltiplas culturas, inclusive islamizadas. Negando a diversidade cultural africana e sua diversidade através de migrações antes do tráfico que povoou e civilizou regiões diversas em todos os continentes. Recorta-se o conhecimento de um continente quase quatro vezes maior do que o Brasil. Nega-se a sua formação como originário de civilizações incluindo a Ásia, Oceania, Américas e Europa antes do surgimento das populações brancas.
É de práxis o entendimento dos diversos questionamentos realizados por educadores e educadoras militantes do Movimento negro sobre o modelo educacional vigente no Brasil, deram o primeiro passo de negação e contestação das práticas pedagógicas eurocentradas. Disseram não e propuseram novos modelos, mas faltou nessas propostas a afrocentricidade e esse é o desafio. Conclui-se da discriminação na educação brasileira e caminhos novos teriam que ser tomados de inserção da população preta, de dar visibilidade, de se conhecer o que chamam de “contribuição do negro” na formação da sociedade brasileira. Mas, não houve ainda a formulação de uma pedagogia afrocentrada, pois a afrocentricidade é um renascer preto da consciência, alterando-se o foco de aprendizado europeu que busca a mera inclusão discursiva, baseada na democracia racial, a proposta da afrocentricidade caminha-se para a PRÁTICA de resgate e a vivência histórica da África, a mãe-geradora do conhecimento da humanidade. Temos sempre quer dizer aos estudantes quando ministramos aulas em todas as áreas: A África é a matriz de todo o conhecimento humano.
A pedagogia eurocêntrica é inserida a todo o momento através da comunicação especialmente do poder televisivo. A mídia tornou-se o grande caminho de desconstrução das diversas tradições da oralidade ainda existentes, e paradoxalmente de formação que invade os neurônios e afirma o projeto mistificador de uma pedagogia inclusiva de direitos a todos, através de programas beneficentes de leis como cotas, retirando a palavra reparação da escravidão.
A idéia de diversidade cultural, pluriétnica, multifacetada, demonstra etimologicamente e na praticidade que a maioria da população preta está fora do poder real, apesar de que aspectos da ludicidade sejam admirados e colocados como apresentação para turista ver e principalmente para gerir rendas, as quais não são investidas diretamente no desenvolvimento econômico-educacional dos seus atores e atrizes, que vivem nos chamados guetos e periferias, em uma geopolítica perversa e excludente, como o caso do carnaval, capoeira, acarajé, etc.
As manifestações culturais de protesto através da musicalidade, como o reggae, rap, hip-hop, as artes como o grafite e vestimentas não européias são consideradas marginais. Inclusive em um estado como a Bahia a calça jeans tornou-se obrigatória como parte do uniforme escolar, sem preocupações maiores do desconforto de um clima tropical.
A Pedagogia eurocêntrica e a sua história demonstram a falta de respeitabilidade com o outro, pois no ínterim, há a idéia de superioridade racial das nações que impuseram um modelo de vida e de pensamento, como o primevo, real e verdadeiro. O caminho que temos é a prática do panafricanismo e na difusão dos ensinamentos afrocentrados, especialmente na reescrita da história africana e afro-diásporica. Na publicação de material didático que possa suprir as dificuldades encontradas por educadoras e educadores questionadores do material didático das grandes empresas. Na formação de educadores e educadoras que possam trabalhar uma pedagogia afrocentrada e direcionada a nossa população a qual desde a escravização esteve fora do interesse formativo e somente por pressões do Movimento Negro conseguimos algumas vitórias, sendo o momento de ampliar a luta pela educação e de se planejar uma pedagogia afrocentrada.
Temos que explicar aos coordenadores pedagógicos que estão com as mentes voltadas para as experiências norte-americanas, européias e israelenses de educação, e seguem esses modelos tentando-os dar aplicabilidade para a formação de um novo pensar educacional, que não conseguirão êxito porque continuarão a contribuir diretamente na concepção de superioridade européia de tentar explicar a história e a educação suas metodologias e olhares não pretos, apesar de falarem dos pretos. Temos respostas de gerir uma pedagogia afrocentrada de resgate da auto-estima e de retirar o véu branco que paira sobre a história preta formativa do planeta.
Temos que começar a trabalhar conjuntamente para a realização de encontros educacionais onde todos e todas que acreditam na afrocentricidade e no panafricanismo objetivem a maior difusão de um novo modelo educacional libertador e formulem projetos que possam gerir nos meios populares essas mudanças.
A educação é o melhor caminho na inserção de transformações imediatas que ampliem os horizontes na construção de um projeto político-libertador dos descendentes de africanos no Brasil.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O EVANGELHO DO TERROR

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrado e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br


Aumenta a cada dia o confronto ideológico na sociedade brasileira baseado em opções religiosas e, incrível que pareça, até pessoas pretas que afirmam seguir ideologias marxistas e ser atéias, tem tomado partido em defesa de algumas religiões, afirmando estas possuírem a “pureza ancestral religiosa africana”; demonstrando nada além do grave desconhecimento geo-histórico do continente africano.
Torna-se necessário reafirmar que com base nos conhecimentos afrocentrados a África é o berço de todas as concepções religiosas e gênese das filosofias do planeta. Ressaltando ainda que aqueles esquecem que Karl Marx, Lenin e Trotski foram homens brancos, com pensamentos e doutrinas brancas, e seus escritos não resolveram e jamais resolverão a opressão do povo preto.
De outro lado, uma grande maioria preta adjetivada de evangélicos, que no Brasil tornou-se sinônimo de intolerantes, continua em uma grande cruzada evangelística, modificando as bem-aventuranças em más-aventuranças, propagando um evangelho do terror, seguindo ensinamentos europeus de falta de respeito na continuidade das cruzadas no século XXI.
Evangélicos X Religiões de Matriz Africana, tema mais discutido nos grupos e fóruns do Movimento Negro na internet, jornais e até a Rede Globo divulgou a Marcha contra a Intolerância Religiosa, aonde os organizadores esperam colocar nas ruas no Rio de Janeiro cem mil pessoas que se sentem prejudicadas e perseguidas. Do lado dos chamados intolerantes, no entender deles, nenhuma perseguição ocorre apenas o cumprimento do “Ide e Pregai o Evangelho a toda a criatura” conforme os escritos do Evangelista Marcos. Uma má interpretação de Marcos. O “Ide e Pregai as Boas Novas de Paz a toda à criatura”, não é fazendo a Guerra e jogando Sal Grosso em terreiros. Isso é fazer a Vontade do Diabo, o Pai de todas as contendas e mentiras.
Fui criado em igreja Presbiteriana, filho de mãe presbiteriana, e os meus filhos são a terceira geração de presbiterianos e quem sabe os meus netos e netas, formando a quarta geração, também. Conheço pretas e pretos que já são a quarta geração e outros caminhando para a quinta geração, isso no Brasil, nos USA ou na Jamaica encontraremos gerações bem mais antigas. De forma imprescindível deve-se afirmar que no continente africano encontraremos gerações milenares na Etiópia e no Egito, com a Igreja Copta, que seguem o Cristianismo muito antes dos brancos europeus.
No Brasil, há milhões de pretas e pretos que seguem o cristianismo protestante, em inúmeras igrejas, sejam históricas, pentecostais, neopentecostais ou apostólicas, Essas siglas não me incomodam. Todas e todos são considerados evangélicos, termo bem abrangente para que os crêem no Evangelho. O Evangelho significa “Boas Novas do Reino de Deus”. Aceitar o Evangelho é mudar de caminho e anunciar aos outros o Único Caminho: Yeshua - O Caminho, A Verdade e A Vida.
O que leva pessoas a considerarem as outras, inclusive membros de sua família, como seguidoras do Satanás? O que faz com que pessoas ajam violentamente em agressões físicas? Destruição de locais religiosos? Invasões de privacidade e ao cúmulo de jogarem sal grosso e amaldiçoarem locais de culto? Quais são os caminhos da falta de respeito? Há uma guerra religiosa entre seguidores de religiões de pretos e a religião dos brancos? O que podemos fazer para acabar ou atenuar esses ataques?




Conversando com uma amiga de mais de 20 anos, adepta do candomblé, senti como está magoada e tratou-me como se eu fosse um dos agressores a sua religião. Achei interessante que todos e todas que são protestantes hoje são considerados culpados dos ataques. Inclusive a mesma afirmou que não votaria no candidato a prefeito de Salvador Walter Pinheiro porque é evangélico, e nem na candidata a vereadora Creuza Maria, mulher e militante preta Presidente Nacional do Sindicato das Empregadas Domésticas, por ser evangélica.
Como se Pinheiro e Cleuza tivessem culpa da falta de respeito que tem se acirrado principalmente na Bahia. Mas, entendo a reação como uma forma de protestar politicamente contra os ataques dos chamados evangélicos aos cultos afro-brasileiros. Entendo e respeito, mas, não concordo. Se formos ver por esse lado todos os escritos de Martin Luther King, Steve Biko, Nelson Mandela, Fred Hampton, Desmond Tutu. A vida de João Cândido e inúmeras personalidades na África e na diáspora teriam que ser esquecidas e considerados traidores e traidoras do povo preto.
O Evangelho são Boas Novas de Paz, Justiça, Compreensão, Amorosidade, Perdão e Reconciliação entre os seres humanos e Reconciliação com o Criador e Doador da Vida, trazendo a esperança de um Reino justo e igualitário para a humanidade.
Toda manifestação de intolerância e falta de respeito com o outro é anti-evangelho. Todo intolerante segue a Sinagoga de Satanás e dá um falso testemunho das Boas Novas de Yeshua.
Sabemos que desde a apropriação do cristianismo pelos europeus começou a intolerância, as guerras realizadas pela cristandade, as cruzadas que ceifaram milhões de vidas, a colonização, a escravização, o imperialismo. As destruições de civilizações milenares, e as perseguições físicas e psicológicas contra os africanos na África e na diáspora forçada. Esses fatos são Anti-Evangelho de Yeshua.
O povo preto evangélico não pode se voltar contra a sua própria família, não pode demonizar a África. Não podemos fazer o jogo do racismo. Fazer o jogo do racismo é Anti-Evangelho de Yeshua.
O Falso Evangelho tem se tornado as Más Novas do Terror, da tristeza, da falsa superioridade racial, da desagregação familiar, da quebra da fraternidade, da desconstrução de uma solidariedade pan-africanista.
Meu irmão e minha irmã preta que lê esse artigo, preste bem atenção: Não foram as religiões afro-brasileiras culpadas pela escravização dos nossos ancestrais e pelo seqüestro. Não foram as religiões afro-brasileiras culpadas pela pobreza da maioria da nossa população. Não foram eles. Foram os europeus que transformaram o Evangelho da Vida em um Evangelho do Terror. Meu amado e minha amada irmã não façam o jogo do racista. Não pregue o Evangelho da Morte. Viva o Evangelho da Vida.
Se houvesse o respeito não seria necessário que 15 milhões de irmãos e irmãs pretas e pretos estivessem cultivando o ódio contra os irmãos e irmãs não cristãos. Torna-se necessário que paremos e pensemos o que isso nos levará? A perda de amizades? A maior desestruturação familiar? Um cisma na caminhada entre cristãos pretos e seguidores de religiões afro-brasileiras?
Nós do CNNC entendemos que por detrás da intolerância religiosa, está a intolerância racial, porque também somos vitimas deste anti-evangelho do Terror. Muitos jovens cristãos pretos passam por problemas psicológicos nas igrejas, por causa das vestimentas, e inclusive, os seus dreads e tranças são consideradas do demônio. Somos chamados de hereges e mentirosos ao afirmamos que há racismo no Brasil e nas Igrejas Protestantes. O racismo é anti-evangelho de Yeshua.
Recentemente tivemos o caso da pastora Cleuza Caldeira que foi discriminada por ser preta e mulher na Igreja Presbiteriana Independente. Confira o artigo: UMA MULHER NEGRA E SEU DIREITO DE SER
Estamos torcendo que a Marcha do dia 21 de setembro triplique o número de participantes que são almejados. É necessário um basta na falta de respeitabilidade e que possamos conviver fraternalmente, convivendo com as diferenças e como um só povo preto que ainda nesse país é a maior vítima da discriminação racial, seja evangélico, católico, espírita, candomblecista, muçulmano, budista ou ateu.
"Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados".

Dia 19/09, em Salvador, Lançamento da 4ª CAMINHADA PELA VIDA E LIBERDADE RELIGIOSA.
Todos e todas à marcha de 21 de setembro na Praia de Copacabana – RJ contra a Intolerância Religiosa!


terça-feira, 19 de agosto de 2008

CANDACE E MATRIARCADO - O PARLAMENTARISMO NO IMPÉRIO DE KUSH




Walter Passos - Historiador
Skype: lindoebano
 Facebook: Walter Passos

Formadoras das civilizações, as mulheres africanas representaram as primeiras deusas, mães, educadoras, sacerdotisas, médicas, cientistas, comerciantes, diplomatas e governantes do mundo. Nesse contexto, o estudo das Candaces é de suma importância para a compreensão da História Africana.
Os estudos antropológicos nas sociedades africanas e afro-diásporicas retratam a concepção de poder androcêntrico, aonde o cristianismo primitivo africano foi modificado para concepção patriarcal grega-platônica da inferiorizarão das mulheres com bases na hermenêutica antropológica de sociedades cristãs europeias. Da mesma forma, o estudo das sociedades islamizadas no continente africano corroboraram concepções patriarcais outrora desconhecidas e praticadas nas mais antigas civilizações africanas.
Com a invasão, colonização e imperialismo, novos modelos produtivos baseados na exploração de classes sociais incorreram na feminilização da pobreza e na masculinização do poder, inclusive das religiões tanto na África como na diáspora. Os antropólogos brancos tentaram explicar o matriarcado e o modo de produção matrilinear com as suas concepções racistas e machistas que nos obriga assim a recorrer aos estudos da afrocentricidade para um real entendimento das sociedades africanas, como resgate da verdade histórica, que nos ajudará contra a opressão de classe, o racismo e o patriarcalismo.
O entendimento do poder matriarcal africano configura o principal alicerce para a compreensão da civilização kushita.
Kush, uma das civilizações mais antigas do mundo, foi uma sociedade de base matriarcal, onde havia o equilíbrio entre os gêneros e a difusão da justiça e igualdade, diferentemente de civilizações brancas recentes na história mundial, a exemplo de Grécia e Roma que desenvolveram o modo de produção escravagista antigo, baseados em sociedades patriarcais e patrilineares. Dentro do matriarcado não houve escravização e nem exploração de gênero, fato este que ocorreu com o advento do patriarcado e conseqüentes mudanças no viver africano primevo.
A diferença essencial do governo das kandaces comparado a outros do mundo antigo é que não era um poder vitalício e nem hereditário. Uma kandace governava por dez anos, outra por vinte anos, outra por 30 anos, em seguida o ciclo recomeçava em uma alternância de poder, evitando o despotismo, possibilitando uma paz política que proporcionou o grande desenvolvimento da civilização kushista. Havia um parlamento que detinha o verdadeiro poder composto por sacerdotisas e sacerdotes, anciãos e anciãs (com função senatorial) representantes da população, sendo levado esse modelo para Kemet ( Egito).
Na verdade, a origem da democracia é africana, sendo copiada pelos gregos em diversos estudos realizados por eles na Núbia e em Kemet (Egito).
O conhecimento desse modelo de governo, somente ocorre com as últimas pesquisas pautadas na afrocentricidade. Acusamos tantos legados roubados pelos europeus, outrossim, formas de governo foram deformadas e posteriormente copiadas como o modelo parlamentar hoje instituído em países europeus e na monarquia japonesa. A civilização kushita já havia desenvolvido o parlamentarismo milhares de anos antes dos europeus.
O matriarcado não impedia em alguns momentos que homens participassem do governo como reis ou esposos das Kandaces, sendo escolhido pelo parlamento, podendo se tornar governante ou consorte da rainha, conforme as leis da matrilinearidade.
Uma das mais poderosas Kandaces foi Amanirenas, que serviu como chefe de Estado, Comandante-chefe do exército, e Sumo Sacerdotisa de Isis.
Amanirenas comandou a aliança do exército Kushita-Kemita à ocupação romana de Kemet, e a invasão do resto da África no tempo do Imperador Augusto César.
Amanirenas apesar do poder exercido era considerada humilde e amável, detentora de um porte atlético. Com cerca de 50 anos de idade empreendeu as mais violentas batalhas contra os romanos.
O conflito entre os romanos e os Kushitas originou-se da invasão feita pelos romanos a Kemet (Egito), levando o exército kushita a invadi-lo sob o comando de Amanirenas e do seu filho Akinidad, atacando a fortaleza de Assuam, resultando na captura de tropas romanas que haviam incendiando cidades e templos, entre elas o templo de Karnak, o exército kushita derrubou a estátua do imperador Augusto levando a cabeça para a cidade de Meroé como prêmio de guerra.
Na realidade o domínio dessa poderosa rainha ainda é um enigma para os historiadores porque nesse período foram encontradas tropas fieis a Amanirenas espalhadas em diversas regiões da África, indicando que o Kushitas possuíam exércitos em todas a África. Heliodurus escreveu que os exércitos kushitas estavam espalhados em todas as regiões da África e apesar de Roma ter enviado uma força de 10.000 infantes, 800 cavaleiros e milhares de auxiliares, num total de cerca de 30.000 militares, no final seriam derrotados pelo poderoso exército de Amanirenas.
No final, o imperador romano Cesar Augusto e o general Gaius Petronius forma obrigados a negociar a paz, recebendo mensageiros kushitas na ilha de Samos, no mar Egeu, com flechas de ouro enviadas pela Kandace Amanirenas com a seguinte mensagem: “Trata-se de um presente da kandace. Se você quer guerra, as mantenha porque vai precisar delas. Se você quer paz, aceita-as como um símbolo de minha cordialidade e amizade". Augusto César aceitou o presente e terminou a guerra.
Entre as concessões feitas por Augusto foi a permissão que os Kushitas seguidores de Isis prosseguissem a sua adoração em Elefantina, cidade egípcia controlada pelos romanos, e o pagamento indenizatório para construção de templos em Kush, uma vez que alguns tinham sido destruídos pelos romanos.

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terça-feira, 12 de agosto de 2008

A MAJESTOSA CIVILIZAÇÃO DE KUSH


Walter Passos - Historiador
Skype: lindoebano
 Facebook: Walter Passos

As escavações e estudos dessa civilização se concentram no atual Sudão, maior país da África.
Os kushitas, em épocas mais recentes, ocupavam o sul do Nilo com seu impressionante exército de arqueiros.
Kush foi o local do Jardim do Éden. Gen. 2: 11-14 - "Um rio saía do Éden para regar o jardim, e de lá se dividia em quatro braços. O primeiro chama-se Fison: é aquele que rodeia toda terra de Hévila, onde existe ouro; e o ouro dessa terra é puro, e nela se encontram também o bdélio e a pedra de ônix. O segundo rio chama-se Geon: ele rodeia toda a terra de Kush. O terceiro rio chama-se Tigre e corre pelo oriente da Assíria. O quarto rio é o Eufrates."
Nos escritos do Antigo Testamento, Kush é conhecido também por Núbia e muitas vezes citado como Etiópia.
Da civilização Kushita, originaram-se os egípcios, após as migrações endereçadas ao norte do continente africano.
Os historiadores gregos Homero e Heródoto deixaram registrados que os Kushitas povoaram o Egito, a Arábia, a Palestina, a Ásia Ocidental e a Índia. Foram considerados, por Heródoto, como os mais altos, os mais bonitos; de maior longevidade entre as raças humanas e os mais justos dos homens. São citados nos anais de todas as civilizações. A arte de embalsamento, pelo qual são famosos os faraós egípcios, teve sua origem na civilização kushita.
O Império de Kush construiu três vezes mais pirâmides que os egípcios e possuíram a cerâmica mais bela do mundo, assim considerada por todos os povos, inclusive os gregos.
A economia kushita era baseada em pedras preciosas, madeira de ébano, mar­fim, e também diversos produtos que contribuíram decisivamente para a manutenção e crescimento da civilização egípcia.
A 25ª dinastia do Egito é conhecida como dinastia etíope, em 712 a.C., por­que o Egito foi conquistado pelo Império Kushita que governaram o Egito e a Núbia.
A primeira capital do Império  foi à cidade de Kerma, anterior a 5.000 a.C, considerada a cidade mais antiga da África, cujo tamanho compreendia 62 acres e possuindo mais de 200 casas, e edifícios maciços do tijolo que foram devotados ao comércio e às artes, com um templo e um palácio.
A segunda capital foi Napata, um centro sagrado e devotado aos deuses. O templo fundado em Jebal Barkal, uma montanha sagrada, transformou-se na fonte de reivindicações de Núbia ao trono de Kemet. Os reis de Núbia invadiram Kemet e estabeleceram a 25ª dinastia. Eram os mestres do mundo. O império de Núbia abrangeu a Síria no norte à Núbia no sul. Os reis de Núbia ajudaram o estado de Israel em seu esforço de guerra contra os Assírios. A terceira capital foi Meroé, a sua linhagem real durou mil anos. A cultura de Núbia em Meroé combinou tradições egípcias.
As mulheres tiveram papel proeminente na sociedade kushita, ocupando posições de poder e prestígio. Ao contrário das rainhas do Egito que possuíam o poder derivado dos seus maridos, as rainhas de Kush eram governantes independentes. Kush era uma sociedade matriarcal no período de Meroé. Os historiadores acreditam que em Meroé, uma das capitais do império kushita, nunca um homem reinou. O título de Candances para as rainhas foi originado do vocábulo ‘kentace’, e existiu por mais de quinhentos anos. Quatro dessas rainhas: Shanakdakete, Amanirenas, Amamishakete, Amamitere foram guerreiras temidas e comandaram seus bravos exércitos.

A Rainha Amamishakete e seu companheiro
A rainha Amanirenas reinou na cidade Meroé e quando o imperador romano Augustus tentou impor um imposto aos kushitas, Amanirenas e seu filho Akini­dad, realizaram um ataque violento a um forte romano na cidade Asuan. Augustus mandou as tropas romanas; comandadas pelo general Peroneus, retaliaram, mas, encontraram uma forte resistência de Amanirenas comandando as tropas que derrotou os romanos e os obrigaram a negociar a paz.
Os kushitas detiveram o avanço dos romanos na África, e colocaram um busto de César Augustus enterrado debaixo de uma entrada em um templo. Nesta maneira, todos que entraram pisariam em sua cabeça.
A rainha Amanirenas era alta, muito forte e cega de um olho; venceu as tropas romanas no ano 23 a.C., obrigando Roma a trocar embaixadores e fecha­ram um acordo, onde Roma devolveu um território cushita, anteriormente pago em imposto. Outras rainhas também enfrentaram as tropas romanas.
O exército africano de Kush derrotou inimigos egípcios, gregos e romanos.
A civilização de Kush, com seu alfabeto, comércio e triunfos arquitetônicos é considerada por alguns estudiosos, como superior às civilizações mais desenvolvidas do mundo antigo.
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Cush foi o mais importante Império Africano que se desenvolveu ao redor do Rio Nilo, superando os Egípcios e dos quais estes descendem.
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The Kush Empire - NATIONAL GEOGRAPHIC


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segunda-feira, 4 de agosto de 2008

IDA B. WEELSS – JORNALISMO IVESTIGATIVO, DEFESA DOS DIREITOS DA MULHER E DO HOMEM PRETO

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrado e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br

As mulheres pretas na história das civilizações africanas e afro-diásporicas sempre tiveram papel proeminente na defesa dos direitos de vida do seu povo, foram e ainda são o alicerce para manutenção de lutas intestinas contra todo o tipo de opressão, infelizmente a mentalidade androcêntrica, sexista e machista ocidental tenta omitir exemplos de resistência.
Na concepção panafricanista e afrocentrada a importância da luta do povo preto ignora fronteiras demarcadas geograficamente pelos invasores e colonizadores europeus. A importância de conhecermos exemplos de resistências na África e na diáspora impositiva serve como resgate da história e exemplos a ser seguido, sendo assim, conheçamos um pouco a história dessa grande mulher que viveu no século XIX e início do século XX nos Estados Unidos da América: Ida B. Wells, uma defensora da justiça racial e de gênero.
Nasceu em 16 de julho de 1862 em Holly Springs, Mississipi, filha do carpinteiro James Wells e de Elizabeth "Lizzie Bell" Warrenton Wells, escravizados libertos. Após a Guerra de Secessão, os seus pais e um irmão caçula morreram de febre amarela em uma epidemia que ocorreu no sul dos USA. Amigos e parentes decidiram que as seis crianças, filhos do casal, seriam criadas por tios e tias, causando a separação familiar. Ida desaprovou a idéia e retirou-se da escola, tornando-se professora para criar e sustentar os seus irmãos e manter a família unida. Retornou aos estudos não deixando de trabalhar, concluindo o ensino médio.
Em 1884 liderou uma campanha contra a segregação racial no transporte ferroviário quando um condutor da Chesapeake, Ohio & South Western Railroad Company disse-lhe para levantar e ceder o lugar para um homem branco, ela recusou-se então dois condutores tiveram que arrastá-la para fora do local, isso 71 anos antes de Rosa Parks. Ao chegar no seu destino, à cidade de Memphis, contratou um advogado para postular contra a ferrovia, ganhando a causa no tribunal local. Entretanto, a ferrovia recorreu para o Supremo Tribunal do Tennessee que inverteu a decisão em 1887.
Durante sua participação na caminha pelos direitos dos votos das mulheres, foi obrigada a ficar na parte de trás, o que a levou a iniciar a sua vida como jornalista, tornando-se co-propietária e editora do Free Speech (Liberdade de Expressão), um jornal anti-segregacionista de Memphis em Beale Street, escrevendo artigos na defesa do povo preto. Em 1892 foi forçada a abandonar a cidade porque os seus editorias foram considerados demasiadamente agitadores.
Um dos seus artigos foi em defesa de três amigos: Thomas Moss, Calvin McDowell e Henry Stewart, proprietários de uma mercearia que foram linchados por causa da concorrência com lojas dos homens brancos; afirmava que os pretos não podiam desenvolver a vida econômica, sendo acusados injustamente em tribunais e na maioria dos casos linchados. O resultado do seu trabalho jornalístico foi o saque no escritório do jornal, obrigando-a abandonar a cidade e ir para Chicago.
Em um dos seus artigos no The Free Speech, escreveu:
"Na cidade de Memphis não há nada que possamos fazer acerca do linchamento, no momento em que estamos a em menor número e desarmados. A máfia branca poderia ajudar a si mesma entregando munição de graça; todavia a ordem é rigidamente executada contra a venda de armas de fogo para negros. Há, portanto, apenas uma coisa que se deve fazer; resgatar o nosso dinheiro e sair dessa cidade que não protege nossas vidas e nossos bens, nem nos dar um julgamento justo nos tribunais, mas nos assassina a sangue frio quando acusados pelas pessoas brancas."
Em 1892 publicou um dos seus maiores panfletos Southern Horrors: Lynch Law in All Its Phases, que se pendurou até 1895, com artigos intitulados: O Recorde Vermelho, onde documentava suas pesquisas na luta contra os linchamentos, sendo a maioria de acusação de violações de mulheres brancas pelos homens pretos, estupros baseados em mentiras, que objetivavam impedir o desenvolvimento econômico da comunidade preta e manter a supremacia do homem branco, e desenvolver a ideologia da inferioridade da comunidade preta. Enquanto que homens brancos estrupavam mulheres pretas e até crianças de oito anos de idade.
Ida Wells estudou o linchamento de 728 homens, mulheres e crianças pretas, no período de dez anos que precederam o linchamento de Moss. Em apenas um terço desses casos eram pretos acusados de estupro e em menor número deles eram realmente culpados do crime. A maioria morreu acusada por crimes como: incendiário, preconceito racial, por queixas de brancos e acusados de fazerem ameaças. Entre esses, destaca-se o caso, em que aos treze anos de idade Mildrey Brown foi enforcado com as provas circunstânciais de que ela havia envenenado uma criança branca. As investigações constataram um grande número relacionamentos inter-racial, e ela afirmou que as mulheres brancas tinham tomado a iniciativa de algumas dessas falsas denuncias. Entre 1882 quando foram pela primeira vez realizada estatísticas até 1968 quando as formas clássicas de linchamento tinham desaparecido, 4743 pessoas haviam morrido, 3446 dos quais homens e mulheres pretas. No entanto, as estatísticas não dizem toda a história. Estes foram os casos registrados, outros nunca foram notificados para além da comunidade envolvida.
Assista esse vídeo que retrata de maneira emocionante os linchamentos:
Até a década de 1890 diferentes formas para retirar a vida dos pretos e pretas foram utilizadas: queimaduras, tortura, enforcamentos, esquartejamento, mortes lentas com sofrimento prolongado, os quais criavam uma "atmosfera festiva" entre os assassinos e expectadores.
Os Brancos traziam seus familiares, inclusive crianças pequenas para assistir; os jornais anunciavam antecipadamente, as ferrovias realizavam excursões com grandes números de bilhetes vendidos, os linchamentos eram anunciados até nas igrejas brancas. Partes do corpo dos negros vitimados: dedos, orelhas, ou genitália eram adquiridos como lembranças. O linchamento tornou-se um lazer e uma maneira de impor o terror e controlar as aspirações da população preta, tentando demonstrar que após a escravidão o preto americano era um refém dentro dos USA e tinha que saber o seu lugar de cidadão e cidadã sem direitos.
A imagem abaixo é um exemplo do trabalho de Ida como jornalista e advogada em prol dos Direitos Humanos. Ela foi publicada em The Richmond Planet, em 26 agosto de 1893. Em 1893 , ela juntamente com outras lideranças como Frederick Douglass, considerado um dos mais importantes militantes pretos dos USA organizou um boicote distribuindo 2000 panfletos.
No ano de 1896, ela ajudou a organizar a Associação Nacional de Mulheres Pretas. Realizou duas viagens a Inglaterra para denunciar o linchamento de pretas e pretas dentro dos USA, tornando-se a primeira mulher preta jornalista a trabalhar como correspondente internacional.
Ela também se tornou uma incansável militante pelo sufrágio da mulher, Ida B. Wells-Barnett, juntamente com Jane Addams, bloqueou com sucesso a criação de escolas segregadas em Chicago. Em 1906, ela ingressou com William EB Dubois e outros para o Movimento Niagara, sendo uma das duas mulheres pretas a assinar o “convite" para formar a NAACP - Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor - em 1909. Embora Ida B. Wells fosse um dos membros fundadores da (NAACP), ela também foi uma das poucas lideranças pretas explicitamente a se a opor Booker T. Washington e sua estratégia. Como resultado, ela foi vista como um dos mais radicais dos chamados "radicais" que organizou o NAACP
Mais tarde, em 1930, ela revoltou-se com os candidatos dos principais partidos para o legislativo, de forma que Wells-Barnett decidiu concorrer a uma cadeira no Estado Illinois, o que fez dela uma das primeiras mulheres negras a correr para os cargos públicos nos EUA. Um ano depois, em 25 de março de 1931 ela faleceu depois de uma vida cruzada por justiça.
Ida foi uma defensora dos direitos da mulher e pelo direito ao voto. Sem medo atuou contra o sexismo e o racismo, combatendo os linchamentos dos homens pretos e mulheres pretas, documentando centenas desses assassinatos. Há diversas organizações criadas de apoio a população preta que receberam o nome desta importante militante que amou o seu povo e dedicou a sua vida em prol da justiça e do respeito dele, considerada assim como a Mãe do Movimento dos Direitos Civis.
Uma classe de rádio para os jovens no Projeto Habitação Ida B. Wells, 1942.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

MACHADO DE ASSIS - A DENÚNCIA PRETA OMITIDA

* Artigo inédito retirado do Livro Afro-Reflexões de Walter Passos, págs. 62-68

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrado e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br

O autor do texto em um Curso de História e Cultura Afro-brasileira e Africana escreveu:
“É dessa época também nomes como Gonçalves Dias e Machado de Assis, escritores mestiços/pardos(conforme a nomenclatura atual do IBGE), sendo que primeiro, em seus escritos, se ocupou de forjar a identidade indígena e o segundo, pouco se ocupou da situação negra, tendo escrito
apenas uma poesia, “Sabrina,” sobre uma escrava que se apaixona e é enganada por um sinhozinho e feito pouco menos de dez crônicas(Bons Dias), abordando o contexto pré abolicionista e pós, ressaltando as poucas ou quase nenhuma mudança na vida daqueles que deveriam ser beneficiar com o fim da escravidão” .

Discordo do autor. Machado de Assis foi o maior escritor realista brasileiro e fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL), sendo perseguido por diversos escritores da sua época e epitetado como o “Bruxo do Cosme Velho”, e ainda hoje continua sendo acusado de omisso nas questões relacionadas a causa preta, a escravidão, e a situação do escravizado. Infelizmente o autor do texto não conhece profundamente a literatura machadiana.

Machado de Assis: Um Mestre na Periferia I

Destaco, um trecho de Sueli Carneiro publicado em 22/10/2004 no Fala, Brasil uma análise do escritor angolano José Eduardo Agualusa:

“Como medida da exclusão histórica do negro desde o pós-abolição, do acesso ao desenvolvimento econômico e cultural e sua invisibilização, o escritor alude ao fato de que:“atualmente não dá para citar um grande escritor negro ou mestiço brasileiro. Isso é incrível porque no século XIX havia grandes escritores afro-descendentes, como Machado de Assis e Cruz e Sousa”. É provável que o autor desconheça a forma categórica com que a negritude de Machado de Assis foi descartada por nossas elites que, para ofertar-lhe o reconhecimento a um talento que não podia ser negado, teve que o destituir das marcas de sua negritude, decretando, como o fez Olavo Bilac, "Machado de Assis não é um negro, é um grego”.

Os racistas e anti-Panafricanistas não aceitam um homem preto com a capacidade de Machado, intitulado como maior escritor brasileiro; e muitos críticos incorrem em erros de análise, imbuídos de preconceitos e desconhecimentos literários e históricos.
O autor do texto deveria ler Iaiá Garcia, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e outros contos e livros os quais Machado de Assis descreve com brilhantismo as mazelas da escravidão e as critica veementemente. Acredito que assim o fazendo não exporia desconhecimento sobre a importância dos escritos machadianos sobre a escravidão e a abolição, como diz o poeta Limeira: “Hábil lição da escravatura”. Machado de Assis conseguiu em seus textos denunciar a farsa abolicionista com o seu olhar cético, só o fazendo porque era conhecedor das elites escravagistas e sabia que, entre outras conseqüências, o povo preto saiu da senzala e foi transportado para as favelas, sendo ele mesmo um antigo morador dela. Foi cumprido um projeto de empobrecimento da população ex-escravizada, sendo sua mão-de-obra, agora livre, substituída por imigrantes brancos, os quais se tornaram donos dos instrumentos de produção, num processo de embraquecimento no território brasileiro. Vale ressaltar que esse processo começou com a teoria Eugenista, inspirada no racista francês Joseph Arthur de Gobineau, amigo do Imperador D.Pedro II, o qual sugeriu a imigração de caucasianos da Europa, para "salvar" o país da degeneração imutável.
Todavia, Machado retrata o escravizado como um olhar realista, sem retoques, o observa como um ser destituído de todo senso crítico pelos senhores, e especialmente no romance Iaiá Garcia, o personagem Raimundo é considerado uma criança com responsabilidades de adulto no que concerne ao seu trabalho de escravizado, e ao mesmo tempo um incompetente. Ainda hoje o afrodescendente é considerado pelas elites desse país um individuo incapaz de gerir o seu próprio destino.
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas o escravizado Prudêncio é transformado em um objeto, um brinquedo, um cavalo, e após a abolição não sabe lidar como a liberdade.
Em Pai contra a Mãe Machado retrata a escravatura em toda a sua realidade e crueldade, fala dos castigos: “Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado.” Relata as fugas individuais usadas como uma forma de resistência pelos nossos ancestrais, que não aceitaram a escravidão. Observa os castigos cruéis aplicados aos escravizados: “O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. “Há meio século, os escravos fugiam com freqüência”.
Informa com sapiência a continuidade da escravidão pelo ventre materno, a sujeição da mulher escravizada que não pode usufruir seu filho, aquela que não gera uma criança, mas, sim uma mercadoria. Machado enfoca com maestria a dominação do homem pelo homem, no qual o escravismo cria relações monstruosas em um sistema político imoral e autoritário. Não esconde a opressão de suas vítimas e nem escamoteia em versos lindos e poéticos os sofrimentos dos escravizados. Cita o personagem Cândido Neves, caçador de escravizados fugitivos, retratando uma forma de resistência que foi a fuga individual. Denuncia o sistema escravocrata que cria homens insensíveis que vivem a caçar pessoas consideradas “bichos fujões”, por estarem fora das elites e precisam de dinheiro, esse é o caso de Cândido Neves, um capitão-do-mato, que endividado vai vender o próprio filho. Mas no caminho captura uma escravizada, e recebe uma boa recompensa, mantendo assim o seu filho. A escravizada estava grávida, e abortou com os castigos recebidos, ficando a vida do filho de Candinho em troca da morte de um ser preto, que no país escravista era considerado simples mercadoria. Este conto de machado de Assis foi um dos maiores alertas e protestos feitos contra a escravidão no Brasil e o bastaria e mais nada para considerá-lo um dos maiores abolicionistas brasileiros.
Foram criados adjetivos e estigmas sobre Machado de Assis, infelizmente repetidos, até por membros pretos na luta contra a discriminação. Falar sem conhecer é preconceito e devemos ler as obras machadianas, sendo assim, através de projetos de leituras orientar os nossos estudantes no sentido de discutir a contribuição machadiana nas denúncias do escravismo no Brasil.
Tornar-se-á necessário que acabemos com as visões racista inseridas nas nossas mentes de desprestigiar e negar aqueles poucos descendentes de africanos que no passado souberam usar a língua dos dominadores para denunciar a escravidão e suas mazelas.


Machado de Assis - Desenho animado sobre a vida do mestre da literatura brasileira

* Artigo inédito retirado do Livro Afro-Reflexões de Walter Passos, págs. 62-68

Leia mais sobre o Livro Afro-Reflexões - http://cnncba.blogspot.com/2008/04/livro-afro-reflexes.html

quinta-feira, 3 de julho de 2008

OS NEGROS VÍTIMAS DO NAZISMO

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrado e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br

- O senhor despreza os negros. No Brasil, apesar de serem vítimas de poderosos mecanismos de exclusão sóciocultural, existem negros que vêm se destacando em todas as áreas. O que o senhor tem a dizer a respeito, por exemplo, dos artistas, dos escritores, dos cientistas e dos juristas negros que venceram todos os enormes obstáculos e se impuseram à admiração geral?
- Um negro que se torna advogado... Isso é um ultraje, uma ofensa à nossa razão! É uma idiotice criminosa a de quem adestrou durante tantos anos um meio-macaco até chegar ao ponto de fazer acreditarem que ele é um advogado. Enquanto isso acontecia, enquanto esse investimento era feito, milhões de indivíduos pertencentes às raças mais elevadas ficaram subaproveitados! [original]

Por Leandro Konder, no Jornal do Brasil de 25/1 e 1/2 (2003) http://www.consciencia.net/2005/mes/08/hitler-mussolini.html


A história do povo preto está sendo reescrita pelos afrocentristas que desmitificam a falácia em que foi posta a verdadeira história da humanidade. De certo, a história é dinâmica, portanto fatos recentes ainda estão escondidos e desconhecidos da maioria da população preta. Dentre eles o Nazismo Alemão contra o povo preto.
O nazismo alemão perseguiu e assassinou pretas e pretos na Alemanha. Esse mesmo racismo anti-negro alemão já existia com suas barbáries no território africano. A Alemanha através do neocolonialismo dominou o Togo, Camarões, Namíbia e Tanzânia, onde foram realizados experimentos genéticos e massacre de mais de 60.000 africanos que resistiram nas terras africanas invadidas.

Na década de 1890, africanos foram torturados pelos alemães no Sudoeste da África, atualmente chamada Namíbia, antes do holocausto dos judeus na Alemanha, africanos sofreram torturas e foram vítimas de experiências médicas, o que resultou em milhares de mortes, aumentando o número de vítimas do neocolonialismo europeu, em conseqüência ao ódio para com povo original. A separação de brancos e pretos foi aprovada pela Reichstag (parlamento alemão), que promulgou uma lei contra os casamentos mistos nas colônias africanas.

"Fotos de nossas colônias," Der wahre Jacob (década de 1890)

Esta caricatura é intitulada "Fotos de nossas colônias" ["Bilder aus unsern Kolonien"]. Na legenda lê-se: "Um domingo a Tarde na África Ocidental." Ela mostra um mundo, no sudoeste africano: nativos vestindo uniformes militares prussianos, cavalgando animais selvagens, tigres comendo salsicha alemã, e o canibalismo como uma prática habitual.
O ódio aos africanos e a tentativa de bestialização pelos europeus foi publicada neste blogger no artigo intitulado: SAARTIJE BAARTMAN – ZOOLÓGICOS HUMANOS – A MULHER PRETA HUMILHADA


Show Popular ocorrido em Stuttgart na Alemanha, com amostras de africanos apresentado entre 02 de julho a 05 de agosto de 1928.

O NAZISMO ANTI-NEGRO
Na década de 20 do século passado 24.000 mil pretos viviam na Alemanha e a maioria foi vítima do nazismo, após o tratado de Versalhes a França ocupou a Renânia, enviou soldados pretos que tiveram filhos com mulheres alemãs.
As Propagandas racistas contra os soldados pretos os mostravam como violadores de mulheres alemãs e portadores de doenças venéreas.


Negro ataca uma mulher em cartaz de propaganda

http://www.dw-world.de/dw/article/0,2144,675862,00.html

Sendo alvo da crítica no livro Mein Kampf (Minha Luta), Hitler acusa os judeus de imigrarem os pretos para Renânia com o real objetivo de arruinar a raça branca.
O destino do povo preto a partir de 1933 a 1945 foi a esterilização na Alemanha, considerados ameaça a pureza da raça germânica, justificado segundo os nazistas a não poluição dos arianos. As crianças “mulatas” foram isoladas na sociedade, impedidas de entrarem nas universidades, sendo a maioria da população preta esterilizada, presa pela gestapo (polícia secreta alemã) e muitos desapareceram. Alguns foram submetidos a experiências médicas; outros foram acusados de traição e jogados como bois nos campos de concentração.
Adolf Hitler durante os Jogos Olímpicos de Berlim, em agosto de 1936 divulgava a Deutschland, Deutschland über Alles (Alemanha acima de todos), teve a sua idéia de superioridade ariana desmascarada com a conquista da medalha de ouro aos 21 anos, por John Woodruff,na prova dos 800 metros, a 4 de Agosto de 1936, nos jogos Olímpicos de Berlim perante o olhar de Hitler. Cornelius Johnson, um outro atleta preto, ganhou a medalha de ouro no salto em altura e James Cleveland("Jesse" Owens) quebrou quatro recordes mundiais em 45 minutos conquistando quatro medalhas de ouro nos 100 e 200 m rasos, no salto em comprimento e nos 4x100 m. Os EUA, que trataram seus atletas pretos como auxiliares, conseguiram vencer 10 provas de atletismo. Destas, 06 medalhas de ouro foram conseguidas com a participação de quatro pretos.

A artista de jazz Valaida Snow (2 de junho de 1904-30 de maio de 1956), em Chattanooga, Tennessee; foi encarcerada em campos de internamento para estrangeiros, quando presa na Dinamarca em 1941 pelos nazistas.



Muitos outros pretos foram vítimas do nazismo, entre eles podemos destacar Hilarius (Lari) Gilges, um dançarino de profissão, que fundou uma organização de artistas para combater Hitler, foi assassinado pela SS em 1933, a sua esposa mais tarde recebeu uma restituição de governo alemão por causa do seu assassinato pelos nazistas. O artista Josef Nassy, que vivem na Bélgica, foi preso como um inimigo estrangeiro por sete meses, no acampamento Beverloo na Bélgica ocupada. Ele foi posteriormente transferido para a Alemanha, onde passou o resto da guerra preso no acampamento Laufen e no sub-campo de Tittmoning na Alta Baviera.
Lionel Romney, um preto marinheiro da Marinha Mercante os EUA, foi preso no campo de concentração Mauthausen. Marcel Jean Nicolas, um haitiano, foi encarcerado na Buchenwald e Dora-Mittelbau, campos de concentração na Alemanha. Jean Vosté, congolês que viveu na Bélgica, foi detido no campo de concentração Dachau. Bayume Mohamed Hussein de Tanganica (hoje Tanzânia) morreu no acampamento Sachsenhausen, perto de Berlim.
Diversos prisioneiros de guerra foram encarcerados sofrendo violências dos nazistas, realizando trabalhos forçados e a maioria assassinada imediatamente pela Gestapo.


"Perigosa peste", segundo a propaganda nazista

Nesta propaganda nazista a foto retrata a amizade entre uma "Ariana" e uma mulher negra. A legenda afirma: "O resultado! Uma perda de orgulho racial"
Apesar de todas as atrocidades dos nazistas contra o povo preto, ainda hoje podemos encontrar defensores e amantes dessa ideologia caucasiana e desprezível.

domingo, 29 de junho de 2008

RELIGIÃO E POLÍTICA – A ELEIÇÃO PARA A PREFEITURA EM SALVADOR

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br


O site Salvador Negro Amor publicou:
Quatro candidatos negros poderão disputar prefeitura de Salvador em 2008
A corrida eleitoral deste ano pela prefeitura de Salvador poderá contar com representantes que vão levar as discussões étnicas para os palanques. Na semana passada, nada mais do que quatro políticos envolvidos com a militância negra lançaram suas pré-candidaturas à vaga no Palácio Thomé de Souza. “Salvador tem 80% de afrodescendentes e é natural que a agenda da questão racial também seja refletida na política”, declara Luís Alberto, pré-candidato pelo Partido dos Trabalhadores (PT).
Primeiro prefeito negro da capital baiana, Edvaldo Brito assumiu a prefeitura em agosto de 1978 e governou a cidade por sete meses. Em 1985 tentou a voltar ao cargo, mas perdeu a disputa para Mário Kértesz. Este ano, Brito deverá disputar a eleição municipal pela terceira vez, pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), mas desde já fica claro o distanciamento do pré-candidato da questão racial. “Ao disputar um cargo executivo, o candidato deve representar toda a cidade e não só o movimento negro”, afirmou.
Uma das fundadoras da União dos Negros pela Igualdade (Unegro), Olívia Santana também participa das primeiras negociações em torno de sua candidatura pelo Partido Comunista do Brasil (PCB). Ela tem o apoio do companheiro de luta na militância negra, Luiz Carlos França, também pré-candidato pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSL). Para Ney Castro, militante político, “é importante que exista uma representação e engajamento na luta de classes que se trava na cidade. O fato do candidato ser negro só reforça esta posição do partido”, concluiu.
http://www.salvadornegroamor.org.br/main/noticias/default.jsp?CId=1334
Evidente que os militantes mais experientes sabiam que esse fato não ocorreria porque os pretos e pretas em Salvador não dominam os grupos políticos, apesar de ser um paradoxo a maioria étnica não decidir o seu próprio destino.
Salvador é denominada de “Capital da Alegria" e "Roma Negra” por ser um referencial em possuir as mais importantes manifestações culturais africanas, de ter majoritariamente uma população de 90% de descendentes de africanos: a cidade mais preta do Brasil.
A afirmação étnico-racial da população se mistura paradoxalmente na concepção cosmopolita nas posições hierárquicas de poder político, onde as esperanças populares se colocam sem as preocupações étnicas como se vivêssemos em uma democracia racial.
Não é mais possível disfarçar o obvio, mesmo os militantes pretos mais calmos e integracionistas considerados pelo poder como os mais razoáveis hão de concordar que o movimento negro não é harmônico, coerente e consistente.
A verdadeira razão de não ocorrer oportunidades de se criar um víeis político libertário e panafricanista é a prática liberal centrada na incapacidade ou falta de vontade de viver o coletivo, ao contrário de se desejar a procura de benesses pessoais.
Há muito se fala em um projeto político para o povo preto como se organizar um projeto houvesse a exclusão da população, não se falam em projeto sem se consultar os interessados, sem ouvir os que vão apoiar e viver o projeto.
Discutir Poder para o Povo Preto é a frase mais usada pela juventude preta afrocentrada que em uma parcela coloca em dúvida as lideranças antigas repetidoras dos discursos da década de 70 e 80 do século passado, que não evoluíram no tempo, que estão fora da conjuntura e estão presas a teorias e axiomas de confrontos não mais existentes de polarizações entre Leste X Oeste, entre o capitalismo ocidental e o “socialismo” do leste europeu e da China. Defensoras de práticas políticas obsoletas e conchavos partidários onde o povo preto continuará fora do poder. A palavra geopolítica é uma das menos pronunciadas nos discursos e análises das lideranças pretas porque não a conhecem e nunca a analisaram por um olhar afrocentrado.
Nas preocupações e formulações do ideal panafricanista quando se deu a libertação de países africanos, com a instituição de “republicas socialistas na África” e surgimento de grandes lideranças como Kwame Nkrumah, Samora Machel, Agostinho Neto, Amilcar Cabral, Sékou Toré, Sam Nujoma e outros. A continuidade do apartheid na África do Sul, sem a manifestação e interferência direta dos países do leste europeu, demonstrava que os interesses econômicos da exploração de diamantes e da mão-de-obra africana oprimida eram mais importante para os países ocidentais que a exploração patrocinada pelo sistema racista, nesse ínterim os USA e a URSS se entendiam muito bem.
As eleições para a prefeitura de Salvador se aproximam e nela os quadros políticos se definiram pela primeira vez na história da cidade com um diferencial político-religioso digno de estudos sociológicos, na questão que representantes de grupos religiosos que se consideram evangélicos estão em diversas coligações partidárias. Nesse ínterim, política e religião mais uma vez dão as mãos e em nome da instituição igreja e na prática da fé os diversos interesses econômicos se apresentam a população com velhas propostas políticas em roupagens novas abalizadas pelo caráter religioso.
A religião sempre esteve ligada a dominação política e dela se construiu constituições e partidos, apesar dos marxistas analisarem como o “o ópio do povo”, chargão antigo dos marxistas históricos que não evoluíram nas suas análises da modernidade política mundial. As religiões em um mundo que parecia entrar para o ateísmo se tornam a cada dia palco de se atingir a maioria da população em todos os recantos do mundo globalizado, Salvador não ficou de fora.
Em uma análise superficial, quando notamos que os candidatos, digo candidatos, em uma cidade de maioria feminina e preta, as mulheres pretas não postularão a prefeitura com a retirada de Olivia Santana do PC do B, o partido que nas suas análises internas notou que não possuía cacife eleitoral e nem financeiro para manter a candidatura da chamada “Negona”, e acima de tudo, não tem o apoio da maioria da população preta de Salvador para aventurar uma campanha baseada na questão étnica em uma cidade onde vivemos em uma suposta “democracia racial”.
Os evangélicos estão representados em 03 coligações de força política, reitero o termo evangélico, porque dentro da mídia e do movimento negro baiano, assim são reconhecidos: deputado federal Walter Pinheiro, membro da Igreja Batista - candidato a prefeito do PT e partidos coligados; Bispo Marinho, membro da Igreja Universal do Reino de Deus- candidato a Vice-Prefeito pela coligação do Dem e partidos coligados; Prefeito João Henrique Carneiro, membro da Igreja Batista, candidato a reeleição do PMDB e partidos coligados. O interessante que em todas essas postulações deixou mais uma vez o Movimento Negro Baiano dividido em diversos grupos políticos e interesses diversos.
O fator interessante é que na questão da intolerância religiosa todos os grupos acima descritos terão representantes que se dizem contrários a qualquer discriminação, porque as composições trazem pessoas ligadas às diversas práticas; o Prefeito João Henrique que foi alvo de contestações no caso da destruição do terreiro Oyá Onipó Neto, traz como candidato a vice-prefeito um dos mais conceituados advogados trabalhistas do Brasil, ex-prefeito de Salvador, e ogã de uma das casas mais conceituadas, o Sr. Edvaldo Brito, e tem atualmente na Secretaria Municipal de Reparação, o mestre em geografia e professor da UNEB, Sandro Correia que sempre defendeu a prática religiosa do candomblé e tem origem no bairro mais preto de Salvador: Liberdade. Nessa junção apresentada a cidade, a união política de uma parcela dos evangélicos e de membros do candomblé, quebrando o estigma que a futura gestão da prefeitura de Salvador terá uma só concepção religiosa, na verdade nunca teve, em todas as uniões políticas há representantes de diversos interesses religiosos.
Do outro lado, o deputado federal ACM Neto do partido que tenta acabar com as cotas nas universidades, o DEM, representante de uma família que dominou a política baiana há décadas e sempre teve um bom relacionamento com diversas casas de candomblé e organizações afro-baianas, traz em sua companhia o deputado federal Bispo Marinho, representante da Igreja Universal do Reino de Deus, que consegue emplacar na cidade mais preta do Brasil o seu projeto político de poder, sendo acusada a todo o momento de ser intolerante com os cultos de origem africana.

Candidato a prefeito de Salvador, o deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA) conseguiu montar uma coligação em torno de seu nome que une partidos adversários na política federal (DEM e PR), religiões antagônicas (católicos e evangélicos) e sistemas de comunicação concorrentes (TV Globo e Record). A pouco menos de quatro meses das eleições municipais, o palanque de ACM Neto transformou-se em uma espécie de terreiro do sincretismo político, reproduzindo o famoso ecletismo religioso da Bahia. http://www.votebrasil.com.br/noticia/politica/acm-neto-monta-alianca-ecumenica-em-salvador
No caso do deputado federal Walter Pinheiro, membro da igreja Batista, consegue unir no projeto político Lídice da Mata,ex-prefeita, atualmente deputada federal, como vice-prefeita que tem origem de militância no movimento estudantil e na defesa do socialismo e a não importância da religiosidade, e traz no seu apoio a vereadora do PC do B Olivia Santana, de todos as coligações, o PT tem mais "aproximação" com a maioria dos militantes do Movimento Negro, não significando que essa "aproximação" signifique a aprovação da maioria da população preta soteropolitana.
Evangélicos e seguidores de religiões afro-brasileiras, brancos e pretos, nesse momento em Salvador estão unidos em diversos grupos políticos com propostas de gerenciamento da denominada “Roma Negra” ou de “Salvador é de um só Santo”, conforme dizeres dos evangélicos.
Constatamos que as eleições em Salvador demonstram a desorganização do chamado Movimento Negro que como em todo o Brasil ainda não conseguiu criar um projeto político próprio que possa aglutinar as diversas tendências em um único objetivo. E sabemos que em todos os grupos políticos citados há pessoas pretas que participam e sonham em uma sociedade sem racismo e sem opressores, e dizer que o grupo, x, y, ou z possui as respostas para a comunidade preta é uma falácia. Há em todos os grupos pessoas respeitáveis que nos momentos políticos não podem coadunar com as propostas as quais não fazem jus o seu pensamento e vivência política, sendo assim teremos pretos e pretas ligados a igrejas e casas de candomblé, com seus candidatos pretos defendendo propostas diferentes, demonstrando que queriam ou não e felizmente o Brasil não é, e não pode se tornar um estado religioso.

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