terça-feira, 16 de setembro de 2008

O EVANGELHO DO TERROR

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrado e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br


Aumenta a cada dia o confronto ideológico na sociedade brasileira baseado em opções religiosas e, incrível que pareça, até pessoas pretas que afirmam seguir ideologias marxistas e ser atéias, tem tomado partido em defesa de algumas religiões, afirmando estas possuírem a “pureza ancestral religiosa africana”; demonstrando nada além do grave desconhecimento geo-histórico do continente africano.
Torna-se necessário reafirmar que com base nos conhecimentos afrocentrados a África é o berço de todas as concepções religiosas e gênese das filosofias do planeta. Ressaltando ainda que aqueles esquecem que Karl Marx, Lenin e Trotski foram homens brancos, com pensamentos e doutrinas brancas, e seus escritos não resolveram e jamais resolverão a opressão do povo preto.
De outro lado, uma grande maioria preta adjetivada de evangélicos, que no Brasil tornou-se sinônimo de intolerantes, continua em uma grande cruzada evangelística, modificando as bem-aventuranças em más-aventuranças, propagando um evangelho do terror, seguindo ensinamentos europeus de falta de respeito na continuidade das cruzadas no século XXI.
Evangélicos X Religiões de Matriz Africana, tema mais discutido nos grupos e fóruns do Movimento Negro na internet, jornais e até a Rede Globo divulgou a Marcha contra a Intolerância Religiosa, aonde os organizadores esperam colocar nas ruas no Rio de Janeiro cem mil pessoas que se sentem prejudicadas e perseguidas. Do lado dos chamados intolerantes, no entender deles, nenhuma perseguição ocorre apenas o cumprimento do “Ide e Pregai o Evangelho a toda a criatura” conforme os escritos do Evangelista Marcos. Uma má interpretação de Marcos. O “Ide e Pregai as Boas Novas de Paz a toda à criatura”, não é fazendo a Guerra e jogando Sal Grosso em terreiros. Isso é fazer a Vontade do Diabo, o Pai de todas as contendas e mentiras.
Fui criado em igreja Presbiteriana, filho de mãe presbiteriana, e os meus filhos são a terceira geração de presbiterianos e quem sabe os meus netos e netas, formando a quarta geração, também. Conheço pretas e pretos que já são a quarta geração e outros caminhando para a quinta geração, isso no Brasil, nos USA ou na Jamaica encontraremos gerações bem mais antigas. De forma imprescindível deve-se afirmar que no continente africano encontraremos gerações milenares na Etiópia e no Egito, com a Igreja Copta, que seguem o Cristianismo muito antes dos brancos europeus.
No Brasil, há milhões de pretas e pretos que seguem o cristianismo protestante, em inúmeras igrejas, sejam históricas, pentecostais, neopentecostais ou apostólicas, Essas siglas não me incomodam. Todas e todos são considerados evangélicos, termo bem abrangente para que os crêem no Evangelho. O Evangelho significa “Boas Novas do Reino de Deus”. Aceitar o Evangelho é mudar de caminho e anunciar aos outros o Único Caminho: Yeshua - O Caminho, A Verdade e A Vida.
O que leva pessoas a considerarem as outras, inclusive membros de sua família, como seguidoras do Satanás? O que faz com que pessoas ajam violentamente em agressões físicas? Destruição de locais religiosos? Invasões de privacidade e ao cúmulo de jogarem sal grosso e amaldiçoarem locais de culto? Quais são os caminhos da falta de respeito? Há uma guerra religiosa entre seguidores de religiões de pretos e a religião dos brancos? O que podemos fazer para acabar ou atenuar esses ataques?




Conversando com uma amiga de mais de 20 anos, adepta do candomblé, senti como está magoada e tratou-me como se eu fosse um dos agressores a sua religião. Achei interessante que todos e todas que são protestantes hoje são considerados culpados dos ataques. Inclusive a mesma afirmou que não votaria no candidato a prefeito de Salvador Walter Pinheiro porque é evangélico, e nem na candidata a vereadora Creuza Maria, mulher e militante preta Presidente Nacional do Sindicato das Empregadas Domésticas, por ser evangélica.
Como se Pinheiro e Cleuza tivessem culpa da falta de respeito que tem se acirrado principalmente na Bahia. Mas, entendo a reação como uma forma de protestar politicamente contra os ataques dos chamados evangélicos aos cultos afro-brasileiros. Entendo e respeito, mas, não concordo. Se formos ver por esse lado todos os escritos de Martin Luther King, Steve Biko, Nelson Mandela, Fred Hampton, Desmond Tutu. A vida de João Cândido e inúmeras personalidades na África e na diáspora teriam que ser esquecidas e considerados traidores e traidoras do povo preto.
O Evangelho são Boas Novas de Paz, Justiça, Compreensão, Amorosidade, Perdão e Reconciliação entre os seres humanos e Reconciliação com o Criador e Doador da Vida, trazendo a esperança de um Reino justo e igualitário para a humanidade.
Toda manifestação de intolerância e falta de respeito com o outro é anti-evangelho. Todo intolerante segue a Sinagoga de Satanás e dá um falso testemunho das Boas Novas de Yeshua.
Sabemos que desde a apropriação do cristianismo pelos europeus começou a intolerância, as guerras realizadas pela cristandade, as cruzadas que ceifaram milhões de vidas, a colonização, a escravização, o imperialismo. As destruições de civilizações milenares, e as perseguições físicas e psicológicas contra os africanos na África e na diáspora forçada. Esses fatos são Anti-Evangelho de Yeshua.
O povo preto evangélico não pode se voltar contra a sua própria família, não pode demonizar a África. Não podemos fazer o jogo do racismo. Fazer o jogo do racismo é Anti-Evangelho de Yeshua.
O Falso Evangelho tem se tornado as Más Novas do Terror, da tristeza, da falsa superioridade racial, da desagregação familiar, da quebra da fraternidade, da desconstrução de uma solidariedade pan-africanista.
Meu irmão e minha irmã preta que lê esse artigo, preste bem atenção: Não foram as religiões afro-brasileiras culpadas pela escravização dos nossos ancestrais e pelo seqüestro. Não foram as religiões afro-brasileiras culpadas pela pobreza da maioria da nossa população. Não foram eles. Foram os europeus que transformaram o Evangelho da Vida em um Evangelho do Terror. Meu amado e minha amada irmã não façam o jogo do racista. Não pregue o Evangelho da Morte. Viva o Evangelho da Vida.
Se houvesse o respeito não seria necessário que 15 milhões de irmãos e irmãs pretas e pretos estivessem cultivando o ódio contra os irmãos e irmãs não cristãos. Torna-se necessário que paremos e pensemos o que isso nos levará? A perda de amizades? A maior desestruturação familiar? Um cisma na caminhada entre cristãos pretos e seguidores de religiões afro-brasileiras?
Nós do CNNC entendemos que por detrás da intolerância religiosa, está a intolerância racial, porque também somos vitimas deste anti-evangelho do Terror. Muitos jovens cristãos pretos passam por problemas psicológicos nas igrejas, por causa das vestimentas, e inclusive, os seus dreads e tranças são consideradas do demônio. Somos chamados de hereges e mentirosos ao afirmamos que há racismo no Brasil e nas Igrejas Protestantes. O racismo é anti-evangelho de Yeshua.
Recentemente tivemos o caso da pastora Cleuza Caldeira que foi discriminada por ser preta e mulher na Igreja Presbiteriana Independente. Confira o artigo: UMA MULHER NEGRA E SEU DIREITO DE SER
Estamos torcendo que a Marcha do dia 21 de setembro triplique o número de participantes que são almejados. É necessário um basta na falta de respeitabilidade e que possamos conviver fraternalmente, convivendo com as diferenças e como um só povo preto que ainda nesse país é a maior vítima da discriminação racial, seja evangélico, católico, espírita, candomblecista, muçulmano, budista ou ateu.
"Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados".

Dia 19/09, em Salvador, Lançamento da 4ª CAMINHADA PELA VIDA E LIBERDADE RELIGIOSA.
Todos e todas à marcha de 21 de setembro na Praia de Copacabana – RJ contra a Intolerância Religiosa!


terça-feira, 19 de agosto de 2008

CANDACE E MATRIARCADO - O PARLAMENTARISMO NO IMPÉRIO DE KUSH




Walter Passos - Historiador
Skype: lindoebano
 Facebook: Walter Passos

Formadoras das civilizações, as mulheres africanas representaram as primeiras deusas, mães, educadoras, sacerdotisas, médicas, cientistas, comerciantes, diplomatas e governantes do mundo. Nesse contexto, o estudo das Candaces é de suma importância para a compreensão da História Africana.
Os estudos antropológicos nas sociedades africanas e afro-diásporicas retratam a concepção de poder androcêntrico, aonde o cristianismo primitivo africano foi modificado para concepção patriarcal grega-platônica da inferiorizarão das mulheres com bases na hermenêutica antropológica de sociedades cristãs europeias. Da mesma forma, o estudo das sociedades islamizadas no continente africano corroboraram concepções patriarcais outrora desconhecidas e praticadas nas mais antigas civilizações africanas.
Com a invasão, colonização e imperialismo, novos modelos produtivos baseados na exploração de classes sociais incorreram na feminilização da pobreza e na masculinização do poder, inclusive das religiões tanto na África como na diáspora. Os antropólogos brancos tentaram explicar o matriarcado e o modo de produção matrilinear com as suas concepções racistas e machistas que nos obriga assim a recorrer aos estudos da afrocentricidade para um real entendimento das sociedades africanas, como resgate da verdade histórica, que nos ajudará contra a opressão de classe, o racismo e o patriarcalismo.
O entendimento do poder matriarcal africano configura o principal alicerce para a compreensão da civilização kushita.
Kush, uma das civilizações mais antigas do mundo, foi uma sociedade de base matriarcal, onde havia o equilíbrio entre os gêneros e a difusão da justiça e igualdade, diferentemente de civilizações brancas recentes na história mundial, a exemplo de Grécia e Roma que desenvolveram o modo de produção escravagista antigo, baseados em sociedades patriarcais e patrilineares. Dentro do matriarcado não houve escravização e nem exploração de gênero, fato este que ocorreu com o advento do patriarcado e conseqüentes mudanças no viver africano primevo.
A diferença essencial do governo das kandaces comparado a outros do mundo antigo é que não era um poder vitalício e nem hereditário. Uma kandace governava por dez anos, outra por vinte anos, outra por 30 anos, em seguida o ciclo recomeçava em uma alternância de poder, evitando o despotismo, possibilitando uma paz política que proporcionou o grande desenvolvimento da civilização kushista. Havia um parlamento que detinha o verdadeiro poder composto por sacerdotisas e sacerdotes, anciãos e anciãs (com função senatorial) representantes da população, sendo levado esse modelo para Kemet ( Egito).
Na verdade, a origem da democracia é africana, sendo copiada pelos gregos em diversos estudos realizados por eles na Núbia e em Kemet (Egito).
O conhecimento desse modelo de governo, somente ocorre com as últimas pesquisas pautadas na afrocentricidade. Acusamos tantos legados roubados pelos europeus, outrossim, formas de governo foram deformadas e posteriormente copiadas como o modelo parlamentar hoje instituído em países europeus e na monarquia japonesa. A civilização kushita já havia desenvolvido o parlamentarismo milhares de anos antes dos europeus.
O matriarcado não impedia em alguns momentos que homens participassem do governo como reis ou esposos das Kandaces, sendo escolhido pelo parlamento, podendo se tornar governante ou consorte da rainha, conforme as leis da matrilinearidade.
Uma das mais poderosas Kandaces foi Amanirenas, que serviu como chefe de Estado, Comandante-chefe do exército, e Sumo Sacerdotisa de Isis.
Amanirenas comandou a aliança do exército Kushita-Kemita à ocupação romana de Kemet, e a invasão do resto da África no tempo do Imperador Augusto César.
Amanirenas apesar do poder exercido era considerada humilde e amável, detentora de um porte atlético. Com cerca de 50 anos de idade empreendeu as mais violentas batalhas contra os romanos.
O conflito entre os romanos e os Kushitas originou-se da invasão feita pelos romanos a Kemet (Egito), levando o exército kushita a invadi-lo sob o comando de Amanirenas e do seu filho Akinidad, atacando a fortaleza de Assuam, resultando na captura de tropas romanas que haviam incendiando cidades e templos, entre elas o templo de Karnak, o exército kushita derrubou a estátua do imperador Augusto levando a cabeça para a cidade de Meroé como prêmio de guerra.
Na realidade o domínio dessa poderosa rainha ainda é um enigma para os historiadores porque nesse período foram encontradas tropas fieis a Amanirenas espalhadas em diversas regiões da África, indicando que o Kushitas possuíam exércitos em todas a África. Heliodurus escreveu que os exércitos kushitas estavam espalhados em todas as regiões da África e apesar de Roma ter enviado uma força de 10.000 infantes, 800 cavaleiros e milhares de auxiliares, num total de cerca de 30.000 militares, no final seriam derrotados pelo poderoso exército de Amanirenas.
No final, o imperador romano Cesar Augusto e o general Gaius Petronius forma obrigados a negociar a paz, recebendo mensageiros kushitas na ilha de Samos, no mar Egeu, com flechas de ouro enviadas pela Kandace Amanirenas com a seguinte mensagem: “Trata-se de um presente da kandace. Se você quer guerra, as mantenha porque vai precisar delas. Se você quer paz, aceita-as como um símbolo de minha cordialidade e amizade". Augusto César aceitou o presente e terminou a guerra.
Entre as concessões feitas por Augusto foi a permissão que os Kushitas seguidores de Isis prosseguissem a sua adoração em Elefantina, cidade egípcia controlada pelos romanos, e o pagamento indenizatório para construção de templos em Kush, uma vez que alguns tinham sido destruídos pelos romanos.

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terça-feira, 12 de agosto de 2008

A MAJESTOSA CIVILIZAÇÃO DE KUSH


Walter Passos - Historiador
Skype: lindoebano
 Facebook: Walter Passos

As escavações e estudos dessa civilização se concentram no atual Sudão, maior país da África.
Os kushitas, em épocas mais recentes, ocupavam o sul do Nilo com seu impressionante exército de arqueiros.
Kush foi o local do Jardim do Éden. Gen. 2: 11-14 - "Um rio saía do Éden para regar o jardim, e de lá se dividia em quatro braços. O primeiro chama-se Fison: é aquele que rodeia toda terra de Hévila, onde existe ouro; e o ouro dessa terra é puro, e nela se encontram também o bdélio e a pedra de ônix. O segundo rio chama-se Geon: ele rodeia toda a terra de Kush. O terceiro rio chama-se Tigre e corre pelo oriente da Assíria. O quarto rio é o Eufrates."
Nos escritos do Antigo Testamento, Kush é conhecido também por Núbia e muitas vezes citado como Etiópia.
Da civilização Kushita, originaram-se os egípcios, após as migrações endereçadas ao norte do continente africano.
Os historiadores gregos Homero e Heródoto deixaram registrados que os Kushitas povoaram o Egito, a Arábia, a Palestina, a Ásia Ocidental e a Índia. Foram considerados, por Heródoto, como os mais altos, os mais bonitos; de maior longevidade entre as raças humanas e os mais justos dos homens. São citados nos anais de todas as civilizações. A arte de embalsamento, pelo qual são famosos os faraós egípcios, teve sua origem na civilização kushita.
O Império de Kush construiu três vezes mais pirâmides que os egípcios e possuíram a cerâmica mais bela do mundo, assim considerada por todos os povos, inclusive os gregos.
A economia kushita era baseada em pedras preciosas, madeira de ébano, mar­fim, e também diversos produtos que contribuíram decisivamente para a manutenção e crescimento da civilização egípcia.
A 25ª dinastia do Egito é conhecida como dinastia etíope, em 712 a.C., por­que o Egito foi conquistado pelo Império Kushita que governaram o Egito e a Núbia.
A primeira capital do Império  foi à cidade de Kerma, anterior a 5.000 a.C, considerada a cidade mais antiga da África, cujo tamanho compreendia 62 acres e possuindo mais de 200 casas, e edifícios maciços do tijolo que foram devotados ao comércio e às artes, com um templo e um palácio.
A segunda capital foi Napata, um centro sagrado e devotado aos deuses. O templo fundado em Jebal Barkal, uma montanha sagrada, transformou-se na fonte de reivindicações de Núbia ao trono de Kemet. Os reis de Núbia invadiram Kemet e estabeleceram a 25ª dinastia. Eram os mestres do mundo. O império de Núbia abrangeu a Síria no norte à Núbia no sul. Os reis de Núbia ajudaram o estado de Israel em seu esforço de guerra contra os Assírios. A terceira capital foi Meroé, a sua linhagem real durou mil anos. A cultura de Núbia em Meroé combinou tradições egípcias.
As mulheres tiveram papel proeminente na sociedade kushita, ocupando posições de poder e prestígio. Ao contrário das rainhas do Egito que possuíam o poder derivado dos seus maridos, as rainhas de Kush eram governantes independentes. Kush era uma sociedade matriarcal no período de Meroé. Os historiadores acreditam que em Meroé, uma das capitais do império kushita, nunca um homem reinou. O título de Candances para as rainhas foi originado do vocábulo ‘kentace’, e existiu por mais de quinhentos anos. Quatro dessas rainhas: Shanakdakete, Amanirenas, Amamishakete, Amamitere foram guerreiras temidas e comandaram seus bravos exércitos.

A Rainha Amamishakete e seu companheiro
A rainha Amanirenas reinou na cidade Meroé e quando o imperador romano Augustus tentou impor um imposto aos kushitas, Amanirenas e seu filho Akini­dad, realizaram um ataque violento a um forte romano na cidade Asuan. Augustus mandou as tropas romanas; comandadas pelo general Peroneus, retaliaram, mas, encontraram uma forte resistência de Amanirenas comandando as tropas que derrotou os romanos e os obrigaram a negociar a paz.
Os kushitas detiveram o avanço dos romanos na África, e colocaram um busto de César Augustus enterrado debaixo de uma entrada em um templo. Nesta maneira, todos que entraram pisariam em sua cabeça.
A rainha Amanirenas era alta, muito forte e cega de um olho; venceu as tropas romanas no ano 23 a.C., obrigando Roma a trocar embaixadores e fecha­ram um acordo, onde Roma devolveu um território cushita, anteriormente pago em imposto. Outras rainhas também enfrentaram as tropas romanas.
O exército africano de Kush derrotou inimigos egípcios, gregos e romanos.
A civilização de Kush, com seu alfabeto, comércio e triunfos arquitetônicos é considerada por alguns estudiosos, como superior às civilizações mais desenvolvidas do mundo antigo.
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Cush foi o mais importante Império Africano que se desenvolveu ao redor do Rio Nilo, superando os Egípcios e dos quais estes descendem.
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segunda-feira, 4 de agosto de 2008

IDA B. WEELSS – JORNALISMO IVESTIGATIVO, DEFESA DOS DIREITOS DA MULHER E DO HOMEM PRETO

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrado e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br

As mulheres pretas na história das civilizações africanas e afro-diásporicas sempre tiveram papel proeminente na defesa dos direitos de vida do seu povo, foram e ainda são o alicerce para manutenção de lutas intestinas contra todo o tipo de opressão, infelizmente a mentalidade androcêntrica, sexista e machista ocidental tenta omitir exemplos de resistência.
Na concepção panafricanista e afrocentrada a importância da luta do povo preto ignora fronteiras demarcadas geograficamente pelos invasores e colonizadores europeus. A importância de conhecermos exemplos de resistências na África e na diáspora impositiva serve como resgate da história e exemplos a ser seguido, sendo assim, conheçamos um pouco a história dessa grande mulher que viveu no século XIX e início do século XX nos Estados Unidos da América: Ida B. Wells, uma defensora da justiça racial e de gênero.
Nasceu em 16 de julho de 1862 em Holly Springs, Mississipi, filha do carpinteiro James Wells e de Elizabeth "Lizzie Bell" Warrenton Wells, escravizados libertos. Após a Guerra de Secessão, os seus pais e um irmão caçula morreram de febre amarela em uma epidemia que ocorreu no sul dos USA. Amigos e parentes decidiram que as seis crianças, filhos do casal, seriam criadas por tios e tias, causando a separação familiar. Ida desaprovou a idéia e retirou-se da escola, tornando-se professora para criar e sustentar os seus irmãos e manter a família unida. Retornou aos estudos não deixando de trabalhar, concluindo o ensino médio.
Em 1884 liderou uma campanha contra a segregação racial no transporte ferroviário quando um condutor da Chesapeake, Ohio & South Western Railroad Company disse-lhe para levantar e ceder o lugar para um homem branco, ela recusou-se então dois condutores tiveram que arrastá-la para fora do local, isso 71 anos antes de Rosa Parks. Ao chegar no seu destino, à cidade de Memphis, contratou um advogado para postular contra a ferrovia, ganhando a causa no tribunal local. Entretanto, a ferrovia recorreu para o Supremo Tribunal do Tennessee que inverteu a decisão em 1887.
Durante sua participação na caminha pelos direitos dos votos das mulheres, foi obrigada a ficar na parte de trás, o que a levou a iniciar a sua vida como jornalista, tornando-se co-propietária e editora do Free Speech (Liberdade de Expressão), um jornal anti-segregacionista de Memphis em Beale Street, escrevendo artigos na defesa do povo preto. Em 1892 foi forçada a abandonar a cidade porque os seus editorias foram considerados demasiadamente agitadores.
Um dos seus artigos foi em defesa de três amigos: Thomas Moss, Calvin McDowell e Henry Stewart, proprietários de uma mercearia que foram linchados por causa da concorrência com lojas dos homens brancos; afirmava que os pretos não podiam desenvolver a vida econômica, sendo acusados injustamente em tribunais e na maioria dos casos linchados. O resultado do seu trabalho jornalístico foi o saque no escritório do jornal, obrigando-a abandonar a cidade e ir para Chicago.
Em um dos seus artigos no The Free Speech, escreveu:
"Na cidade de Memphis não há nada que possamos fazer acerca do linchamento, no momento em que estamos a em menor número e desarmados. A máfia branca poderia ajudar a si mesma entregando munição de graça; todavia a ordem é rigidamente executada contra a venda de armas de fogo para negros. Há, portanto, apenas uma coisa que se deve fazer; resgatar o nosso dinheiro e sair dessa cidade que não protege nossas vidas e nossos bens, nem nos dar um julgamento justo nos tribunais, mas nos assassina a sangue frio quando acusados pelas pessoas brancas."
Em 1892 publicou um dos seus maiores panfletos Southern Horrors: Lynch Law in All Its Phases, que se pendurou até 1895, com artigos intitulados: O Recorde Vermelho, onde documentava suas pesquisas na luta contra os linchamentos, sendo a maioria de acusação de violações de mulheres brancas pelos homens pretos, estupros baseados em mentiras, que objetivavam impedir o desenvolvimento econômico da comunidade preta e manter a supremacia do homem branco, e desenvolver a ideologia da inferioridade da comunidade preta. Enquanto que homens brancos estrupavam mulheres pretas e até crianças de oito anos de idade.
Ida Wells estudou o linchamento de 728 homens, mulheres e crianças pretas, no período de dez anos que precederam o linchamento de Moss. Em apenas um terço desses casos eram pretos acusados de estupro e em menor número deles eram realmente culpados do crime. A maioria morreu acusada por crimes como: incendiário, preconceito racial, por queixas de brancos e acusados de fazerem ameaças. Entre esses, destaca-se o caso, em que aos treze anos de idade Mildrey Brown foi enforcado com as provas circunstânciais de que ela havia envenenado uma criança branca. As investigações constataram um grande número relacionamentos inter-racial, e ela afirmou que as mulheres brancas tinham tomado a iniciativa de algumas dessas falsas denuncias. Entre 1882 quando foram pela primeira vez realizada estatísticas até 1968 quando as formas clássicas de linchamento tinham desaparecido, 4743 pessoas haviam morrido, 3446 dos quais homens e mulheres pretas. No entanto, as estatísticas não dizem toda a história. Estes foram os casos registrados, outros nunca foram notificados para além da comunidade envolvida.
Assista esse vídeo que retrata de maneira emocionante os linchamentos:
Até a década de 1890 diferentes formas para retirar a vida dos pretos e pretas foram utilizadas: queimaduras, tortura, enforcamentos, esquartejamento, mortes lentas com sofrimento prolongado, os quais criavam uma "atmosfera festiva" entre os assassinos e expectadores.
Os Brancos traziam seus familiares, inclusive crianças pequenas para assistir; os jornais anunciavam antecipadamente, as ferrovias realizavam excursões com grandes números de bilhetes vendidos, os linchamentos eram anunciados até nas igrejas brancas. Partes do corpo dos negros vitimados: dedos, orelhas, ou genitália eram adquiridos como lembranças. O linchamento tornou-se um lazer e uma maneira de impor o terror e controlar as aspirações da população preta, tentando demonstrar que após a escravidão o preto americano era um refém dentro dos USA e tinha que saber o seu lugar de cidadão e cidadã sem direitos.
A imagem abaixo é um exemplo do trabalho de Ida como jornalista e advogada em prol dos Direitos Humanos. Ela foi publicada em The Richmond Planet, em 26 agosto de 1893. Em 1893 , ela juntamente com outras lideranças como Frederick Douglass, considerado um dos mais importantes militantes pretos dos USA organizou um boicote distribuindo 2000 panfletos.
No ano de 1896, ela ajudou a organizar a Associação Nacional de Mulheres Pretas. Realizou duas viagens a Inglaterra para denunciar o linchamento de pretas e pretas dentro dos USA, tornando-se a primeira mulher preta jornalista a trabalhar como correspondente internacional.
Ela também se tornou uma incansável militante pelo sufrágio da mulher, Ida B. Wells-Barnett, juntamente com Jane Addams, bloqueou com sucesso a criação de escolas segregadas em Chicago. Em 1906, ela ingressou com William EB Dubois e outros para o Movimento Niagara, sendo uma das duas mulheres pretas a assinar o “convite" para formar a NAACP - Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor - em 1909. Embora Ida B. Wells fosse um dos membros fundadores da (NAACP), ela também foi uma das poucas lideranças pretas explicitamente a se a opor Booker T. Washington e sua estratégia. Como resultado, ela foi vista como um dos mais radicais dos chamados "radicais" que organizou o NAACP
Mais tarde, em 1930, ela revoltou-se com os candidatos dos principais partidos para o legislativo, de forma que Wells-Barnett decidiu concorrer a uma cadeira no Estado Illinois, o que fez dela uma das primeiras mulheres negras a correr para os cargos públicos nos EUA. Um ano depois, em 25 de março de 1931 ela faleceu depois de uma vida cruzada por justiça.
Ida foi uma defensora dos direitos da mulher e pelo direito ao voto. Sem medo atuou contra o sexismo e o racismo, combatendo os linchamentos dos homens pretos e mulheres pretas, documentando centenas desses assassinatos. Há diversas organizações criadas de apoio a população preta que receberam o nome desta importante militante que amou o seu povo e dedicou a sua vida em prol da justiça e do respeito dele, considerada assim como a Mãe do Movimento dos Direitos Civis.
Uma classe de rádio para os jovens no Projeto Habitação Ida B. Wells, 1942.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

MACHADO DE ASSIS - A DENÚNCIA PRETA OMITIDA

* Artigo inédito retirado do Livro Afro-Reflexões de Walter Passos, págs. 62-68

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrado e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br

O autor do texto em um Curso de História e Cultura Afro-brasileira e Africana escreveu:
“É dessa época também nomes como Gonçalves Dias e Machado de Assis, escritores mestiços/pardos(conforme a nomenclatura atual do IBGE), sendo que primeiro, em seus escritos, se ocupou de forjar a identidade indígena e o segundo, pouco se ocupou da situação negra, tendo escrito
apenas uma poesia, “Sabrina,” sobre uma escrava que se apaixona e é enganada por um sinhozinho e feito pouco menos de dez crônicas(Bons Dias), abordando o contexto pré abolicionista e pós, ressaltando as poucas ou quase nenhuma mudança na vida daqueles que deveriam ser beneficiar com o fim da escravidão” .

Discordo do autor. Machado de Assis foi o maior escritor realista brasileiro e fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL), sendo perseguido por diversos escritores da sua época e epitetado como o “Bruxo do Cosme Velho”, e ainda hoje continua sendo acusado de omisso nas questões relacionadas a causa preta, a escravidão, e a situação do escravizado. Infelizmente o autor do texto não conhece profundamente a literatura machadiana.

Machado de Assis: Um Mestre na Periferia I

Destaco, um trecho de Sueli Carneiro publicado em 22/10/2004 no Fala, Brasil uma análise do escritor angolano José Eduardo Agualusa:

“Como medida da exclusão histórica do negro desde o pós-abolição, do acesso ao desenvolvimento econômico e cultural e sua invisibilização, o escritor alude ao fato de que:“atualmente não dá para citar um grande escritor negro ou mestiço brasileiro. Isso é incrível porque no século XIX havia grandes escritores afro-descendentes, como Machado de Assis e Cruz e Sousa”. É provável que o autor desconheça a forma categórica com que a negritude de Machado de Assis foi descartada por nossas elites que, para ofertar-lhe o reconhecimento a um talento que não podia ser negado, teve que o destituir das marcas de sua negritude, decretando, como o fez Olavo Bilac, "Machado de Assis não é um negro, é um grego”.

Os racistas e anti-Panafricanistas não aceitam um homem preto com a capacidade de Machado, intitulado como maior escritor brasileiro; e muitos críticos incorrem em erros de análise, imbuídos de preconceitos e desconhecimentos literários e históricos.
O autor do texto deveria ler Iaiá Garcia, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e outros contos e livros os quais Machado de Assis descreve com brilhantismo as mazelas da escravidão e as critica veementemente. Acredito que assim o fazendo não exporia desconhecimento sobre a importância dos escritos machadianos sobre a escravidão e a abolição, como diz o poeta Limeira: “Hábil lição da escravatura”. Machado de Assis conseguiu em seus textos denunciar a farsa abolicionista com o seu olhar cético, só o fazendo porque era conhecedor das elites escravagistas e sabia que, entre outras conseqüências, o povo preto saiu da senzala e foi transportado para as favelas, sendo ele mesmo um antigo morador dela. Foi cumprido um projeto de empobrecimento da população ex-escravizada, sendo sua mão-de-obra, agora livre, substituída por imigrantes brancos, os quais se tornaram donos dos instrumentos de produção, num processo de embraquecimento no território brasileiro. Vale ressaltar que esse processo começou com a teoria Eugenista, inspirada no racista francês Joseph Arthur de Gobineau, amigo do Imperador D.Pedro II, o qual sugeriu a imigração de caucasianos da Europa, para "salvar" o país da degeneração imutável.
Todavia, Machado retrata o escravizado como um olhar realista, sem retoques, o observa como um ser destituído de todo senso crítico pelos senhores, e especialmente no romance Iaiá Garcia, o personagem Raimundo é considerado uma criança com responsabilidades de adulto no que concerne ao seu trabalho de escravizado, e ao mesmo tempo um incompetente. Ainda hoje o afrodescendente é considerado pelas elites desse país um individuo incapaz de gerir o seu próprio destino.
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas o escravizado Prudêncio é transformado em um objeto, um brinquedo, um cavalo, e após a abolição não sabe lidar como a liberdade.
Em Pai contra a Mãe Machado retrata a escravatura em toda a sua realidade e crueldade, fala dos castigos: “Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado.” Relata as fugas individuais usadas como uma forma de resistência pelos nossos ancestrais, que não aceitaram a escravidão. Observa os castigos cruéis aplicados aos escravizados: “O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. “Há meio século, os escravos fugiam com freqüência”.
Informa com sapiência a continuidade da escravidão pelo ventre materno, a sujeição da mulher escravizada que não pode usufruir seu filho, aquela que não gera uma criança, mas, sim uma mercadoria. Machado enfoca com maestria a dominação do homem pelo homem, no qual o escravismo cria relações monstruosas em um sistema político imoral e autoritário. Não esconde a opressão de suas vítimas e nem escamoteia em versos lindos e poéticos os sofrimentos dos escravizados. Cita o personagem Cândido Neves, caçador de escravizados fugitivos, retratando uma forma de resistência que foi a fuga individual. Denuncia o sistema escravocrata que cria homens insensíveis que vivem a caçar pessoas consideradas “bichos fujões”, por estarem fora das elites e precisam de dinheiro, esse é o caso de Cândido Neves, um capitão-do-mato, que endividado vai vender o próprio filho. Mas no caminho captura uma escravizada, e recebe uma boa recompensa, mantendo assim o seu filho. A escravizada estava grávida, e abortou com os castigos recebidos, ficando a vida do filho de Candinho em troca da morte de um ser preto, que no país escravista era considerado simples mercadoria. Este conto de machado de Assis foi um dos maiores alertas e protestos feitos contra a escravidão no Brasil e o bastaria e mais nada para considerá-lo um dos maiores abolicionistas brasileiros.
Foram criados adjetivos e estigmas sobre Machado de Assis, infelizmente repetidos, até por membros pretos na luta contra a discriminação. Falar sem conhecer é preconceito e devemos ler as obras machadianas, sendo assim, através de projetos de leituras orientar os nossos estudantes no sentido de discutir a contribuição machadiana nas denúncias do escravismo no Brasil.
Tornar-se-á necessário que acabemos com as visões racista inseridas nas nossas mentes de desprestigiar e negar aqueles poucos descendentes de africanos que no passado souberam usar a língua dos dominadores para denunciar a escravidão e suas mazelas.


Machado de Assis - Desenho animado sobre a vida do mestre da literatura brasileira

* Artigo inédito retirado do Livro Afro-Reflexões de Walter Passos, págs. 62-68

Leia mais sobre o Livro Afro-Reflexões - http://cnncba.blogspot.com/2008/04/livro-afro-reflexes.html

quinta-feira, 3 de julho de 2008

OS NEGROS VÍTIMAS DO NAZISMO

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrado e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br

- O senhor despreza os negros. No Brasil, apesar de serem vítimas de poderosos mecanismos de exclusão sóciocultural, existem negros que vêm se destacando em todas as áreas. O que o senhor tem a dizer a respeito, por exemplo, dos artistas, dos escritores, dos cientistas e dos juristas negros que venceram todos os enormes obstáculos e se impuseram à admiração geral?
- Um negro que se torna advogado... Isso é um ultraje, uma ofensa à nossa razão! É uma idiotice criminosa a de quem adestrou durante tantos anos um meio-macaco até chegar ao ponto de fazer acreditarem que ele é um advogado. Enquanto isso acontecia, enquanto esse investimento era feito, milhões de indivíduos pertencentes às raças mais elevadas ficaram subaproveitados! [original]

Por Leandro Konder, no Jornal do Brasil de 25/1 e 1/2 (2003) http://www.consciencia.net/2005/mes/08/hitler-mussolini.html


A história do povo preto está sendo reescrita pelos afrocentristas que desmitificam a falácia em que foi posta a verdadeira história da humanidade. De certo, a história é dinâmica, portanto fatos recentes ainda estão escondidos e desconhecidos da maioria da população preta. Dentre eles o Nazismo Alemão contra o povo preto.
O nazismo alemão perseguiu e assassinou pretas e pretos na Alemanha. Esse mesmo racismo anti-negro alemão já existia com suas barbáries no território africano. A Alemanha através do neocolonialismo dominou o Togo, Camarões, Namíbia e Tanzânia, onde foram realizados experimentos genéticos e massacre de mais de 60.000 africanos que resistiram nas terras africanas invadidas.

Na década de 1890, africanos foram torturados pelos alemães no Sudoeste da África, atualmente chamada Namíbia, antes do holocausto dos judeus na Alemanha, africanos sofreram torturas e foram vítimas de experiências médicas, o que resultou em milhares de mortes, aumentando o número de vítimas do neocolonialismo europeu, em conseqüência ao ódio para com povo original. A separação de brancos e pretos foi aprovada pela Reichstag (parlamento alemão), que promulgou uma lei contra os casamentos mistos nas colônias africanas.

"Fotos de nossas colônias," Der wahre Jacob (década de 1890)

Esta caricatura é intitulada "Fotos de nossas colônias" ["Bilder aus unsern Kolonien"]. Na legenda lê-se: "Um domingo a Tarde na África Ocidental." Ela mostra um mundo, no sudoeste africano: nativos vestindo uniformes militares prussianos, cavalgando animais selvagens, tigres comendo salsicha alemã, e o canibalismo como uma prática habitual.
O ódio aos africanos e a tentativa de bestialização pelos europeus foi publicada neste blogger no artigo intitulado: SAARTIJE BAARTMAN – ZOOLÓGICOS HUMANOS – A MULHER PRETA HUMILHADA


Show Popular ocorrido em Stuttgart na Alemanha, com amostras de africanos apresentado entre 02 de julho a 05 de agosto de 1928.

O NAZISMO ANTI-NEGRO
Na década de 20 do século passado 24.000 mil pretos viviam na Alemanha e a maioria foi vítima do nazismo, após o tratado de Versalhes a França ocupou a Renânia, enviou soldados pretos que tiveram filhos com mulheres alemãs.
As Propagandas racistas contra os soldados pretos os mostravam como violadores de mulheres alemãs e portadores de doenças venéreas.


Negro ataca uma mulher em cartaz de propaganda

http://www.dw-world.de/dw/article/0,2144,675862,00.html

Sendo alvo da crítica no livro Mein Kampf (Minha Luta), Hitler acusa os judeus de imigrarem os pretos para Renânia com o real objetivo de arruinar a raça branca.
O destino do povo preto a partir de 1933 a 1945 foi a esterilização na Alemanha, considerados ameaça a pureza da raça germânica, justificado segundo os nazistas a não poluição dos arianos. As crianças “mulatas” foram isoladas na sociedade, impedidas de entrarem nas universidades, sendo a maioria da população preta esterilizada, presa pela gestapo (polícia secreta alemã) e muitos desapareceram. Alguns foram submetidos a experiências médicas; outros foram acusados de traição e jogados como bois nos campos de concentração.
Adolf Hitler durante os Jogos Olímpicos de Berlim, em agosto de 1936 divulgava a Deutschland, Deutschland über Alles (Alemanha acima de todos), teve a sua idéia de superioridade ariana desmascarada com a conquista da medalha de ouro aos 21 anos, por John Woodruff,na prova dos 800 metros, a 4 de Agosto de 1936, nos jogos Olímpicos de Berlim perante o olhar de Hitler. Cornelius Johnson, um outro atleta preto, ganhou a medalha de ouro no salto em altura e James Cleveland("Jesse" Owens) quebrou quatro recordes mundiais em 45 minutos conquistando quatro medalhas de ouro nos 100 e 200 m rasos, no salto em comprimento e nos 4x100 m. Os EUA, que trataram seus atletas pretos como auxiliares, conseguiram vencer 10 provas de atletismo. Destas, 06 medalhas de ouro foram conseguidas com a participação de quatro pretos.

A artista de jazz Valaida Snow (2 de junho de 1904-30 de maio de 1956), em Chattanooga, Tennessee; foi encarcerada em campos de internamento para estrangeiros, quando presa na Dinamarca em 1941 pelos nazistas.



Muitos outros pretos foram vítimas do nazismo, entre eles podemos destacar Hilarius (Lari) Gilges, um dançarino de profissão, que fundou uma organização de artistas para combater Hitler, foi assassinado pela SS em 1933, a sua esposa mais tarde recebeu uma restituição de governo alemão por causa do seu assassinato pelos nazistas. O artista Josef Nassy, que vivem na Bélgica, foi preso como um inimigo estrangeiro por sete meses, no acampamento Beverloo na Bélgica ocupada. Ele foi posteriormente transferido para a Alemanha, onde passou o resto da guerra preso no acampamento Laufen e no sub-campo de Tittmoning na Alta Baviera.
Lionel Romney, um preto marinheiro da Marinha Mercante os EUA, foi preso no campo de concentração Mauthausen. Marcel Jean Nicolas, um haitiano, foi encarcerado na Buchenwald e Dora-Mittelbau, campos de concentração na Alemanha. Jean Vosté, congolês que viveu na Bélgica, foi detido no campo de concentração Dachau. Bayume Mohamed Hussein de Tanganica (hoje Tanzânia) morreu no acampamento Sachsenhausen, perto de Berlim.
Diversos prisioneiros de guerra foram encarcerados sofrendo violências dos nazistas, realizando trabalhos forçados e a maioria assassinada imediatamente pela Gestapo.


"Perigosa peste", segundo a propaganda nazista

Nesta propaganda nazista a foto retrata a amizade entre uma "Ariana" e uma mulher negra. A legenda afirma: "O resultado! Uma perda de orgulho racial"
Apesar de todas as atrocidades dos nazistas contra o povo preto, ainda hoje podemos encontrar defensores e amantes dessa ideologia caucasiana e desprezível.

domingo, 29 de junho de 2008

RELIGIÃO E POLÍTICA – A ELEIÇÃO PARA A PREFEITURA EM SALVADOR

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br


O site Salvador Negro Amor publicou:
Quatro candidatos negros poderão disputar prefeitura de Salvador em 2008
A corrida eleitoral deste ano pela prefeitura de Salvador poderá contar com representantes que vão levar as discussões étnicas para os palanques. Na semana passada, nada mais do que quatro políticos envolvidos com a militância negra lançaram suas pré-candidaturas à vaga no Palácio Thomé de Souza. “Salvador tem 80% de afrodescendentes e é natural que a agenda da questão racial também seja refletida na política”, declara Luís Alberto, pré-candidato pelo Partido dos Trabalhadores (PT).
Primeiro prefeito negro da capital baiana, Edvaldo Brito assumiu a prefeitura em agosto de 1978 e governou a cidade por sete meses. Em 1985 tentou a voltar ao cargo, mas perdeu a disputa para Mário Kértesz. Este ano, Brito deverá disputar a eleição municipal pela terceira vez, pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), mas desde já fica claro o distanciamento do pré-candidato da questão racial. “Ao disputar um cargo executivo, o candidato deve representar toda a cidade e não só o movimento negro”, afirmou.
Uma das fundadoras da União dos Negros pela Igualdade (Unegro), Olívia Santana também participa das primeiras negociações em torno de sua candidatura pelo Partido Comunista do Brasil (PCB). Ela tem o apoio do companheiro de luta na militância negra, Luiz Carlos França, também pré-candidato pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSL). Para Ney Castro, militante político, “é importante que exista uma representação e engajamento na luta de classes que se trava na cidade. O fato do candidato ser negro só reforça esta posição do partido”, concluiu.
http://www.salvadornegroamor.org.br/main/noticias/default.jsp?CId=1334
Evidente que os militantes mais experientes sabiam que esse fato não ocorreria porque os pretos e pretas em Salvador não dominam os grupos políticos, apesar de ser um paradoxo a maioria étnica não decidir o seu próprio destino.
Salvador é denominada de “Capital da Alegria" e "Roma Negra” por ser um referencial em possuir as mais importantes manifestações culturais africanas, de ter majoritariamente uma população de 90% de descendentes de africanos: a cidade mais preta do Brasil.
A afirmação étnico-racial da população se mistura paradoxalmente na concepção cosmopolita nas posições hierárquicas de poder político, onde as esperanças populares se colocam sem as preocupações étnicas como se vivêssemos em uma democracia racial.
Não é mais possível disfarçar o obvio, mesmo os militantes pretos mais calmos e integracionistas considerados pelo poder como os mais razoáveis hão de concordar que o movimento negro não é harmônico, coerente e consistente.
A verdadeira razão de não ocorrer oportunidades de se criar um víeis político libertário e panafricanista é a prática liberal centrada na incapacidade ou falta de vontade de viver o coletivo, ao contrário de se desejar a procura de benesses pessoais.
Há muito se fala em um projeto político para o povo preto como se organizar um projeto houvesse a exclusão da população, não se falam em projeto sem se consultar os interessados, sem ouvir os que vão apoiar e viver o projeto.
Discutir Poder para o Povo Preto é a frase mais usada pela juventude preta afrocentrada que em uma parcela coloca em dúvida as lideranças antigas repetidoras dos discursos da década de 70 e 80 do século passado, que não evoluíram no tempo, que estão fora da conjuntura e estão presas a teorias e axiomas de confrontos não mais existentes de polarizações entre Leste X Oeste, entre o capitalismo ocidental e o “socialismo” do leste europeu e da China. Defensoras de práticas políticas obsoletas e conchavos partidários onde o povo preto continuará fora do poder. A palavra geopolítica é uma das menos pronunciadas nos discursos e análises das lideranças pretas porque não a conhecem e nunca a analisaram por um olhar afrocentrado.
Nas preocupações e formulações do ideal panafricanista quando se deu a libertação de países africanos, com a instituição de “republicas socialistas na África” e surgimento de grandes lideranças como Kwame Nkrumah, Samora Machel, Agostinho Neto, Amilcar Cabral, Sékou Toré, Sam Nujoma e outros. A continuidade do apartheid na África do Sul, sem a manifestação e interferência direta dos países do leste europeu, demonstrava que os interesses econômicos da exploração de diamantes e da mão-de-obra africana oprimida eram mais importante para os países ocidentais que a exploração patrocinada pelo sistema racista, nesse ínterim os USA e a URSS se entendiam muito bem.
As eleições para a prefeitura de Salvador se aproximam e nela os quadros políticos se definiram pela primeira vez na história da cidade com um diferencial político-religioso digno de estudos sociológicos, na questão que representantes de grupos religiosos que se consideram evangélicos estão em diversas coligações partidárias. Nesse ínterim, política e religião mais uma vez dão as mãos e em nome da instituição igreja e na prática da fé os diversos interesses econômicos se apresentam a população com velhas propostas políticas em roupagens novas abalizadas pelo caráter religioso.
A religião sempre esteve ligada a dominação política e dela se construiu constituições e partidos, apesar dos marxistas analisarem como o “o ópio do povo”, chargão antigo dos marxistas históricos que não evoluíram nas suas análises da modernidade política mundial. As religiões em um mundo que parecia entrar para o ateísmo se tornam a cada dia palco de se atingir a maioria da população em todos os recantos do mundo globalizado, Salvador não ficou de fora.
Em uma análise superficial, quando notamos que os candidatos, digo candidatos, em uma cidade de maioria feminina e preta, as mulheres pretas não postularão a prefeitura com a retirada de Olivia Santana do PC do B, o partido que nas suas análises internas notou que não possuía cacife eleitoral e nem financeiro para manter a candidatura da chamada “Negona”, e acima de tudo, não tem o apoio da maioria da população preta de Salvador para aventurar uma campanha baseada na questão étnica em uma cidade onde vivemos em uma suposta “democracia racial”.
Os evangélicos estão representados em 03 coligações de força política, reitero o termo evangélico, porque dentro da mídia e do movimento negro baiano, assim são reconhecidos: deputado federal Walter Pinheiro, membro da Igreja Batista - candidato a prefeito do PT e partidos coligados; Bispo Marinho, membro da Igreja Universal do Reino de Deus- candidato a Vice-Prefeito pela coligação do Dem e partidos coligados; Prefeito João Henrique Carneiro, membro da Igreja Batista, candidato a reeleição do PMDB e partidos coligados. O interessante que em todas essas postulações deixou mais uma vez o Movimento Negro Baiano dividido em diversos grupos políticos e interesses diversos.
O fator interessante é que na questão da intolerância religiosa todos os grupos acima descritos terão representantes que se dizem contrários a qualquer discriminação, porque as composições trazem pessoas ligadas às diversas práticas; o Prefeito João Henrique que foi alvo de contestações no caso da destruição do terreiro Oyá Onipó Neto, traz como candidato a vice-prefeito um dos mais conceituados advogados trabalhistas do Brasil, ex-prefeito de Salvador, e ogã de uma das casas mais conceituadas, o Sr. Edvaldo Brito, e tem atualmente na Secretaria Municipal de Reparação, o mestre em geografia e professor da UNEB, Sandro Correia que sempre defendeu a prática religiosa do candomblé e tem origem no bairro mais preto de Salvador: Liberdade. Nessa junção apresentada a cidade, a união política de uma parcela dos evangélicos e de membros do candomblé, quebrando o estigma que a futura gestão da prefeitura de Salvador terá uma só concepção religiosa, na verdade nunca teve, em todas as uniões políticas há representantes de diversos interesses religiosos.
Do outro lado, o deputado federal ACM Neto do partido que tenta acabar com as cotas nas universidades, o DEM, representante de uma família que dominou a política baiana há décadas e sempre teve um bom relacionamento com diversas casas de candomblé e organizações afro-baianas, traz em sua companhia o deputado federal Bispo Marinho, representante da Igreja Universal do Reino de Deus, que consegue emplacar na cidade mais preta do Brasil o seu projeto político de poder, sendo acusada a todo o momento de ser intolerante com os cultos de origem africana.

Candidato a prefeito de Salvador, o deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA) conseguiu montar uma coligação em torno de seu nome que une partidos adversários na política federal (DEM e PR), religiões antagônicas (católicos e evangélicos) e sistemas de comunicação concorrentes (TV Globo e Record). A pouco menos de quatro meses das eleições municipais, o palanque de ACM Neto transformou-se em uma espécie de terreiro do sincretismo político, reproduzindo o famoso ecletismo religioso da Bahia. http://www.votebrasil.com.br/noticia/politica/acm-neto-monta-alianca-ecumenica-em-salvador
No caso do deputado federal Walter Pinheiro, membro da igreja Batista, consegue unir no projeto político Lídice da Mata,ex-prefeita, atualmente deputada federal, como vice-prefeita que tem origem de militância no movimento estudantil e na defesa do socialismo e a não importância da religiosidade, e traz no seu apoio a vereadora do PC do B Olivia Santana, de todos as coligações, o PT tem mais "aproximação" com a maioria dos militantes do Movimento Negro, não significando que essa "aproximação" signifique a aprovação da maioria da população preta soteropolitana.
Evangélicos e seguidores de religiões afro-brasileiras, brancos e pretos, nesse momento em Salvador estão unidos em diversos grupos políticos com propostas de gerenciamento da denominada “Roma Negra” ou de “Salvador é de um só Santo”, conforme dizeres dos evangélicos.
Constatamos que as eleições em Salvador demonstram a desorganização do chamado Movimento Negro que como em todo o Brasil ainda não conseguiu criar um projeto político próprio que possa aglutinar as diversas tendências em um único objetivo. E sabemos que em todos os grupos políticos citados há pessoas pretas que participam e sonham em uma sociedade sem racismo e sem opressores, e dizer que o grupo, x, y, ou z possui as respostas para a comunidade preta é uma falácia. Há em todos os grupos pessoas respeitáveis que nos momentos políticos não podem coadunar com as propostas as quais não fazem jus o seu pensamento e vivência política, sendo assim teremos pretos e pretas ligados a igrejas e casas de candomblé, com seus candidatos pretos defendendo propostas diferentes, demonstrando que queriam ou não e felizmente o Brasil não é, e não pode se tornar um estado religioso.

sábado, 21 de junho de 2008

AXUM - AS IGREJAS ESCULPIDAS EM ROCHAS NA ETIÓPIA


Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br
Introdução
O reino de Axum (Etiópia) foi o terceiro das civilizações clássicas do Vale do Nilo. A sua extensão territorial era de 6.400.000 quilômetros quadrados, uma extensão do deserto do Saara, com uma pradaria rica e apropriada para a criação de bovinos e o restante montanhoso indo do rio Nilo Superior ao Mar Vermelho. Possuía também territórios na Arábia, no Vale da Fenda do Quênia e da Tanzânia até o Mar Vermelho. Sua cultura era uma mistura de influências locais e Sabaenas da Arábia Meridional. Os axumitas possuíam uma posição estratégica entre o Yemen do Sul e a Núbia.
A Etiópia tem uma das tradições mais antigas da história mundial. As informações sobre o Reino de Axum antigo são raras; os escritores gregos e romanos foram os primeiros a escrever sobre essa importante civilização bem perto da era cristã e citam a cidade de Adulis, porque foi uma das mais importantes cidades portuárias da África.
A história de Axum é relatada também na Bíblia em 1000 a.C. com a Rainha de Sabá, conhecida por Makeda ou Balkis , da cidade de Marib na Arábia Meridional, que visitou o rei Salomão em Jerusalém. Presenteando-o com riquezas retomou com valiosos presentes, e grávida de Salomão. Gerou um filho o qual chamou de Menelik, que mais tarde fundou a dinastia etíope dos Leões de Judá. Essa dinastia terminou bem recentemente em 1970 quando o último imperador, Haile Selassie, foi derrubado por um golpe militar.
Entre os anos século III e IV d.C. Axum adquiriu territórios na Península Arábica, através do Mar Vermelho, conquistou a Etiópia do Norte e então finalmente dominou a cidade Meroé e todo o Império de Cush; uma das regiões mais férteis no mundo. A queda dos poderes da Núbia conduziu à ascensão meteórica do poder imperial dos axumitas.
A civilização Axumita construiu palácios, templos e tumbas bem arquitetadas e de rara beleza. Altas torres de pedras chamadas steale como monumentos. Um deles tem treze andares feitos de uma rocha de 100 pés de altura e pesando quatrocentas toneladas.

AS IGREJAS ESCULPIDAS EM ROCHAS
Atos 8:27- Filipe se aprontou e foi. No caminho ele viu um eunuco da Etiópia, que estava voltando para o seu país. Esse homem era alto funcionário, tesoureiro e administrador das finanças da Candace, rainha da Etiópia. Ele tinha ido a Jerusalém para adorar a Deus. Na volta, sentado na sua carruagem, ele estava lendo o livro do profeta Isaías.
Leia todo o texto em Atos 8:27-39 em sua bíblia.
A igreja etíope começou com a conversão do eunuco, um oficial da corte, ministro das finanças da rainha. “Candace” não era o nome dela, mas um título, como “Faraó”, no Egito; “César”, em Roma, etc. Ele era um homem temente a Deus e tinha vindo de longe para a adoração em Jerusalém.
O cristianismo se estabeleceu como religião oficial de Axum no quarto século, com a conversão do rei Ezana. Salmo 68: 32- “E a Etiópia estendia as mãos para Deus.”
O rei Ezana permitiu também as religiões tradicionais. Ele mandou fazer inscrições de ações de graças a Deus por suas vitórias as quais estão gravadas em monumentos públicos nas línguas Ge'ez, sabeana e em grego além de emitir moedas douradas inscritas em cruzes.

A Arca da Aliança levada de Israel por Menelik estava no Monastério de Tana Kirkos, o lago mais largo da Etiópia e fonte do Nilo Azul. O Rei Ezana mandou buscá-la e a colocou em uma capela sagrada em Axum, onde só uma pessoa pode vê-la, o homem sagrado, o guardião das tradições religiosas.
As procissões ainda hoje em Axum passam ao redor da capela central e da igreja central em honra a arca da aliança.
O Imperador Lalibela viveu em 1185- 1225 d.C foi um dos mais proeminentes governantes de Axum. Conta à tradição que sua mãe o chamou de Lalibela porque no dia de seu nascimento ele foi cercado por diversas abelhas. Este mudou a capital para Rhoa e a rebatizou de Lalibela. Foi o primeiro a construir igrejas nas rochas, em locais que nomeou com passagens bíblicas: sepulturas com o nome de Adão e Jesus Cristo, córregos com o nome de Jordão e etc.
Lalibela desejou criar uma nova Jerusalém na sua cidade devido à conquista da cidade sagrada pelos muçulmanos no ano de 1187, por causa disto o povo etíope estava impedido de realizar peregrinações.
O primeiro caucasiano europeu a visitar as Igrejas foi o Português Pero de Covilhã. Outro Português, o padre Francisco Alves ainda desacreditado por suas descrições das incríveis Igrejas em Axum:
“Estou cansado de escrever sobre essas magníficas edificações, pois parece que não acreditam em mim caso escreva mais... Eu juro por Deus, em cujo poder estou submetido, tudo que tenho relatado é verdade.”
Lalibela construiu onze igrejas esculpidas em rochas. E uma das características notáveis destas igrejas é um túnel, de quarenta pés de profundidade em forma de cruz, que liga as onze igrejas.
As Igrejas foram consideradas Patrimônio Histórico-Cultural da Humanidade, pela UNESCO em 1978. Elas são divididas em quatro grupos:
As Igrejas do Norte: Casa do Salvador do Mundo, Casa de Maria, Casa Gólgota, Capela Selassie e do Túmulo de Adão.
As Igrejas Ocidentais: A Casa de São Jorge; a mais preservada e bela das treze igrejas.
As Igrejas Orientais: Casa de Emanuel, Casa de Gabriel, Casa Abba Libanos
E os monastérios de Ashetan Maryam e Yimrehane Kristos.
A Casa do Salvador do Mundo é a maior delas, e também é a maior igreja do mundo construída em pedras. Ainda há monges negros seguidores da igreja etíope que moram nessas cavernas. A liturgia das onze igrejas continua a ser no Ge'ez antigo. O incenso queimado em rituais religiosos de hoje foram herdados do antigo cristianismo etíope. O Cristianismo da Etiópia é um dos mais antigos do mundo, tem cerca de 1600 anos. A teologia da Igreja Ortodoxa Etíope mantém ritos do Antigo Testamento, como a guarda do sábado, a circuncisão no oitavo dia após o nascimento, a abstenção da carne de porco.
Através de monges da Igreja da Síria, adotaram o monofisismo, doutrina que acredita que Cristo existia em apenas uma natureza, a divina. E que Jesus, portanto, não era uma pessoa humana e não tinha uma alma como os outros. Os monofisistas acreditam que após a encarnação, a natureza divina tinha absorvido a natureza humana em Jesus. Esse pensamento foi considerado herético pelas Igrejas européias.
O Cristianismo africano é de suma importância e infelizmente não é conhecido. O povo preto foi predestinado antes da fundação do mundo para ser criado à imagem e semelhança de Deus e ser sua testemunha através dos séculos. A igreja etíope é uma das provas inconteste da história que os caucasianos se apropriaram e mudaram a história da igreja original: as igrejas africanas.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

HOMOSSEXUALIDADE E A TEOLOGIA PRETA


                                                                                                         Walter Passos - Historiador
Skype: lindoebano
 Facebook: Walter Passos

Há alguns aspectos que precisam ser pontuados e discutidos na formulação de uma teologia preta libertadora. A princípio deve-se ressaltar que teologia é o estudo das relações humanas de fé e seu imaginário-real de adoração dos grupos sociais a Deus, sendo assim, a construção de uma teologia inclusiva e libertadora para o povo preto e seus diversos segmentos deve contemplar essas relações humanas de fé e adoração.
Uma das grandes questões não ainda discutidas dentro dos grupos de cristãos pretos é a homossexualidade. Em verdade, o que é ser preto homossexual e cristão? Quais são as nossas concepções acerca da homoafetividade? Quais são as respostas que os grupos cristãos pretos podem dar a pretos cristãos homossexuais? O que nos tem a dizer os homossexuais pretos sobre os seus sofrimentos? Quais são as indagações e posicionamentos que os pretos e pretas homossexuais têm aos grupos pretos cristãos? Como se portar em um processo de discriminação racial nos enfrentamentos da sexualidade do povo preto em suas diversidades?
De certo, é impossível se discutir uma ação libertadora e inclusiva para toda a comunidade preta omitindo que a prática da homofobia é real dentro das igrejas brasileiras. Impossível não constatar que a lacuna do combate à discriminação racial alija em suas discussões os nossos irmãos e irmãs. É também concreto afirmar que se tornará necessário que comecemos a construir novos olhares, em busca de uma nova teologia inclusiva para todas as pretas e pretos, baseada no amor e respeito das diversidades que possuem o nosso povo, sem nos distanciar dos ensinamentos de YAHoshua , o Messias.
A questão de milhões de irmãos e irmãs que são discriminados pela sexualidade, obviamente deve ser uma preocupação no processo libertário e reconciliador da teologia preta. Notamos que a omissão e a hipocrisia são caminhos da violência e da intolerância, e a religião tem se tornado porta-voz de perseguição. A teologia preta deve ser a porta-voz de todos os que estão sem voz, sem nenhuma exceção. Os teólogos e teólogas pretas têm que ouvir, entender e proclamar o amor de YAHoshua : inclusivo e reconciliador. Há práticas de permissividade eclesiástica para hipócritas, racistas, homofóbicos, caluniadores, dissimuladores, egocêntricos, capitalistas, machistas, e todos mentirosos que abrem as suas bocas e se colocam como embaixadores de “verdades” e “moralismos”, que não passam de sepulcros caiados, podres por dentro, alvos diretos dos questionamentos e repreensões de  YAHoshua na sua vivência terrena.
Na concepção judaico-cristã qualquer relação sexual que não seja procriativa é pecado. O sexo é considerado permissivo e a homossexualidade é demonizada e execrada pelos defensores do puritanismo, que não raras vezes, praticam os atos censurados por si mesmos.
Pretas e pretos cristãos GLBTT nos perguntam: Qual o direito que temos de excluir a nossa irmã ou o nosso irmão do convívio religioso por causa da sua orientação sexual? Somos todos nós filhos e filhas de um mesmo Deus que não é do gênero masculino e nem do gênero feminino. Deus é Deus.
Segundo a concepção de pretas e pretos cristãos heterossexuais: Temos que pregar o amor a todos os homens e mulheres. Conseqüentemente com a conversão aYAHoshua , há uma transformação na vida, uma mudança de conduta, aumento da espiritualidade e comunhão, entretanto a homossexualidade é considerada pecado, impedindo a plena realização da Graça de Deus no ser humano.
Há duas posições defendidas entre os diversos grupos cristãos pretos protestantes sobre a questão da homossexualidade:

1- OS QUE DEFENDEM A INCLUSÃO DOS HOMOSSEXUAIS NAS IGREJAS
Herndon Davis, homossexual, filho de um pastor Batista, empresário bem sucedido, apresentador de televisão, conta que foi vítima de um sermão homofóbico na sua Igreja na cidade Atlanta quando estava com dois amigos gays e teve medo de ser linchado, levando-o a forte depressão, que durou até que o YAH  lhe revelou, conforme o próprio afirma:
- "O Senhor falou para mim não só para escrever sobre a experiência, mas também para combater a homofobia”. E conclui dizendo:
- “O meu conhecimento e da educação teológica prova que não há condenação contra a homossexualidade, mas, há erro e má interpretação baseada em diferenças de língua, cultura e história”.Nas suas pregações ele aconselha como gays devem lidar com o conflito entre a sua fé religiosa e orientação sexual; e que recebeu de Deus a missão de escrever o livro Black, Gay & Christian: An inspirational Guidebook to Daily Living, que tem com objetivo ajudar às lésbicas e aos homossexuais enfrentarem a discriminação nas igrejas e na sociedade. Conforme o autor declara, este livro é cheio de espiritualidade.
Em sua opinião as pessoas devem professar o perdão, ler a escrituras, porque elas dão sabedoria e inspiração nas situações difíceis para entender que atrás das palavras sagradas está o Espírito de Deus.
Leia mais:
http://www.afterelton.com/archive/elton/TV/2005/7/herndondavis.html

2- OS QUE CONSIDERAM A HOMOSSEXUALIDADE PECADO.
Charlene E. Cothran, uma proeminente activista homossexual e chefe de redacção da publicação “homossexualidade de negros” da revista “Venus Magazine,” anunciou recentemente que abraçou o Cristianismo e renunciou à homossexualidade.
O anúncio de Charlene veio em forma de artigo de primeira página na edição de Fevereiro da revista “Venus”, intitulado “Redimida: 10 Formas Para se Sair da Vida Gay, Se Quiseres Sair”. A revista outrora considerada por muitos como revista líder dos homossexuais Afro-Americanos, mudou de direcção.“Nos passados 29 anos da minha vida eu fui criadora e apoiante estratégica agressiva das questões de gays e lésbicas,” escreveu Charlene: “Organizei e participei em inúmeras marchas e vários lobbies na luta pelo tratamento igual para gays e lésbicas”.
A entrega de Charlene a Cristo levou-a a ver o seu lesbianismo sob uma nova luz.“Como uma crente na Palavra de Deus, aceito completamente que as relações com o mesmo sexo não são o que Deus concebeu para nós”, escreveu ela.
“Jesus limpará e perdoará a confissão, de todos os pecados, que provém de um coração voluntarioso e sincero”, declarou Charlene. “A homossexualidade é apenas um deles. Não há nenhum pecado maior que outro; é tudo pecado.”Leia mais: http://www.venusmagazine.org/cover_story.html e
http://pwp.netcabo.pt/iqc/lesbica.htm

Não há mais como esconder e nem negar o sofrimento que passam irmãs e irmãos pretos por causa da sua sexualidade, e da não permissão de comunhão de fé e adoração, por conta dos estigmas e preconceitos que nos afastam do amor, da resignificação harmoniosa de encontro fraterno na nossa comunidade, do vivenciar pleno da espiritualidade e da procura da felicidade individual e coletiva. O nosso vocabulário para a palavra felicidade foi esquecida e transformada na palavra dor e exclusão.
Devido o caráter polêmico da questão, o apresentador Herndon Davis está correto em afirmar que há interpretação errônea das escrituras? Ou Charlene E. Cothran está correta em afirmar que a homossexualidade é pecado e é necessário uma mudança de vida? Deixamos com voces irmãos e irmãs a reflexão sobre o tema. E dentro desse posicionamento, como construir uma Teologia Preta Libertadora e inclusiva, baseada no amor e respeito das diversidades que possuem o nosso povo, sem nos distanciar dos ensinamentos de Yeshua, o Messias?

I CORÍNTIOS 13
1 Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine.
2 E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.
3 E ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
4 O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se ensoberbece,
5 não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal;
6 não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade;
7 tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
8 O amor jamais acaba; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;
9 porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos;
10 mas, quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado.
11 Quando eu era menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
12 Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido.
13 Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, o amor, estes três; mas o maior destes é o amor.


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