sexta-feira, 13 de junho de 2008

HOMOSSEXUALIDADE E A TEOLOGIA PRETA


                                                                                                         Walter Passos - Historiador
Skype: lindoebano
 Facebook: Walter Passos

Há alguns aspectos que precisam ser pontuados e discutidos na formulação de uma teologia preta libertadora. A princípio deve-se ressaltar que teologia é o estudo das relações humanas de fé e seu imaginário-real de adoração dos grupos sociais a Deus, sendo assim, a construção de uma teologia inclusiva e libertadora para o povo preto e seus diversos segmentos deve contemplar essas relações humanas de fé e adoração.
Uma das grandes questões não ainda discutidas dentro dos grupos de cristãos pretos é a homossexualidade. Em verdade, o que é ser preto homossexual e cristão? Quais são as nossas concepções acerca da homoafetividade? Quais são as respostas que os grupos cristãos pretos podem dar a pretos cristãos homossexuais? O que nos tem a dizer os homossexuais pretos sobre os seus sofrimentos? Quais são as indagações e posicionamentos que os pretos e pretas homossexuais têm aos grupos pretos cristãos? Como se portar em um processo de discriminação racial nos enfrentamentos da sexualidade do povo preto em suas diversidades?
De certo, é impossível se discutir uma ação libertadora e inclusiva para toda a comunidade preta omitindo que a prática da homofobia é real dentro das igrejas brasileiras. Impossível não constatar que a lacuna do combate à discriminação racial alija em suas discussões os nossos irmãos e irmãs. É também concreto afirmar que se tornará necessário que comecemos a construir novos olhares, em busca de uma nova teologia inclusiva para todas as pretas e pretos, baseada no amor e respeito das diversidades que possuem o nosso povo, sem nos distanciar dos ensinamentos de YAHoshua , o Messias.
A questão de milhões de irmãos e irmãs que são discriminados pela sexualidade, obviamente deve ser uma preocupação no processo libertário e reconciliador da teologia preta. Notamos que a omissão e a hipocrisia são caminhos da violência e da intolerância, e a religião tem se tornado porta-voz de perseguição. A teologia preta deve ser a porta-voz de todos os que estão sem voz, sem nenhuma exceção. Os teólogos e teólogas pretas têm que ouvir, entender e proclamar o amor de YAHoshua : inclusivo e reconciliador. Há práticas de permissividade eclesiástica para hipócritas, racistas, homofóbicos, caluniadores, dissimuladores, egocêntricos, capitalistas, machistas, e todos mentirosos que abrem as suas bocas e se colocam como embaixadores de “verdades” e “moralismos”, que não passam de sepulcros caiados, podres por dentro, alvos diretos dos questionamentos e repreensões de  YAHoshua na sua vivência terrena.
Na concepção judaico-cristã qualquer relação sexual que não seja procriativa é pecado. O sexo é considerado permissivo e a homossexualidade é demonizada e execrada pelos defensores do puritanismo, que não raras vezes, praticam os atos censurados por si mesmos.
Pretas e pretos cristãos GLBTT nos perguntam: Qual o direito que temos de excluir a nossa irmã ou o nosso irmão do convívio religioso por causa da sua orientação sexual? Somos todos nós filhos e filhas de um mesmo Deus que não é do gênero masculino e nem do gênero feminino. Deus é Deus.
Segundo a concepção de pretas e pretos cristãos heterossexuais: Temos que pregar o amor a todos os homens e mulheres. Conseqüentemente com a conversão aYAHoshua , há uma transformação na vida, uma mudança de conduta, aumento da espiritualidade e comunhão, entretanto a homossexualidade é considerada pecado, impedindo a plena realização da Graça de Deus no ser humano.
Há duas posições defendidas entre os diversos grupos cristãos pretos protestantes sobre a questão da homossexualidade:

1- OS QUE DEFENDEM A INCLUSÃO DOS HOMOSSEXUAIS NAS IGREJAS
Herndon Davis, homossexual, filho de um pastor Batista, empresário bem sucedido, apresentador de televisão, conta que foi vítima de um sermão homofóbico na sua Igreja na cidade Atlanta quando estava com dois amigos gays e teve medo de ser linchado, levando-o a forte depressão, que durou até que o YAH  lhe revelou, conforme o próprio afirma:
- "O Senhor falou para mim não só para escrever sobre a experiência, mas também para combater a homofobia”. E conclui dizendo:
- “O meu conhecimento e da educação teológica prova que não há condenação contra a homossexualidade, mas, há erro e má interpretação baseada em diferenças de língua, cultura e história”.Nas suas pregações ele aconselha como gays devem lidar com o conflito entre a sua fé religiosa e orientação sexual; e que recebeu de Deus a missão de escrever o livro Black, Gay & Christian: An inspirational Guidebook to Daily Living, que tem com objetivo ajudar às lésbicas e aos homossexuais enfrentarem a discriminação nas igrejas e na sociedade. Conforme o autor declara, este livro é cheio de espiritualidade.
Em sua opinião as pessoas devem professar o perdão, ler a escrituras, porque elas dão sabedoria e inspiração nas situações difíceis para entender que atrás das palavras sagradas está o Espírito de Deus.
Leia mais:
http://www.afterelton.com/archive/elton/TV/2005/7/herndondavis.html

2- OS QUE CONSIDERAM A HOMOSSEXUALIDADE PECADO.
Charlene E. Cothran, uma proeminente activista homossexual e chefe de redacção da publicação “homossexualidade de negros” da revista “Venus Magazine,” anunciou recentemente que abraçou o Cristianismo e renunciou à homossexualidade.
O anúncio de Charlene veio em forma de artigo de primeira página na edição de Fevereiro da revista “Venus”, intitulado “Redimida: 10 Formas Para se Sair da Vida Gay, Se Quiseres Sair”. A revista outrora considerada por muitos como revista líder dos homossexuais Afro-Americanos, mudou de direcção.“Nos passados 29 anos da minha vida eu fui criadora e apoiante estratégica agressiva das questões de gays e lésbicas,” escreveu Charlene: “Organizei e participei em inúmeras marchas e vários lobbies na luta pelo tratamento igual para gays e lésbicas”.
A entrega de Charlene a Cristo levou-a a ver o seu lesbianismo sob uma nova luz.“Como uma crente na Palavra de Deus, aceito completamente que as relações com o mesmo sexo não são o que Deus concebeu para nós”, escreveu ela.
“Jesus limpará e perdoará a confissão, de todos os pecados, que provém de um coração voluntarioso e sincero”, declarou Charlene. “A homossexualidade é apenas um deles. Não há nenhum pecado maior que outro; é tudo pecado.”Leia mais: http://www.venusmagazine.org/cover_story.html e
http://pwp.netcabo.pt/iqc/lesbica.htm

Não há mais como esconder e nem negar o sofrimento que passam irmãs e irmãos pretos por causa da sua sexualidade, e da não permissão de comunhão de fé e adoração, por conta dos estigmas e preconceitos que nos afastam do amor, da resignificação harmoniosa de encontro fraterno na nossa comunidade, do vivenciar pleno da espiritualidade e da procura da felicidade individual e coletiva. O nosso vocabulário para a palavra felicidade foi esquecida e transformada na palavra dor e exclusão.
Devido o caráter polêmico da questão, o apresentador Herndon Davis está correto em afirmar que há interpretação errônea das escrituras? Ou Charlene E. Cothran está correta em afirmar que a homossexualidade é pecado e é necessário uma mudança de vida? Deixamos com voces irmãos e irmãs a reflexão sobre o tema. E dentro desse posicionamento, como construir uma Teologia Preta Libertadora e inclusiva, baseada no amor e respeito das diversidades que possuem o nosso povo, sem nos distanciar dos ensinamentos de Yeshua, o Messias?

I CORÍNTIOS 13
1 Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine.
2 E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.
3 E ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
4 O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se ensoberbece,
5 não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal;
6 não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade;
7 tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
8 O amor jamais acaba; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;
9 porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos;
10 mas, quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado.
11 Quando eu era menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
12 Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido.
13 Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, o amor, estes três; mas o maior destes é o amor.


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segunda-feira, 9 de junho de 2008

INTOLERÂNCIA A DEUSES E DEUSAS PRETAS

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br


Há todo o momento o povo preto é agredido de diversas formas e maneiras por manter o referencial africano nas religiões - Umbanda, Candomblé, Catolicismo, Cristianismo de Matriz Africana - em conseqüência diversas retaliações são empregadas, como a iconoclastia (destruição de imagens), invasão de locais de culto em uma cruzada religiosa contra o povo preto, além de mudanças exegéticas e hermenêuticas para o branqueamento de civilizações e personagens nos livros religiosos. Não possuo sentimentos de raiva e nem de ódio, porque entendo haver um planejamento para o desconhecimento da história das civilizações primitivas, civilizações africanas, sendo assim, nem raiva e o ódio são sentimentos que devem ser cultivados, mas, cultivado deve ser a preocupação da continuidade de difusão de mentiras.
Caminho para tal entendimento é o afrocentrismo e a prática do panafricanismo, ambos, podem reverter esse processo no nosso povo. Sendo nós a maioria da população, ainda assim, usados como ponta-de-lança e testa-de-ferro nos ataques de um engendramento racista bem aprimorado, percebemos que o ocorrido é um aprisionamento da consciência, tornado-se necessários métodos educacionais e empenho panafricanista de solidariedade entre o povo preto, para mudar essa realidade e libertar os prisioneiros mentais do racismo e das mentiras caucasianas.
Devemos ressaltar que as mudanças foram progressivas e são sistemáticas na destruição da verdade histórica. Imagine que desde a escravidão o povo preto foi obrigado a assimilar imagens européias, mutilação das deidades pretas. Todos os deuses e todas as deusas das civilizações antigas foram pretos, inclusive nas primeiras civilizações caucasianas, as quais imagens e mitologia retratam os primeiros habitantes do planeta: a civilização preta. As deidades do mundo antigo, inclusive das bem recentes civilizações caucasianas Grécia e Roma, foram pretas: Júpiter, Baco, Hercules, Apolo, Vênus, Hécate, Diana, Juno, Métis e outras. Sabemos inclusive que Dionísio foi Osíris reinventado.
E-mails são enviados por pessoas pretas protestantes que ficam histéricas com os posicionamentos do CNNC, ao afirmar a pretitude de Yeshua, não aceitam porque aprenderam a adorar Deus com uma concepção européia. Nós do CNNC não inventamos um Deus Preto.
Os relatos do Primeiro Testamento retratam sacerdotes que adoravam Deus na sua essência de pretitude.
Nee 9:7 - Tu és o Senhor, o Deus, que elegeste a Abrão, e o tiraste de Ur dos caldeus, e lhe puseste por nome Abraão.
Há alguma dúvida entre as leitoras e leitores que os Caldeus foram homens pretos?
Gen 14:18 -E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo.
Melquisedeque foi um homem preto, provavelmente da Etiópia e um dos primeiros sacerdotes do Eterno.
Gen 41:45 - E Faraó chamou a José de Zafenate-Panéia, e deu-lhe por mulher a Azenate, filha de Potífera, sacerdote de Om; e saiu José por toda a terra do Egito. O sacerdote de Om. Om significa "luz" ou o "sol". A cidade de Om era o centro da adoração ao sol no Egito. Os egípcios adoravam deuses e deusas pretas, deuses que demonstravam sua imagem de pessoas pretas, José casou-se, dessa forma, com uma mulher preta, sendo ele também um homem preto.
Exo 3:1 - E apascentava Moisés o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote em Midiã; e levou o rebanho atrás do deserto, e chegou ao monte de Deus, a Horebe.
Tanto assim que Jetro, um homem preto era um sacerdote de Javé, bem antes dos hebreus voltarem a conhecê-lo.
Todos os relatos do Primeiro Testamento são de civilizações pretas afro-asiáticas adorando deuses e deusas pretas.
Pretas foram as primeiras civilizações do planeta e retrataram-se em imagens pretas, pois não havia branco no planeta. Quais foram os profetas e fundadores das religiões antigas de origem caucasiana? Não há algum, significando que todas as grandes religiões do planeta com os seus erros e acertos foram criadas pelas civilizações pretas. Como que os europeus que surgiram há pouco tempo tentam modificar a verdade histórica, inventaram a bruxaria nas regiões geladas podem maquiar as divindades africanas ancestrais com a sua imagem e semelhança, através do poder das armas e da ideologia.
As provas surgem a todo o momento do aparecimento da civilização caucasiana que para muitos cientistas foi uma mutação dos primeiros habitantes do planeta terra, os seres originais: O povo preto.

NOSSA SENHORA APARECIDA

A imagem de Aparecida foi atacada duas vezes: a primeira em 16 de maio de 1978, por um jovem protestante que atirou uma pedra destrindo-a dentro da basílica, e outra, quando milhões de telespectadores viram quando um bispo branco da Igreja Universal, chutou em um programa de televisão, uma réplica da imagem.

Confira o Bispo Chutando a Imagem:

Há dezenas de relatos na internet sobre pessoas que questionam a imagem preta de Aparecida e relatos de católicos que, após discriminarem a imagem por sua cor, dizem agraciados e se arrependem. Evidente que esses fatos levam a três questões: a iconoclastia e o racismo da sociedade cristã branca brasileira e o desconhecimento das primeiras sociedades do planeta que criaram imagens de deuses e deusas pretos, porque foram os primeiros a habitar o planeta e conhecerem Deus antes do surgimento da civilização branca, uma mutação dos homens e mulheres originais. O conhecimento dessa mutação faz com que as imagens pretas sejam atacadas e destruídas. Conforme relatos de jornais: “A imagem de nossa Senhora Aparecida está protegida por dois seguranças e assim mesmo um protestante atirou uma lata na imagem”.
Por que tanto ódio à imagem de Nossa Senhora Aparecida?
Segundo está escrito no Livro Teologia Negra: A Revelação:
"Os fundamentalistas que a todo o momento, tentam descobrir o ANTICRISTO e a Besta Apocalíptica a identificam como preta a deusa citada no livro de Jeremias 7:18 – Os filhos recolhem lenhas, os pais acendem o fogo e as mulheres preparam a massa para fazer broas em honra a Rainha dos céus. E em Jeremias 44:17 – Antes certamente cumpriremos toda a palavra que saiu da nossa boca, queimando incenso a Rainha dos céus.
Essa adoração a Rainha dos Céus era praticada em todas as sociedades do mundo antigo e as representações dessas deusas foram de mulheres pretas: Athor, no Egito, Virgem Depaira na China e no Tibete, Hestia na Grécia, Juno em Roma, entre outras. Fato esse normal porque as civilizações pretas foram às primeiras que surgiram e se desenvolveram no planeta."
“Por milhares de anos as mulheres pretas foram adoradas na África em todo o mundo.”

Isis -Deusa Preta do Egito

Enquanto Aparecida é uma imagem preta, há inúmeros questionamentos sobre a etnicidade de Maria, dentro do próprio catolicismo e protestantismo brasileiro. Não é simplesmente o fato de a iconoclastia ser praticada pelos protestantes, pois eles não são iconoclastas em suas revistas e outras produções literárias que só representam a Maria Branca e Yeshua Branco.

Capa da revista dos adventistas usada no 2º trimestre de 2008

A Igreja Católica Romana com a sua diversidade cultural é "mais aberta" e bem mais próxima das vertentes históricas, juntamente com as Igrejas Ortodoxas, possuem documentações do cristianismo primitivo, sendo detentoras de documentação icnográfica do cristianismo inicial, onde se constata que as imagens de Maria são todas pretas.

A Madona Preta do Nekromanteion- Grécia

Virgem Preta - Notre Dame - Dijon

As igrejas protestantes surgiram após os movimentos reformadores do séc. XVI na Europa, com uma visão capitalista e discriminatória. O Pentecostalismo clássico e o neopentecostalismo se originaram de pessoas oriundas do protestantismo histórico.
Aparecida é uma representação histórica real da cor epitelial de Maria e se torna vítima de ações depreciativas e racistas na sociedade brasileira. Esses ataques são feitos atualmente em grande parte na nova vertente protestante, conhecida como neopentecostalismo, e por outros grupos dos protestantes históricos e do pentecostalismo clássico, que na sua maioria são de descendentes de africanos, e por mais paradoxal que seja são os primeiros a negar a etnicidade de Maria.
A mulher preta no Brasil sempre foi um ícone de serviços e bênçãos: como mãe preta na casa grande e ama-de-leite amamentando forçadamente os filhos de senhores, como Anastácia, mulher guerreira e quilombola, lutando pela liberdade.
E a presença de Maria na vida brasileira é apenas um exemplo de representação das madonas pretas. Na Espanha são mais de cinqüenta, na França trinta e duas, Na Itália trinta, e dezenove foram encontradas na Alemanha.
No meio protestante brasileiro seja ele histórico, pentecostal clássico ou neopentecostal, o nome de Maria não é lembrado. Fruto do anticatolicismo inicial dos primeiros missionários sulistas norte-americanos. Hoje, na intolerância religiosa os antigos perseguidos se tornaram perseguidores e criadores da inquisição protestante no Brasil, que é fundamentada na discriminação religiosa e racial, e Maria se tornou à representatividade do mal, vista como satânica, bestial, anticristã e símbolo do início da chamada grande tribulação.
Juntamente com essas concepções protestantes, uma parcela da sociedade brasileira, imbuída ainda de práticas discriminatórias e, outra parte africana presente em todas as correntes do protestantismo, sem bases históricas das populações afro-asiáticas da época na qual viveu Maria, não aceitam que a Padroeira do Brasil seja uma mulher preta.
A imagem de Aparecida é uma das comprovações do afrocentrismo que todas as imagens das divindades foram de homens e mulheres pretas.

domingo, 1 de junho de 2008

PASTORES ACUSAM CRIANÇAS DE BRUXARIA NA NIGÉRIA


Por Walter Passos.

Teólogo, Historiador, Pan-africanista e Afrocentrista.
Pseudônimo: Kefing Foluke.
E-mail:
walterpassos21@yahoo.com.br
Facebook: Walter Passos

Diversos Blogs em muitos países divulgaram a situação de algumas igrejas e seus pastores na Nigéria que acusam crianças de bruxarias. Sem olhar mais acurado, de certo preconceituoso, usa-se a mídia como arma psicológica para agredir o povo preto, perpassando mais uma vez a ideologia caucasiana de que tudo na África é demoníaco.
Ao entendimento desse fenômeno étnico-social e religioso, é imprescindível conhecermos a Nigéria.

NIGÉRIA
A Nigéria está localizada no centro-oeste da África com uma área: 923.768 km2. E Total: 148.000.000 milhões, sendo grupos étnicos autóctones 94,5% (principais: hauçás 23%, fulanis 22%, iorubas 21%, ibos 18%, tives 3%, ijos 6%, buras 1,5%), outros 5,5%%.
É o país mais populoso da África e um dos mais ricos do continente africano. Numericamente, ultrapassa a população total estimada de todos os países do Oeste Africano. Cerca de metade da população nigeriana afirma seguir a fé cristã.
Nesta região floresceram diversas civilizações, entre elas, a civilização de Nok que vivia no Vale do Rio Níger, surgida entre 700 a.C e desaparecida no ano 200 d C, possuíam um sistema social bem avançado e conhecimento do ferro e da fundição. As primeiras descobertas dessa importante civilização ocorreram em 1928 em uma mineração de estanho.
Escultura da Civilização de Nok
Desenvolveram-se na região poderosos impérios em Ife, Oyo, e Benin. Destes, o reino de Oyo se tornou o mais dominante, mantendo o seu poder até o final do século XIX.

CRISTIANISMO NA NIGÉRIA
O cristianismo já existia na região desde o século IV através do grande teólogo africano e preto Agostinho. Os primeiros contatos dos cristãos caucasianos na Nigéria ocorreram no século XV, com a introdução do cristianismo católico pelos portugueses. No entanto, foi praticamente extinto durante os anos seguintes, no século XIX foram enviado cerca de 200 missionários católicos romanos. Desde então, a Igreja Católica tem crescido e agora afirma aproximadamente ter 19 milhões de membros e seguidores, principalmente no sudeste.
Os primeiros missionários protestantes foram metodistas weslyanos. Eles começaram a trabalhar no sudoeste entre os Yoruba, em 1842. Outros grupos protestantes seguiram: Igreja Missionária Society (evangélico anglicano), United Free Church of Scotland, e os batistas do sul. Ao longo dos últimos 100 anos, várias outras missões já entraram Nigéria: Onde Iboe Missão (agora conhecida como Missão África), Sudão Unido Missão (incorporando tais grupos como os britânicos e Sul Africano interdenominacional sucursais, bem como o CRC, Países Baixos Igreja Reformada, a Igreja Reformada holandesa Sul Africana, os Metodistas Unidos e da luterana dinamarquêsa, Synodical Conferência das Igrejas Luterana, Exército de Salvação, Assembléias de Deus, e da Igreja Menonita da América do Norte. Quase todas estas missões têm plantado grandes igrejas. Por exemplo, a Igreja Anglicana da Nigéria agrupa mais de 11 milhões de membros e seguidores.
As igrejas protestantes na Nigéria possuem diversos centros universitários, sendo considerados entre os melhores do país, entre eles podemos destacar o pertencente à Convenção Batista Nigeriana.
http://www.bowenuniversity-edu.org/

PENTECOSTALISMO E CARISMÁTICOS NA NIGÉRIA
A maior parcela religiosa nigeriana está dividida entre mulçumanos e cristãos, agrupando assim, uma minoria seguidora de outras religiões. Evidente que na Nigéria como no Brasil, as religiões que cultuam os orixás possuem minoria de adeptos, pela perseguição e falta de respeito decorrente da colonização caucasiana, e no país africano, especificamente, também em conseqüência da invasão islâmica na região.
O crescimento do cristianismo e do islã na Nigéria acarreta problemas seriíssimos na administração do país, pela luta do poder político. Nos últimos censos realizados viu-se que de dez nigerianos, três são pentecostais e carismáticos. De dez protestantes, seis são pentecostais e carismáticos, e entre dez católicos, três são carismáticos. Conclui-se assim que cerca de um terço da Nigéria é pentecostal-carismatica, terceiro país do planeta em número de membros carismáticos e pentecostais, só sendo superado pelo Brasil e pelos Estados Unidos da América.
“Todo domingo, centenas de milhares de fiéis em Lagos se dirigem às inúmeras igrejas da cidade para vivenciar a experiência do pentecostalismo e sentir o espírito divino. Nas vias de saída da cidade, na direção de Ibadan, foram construídas verdadeiras catedrais com capacidade para 10 mil pessoas. Na entrada estão escritos dizeres como "Montanha do fogo e do milagre", "Embaixada Christi" ou "Campo da redenção". Essa rodovia da religião, a "Auto-estrada de Deus", já se tornou um símbolo do êxito das igrejas carismáticas na África.
Um dos grandes culpados pela demonização do povo nigeriano é o alemão Reinhard Bonnke, de Frankfurt. http://www.cfan.org/
O jornal alemão Die Zeit o caracteriza como "um dos mais bem sucedidos missionários do nosso tempo".
Uma dessas evangelizações em massa foi visitada por 1,6 milhão de pessoas em Lagos, e em Oshogbo, também na Nigéria, um mega-evento deste tipo, em fevereiro de 2007, foi transmitido pela God TV para 200 países.
Esteve no ano pasado na Igreja batista de Lagoinha:
- ”Ele afirmou: “Go forward” (siga a diante, vá em frente). Suas palavras serviram de encorajamento para que a Igreja brasileira possa “seguir em frente” e lembrar que quem está a frente da batalha é o Senhor dos Exércitos. Disse ainda que quem entrar na frente do Senhor quando ele estiver realizando seus propósitos, será fulminado”.

BISHOP OYEDEPO'S SLAP AND ARROGANCE!





CRIANÇAS E ACUSAÇÃO DE BRUXARIA
A influência de pastores caucasianos nos últimos anos tem deformado ainda mais o Evangelho do Reino, e pastores pretos tentando enriquecer copiam as suas táticas de demonização.
Alguns pastores de igrejas evangélicas pentecostais e carismáticas na Nigéria estão acusando crianças de serem bruxas, levando ao abuso e as crueldades indescritíveis a crianças inocentes. Elas estão sendo abandonadas pelos pais para morrerem, isso quando não são mortas, espancadas, queimadas, envenenadas, enterradas vivas, amarradas a árvores, entre outras crueldades. Estima-se que cerca de 5.000 crianças foram abandonadas desde 1998, e que de cada cinco crianças abandonadas, uma acaba morrendo, e as que sobrevivem ficam em estado de choque. Os pastores fazem parte das igrejas evangélicas "Assembléia do Novo Testamento", "Igreja de Deus das Missões", "Evangelho Monte Sião", "Glória de Deus", "Irmandade da Cruz", "Liberdade do Evangelho", entre muitas outras. São os pastores que dizem que as crianças estão enfeitiçadas, prometem fazer um exorcismo para curar as bruxas mediante pagamento, que podem custar 03 a 04 meses de trabalho. Com a grande maioria das pessoas não podem pagar, elas abandonam as crianças, ou utilizam outros métodos para tentar "curá-las". Esse é o link da notícia, em inglês: http://www.guardian.co.uk/world/2007/dec/09/tracymcveigh.theobserver
O Pastor Ita da Igreja do Evangelho Libertador, com cerca de 60 igrejas no Delta do Níger, possuidor de um novo e brilhante Audi, em seu terno e gravata, afirma:
"Nós baseamos a nossa fé na Bíblia, somos conduzido pelo Espírito Santo e nós temos um programa para expor a falsa religião e a magia.” O pastor nega cobrança de exorcismos, mas reconhece que sua congregação é pobre e tem que trabalhar duro para cumprir com as contas e vive das doações. Também pacientemente ele explica a condição das crianças bruxas:
"Dar mais do que você pode pagar é benção. Nós somos os únicos que realmente conhecemos os segredos das bruxas. Os pais não vêm aqui com a intenção de abandonar os seus filhos, mas quando uma criança é uma bruxa, então você tem a dizer "o que é que há? “Não é o seu filho.” Os pais vêm até nós quando vêem manifestações. Mas o segredo é a de que, mesmo se você abandonar o seu filho, ainda é a maldição sobre você, mesmo se você matar o seu filho a maldição não acaba. Então você tem que vir aqui para curá-lo e recebê-lo bem.”
O Pastor ainda acusa as crianças de colocar feitiço sobre a sua mãe e provocar nela câncer de mama, e também de espalhar o vírus HIV.


CONCLUSÃO
"Para as Igrejas pentecostais, doar dinheiro e receber a proteção divina como recompensa é um negócio normal. Quem não tem sucesso em vida é culpado por sua desgraça. Por isso, pastores e fundadores de Igrejas são considerados os melhores por terem conquistado grandes riquezas com o próprio esforço."
http://www.dw-world.de/dw/article/0,2144,2782509,00.html
No Brasil, a bruxaria, a demonização de culturas e exorcismo estão ligados também a grupos recentes saídos do protestantismo, da Renovação Carismática Católica, sendo mais conhecida a Igreja Universal do Reino de Deus, Grupos do G 12, Diante do Trono e similares.
A Nigéria berço de grandes civilizações africanas e com problemas imensos de distribuição de renda, apesar de grande potencialidade industrial e detentora de riquezas minerais como o petróleo, se tornou alvo predileto pelo grande contingente populacional, por ter a metade da população seguidora do islã, para um palco de interesses políticos internacionais para as chamadas cruzadas evangelísticas, onde os caucasianos e a globalização de métodos discriminatórios atacam culturas milenares africanas e demonizam o povo preto, além do mais, propagam a idéia do evangelho capitalista, através da teologia da prosperidade e explora a bela nação nigeriana, terra de uma grande parcela dos nossos ancestrais.

domingo, 25 de maio de 2008

DIANTE DO TRONO: AOS OLHOS DO PAI, A CRIANÇA PRETA NÃO ESTÁ NOS SONHOS DE DEUS?

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br


“ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.” (Pv. 22:6).

A imagem da criança preta na história infantil e nos livros didáticos brasileiros sempre foi de estigmatização e preconceitos. Nos renomados literários brasileiros a criança preta é vítima das mais horrendas violências, já há algum tempo, contestadas por estudiosas (os) pretas (as), a exemplo de Ana Célia no livro: “A discriminação do negro no livro didático” e outras pesquisadoras (es) ligados a nossa comunidade. Necessário é afirmar que a resposta aos ataques e introjeções discriminatórias ao povo preto só pode ser dada corretamente pelo povo preto. As doenças provenientes da escravidão só nós, povo preto, temos a cura. Não podemos acreditar que os que fizeram nosso povo adoecer possam tê-la.
No que tange a educação religiosa protestante a situação é mais grave porque influencia o inconsciente e cria adultos traumatizados que perfazem um futuro de medo e culpabilidade por todo um processo de branquitude vivencial das igrejas protestantes brasileiras.
O trabalho contestatório ainda não surgiu de forma abrangente, nos faltam educadores (as) pretos que vivenciem a realidade eclesiástica e suas aberrações discriminatórias, sendo estes comprometidos na formação de uma pedagogia preta libertadora.
A luta do CNNC como a única organização cristã afrocentrista, panafricanista e defensora do cristianismo de matriz africana, tem ocorrido em diversas frentes, a priori contra a omissão do protestantismo e a propagação de ideologias que atingem diretamente as crianças pretas nas igrejas protestantes, uma das primeiras denúncias foi escrita pela irmã Aidan: O RACISMO NA ESCOLA BÍBLICA DOMINICAL.

Na concepção protestante no Brasil, as representações bíblicas são baseadas na branquitude de uma forma tão sagaz que inclusive o leitor (a) neste momento pode refletir acerca do que vou pedir, respondendo as seguintes perguntas:
O que é um animal sem mancha? Qual era a cor de um animal para o sacrifício em Israel?
O que veio a sua mente? Obviamente pensou em um animal de cor branca. Porque tu estais dominado pela branquitude. A cor branca representando a pureza é ensinada para as nossas crianças. Ser branco é ser puro?
Um dos maiores grupos gospel no Brasil é o DIANTE DO TRONO, que já lançou 10 álbuns, tem mais de seis milhões de cópias vendidas, milhões de admiradores, chegando a ter no Orkut uma comunidade de mais de 300 mil pessoas, atualmente deletada.Já reuniu mais de 2.000.000 de pessoas em uma única apresentação, se apresentando por todo o Brasil, em Israel, Estados Unidos, Alemanha, Rússia, Inglaterra, Japão, etc. Com seu poder de comunicação encanta uma grande parcela da população preta protestante, não detentora da profundidade do discurso de racialização pregado por este grupo, ao afirmar em seus shows que as civilizações africanas e indígenas são demoníacas, e nós povo preto sofremos da maldição hereditária advinda dos nossos ancestrais, tema esse já postado nesse blogger: A MALDIÇÃO DE CAM – MENTIRAS PARA ESCRAVIZAR E EXPLORAR O POVO PRETO e BATALHA ESPIRITUAL – AS CRIANÇAS BRUXOS DO CONGO
Trabalhos realizados por este grupo tem se destacado especialmente voltado para as crianças no site: http://www.criancasdt.com.br/ e na comunidade do Orkut : “Crianças diante do trono”, com 54.445 membros, cujo apresentação é: “ dê produto cdt para os seus filhos, sobrinhos, alunos netos lembre-se quando ele for velho ele estará no caminho do senhor.semeie no coração das crianças.”


Crianças Diante Do Trono (54.545 membros)


Pesquisando detalhadamente as personagens Mico, Tonico, Bia, Ed, Bolota e Vareta, criadas pela equipe de divulgação infantil do Diante do Trono, notamos que nenhuma delas representa a comunidade preta e além do mais a idéia de pureza é representada pela brancura, observamos que ao se referirem ao cordeiro da Páscoa, há uma representação de um animal de pêlo branco, puro e sem defeito, enquanto os outros cordeiros são considerados defeituosos, por não serem brancos. O defeito do cordeiro não era a cor do seu pêlo. Esta representação semeia como o ideário da cor branca é introjetado na população preta protestante, como o belo e perfeito. Será esse um dos motivos que a maioria dos pastores pretos tenham ao seu lado a “perfeição”, a “beleza”, a “pureza”: a mulher branca?

Tenho conversado com diversas irmãs e irmãos pretos que almejam serem transformados após a ressurreição em pessoas brancas e loiras, quando conseguirem um novo corpo na Nova Jerusalém. Isso é muito sério: crianças, adultos e idosos almejando se tornarem brancos na nova vida. Quais são as causas que levam a esse desejo? O processo na igreja protestante brasileira é de mudanças estruturais no ser preto; um processo de auto-rejeição é ensinado e assimilado. A exemplo, lembro-me na infância de mulheres pretas cantando na Igreja Presbiteriana o hino Bendito Seja o Cordeiro, que em seu refrão, declara o desejo das pessoas pretas em tornar-se brancas:
Alvo mais que a neve,
Alvo mais que a neve!
Sim, nesse sangue lavado,
Mais alvo que a neve serei.
Importante também ressaltar, que ainda hoje o hino citado acima continua a ser cantado em todas as Igrejas Protestantes no Brasil por milhões de descendentes de africanos.
No site infantil do Diante do Trono é ensinado: “Jesus é como aquele cordeiro da Páscoa dos hebreus”. Menção expressa ao Cordeiro branco sem defeito, simbolizando que Jesus fora branco, logicamente ao ver deles, puro e sem defeito, modelo a ser seguido e aspiração a ser conquistada já e na vida futura. Reforçando também que todas as outras cores de pêlo dos animais são defeituosas e, por conseguinte todas as demais cores epiteliais dos seres humanos. Como fica a mente de uma criança preta que desde a infância aprende que a sua cor é defeituosa?


Um dos Clipes Musicais mais vistos do Diante do Trono é "Aos Olhos do Pai”, com a seguinte letra:



Aos Olhos do Pai

Composição: Ana Paula Valadão
Aos olhos do Pai
Você é uma obra prima
Que Ele planejou
Com Suas próprias mãos pintou.
A cor de sua pele.
Os seus cabelos desenhou.
Cada detalhe, Num toque de amor.
Você é linda demais!
Perfeita aos olhos do Pai.
Alguém igual a você, não vi jamais.
Princesa!
Nunca deixe alguém dizer que não é querida.
Antes de você nascer
Deus sonhou com você!

O Clipe repete a idéia caucasiana de contos de fadas, com meninas-princesas e castelo. Deus como um Pai Amoroso planeja e pinta a sua obra prima com toque de amor, fazendo-a perfeita:

“A cor de sua pele.
Os seus cabelos desenhou!
Cada detalhe,
Num toque de amor.
Antes de você nascer
Deus sonhou com você!”

Neste Sonho de Deus a população preta não é contemplada. A prática caucasiana de distorções dos fatos históricos e geográficos são alarmantes, tudo para europeizar acontecimentos em terras afro-asiáticas.
A menina não branca que surge rapidamente no clipe é um reforço ideológico de construção da idéia de mestiçagem que tem o branco como referência, cabelos alisados, poucos traços africanos, vestimenta européia, o sonho caucasiano tropical.
Cento e noventa pessoas comentaram o clipe e somente cinco entraram na questão da discriminação racial:
“A música é linda realmente! No entanto o videoclipe nào mostra nenhuma criança negra ou de cabelos crespos, só crianças brancas, olhos claros, cabelos lisos. Hipocrisia!”
“É muito lindo o vídeo, mas senti falta de criança negras. Em nosso país a diversidade e grande, devemos retrata-la. Como será que se sente uma criança que não se vê retratada diante do pai? Parece vídeo de gringo! Só tem crianças arrumadinhas.”
“Essa música toca muito no meu coração, quando a escuto me emociono muito pois me faz lembrar minha linda sobrinha, ela é uma criança negra e por isso já sofreu muito preconceito e quando a vejo triste canto essa música pra ela na mesma hora seu semblante de tristeza muda para um semblante de alegria por saber que é tão amada por Deus.”
“Esta música é o máximo...Minha filha tinha complexo,pois moramos num lugar de alemães,e ela é morena,bem clara,mas perto das amiguinhas dá diferença...Não sabia mais o que dizer,qdo me deparei com esta música...Hj ela se aceita muito mais que antes!!!Glórias a Deus pelo autor desta música!!!!”
“Eu só falei a verdade, por isso que incomodou. Sou evangélica e isse que a música é linda. só acho que poderiam ter colocado crianças reais, que se identificassem com a música.”
A cada dia aumenta o poder da comunicação dos protestantes brancos no Brasil, os quais repassam a sua concepção de mundo, de santidade, de beleza, da prosperidade e da vida futura. Neste processo urge que o povo preto protestante acorde desse pesadelo e tenha coragem de romper com essas estruturas. Não acreditem que essas instituições poderosas permitirão mudanças estruturais. Não sonhem, porque para eles não estamos nem no sonho do Pai.
Hoje é extremamente necessário que o povo preto protestante, não se engane acerca das mentiras propaladas por essas lideranças brancas religiosas protestantes, não aceite a comparação com o cordeiro defeituoso, e muito menos permita que nossas crianças sejam excluídas, por eles, da criação de Deus.
A verdade histórica é que as crianças pretas estão no sonho e na realidade de Deus. Na sua sapiência e benevolência criou o ser humano perfeito a sua imagem e semelhança. A humanidade original é cheia de melanina como Deus. Nós, o povo preto, somos o Sonho e a Realidade de Deus.

Dessa forma, o Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos, denuncia a racialização do pecado propagada por tais lideranças brancas, hipócritas, que apenas reproduzem o ideal da brancura dentro da comunidade preta cristã, a exemplo do que fizeram nesse clipe, negando a verdadeira essência da criação de Deus, do evangelho do Reino, e da pessoa de Yeshua: a essência africana.
Nós, do CNNC, desenvolvemos projetos de comunicação criados para e pelo povo preto, acreditamos apenas dessa forma, sem interferências, podemos através de uma mídia realmente livre responder a altura e informar ao nosso povo.
Se você quer participar desse projeto libertário de comunicação e acredita no nosso poder de organização, o convidamos, irmã ou irmão preto que entre em contato conosco, única organização cristã panafricanista e afrocentrista que não sofre intervenções de lideranças e nem orientações de organizações, bispos e pastores brancos, para mudança dessa realidade racista que vivenciamos no protestantismo.

terça-feira, 20 de maio de 2008

UMA MULHER NEGRA E SEU DIREITO DE SER

Reva. Cleusa Caldeira é pastora da

4ª Igreja Presbiteriana Independente de Curitiba, PR

(cleusacaldeira@hotmail.com)

Ao falar da mulher negra, precisamos entender que a nossa luta por libertação e emancipação requer de nós, mulheres e homens negros, bem como os que se simpatizam e se solidarizam com elas, que se leve em consideração todo o processo histórico sofrido por nós, mulheres negras. Porque o movimento feminista clássico e o movimento negro não contemplaram as diferenciações da luta da mulher negra. Se pretendermos falar abertamente sobre a opressão que a mulher negra sofre, teremos de aceitar que a história é marcada pelo androcentrismo, patriarcalismo e escravista. E que, em relação ao homem negro e à mulher branca, a mulher negra sofre duplamente com o preconceito. A minha história, enquanto mulher negra e pastora de uma igreja de tradição Reformada, tem-se caracterizado por luta e resistência. Desta forma, sinto-me forçada, pela necessidade, a buscar, nos quilombos modernos, ferramentas para resistir diante de tamanha opressão. Há, exatamente, 10 anos, recém chegada do interior do Paraná, buscava algo que nem mesma eu sabia o que era. No entanto, esse que a minha alma buscava, de um modo maravilhoso, se revelou a mim: Jesus! Imaginava que, a partir da experiência com Jesus, todos os meus problemas desapareceriam. Mas o desenrolar histórico me ensinaria que as lutas estavam apenas começando. Encontrava-me numa igreja de tradição Reformada na qual eu era a única mulher negra. Não poderia deixar de perceber essa gritante diferença. Ali, então, desencadeou-se um processo de reconstrução do meu ser. Era importante que eu pudesse perceber que, de fato, era diferente dos outros, mas não menos digna. A verdade é que, em última instância, o diferente somente encontra o seu sentido pleno naquilo que ele não é . Quando ainda no início da minha vida cristã, algumas das líderes da mocidade da igreja chegaram para o presidente dos jovens e questionaram a minha presença. Elas enfatizaram “que ali não era o meu lugar”. Lembro-me de Rosa Parks, militante do Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos, quando ela se recusou a obedecer às leis municipais que exigiam a segregação nos ônibus. Há uma segregação mascarada na nossa sociedade e a igreja, muitas vezes, como legitimadora dos atos da sociedade, não é diferente. E, assim como Rosa Parks, eu precisava romper com essa segregação. E a minha permanência ali na igreja, contrariando aquelas jovens brancas, seria um modo de romper com essa segregação. Mas esse rompimento estava acontecendo, primeiro, dentro de mim. Todo movimento de emancipação é antecedido pela conscientização do sujeito. Porque, a princípio, eu também achava que ali não era o meu lugar. Quando fui para o seminário a fim de me preparar para assumir o ministério pastoral, as lutas se intensificaram. As mulheres brancas que lá encontrei não conseguiam conceber a idéia de ter que dividir o espaço com uma mulher negra. E lutaram para me tirar do seminário. Houve uma que gastava suas energias maquinando o mal para me tirar do seminário. Mas sempre resisti, permanecendo no lugar ao qual Deus me havia enviado. Não havia nada pessoal; agora, entendo isso. Tem a ver com a formação da nossa sociedade. Foi um tempo difícil até eu conquistar o meu próprio espaço no seminário. Depois de formada, teria que cumprir a licenciatura em alguma igreja. Não imaginava eu que a intensidade dessas lutas aumentaria. Enviaram-me a uma igreja que ficava numa cidade pequena e histórica, na qual a concentração de preconceitos é bem maior e onde as mentes estão mais fechadas para o novo. Uma pastora já seria difícil para eles. Mas uma pastora negra era inadmissível. Houve pessoas que chegaram a declarar que não gostavam de mim porque eu era negra. Nós, mulheres negras, não estamos lutando por ascensão social, mas, sim, pelo direito de sermos diferente. Tive muitos problemas naquela cidade pequena. Mas compreendo que tanto eles quanto eu estávamos sendo confrontados com séculos de história de opressão contra a mulher negra. A relação da sociedade escravista, da qual o Brasil se formou, colocou as mulheres negras num lugar subalterno na relação intragênero. E tudo isso fica muito claro nas relações que tenho vivenciado, principalmente na igreja. Não que o preconceito não estivesse presente antes; ele sempre esteve. Mas o que acontece é que Deus me fez sujeita de minha história; tenho olhos que vêem e consciência do processo histórico. Em outras palavras, fui liberta do jugo opressor que dizia que a mulher negra era inferior à mulher branca. E estou ocupando uma posição de destaque como pastora. Não estou, com isso, dizendo que nós, negras, estamos disputando alguma coisa com as mulheres brancas. Não! Estamos lutando, como está fazendo o movimento feminista clássico, por libertação e emancipação da mulher negra. Vejo que as pastoras brancas, entre si, não têm compreendido o movimento de emancipação da mulher. Porque, a partir do momento em que elas alcançaram um lugar que antes era destinado, exclusivamente, aos homens, deixaram de lutar por uma mudança verdadeira nas relações de gênero para concorrer entre si e com os pastores homens, na busca para ver quem é o melhor. Nota-se que aquele sentimento de disputa e opressão ainda continua movendo, principalmente, a mulher branca, o que faz com que tenhamos dificuldades para iniciar um diálogo intragênero. Mas houve também muita dificuldade com os meus colegas de trabalho, os pastores homens. Vejo que eles se sentem ameaçados com a minha presença. Na verdade, a minha simples presença no meio deles é um confronto direto com a suas mentalidade sexista, etnocentrista e classista. Houve colegas de trabalho que lutaram arduamente para me derrubar da minha dignidade. Mas nem mesmo eles conseguiram perceber tudo o que estava em jogo. Estamos falando de séculos de dominação. Estamos falando de androcentrismo, patriarcalismo e escravismo. Tudo isso tem influência nas relações que tenho experimentado enquanto pastora negra da IPI do Brasil. Mas creio que, se tenho vivenciado tudo isso, é porque o próprio Deus tem usado a minha experiência para transformar a mim e à própria denominação. Pois esta está inserida numa sociedade na qual 50% da população é negra. Já está mais do que na hora de abrirmos as portas para o povo brasileiro. Porque, quando a IPI do Brasil foi formada, a intenção inicial era a de fazer uma igreja para os brasileiros. Mas a pretensa supremacia européia importava na negação do diferente. A sua superação importará necessariamente na afirmação do diferente. Enquanto pastora negra, muitas são as minhas lutas. A todo tempo, vejo meus companheiros e companheiras fazendo piadas, insinuando que eu não sou capaz. É muito triste ver o que eles não conseguem ver. Eu posso deixar de ser e fazer qualquer coisa, mas nunca poderei deixar de ser mulher negra. E estou muito feliz porque toda essa experiência de negação do meu ser tem contribuído para a afirmação da minha identidade enquanto mulher negra.
Publicado no Jornal O Estandarte - Edição 119 - Abril 2008. Autorizado a publicação neste blogger pela Reverenda Cleusa Caldeira.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

A GUERRA DOS ESCRAVIZADOS PRETOS BATISTAS NA JAMAICA

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br

A ilha da Jamaica está localizada no mar do Caribe na América Central. O país foi colonizado pelos Espanhóis e posteriormente conquistado pelos ingleses. Estudos etnológicos mostram que o nome Xamayca (terra dos mananciais) foi dado à ilha caribenha pelos aruaques, devido à abundância de fontes existentes em suas luxuriantes florestas, alguns estudiosos a chamam de “terra de bosques e água”.

Os arawak foram os primeiros habitantes a ter contato com os europeus. Quando Cristóvão Colombo invadiu às Bahamas, o navio atraiu a atenção dos nativos que, maravilhados, foram ao encontro dos visitantes, a nado. Quando Colombo e seus marinheiros desembarcaram, armados com suas espadas e falando uma língua estranha, os arawak lhes trouxeram comida, água e presentes. Mais tarde, Colombo escreverá em seu diário de bordo:
"Eles nos trouxeram papagaios, trouxas de algodão, lanças e muitas outras coisas que trocaram por contas de vidro e guizos. Trocavam de bom coração tudo o que possuíam. Eram bem constituídos, com corpos harmoniosos e feições graciosas. [...] Não usavam armas, que não conheciam , pois quando lhes mostrei uma espada, tomaram-na pela lâmina e se cortaram, por ignorância. Não conheciam o ferro. As lanças são feitas de cana. Dariam bons criados. Com cinquenta homens, poder-se-ia submeter todos eles e fazer deles o que se quisesse".
Colombo, fascinado por essa gente tão hospitaleira, escreverá ainda: "Desde que cheguei às Índias, na primeira ilha que encontrei, peguei alguns indígenas à força para que eles aprendam e possam me dar informações sobre tudo o que poderíamos encontrar nestas regiões". Leia Mais
A Jamaica foi reclamada pela Espanha depois de Cristóvão Colombo a ter invadido em 1494. Colombo usou a ilha como propriedade privada da sua família. Os ingleses conquistaram-na em 1670. Durante os primeiros 200 anos de domínio britânico, a Jamaica tornou-se o maior exportador mundial de açúcar, o que se conseguiu pelo uso maciço de trabalho escravizado africano.
No início do século XIX, o número de pretos era quase 20 vezes maior que o de brancos.
A conquista pelos caucasianos da ilha da Jamaica foi seguida de destruição da civilização dos aruaques em um dos genocídios mais violentos perpetrados nas Américas, e de exploração aos africanos e seus descendentes, com castigos horrendos, torturas e assassinatos, inclusive queimando vivos membros da comunidade escravizada, o incrível que eram protestantes e falavam do amor de Cristo e serviam a Sinagoga de Satanás.

PASTOR SAMUEL SHARP

Samuel Sharp nasceu na Jamaica em 1801 foi um homem letrado, estudioso e pastor da Igreja Batista. Ledor de diversos jornais ingleses observou que deveria implementar mudanças e liderar o seu povo e não confiar nos escravizadores. Ele passou a maior parte do seu tempo viajando para diversos estabelecimentos em St. James educando os escravizados sobre cristianismo e liberdade, formou uma sociedade secreta e se reunia a noite para planejar a luta pela emancipação; explicava o plano aos seus partidários escolhidos após as reuniões religiosas e os fazia beijar a Bíblia para mostrarem sua lealdade. Os participantes repassavam às outras paróquias, até que a idéia se espalhou ao longo de Saint James, Trelawny, Westmoreland, e até mesmo Saint Elizabeth e Manchester. Um orador de extrema sapiência que contagiava a platéia e usando palavras bíblicas afirmava que” os brancos não podiam escravizar os pretos como os pretos não podiam escravizar os brancos”; quem ouvia as suas pregações ficavam extasiados e felizes porque sentiam nele a presença do Espírito de Deus. O Espírito da Liberdade.

A GREVE GERAL E A GUERRA DOS BATISTAS PRETOS
O pastor Samuel Sharp planejou uma greve geral para ocorrer três dias depois do natal de 1831, a sua proposta foi de uma resistência pacífica contra os escravizadores, e sabia que devia está preparado para o confronto armado. O plano chegou ao conhecimento de alguns fazendeiros, e foram enviadas tropas à Saint James e navios de guerra eram ancorados em Montego Bay e Black River com as armas apontadas para as cidades. A rebelião durou oito dias e se espalhou por toda a ilha da Jamaica, resultando na morte de cerca de 190 africanos e 14 plantadores brancos ou superintendentes.

A VINGANÇA BRANCA
Houve mais de 750 condenações de escravos rebeldes, dos quais 138 foram condenados à morte. Muitos foram enforcados, as cabeças cortadas e colocadas nas lavouras. A maior parte das pessoas que escapou da condenação à morte foi brutalmente castigada e, em alguns casos, a punição a foi tão dura que eles não sobreviveram.
O Pastor Samuel Sharp cumpriu a sua missão como um verdadeiro pastor, sendo capturado e enforcado em na Praça Charles - Montego Bay em 23 de maio 1832.
No momento da sua morte ele disse: “Eu prefiro morrer enforcado a viver como escravo.”

HOMENAGEM DO POVO JAMAICANO
A luta dos batistas jamaicanos não foi em vão, em 01 de agosto de 1834 a escravidão terminou na Jamaica, conquistada pelos próprios escravizados. O povo jamaicano não esqueceu o pastor Samuel Sharp, relembrado como “Papai Sam Sharp” e inúmeras homenagens lhe são prestadas:
Em 1975, após a independência, Sam Sharpe foi feito um herói nacional e em sua honra esta praça foi renomeado Sam Sharpe Square.

Em sua homenagem, também está o retrato na nota de cinqüenta dólares Jamaicanos.

O povo jamaicano também homenagea A GRANDE NANNY QUILOMBOLA - A MÃE DA JAMAICA

CONCLUSÃO
O exemplo do pastor batista Samuel Sharp mostra-nos que a união do povo preto é essencial para a conquista da liberdade. As igrejas no Brasil conseguem manter através dos discursos milhões de descendentes de africanos na inércia, sonhando e esperando uma vida futura pós-morte de felicidade. Conseguiram criar batalhões enfurecidos para combater as religiões de origem africana, usando-nos como marionetes para perpetuar o racismo. Já passou o tempo do povo preto construir as suas próprias igrejas, pois as provas são incontestes que milhões estão marginalizados. As igrejas no Brasil conseguiram subjugar pastores e pastoras pretas que a todo o momento se acovardam e colocam vendas brancas nos olhos e continuam amendontrados (as), temerosos de usarem os púlpitos e a exemplo de Samuel Sharp levar a mensagem do Reino de Deus que é contra toda a injustiça.
Sharp declarou que o cristianismo não aceita opressão. Infelizmente, o cristianismo embranquecido se tornou escravidão para milhões de brasileiros pretos. A mensagem de Yeshua só é verdadeira se pregar a liberdade.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

QUILOMBO, EVANGELIZAÇÃO E CONTRADIÇÃO CULTURAL

Kelly, 23 anos, recém-casada. Pseudônimo Nzinga Mbandi.

Localização: O Quilombo Campinho da Independência está localizado ao sul do Estado do Rio de Janeiro, a 20 km da cidade de Paraty, entre os povoados de Pedras Azuis e Patrimônio. É banhado pelo rio Carapitanga e servido por cachoeiras e pela exuberante Mata Atlântica.
Histórico: A origem do Quilombo Campinho da Independência é muito peculiar. Todos os moradores são descendentes de três escravas: Antonica, Marcelina e Luiza. Segundo as histórias contadas pelos mais velhos as três não eram escravas comuns, pois tinham cultura, posses e habitavam a Casa Grande. Conta-se que no local existiam grandes fazendas, sendo a Fazenda Independência a mais importante. Após a abolição da escravatura os fazendeiros abandonaram suas propriedades e as terras foram divididas entre aqueles que nela trabalhavam.


Eu nasci, cresci, vivi e vivo até hoje em um quilombo, logo, sou quilombola. Já nasci em um lar cristão, nunca fui de outra religião.
Até certo momento da minha vida, confesso que achava que deveria separar a religião da cultura. Nós temos festas comemorativas que acontecem anualmente: dia de São Benedito, Festas Juninas e Julinas, Encontro da Cultura Negra e etc, aonde são dias em que quase toda a comunidade se reúne para se alegrar, dançar, brincar, sorrir... Mas esse evento é freqüentado apenas pelos católicos da região.
Meu quilombo é formado por 400 pessoas, sendo boa parte delas membros da Igreja Assembléia de Deus, onde se encontra mais problemas na hora de “liberar” seus membros para quaisquer eventos “mundanos” no quilombo. Temos a Igreja Batista da qual sou membro. O pastor nunca fica sabendo para onde vamos e o que faremos lá, pois ele também é contra essa mistura de religião com cultura. Acontece se passarmos muito tempo freqüentando esses eventos e festas e sermos excluídos, bem mais pra frente, por intermédio de “irmãos” que vão até o pastor criticar nossa “má conduta”. Existe aqui também, como já falado anteriormente, a Igreja Católica, que é a que está mais presente em tudo. E temos umas duas, três ou mais pessoas que são admiradores ou até mesmo seguem Umbanda e Candomblé, ressaltando que, não temos terreiro em nossa comunidade. Já tivemos um, mas a pessoa que o mantinha não mora mais em nosso quilombo e a grande vontade dos que a esta, é reconstruir um templo, um terreiro por lá. Com certeza, haverá “quebra-pau”, pois o preconceito ainda é muito grande. Se me perguntarem o que eu acho de tudo isso, eu responderia que não tenho nenhuma opinião formada a respeito. A evangelização nos dividiu demais, não somos unidos como deveríamos ser. Tínhamos conseguido resgatar o jongo depois de um considerável esforço e hoje ele já não existe mais tão fortemente como antes, pois a maioria dos componentes era da Assembléia de Deus e o pastor os impedem completamente de continuar a fazer parte, assim como também no futebol.
Temos um grupo de Hip Hop, aonde no penúltimo evento que nos apresentamos, não contamos com a presença de um dos componentes que nos “deixou na mão” sem prévio aviso e logo quando contatado, disse que seu pastor (Assembléia de Deus), achou melhor que não fosse tocar conosco. Ele é do grupo já há um tempo, e hoje não sabemos se ainda o é. O que falta é reunião para redefinir.
Aos poucos, tudo vai sendo destruído pela forte “pressão religiosa”. E sobre isso, eu tenho uma opinião formada. No passado, Yeshua não falou em evangelização. As palavras de Yeshua foram mudadas conforme os europeus quiseram. Yeshua veio pra fazer a diferença. Assim como veio Ghandi, Tchê Guevara, Zumbi, esses nomes tão fortes e ilustres. Yeshua falou em amor, união, paz. No Velho Testamento, vemos passagens de sacrifícios/oferendas que eram oferecidos a Deus e, claro, ainda hoje o sacrifício é realizado. Ao contrário do que dizem, ele não é, nunca foi e nunca será pecado. Por acaso é pecado oferecermos a Deus nossas vidas, nossas casas e tudo o que temos? Por um acaso é pecado oferecer o meu animal mais forte, mais bonito e vistoso a Deus? Eu me disponho a responder: Não. Não é!
Isso foi à forma mais fácil que os europeus encontraram de começar a conversão, a mudança, e transformar a nossa religião, a religião dos pretos, em uma religião abominável como hoje o é aos olhos de muita gente. Aos poucos foram excluindo isso e aquilo e quando demos conta, já estavam lá, suspendendo a imagem de um Yeshua branco, ensangüentado, totalmente diferente da realidade. Começaram a apelação: Se não creres, se não vieres até ele, será lançado no inferno juntamente com o diabo. Diabo... está aí outra criação deles para conversão pelo temor. No quesito artístico, tenho que admitir, eles tiveram talento e criatividade. É muito fácil conseguir arrastar milhares e milhares de “fiéis” para os bancos das igrejas alegando que se morrerem sem estar em “comunhão” com Deus, irão para o inferno. Só não percebe que isso é completamente inviável quem não quer. Mas não pretendo falar sobre diabos e demônios agora.
Deixe-os para aqueles que adoram os invocar e fazem questão de trazê-los pra dentro das igrejas gritando pelo seu nome e fazendo fileiras de oração depois do culto com as mãos postas sobre as cabeças, dando show de graça para todos que quiserem ouvir, e também ver as pessoas se contorcendo no chão, duros e fazendo caretas. Eu sou amante de psicologia e sei bem que, mexemos com energias, nosso corpo sempre responderá positivamente a um comando, pois somos energias. Isso se chama Hipnose.
Acho engraçado, as pessoas vão até a igreja sem problema algum e muitas das vezes saem pior do que entraram, com o corpo totalmente sobrecarregado (Claro! Depois de uma sessão de espiritismo, não tem como ser diferente). Absolutamente nada contra os espíritas, mas é que em muitas igrejas, me sinto sentada em uma “mesa branca” assistindo todos os espíritos baixarem. Muitas igrejas trabalham desta forma, “acham lindo”, e ainda “metem o pau” nos espíritas e macumbeiros. Por que será? A forma de trabalho é praticamente a mesma, não consigo ver muita diferença. Acho que a única, é que os espíritas assumem que são espíritas.
Eu, como protestante preta, não mais sigo o Cristianismo enquanto instituição. Eu sigo o Cristianismo de Matriz Africana. Esse acaba com o ódio que muitos sentem do cristianismo enquanto instituição, que é uma religião que massacra, aterroriza, impede as pessoas de serem felizes e as obrigam a viver sob fortes regras, as transformando em bonecos de corda, marionetes.
Em um Domingo, presenciei um irmão de a igreja pedir que oremos, pois nossa igreja está sendo perseguida sem um porquê. Agora eu pergunto, sem um por quê? Absolutamente! Claro que tem um porque. Qual a religião que sempre invadiu terreiros nessa vida? Qual a religião que sempre deu showzinho em público quebrando imagens de santos? Que religião segue o prefeito de Salvador que mandou derrubar todos os terreiros? Eu respondo: O Cristianismo enquanto instituição. Muitos crentes vieram me dizer: “Ah, mas não podemos ser todos incriminados por uma coisa que só esse prefeito fez”. Quando me voltei pra essa pessoa e perguntei se ela achava que o prefeito estava errado, não soube me dizer. Ou seja, considera apelação do prefeito, mas acha que ele está no caminho certo.
Infelizmente, tudo isso reflete dentro do meu quilombo. O mesmo preconceito!
E eu digo, é possível sim, crer em Cristo e manter as tradições. Por mais que muitos pensem o contrário, Cristo está mais próximo das tradições do que imagina e um dia essa verdade, irá ser revelada para rompimento do sofrimento do meu povo preto. Eu creio!
Graças à capacitação de historiadores, esse mistério vem sendo desvendado com certezas. E o rancor, o ódio de algumas pessoas de outras religiões, vem sendo quebrado. Vão percebendo que os europeus se apropriaram do cristianismo e o transformaram em uma religião violenta. Falo com bases nas posturas de meu marido hoje, comparando com as que ele tinha assim que nos conhecemos e começamos a namorar. Tinha pudor, tinha ódio do Cristianismo e hoje, não mais. Não é seguidor de Umbanda, mas falo sem nenhuma vergonha que suas crenças são voltadas pra tal. Nem falava no nome de Jesus de tanto ódio. Hoje me deparo com frases como estas: “Fulano está de um jeito que só Jesus”. E pra isso, não precisei evangelizá-lo. Até seu irmão, que antes tinha o mesmo pudor do Cristianismo, me deparei com uma comunidade em seu Orkut que diz: “Jesus! Eu te amo!” Tudo isso, graças ao desvendamento que se vem dando em relação a isso.
Acho o máximo. Vejo o progresso, graças a Deus! E é disso que precisamos: união entre o povo preto e não precisamos arrastar ninguém de uma religião à outra pelos cabelos.

Deus há de julgar a todos com sua benevolência. Só me pergunto: Como Deus julgará civilizações que usando o seu Santo nome trucidaram 200 milhões de seus filhos e filhas na África e seqüestraram quase 30 milhões para as Américas? Qual será o julgamento para a escravidão de homens e mulheres que se apropriaram da força de trabalho, mudaram as línguas, os nomes, costumes e cometeram atrocidades inimagináveis? Que enforcaram milhares de negros e depois foram para os cultos como nada tivessem feito, com sensação de missão cumprida, com “a alma limpa”, simplesmente por acharem que haviam feito um grande favor pra Deus, matando estes filhos do demônio. Já chegaram a dizer que Deus é branco e que o diabo é que é preto. Quem foram os seguidores e adoradores do diabo e satisfizeram os desejos do mal, foram os seqüestradores ou os meus ancestrais que viviam nas suas florestas e savanas, fazendo seus cultos nos terreiros em paz?
As civilizações ocidentais que se diziam seguidoras de Yeshua foram tão perversas, que hoje, a maioria de nossos irmãos e irmãs se calam, sendo subserviente com medo de clamar e lutar por justiça, porque se consideram descendentes de amaldiçoados e acham que a vontade dos opressores é a vontade de Deus. Veremos!
Grande Asè!




Jongo - Quilombo Campinho da Independência

PRETAS POESIAS

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Poemas de amor ao povo preto: https://www.facebook.com/PretasPoesias