quinta-feira, 15 de maio de 2008

A GUERRA DOS ESCRAVIZADOS PRETOS BATISTAS NA JAMAICA

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br

A ilha da Jamaica está localizada no mar do Caribe na América Central. O país foi colonizado pelos Espanhóis e posteriormente conquistado pelos ingleses. Estudos etnológicos mostram que o nome Xamayca (terra dos mananciais) foi dado à ilha caribenha pelos aruaques, devido à abundância de fontes existentes em suas luxuriantes florestas, alguns estudiosos a chamam de “terra de bosques e água”.

Os arawak foram os primeiros habitantes a ter contato com os europeus. Quando Cristóvão Colombo invadiu às Bahamas, o navio atraiu a atenção dos nativos que, maravilhados, foram ao encontro dos visitantes, a nado. Quando Colombo e seus marinheiros desembarcaram, armados com suas espadas e falando uma língua estranha, os arawak lhes trouxeram comida, água e presentes. Mais tarde, Colombo escreverá em seu diário de bordo:
"Eles nos trouxeram papagaios, trouxas de algodão, lanças e muitas outras coisas que trocaram por contas de vidro e guizos. Trocavam de bom coração tudo o que possuíam. Eram bem constituídos, com corpos harmoniosos e feições graciosas. [...] Não usavam armas, que não conheciam , pois quando lhes mostrei uma espada, tomaram-na pela lâmina e se cortaram, por ignorância. Não conheciam o ferro. As lanças são feitas de cana. Dariam bons criados. Com cinquenta homens, poder-se-ia submeter todos eles e fazer deles o que se quisesse".
Colombo, fascinado por essa gente tão hospitaleira, escreverá ainda: "Desde que cheguei às Índias, na primeira ilha que encontrei, peguei alguns indígenas à força para que eles aprendam e possam me dar informações sobre tudo o que poderíamos encontrar nestas regiões". Leia Mais
A Jamaica foi reclamada pela Espanha depois de Cristóvão Colombo a ter invadido em 1494. Colombo usou a ilha como propriedade privada da sua família. Os ingleses conquistaram-na em 1670. Durante os primeiros 200 anos de domínio britânico, a Jamaica tornou-se o maior exportador mundial de açúcar, o que se conseguiu pelo uso maciço de trabalho escravizado africano.
No início do século XIX, o número de pretos era quase 20 vezes maior que o de brancos.
A conquista pelos caucasianos da ilha da Jamaica foi seguida de destruição da civilização dos aruaques em um dos genocídios mais violentos perpetrados nas Américas, e de exploração aos africanos e seus descendentes, com castigos horrendos, torturas e assassinatos, inclusive queimando vivos membros da comunidade escravizada, o incrível que eram protestantes e falavam do amor de Cristo e serviam a Sinagoga de Satanás.

PASTOR SAMUEL SHARP

Samuel Sharp nasceu na Jamaica em 1801 foi um homem letrado, estudioso e pastor da Igreja Batista. Ledor de diversos jornais ingleses observou que deveria implementar mudanças e liderar o seu povo e não confiar nos escravizadores. Ele passou a maior parte do seu tempo viajando para diversos estabelecimentos em St. James educando os escravizados sobre cristianismo e liberdade, formou uma sociedade secreta e se reunia a noite para planejar a luta pela emancipação; explicava o plano aos seus partidários escolhidos após as reuniões religiosas e os fazia beijar a Bíblia para mostrarem sua lealdade. Os participantes repassavam às outras paróquias, até que a idéia se espalhou ao longo de Saint James, Trelawny, Westmoreland, e até mesmo Saint Elizabeth e Manchester. Um orador de extrema sapiência que contagiava a platéia e usando palavras bíblicas afirmava que” os brancos não podiam escravizar os pretos como os pretos não podiam escravizar os brancos”; quem ouvia as suas pregações ficavam extasiados e felizes porque sentiam nele a presença do Espírito de Deus. O Espírito da Liberdade.

A GREVE GERAL E A GUERRA DOS BATISTAS PRETOS
O pastor Samuel Sharp planejou uma greve geral para ocorrer três dias depois do natal de 1831, a sua proposta foi de uma resistência pacífica contra os escravizadores, e sabia que devia está preparado para o confronto armado. O plano chegou ao conhecimento de alguns fazendeiros, e foram enviadas tropas à Saint James e navios de guerra eram ancorados em Montego Bay e Black River com as armas apontadas para as cidades. A rebelião durou oito dias e se espalhou por toda a ilha da Jamaica, resultando na morte de cerca de 190 africanos e 14 plantadores brancos ou superintendentes.

A VINGANÇA BRANCA
Houve mais de 750 condenações de escravos rebeldes, dos quais 138 foram condenados à morte. Muitos foram enforcados, as cabeças cortadas e colocadas nas lavouras. A maior parte das pessoas que escapou da condenação à morte foi brutalmente castigada e, em alguns casos, a punição a foi tão dura que eles não sobreviveram.
O Pastor Samuel Sharp cumpriu a sua missão como um verdadeiro pastor, sendo capturado e enforcado em na Praça Charles - Montego Bay em 23 de maio 1832.
No momento da sua morte ele disse: “Eu prefiro morrer enforcado a viver como escravo.”

HOMENAGEM DO POVO JAMAICANO
A luta dos batistas jamaicanos não foi em vão, em 01 de agosto de 1834 a escravidão terminou na Jamaica, conquistada pelos próprios escravizados. O povo jamaicano não esqueceu o pastor Samuel Sharp, relembrado como “Papai Sam Sharp” e inúmeras homenagens lhe são prestadas:
Em 1975, após a independência, Sam Sharpe foi feito um herói nacional e em sua honra esta praça foi renomeado Sam Sharpe Square.

Em sua homenagem, também está o retrato na nota de cinqüenta dólares Jamaicanos.

O povo jamaicano também homenagea A GRANDE NANNY QUILOMBOLA - A MÃE DA JAMAICA

CONCLUSÃO
O exemplo do pastor batista Samuel Sharp mostra-nos que a união do povo preto é essencial para a conquista da liberdade. As igrejas no Brasil conseguem manter através dos discursos milhões de descendentes de africanos na inércia, sonhando e esperando uma vida futura pós-morte de felicidade. Conseguiram criar batalhões enfurecidos para combater as religiões de origem africana, usando-nos como marionetes para perpetuar o racismo. Já passou o tempo do povo preto construir as suas próprias igrejas, pois as provas são incontestes que milhões estão marginalizados. As igrejas no Brasil conseguiram subjugar pastores e pastoras pretas que a todo o momento se acovardam e colocam vendas brancas nos olhos e continuam amendontrados (as), temerosos de usarem os púlpitos e a exemplo de Samuel Sharp levar a mensagem do Reino de Deus que é contra toda a injustiça.
Sharp declarou que o cristianismo não aceita opressão. Infelizmente, o cristianismo embranquecido se tornou escravidão para milhões de brasileiros pretos. A mensagem de Yeshua só é verdadeira se pregar a liberdade.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

QUILOMBO, EVANGELIZAÇÃO E CONTRADIÇÃO CULTURAL

Kelly, 23 anos, recém-casada. Pseudônimo Nzinga Mbandi.

Localização: O Quilombo Campinho da Independência está localizado ao sul do Estado do Rio de Janeiro, a 20 km da cidade de Paraty, entre os povoados de Pedras Azuis e Patrimônio. É banhado pelo rio Carapitanga e servido por cachoeiras e pela exuberante Mata Atlântica.
Histórico: A origem do Quilombo Campinho da Independência é muito peculiar. Todos os moradores são descendentes de três escravas: Antonica, Marcelina e Luiza. Segundo as histórias contadas pelos mais velhos as três não eram escravas comuns, pois tinham cultura, posses e habitavam a Casa Grande. Conta-se que no local existiam grandes fazendas, sendo a Fazenda Independência a mais importante. Após a abolição da escravatura os fazendeiros abandonaram suas propriedades e as terras foram divididas entre aqueles que nela trabalhavam.


Eu nasci, cresci, vivi e vivo até hoje em um quilombo, logo, sou quilombola. Já nasci em um lar cristão, nunca fui de outra religião.
Até certo momento da minha vida, confesso que achava que deveria separar a religião da cultura. Nós temos festas comemorativas que acontecem anualmente: dia de São Benedito, Festas Juninas e Julinas, Encontro da Cultura Negra e etc, aonde são dias em que quase toda a comunidade se reúne para se alegrar, dançar, brincar, sorrir... Mas esse evento é freqüentado apenas pelos católicos da região.
Meu quilombo é formado por 400 pessoas, sendo boa parte delas membros da Igreja Assembléia de Deus, onde se encontra mais problemas na hora de “liberar” seus membros para quaisquer eventos “mundanos” no quilombo. Temos a Igreja Batista da qual sou membro. O pastor nunca fica sabendo para onde vamos e o que faremos lá, pois ele também é contra essa mistura de religião com cultura. Acontece se passarmos muito tempo freqüentando esses eventos e festas e sermos excluídos, bem mais pra frente, por intermédio de “irmãos” que vão até o pastor criticar nossa “má conduta”. Existe aqui também, como já falado anteriormente, a Igreja Católica, que é a que está mais presente em tudo. E temos umas duas, três ou mais pessoas que são admiradores ou até mesmo seguem Umbanda e Candomblé, ressaltando que, não temos terreiro em nossa comunidade. Já tivemos um, mas a pessoa que o mantinha não mora mais em nosso quilombo e a grande vontade dos que a esta, é reconstruir um templo, um terreiro por lá. Com certeza, haverá “quebra-pau”, pois o preconceito ainda é muito grande. Se me perguntarem o que eu acho de tudo isso, eu responderia que não tenho nenhuma opinião formada a respeito. A evangelização nos dividiu demais, não somos unidos como deveríamos ser. Tínhamos conseguido resgatar o jongo depois de um considerável esforço e hoje ele já não existe mais tão fortemente como antes, pois a maioria dos componentes era da Assembléia de Deus e o pastor os impedem completamente de continuar a fazer parte, assim como também no futebol.
Temos um grupo de Hip Hop, aonde no penúltimo evento que nos apresentamos, não contamos com a presença de um dos componentes que nos “deixou na mão” sem prévio aviso e logo quando contatado, disse que seu pastor (Assembléia de Deus), achou melhor que não fosse tocar conosco. Ele é do grupo já há um tempo, e hoje não sabemos se ainda o é. O que falta é reunião para redefinir.
Aos poucos, tudo vai sendo destruído pela forte “pressão religiosa”. E sobre isso, eu tenho uma opinião formada. No passado, Yeshua não falou em evangelização. As palavras de Yeshua foram mudadas conforme os europeus quiseram. Yeshua veio pra fazer a diferença. Assim como veio Ghandi, Tchê Guevara, Zumbi, esses nomes tão fortes e ilustres. Yeshua falou em amor, união, paz. No Velho Testamento, vemos passagens de sacrifícios/oferendas que eram oferecidos a Deus e, claro, ainda hoje o sacrifício é realizado. Ao contrário do que dizem, ele não é, nunca foi e nunca será pecado. Por acaso é pecado oferecermos a Deus nossas vidas, nossas casas e tudo o que temos? Por um acaso é pecado oferecer o meu animal mais forte, mais bonito e vistoso a Deus? Eu me disponho a responder: Não. Não é!
Isso foi à forma mais fácil que os europeus encontraram de começar a conversão, a mudança, e transformar a nossa religião, a religião dos pretos, em uma religião abominável como hoje o é aos olhos de muita gente. Aos poucos foram excluindo isso e aquilo e quando demos conta, já estavam lá, suspendendo a imagem de um Yeshua branco, ensangüentado, totalmente diferente da realidade. Começaram a apelação: Se não creres, se não vieres até ele, será lançado no inferno juntamente com o diabo. Diabo... está aí outra criação deles para conversão pelo temor. No quesito artístico, tenho que admitir, eles tiveram talento e criatividade. É muito fácil conseguir arrastar milhares e milhares de “fiéis” para os bancos das igrejas alegando que se morrerem sem estar em “comunhão” com Deus, irão para o inferno. Só não percebe que isso é completamente inviável quem não quer. Mas não pretendo falar sobre diabos e demônios agora.
Deixe-os para aqueles que adoram os invocar e fazem questão de trazê-los pra dentro das igrejas gritando pelo seu nome e fazendo fileiras de oração depois do culto com as mãos postas sobre as cabeças, dando show de graça para todos que quiserem ouvir, e também ver as pessoas se contorcendo no chão, duros e fazendo caretas. Eu sou amante de psicologia e sei bem que, mexemos com energias, nosso corpo sempre responderá positivamente a um comando, pois somos energias. Isso se chama Hipnose.
Acho engraçado, as pessoas vão até a igreja sem problema algum e muitas das vezes saem pior do que entraram, com o corpo totalmente sobrecarregado (Claro! Depois de uma sessão de espiritismo, não tem como ser diferente). Absolutamente nada contra os espíritas, mas é que em muitas igrejas, me sinto sentada em uma “mesa branca” assistindo todos os espíritos baixarem. Muitas igrejas trabalham desta forma, “acham lindo”, e ainda “metem o pau” nos espíritas e macumbeiros. Por que será? A forma de trabalho é praticamente a mesma, não consigo ver muita diferença. Acho que a única, é que os espíritas assumem que são espíritas.
Eu, como protestante preta, não mais sigo o Cristianismo enquanto instituição. Eu sigo o Cristianismo de Matriz Africana. Esse acaba com o ódio que muitos sentem do cristianismo enquanto instituição, que é uma religião que massacra, aterroriza, impede as pessoas de serem felizes e as obrigam a viver sob fortes regras, as transformando em bonecos de corda, marionetes.
Em um Domingo, presenciei um irmão de a igreja pedir que oremos, pois nossa igreja está sendo perseguida sem um porquê. Agora eu pergunto, sem um por quê? Absolutamente! Claro que tem um porque. Qual a religião que sempre invadiu terreiros nessa vida? Qual a religião que sempre deu showzinho em público quebrando imagens de santos? Que religião segue o prefeito de Salvador que mandou derrubar todos os terreiros? Eu respondo: O Cristianismo enquanto instituição. Muitos crentes vieram me dizer: “Ah, mas não podemos ser todos incriminados por uma coisa que só esse prefeito fez”. Quando me voltei pra essa pessoa e perguntei se ela achava que o prefeito estava errado, não soube me dizer. Ou seja, considera apelação do prefeito, mas acha que ele está no caminho certo.
Infelizmente, tudo isso reflete dentro do meu quilombo. O mesmo preconceito!
E eu digo, é possível sim, crer em Cristo e manter as tradições. Por mais que muitos pensem o contrário, Cristo está mais próximo das tradições do que imagina e um dia essa verdade, irá ser revelada para rompimento do sofrimento do meu povo preto. Eu creio!
Graças à capacitação de historiadores, esse mistério vem sendo desvendado com certezas. E o rancor, o ódio de algumas pessoas de outras religiões, vem sendo quebrado. Vão percebendo que os europeus se apropriaram do cristianismo e o transformaram em uma religião violenta. Falo com bases nas posturas de meu marido hoje, comparando com as que ele tinha assim que nos conhecemos e começamos a namorar. Tinha pudor, tinha ódio do Cristianismo e hoje, não mais. Não é seguidor de Umbanda, mas falo sem nenhuma vergonha que suas crenças são voltadas pra tal. Nem falava no nome de Jesus de tanto ódio. Hoje me deparo com frases como estas: “Fulano está de um jeito que só Jesus”. E pra isso, não precisei evangelizá-lo. Até seu irmão, que antes tinha o mesmo pudor do Cristianismo, me deparei com uma comunidade em seu Orkut que diz: “Jesus! Eu te amo!” Tudo isso, graças ao desvendamento que se vem dando em relação a isso.
Acho o máximo. Vejo o progresso, graças a Deus! E é disso que precisamos: união entre o povo preto e não precisamos arrastar ninguém de uma religião à outra pelos cabelos.

Deus há de julgar a todos com sua benevolência. Só me pergunto: Como Deus julgará civilizações que usando o seu Santo nome trucidaram 200 milhões de seus filhos e filhas na África e seqüestraram quase 30 milhões para as Américas? Qual será o julgamento para a escravidão de homens e mulheres que se apropriaram da força de trabalho, mudaram as línguas, os nomes, costumes e cometeram atrocidades inimagináveis? Que enforcaram milhares de negros e depois foram para os cultos como nada tivessem feito, com sensação de missão cumprida, com “a alma limpa”, simplesmente por acharem que haviam feito um grande favor pra Deus, matando estes filhos do demônio. Já chegaram a dizer que Deus é branco e que o diabo é que é preto. Quem foram os seguidores e adoradores do diabo e satisfizeram os desejos do mal, foram os seqüestradores ou os meus ancestrais que viviam nas suas florestas e savanas, fazendo seus cultos nos terreiros em paz?
As civilizações ocidentais que se diziam seguidoras de Yeshua foram tão perversas, que hoje, a maioria de nossos irmãos e irmãs se calam, sendo subserviente com medo de clamar e lutar por justiça, porque se consideram descendentes de amaldiçoados e acham que a vontade dos opressores é a vontade de Deus. Veremos!
Grande Asè!




Jongo - Quilombo Campinho da Independência

terça-feira, 29 de abril de 2008

OS DALITS DA ÍNDIA - A MAIOR POPULAÇÃO PRETA DO PLANETA

* Todos as fotos postadas no texto são dos Dalits.

Por Walter Passos.
Teólogo, Historiador, Pan-africanista e Afrocentrista
Skype: lindoebano
Facebook: Walter Passos
Pseudônimo: Kefing Foluke.
Há um equívoco dos estudiosos, repetido incessantemente pela mídia e a todo o momento por militantes sobre a população preta do mundo, um desconhecimento e negação do Afrocentrismo e do povoamento da população preta no planeta. Se você for responder a indagação: Qual é o país que detém a maior população preta? E qual é o segundo? Imediatamente você responderá: O primeiro país em população preta do mundo é a Nigéria, na África, e o Brasil está em segundo lugar. Neste texto você descobrirá o quanto foi mal informado e há anos reproduz esses ensinamentos errôneos em salas de aula, nas reuniões do Movimento Negro, na conscientização dos pretos e pretas e até nas conversas informais.
Pode-se esperar por incessante negação do Afrocentrismo e do povoamento da população preta no mundo, seja ensinado que o país  que há mais pretos e pretas localiza-se na África, e o segundo, na América, por consequência do sequestro de homens, mulheres e crianças, prisioneiros das guerras e escravizados em território africano, forçados  ao regime de escravidão. Entretanto, o que te surpreenderá é que o maior país de população preta do planeta não está localizado no continente africano e nem nas Américas.
A Índia é um país localizado no centro-sul do continente asiático, com uma população de hum bilhão e 130 milhões de habitantes, este é o país com a maior população preta do planeta. Com 250 milhões de pretos e pretas, a Índia supera a população da Nigéria formada de 135 milhões de pessoas e do Brasil com 186 milhões de habitantes, ou seja, a população preta da Índia é maior que toda a população do Brasil e duas vezes a população da Nigéria.
Quem são esses pretos da Índia? Como a habitaram? Qual o interesse em negar sua existência? Só através do Afrocentrismo é possível ter esse conhecimento lato das populações pretas no planeta por entender e provar as diversas diásporas voluntárias de africanos. É através do Afrocentrismo que os africanos e africanas em diáspora e na África podem verdadeiramente compreender a dinâmica da colonização e povoamento africano em todo o mundo.

ORIGEM DA POPULAÇÃO PRETA NA ÍNDIA
A história das populações pretas na Índia remonta há milhares de anos, são originários das grandes migrações Etíopes e Egípcias para o Vale do Indos. A contribuição de Runoko Rashidi é primaz para esse entendimento. Segundo Rashidi, no século I a.C, o famoso historiador grego Diodoro da Sicília descreve a presença dos pretos na Índia: "Da Etiópia ele (Osíris) passou pela Arábia, mediante ribeirinhos do Mar Vermelho, tanto quanto na Índia... Ele construiu muitas cidades da Índia, um das quais ele chamou de Nysa, disposta a ter recordação de que (Nysa) no Egito, de onde ele se originou."E continua informando que outro importante escritor da antiguidade, Apolônio de Tiana, que visitara a Índia perto do final do primeiro século, estava convencido de que "Os etíopes colonizaram a Índia, e seguiram a tradição dos seus antepassados em sabedoria."
A obra literária dos primeiros cristão, escritas por Eusébio preserva a tradição que "No reinado de Amenophis III [o mais poderoso faraó da XVIII dinastia egípcia] um grupo de etíopes migrou de um país do Indos, e se estabeleceram no vale do Rio Nilo". E ainda outro documento de tempos antigos, o Itinerarium Alexandri, diz que "Índia, como um todo, e à Pérsia, é uma continuação do Egito e dos etíopes."A população preta da Índia, os Dalits atuais, é descendente de civilizações desenvolvidas que foi vitima da Chamada Grande Invasão Ariana em 1.500 a.C., que se apropriou do território, conhecimento filosófico da população preta e criaram um sistema de castas baseados na cor da pele e o revestiu religiosamente (Hinduísmo) para humilhar e escravizá-la economicamente.

CONHECENDO OS DALITS - A população de pretos na Índia é superior as populações da Inglaterra, França, Bélgica e Espanha e superior as populações pretas do Brasil e Nigéria também juntas.
O termo "dalit" tem raízes em sânscrito onde a terminação “dal” é usada para dividir, abrir, corromper. O vocábulo "Dalit" está relacionado a coisas ou pessoas que são cortadas, rachadas, quebradas, dispersas ou esmagadas e destruídas.
Por coincidência, existe a mesma terminação em hebraico significado baixo, fraco, pobre. Na Bíblia, diferentes formas desta expressão foram usadas para descrever pessoas que foram reduzidas a nada ou desamparados.
Com a invasão britânica na Índia foram criadas as chamadas castas programadas, com a aliança dos britânicos com a minoria que governava a Índia. Os pretos da Índia e Nepal são os mais discriminados do planeta, e por isso muitos têm se convertido ao islamismo, por causa de suas propostas de igualdade e liberdade.
Os dalitis nesses países são excluídos de todo o bem comum, todos os dias três mulheres dalitis são violentadas e obrigadas a se prostituírem; as crianças dalitis sentam na parte detrás das escolas ou assistem aula fora da sala, a cada duas horas uma casa de dalitis é incendiada; 66% dos dalitis são analfabetos e a mortalidade infantil chega a 10%.
No Nepal os pretos são 25% da população. A maioria dos dalitis é proibida de beber a mesma água que bebem as castas superiores. As mulheres dalitis de Badi são obrigadas a se prostituir e são consideradas piores de que um cão vivente de rua.
Com a opressão dos povos pretos da Índia, herdeiros de uma das maiores civilizações, a Harappan, hoje destituída do direito a dignidade e a uma vida de igualdade. Como conseqüência dos arianos se apossou de seus ensinamen­tos, fatos esses ocorridos com a África, berço dos grandes pensamentos filosóficos mundiais e das grandes religiões. Por último, o projeto Genoma Humano análise do DNA na composição dos seres humanos tem produzido evidência científica indicando que a origem genética das castas superiores na Índia é mais européia do que asiática.
Leia mais: http://www.dalitnetwork.org/go?/dfn/blog/2007/04/

FATOS SOBRE OS DALITS:
• A cada dia, três mulheres Dalits são estrupadas (leia Jovem Dalit estrupada e queimada até a morte);
• Crianças Dalits são freqüentemente forçadas a sentarem de costas nas suas salas de aula, ou mesmo fora da sala;
• A cada hora, duas casas de Dalits são queimadas;
• A maioria das pessoas das castas altas evitarão terem Dalits preparando a sua comida, por medo de se tornarem imundos;
• A cada hora, dois Dalits são assaltados.
• Em muitas partes da Índia, Dalits não são permitidos entrar nos templos e outros lugares religiosos;
• 66% são analfabetos;
• A taxa de mortalidade infantil é perto de 10%;
• 70% são negados o direito de adorarem em templos locais;
• 57% das crianças Dalits abaixo da idade de quarto anos estão muito abaixo do peso;
• 60 milhões de Dalits são explorados através do trabalho forçado;
• A maioria dos Dalits são proibidos de beber da mesma água que os de castas mais altas.
Em agosto de 1972, os Dalit Panthers anunciaram que o 25 º aniversário da independência indiana seria celebrado como um dia de luto.
É necessário que todos os pretos e pretas na África e na diáspora denunciem em todas as estâncias a situação da maior população preta do planeta confinada na Índia. Não podemos ficar calados (as) com a opressão de mais de 250 milhões de pessoas de ascendência africana.



Typical Southern India Village
I'm Dalit, how are you



ACESSE PRETAS POESIAS:

domingo, 27 de abril de 2008

LIVRO AFRO-REFLEXÕES


Por: Ulisses Passos. Acadêmico de Direito, Pan-Africanista e Presidente do CNNC/BA. Pseudônimo: Aswad Simba Foluke. E-mail: ulisses_soares@hotmail.com



DESCRIÇÃO
O Livro Afro-Reflexões de Walter Passos é voltado para a resignificação africana, a mudança dos conceitos eurocêntricos e um olhar afrocentrado e panafricanista. Este é, sem dúvida, um importante instrumento para o povo preto na diáspora. Serve como reflexão e introspecção ao pensarmos à nossa ascendência africana.
Com linguagem acessível o livro contém diversas reflexões acerca do dia-a-dia do povo preto. São temas cotidianos vislumbrados com uma nova perspectiva, em que o autor faz uma reflexão sobre a capa dos cadernos dos estudantes, nomes e sobrenomes da família preta, os relacionamentos amorosos, discute o mulatismo, discorre sobre o Cristianismo de Matriz Africana, a esperança da Nova Terra, a mulher preta na Bíblia, o medo das crianças pretas no Brasil, analisando o discurso de dominação e preconceitos entre outros temas de grande relevância.
Um ótimo presente para todas as idades proporcionando momentos de reflexões que mudarão sua perspectiva de enxergar o mundo.

LEIA ALGUNS TRECHOS DO LIVRO AFRO-REFLEXÕES:
O NOVO NOME A NOVA TERRA
“Essa transformação na Nova Jerusalém é um dos motivos da nossa fé, é uma das maiores esperanças da igreja, um dos maiores sonhos onde verdadeiramente todos seremos iguais, sem opressão de gênero, sexismo e racismo. Sem as importâncias intelectuais, onde os títulos obtidos nessa existência de nada valerão, mas, a fé advinda do próprio Deus, o doador da fé que nos foi dada através de Yeshua. O qual nos preparou um lugar antes da fundação do mundo, e esse lugar é a África reconstruída”.

OS MEDOS DAS CRIANÇAS
“As crianças brancas falaram abertamente que não tinham medo do bicho-papão, mas de adolescentes que vivem nas favelas e, com eles, a violência; as crianças negras tinham medo da violência de onde viviam, e uma das meninas negras dizia que os violentos eram da cor epitelial dela. Incrível essas descrições formuladas pelos detentores do saber: as crianças.”

DISCUTINDO O MULATISMO
“A ideologia do branqueamento criou cores epiteliais, estigmatizou os mestiços e assim muitos querem ser aceitos pela sociedade, reprimem e repreendem a sua identidade afro.
O racismo no Brasil foi muito bem elaborado, diferente do que ocorreu no USA aonde o racismo se determina por origem, sua ascendência preta determina se você será ou não discriminado racial, enquanto aqui à cor da pele determina o que nós somos, e o mestiço no Brasil não sabe na verdade o que é, não são culpados.”


SOLIDARIEDADE NA DIÁSPORA
“Nós pretos na diáspora africana perdemos muito do ato solidário através da escravização e forçadamente aprendemos a pensar e agir como os europeus ocidentais que invadiram o continente africano e seqüestraram os nossos antepassados, os escravizando, e nós os seus descendentes, esquecemos muito do referencial solidário vivenciado na África - Mãe e com os nossos ancestrais em terras afro-americanas. Os caucasianos nos ensinaram a olhar o nosso legado cultural com os olhos deles, articular o pensamento com as filosofias européias, como se não tivéssemos conhecimentos filosóficos antes da Europa...”


SOBRE O CRISTIANISMO DE MATRIZ AFRICANA
“A grande questão é a desinformação que o cristianismo é uma religião de matriz africana, isso se deve ao desconhecimento da África, felizmente os mais sérios pesquisadores e panafricanistas, sendo alguns deles seguidores do candomblé já afirmam categoricamente essa verdade: O Cristianismo é de Matriz Africana.
Os europeus se apropriaram do cristianismo e o transformaram em uma religião violenta que entre os seus momentos brancos instituiu as cruzadas, a inquisição, a escravidão dos povos africanos e a destruição de civilizações ancestrais em terras da Oceania e das Américas.”


O AMOR ASSENZALADO
"O homem e a mulher preta precisam se reencontrar fora da senzala e reconstruir no útero do ser preto um novo relacionamento de respeito e amorosidade, lembrando sempre que somos frutos de um amor depreciativo formulado nas senzalas da escravidão. Não estamos mais abandonados e jogados na fétida senzala de amores depreciativos, por isso não devemos ter medo de amar. O amor deve ter início na auto-afirmação do ser preto..."

DADOS TÉCNICOS:
Edição: Independente
Ano: 2008
Número de páginas: 150
Formato: Médio

segunda-feira, 21 de abril de 2008

PENTECOSTALISMO E O DESPERTAR DA AFRICANIDADE

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br
É de suma importância o Movimento Pentecostal, posto que é um fenômeno religioso de amplitude e possuidor em sua maioria de membros pretos. O interessante é que análises simplórias e discriminatórias de estudiosos o colocam diferenciado de outras igrejas protestantes, com análises ermas de dentro para fora e com olhares eurocêntricos e uso de instrumentos metodológicos os quais não permitem compreender valores africanos em sua formação e resistência aos valores europeus originários da Reforma do século XVI.
Toda a minha infância e adolescência foram bipolares, vivendo na Assembléia de Deus e na Igreja Presbiteriana. Quase em frente a casa onde cresci no município de Queimados-RJ ainda há uma grande igreja Assembléia de Deus a qual possuia cânticos alegres, manifestações espirituais de origem africana, com instrumentos não convencionais na concepção reformada e uma plenitude de pretos e pretas.
Quando falamos em consciência e escravização mental nas questões raciais colocamos no bojo todas as religiões praticadas no Brasil, porque parto dessa premissa, não há nenhuma religião no Brasil independente dos graves momentos de aumento de falta de respeitabilidade a cultos de matriz africana, que tenha em sua formação e reuniões de lideres para o combate a discriminação racial de forma organizada, e uma proposta de poder político para o povo preto sendo uma viés o caráter religioso, baseado nos princípios do Panafricanismo.
O mais recente movimento pentecostal nos USA foi um processo de despertar da africanidade, uma negação das concepções brancas de cultos e de valores eurocêntricos litúrgicos e de interpretações da divindade por um pequeno grupo de eleitos que dominam o saber teológico, possível somente pelo passar das faculdades teológicas que permitem entender o sagrado e suas manifestações somente através dos estudos acadêmicos. O pentecostalismo reage a essas concepções do distanciamento de Deus pela necessidade da própria ancestralidade, de sentir e exercer a espiritualidade de uma forma mais parecida com os seus valores ancestrais africanos, e não com a letargia caucasiana de climas gelados e cânticos anglo-saxônicos e germânicos, tornou-se necessário africanizar a Igreja e resistir às pressões raciais da fé reformada européia, tanto assim que o movimento pentecostal surge de maneira abrasiva com “O Chamado Avivamento da Rua Azusa, ocorrido em Los Angeles, nos EUA, há 100 anos, foi um dos mais importantes movimentos evangélicos da história da Igreja. No raiar do século 20, a sociedade americana, impregnada pelo racismo, presenciou uma onda carismática varrer as igrejas do país. E à frente do movimento estava justamente um pastor negro, William Joseph Seymour. De origem humilde, cego de um olho e sem formação escolar, Seymour chegou a ser discriminado na igreja - para assistir aulas numa escola bíblica freqüentada por brancos, ele tinha que se sentar no corredor, enquanto ouvia as explicações através da porta entreaberta da sala.
Após ser expulso de uma congregação afro-americana por pregar a doutrina pentecostal, Seymour iniciou uma série de reuniões inter-raciais em uma residência particular. A medida que a notícia sobre curas e milagres espirituais se espalhou, cresceu também o número de pessoas nos cultos. O grupo então mudou-se para uma estrebaria desativada na Rua Azusa. Ali, pessoas de todo o país e até do exterior vinham presenciar a manifestação do poder de Deus.
Apesar do avivamento, a questão racial provocava situações bizarras. Seymour tinha o cuidado de dispor os bancos em círculo, para que os freqüentadores negros não dessem as costas aos brancos, o que era considerado ofensivo. Como nem todos os crentes brancos aceitavam que o pastor orasse por eles, Seymour, para evitar constrangimentos, costumava ajoelhar-se atrás do púlpito feito com caixas de sapatos e orar dali. Enciumados da liderança espiritual exercida por aquele negro, os outros pastores da cidade passaram a evitá-lo. Seymour não era convidado para pregar nem participar de convenções. Quando ia a um culto, sequer tinha sua presença anunciada. Mesmo assim, William Seymour continuou com a missão da Rua Azusa - que se tornou uma igreja quase toda negra - até sua morte, em 1922".
(Marcos Stefano) Revista Eclésia Edição 108 2005
Azusa Street Revival

No Brasil está resistência continua liturgicamente e de cultos totalmente africanizados nas manifestações espirituais, assista esse vídeo:
VIGILIA DO RETETE NA ASSEMBLÉIA DE DEUS PARTE 3
Já surgem vozes discordantes de lideranças brancas contra as expressões africanizadas dentro dos cultos pentecostais como o pastor Silas Malafaia.
Embora a Africanidade esteja presente nos cultos em que pese a espiritualidade dos participantes, pretos e pretas, uma teologia prática que oferece cura para os problemas espirituais e fisicos, os valores caucasianos ainda imperam no seio das Igrejas Pentecostais, sendo representado em sua maioria pelas lideranças brancas e sua teologia de omissão para as questões raciais.
Os fundadores da Assembléia de Deus no Brasil foram dois suíços que vieram dos USA e sabiam muito bem das questões raciais e se estabeleceram na cidade de Belém, e cria-se uma ruptura na idéia de ser uma igreja nacional sem influências externas, esse movimento cresceu no Brasil alheio ao movimento pentecostal dos pretos nos USA.
Os fundadores da Assembléia de Deus em Belém foram Daniel Berg e Gunnar Vingren.
Nos USA, através dos Spirituals a comunidade preta resistiu e não aceitou ser tratada como mercadoria e surgiram diversas igrejas pretas contestatórias da discriminação racial, através de conceitos teológicos, alguns afrocentrado, e todos com a consciência da vivência na discriminação racial violenta, não significando que todas as igrejas tivessem um conceito não integracionista e seus membros ainda são desejosos de usufruir os valores europeus e se integrar na América Branca.
O Movimento Pentecostal no Brasil não discute as questões raciais,os membros de maioria preta são embranquecidos mentalmente ,outrossim, é incontestável o grande paradoxo da dominação e escravização mental, não podemos especialmente considerar a Assembléia de Deus a maior religião negra do Brasil, por negar a negrura nos sentidos psíquicos e sociais, na demonização da ascendência africana,na repulsa as culturas ancestrais e na prática teológica branca.São igrejas como ponta-de-lança de um problema ainda maior, da não resignificação simbólica da fé e da negritude e ao mesmo tempo de maior aceitação da comunidade afro-diásporica no Brasil.
A história do moderno pentecostalismo nos serve de arcabouço para entender e pontuar como igrejas de milhões de membros pretos no Brasil não assumem um questionamento da problemática racial e discriminação da maioria de seus fiéis, os colocando fora da própria realidade, como vivessem dentro de um paraíso racial, contrariamente ao Movimento pentecostal nos Usa que na sua formação teve a necessidade de separação pela discriminação racial e a fé Pentecostal assumiu uma nova postura teológica e levantou lideranças para o combate a discriminação racial.
É interessante pontuar também que nenhuma grande denominação protestante brasileira discute o racismo seriamente, e nesse ponto, todas podem ser comparadas aos pentecostais. Não temos nenhuma denominação que seja capaz de liderar e consiga reunir dentro do seu próprio grupo um grande encontro, nem cerca de 30 pastores para intervir diretamente e propor mudanças reais. As igrejas protestantes são omissas e quanto mais ”intelectualizadas” mais embranquecidas,os pretos(as)que chegam ao pastorado ensinam os padrões teológicos e litúrgicos caucasianos mantendo a mesma situação de inércia acerca da questão racial,e denominações que possuem pastorais para enfrentamento da discriminação racial os membros pedem permissão e prestam relatórios as suas lideranças brancas, as quais permitem ou não tomadas de atitudes, e outros grupos são orientados por pastores brancos os quais consideram o CNNC radical quando afirmamos a necessidade de discutirmos e planejarmos os nossos próprios caminhos.Incrível que pareça a couraça de ser anti-africano se torna mais evidente nas igrejas não pentecostais, do outro lado dentro de todas as denominações há contestações isoladas.
No Brasil, no caso especifico das Assembléias de Deus, já surgem vozes que ensaiam discutir as questões raciais: jovens seminaristas e membros que já participam do Movimento Negro timidamente e ativamente nas lutas pela terra em diversos quilombos evangélicos. No blogger do CNNC/BA foi postado um artigo de uma jovem do Paraná da Assembléia de Deus que faz um questionamento. Leia o artigo NEGROS CRISTÃOS NO SUL DO BRASIL
Uma seara de esperança surge com essas vozes, para a resignificação dos membros das Igrejas Pentecostais, e mais além de toda a Igreja de Yeshua: o redescobrimento com sua ancestralidade africana e a resistência contra a discriminação racial, nas bases do Panafricanismo e surgimento de uma Teologia Preta.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

AFRICANAS AS PRIMEIRAS MATEMÁTICAS – ISHANGO A MENSTRUAÇÃO E A MATEMÁTICA

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista . Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: kefingfoluke@hotmail.com
Facebook: Walter Passos

A todo o momento as mentiras europocêntricas são desmitificadas com as descobertas das civilizações africanas, e atualmente o véu é rasgado e novas luzes surgem sobre os primeiros saberes do planeta no berço de todas as ciências: África. Nos estudos do livro de Levítico é deveras interessante todo o direito normativo que orienta o povo hebreu, especificamente sobre a concepção de proibições às mulheres referentes à menstruação, encontrado no capítulo 15. O sangue menstrual nas sociedades primitivas foi motivo de diversas especulações e rituais que elevaram às mulheres à condição de detentoras do poder mágico do sangue, da maternidade, da perpetuação do grupo clânico, e a serem divinizadas e formarem as primeiras sociedades matriarcais e matrilineares.

A chegada da menstruação em uma das sociedades mais antigas do planeta, os BaMbuti no Congo, é motivo de festa chamada “Elima” onde todos da comunidade participam, porque é a menstruação como "ser abençoado pela Lua"
A necessidade de pensar numericamente fez com que os primeiros agrupamentos humanos do planeta criassem métodos e instrumentos matemáticos, por muito tempo os eurocêntricos forçaram que a ciência matemática surgissem entre os povos europeus, sendo desmascarados a todo o momento com as construções dos egípcios e dos núbios. Assim mesmo, os estudiosos paravam os seus estudos no nordeste da África, na civilização egípcia, bem anterior a civilização grega que teve como base do seu conhecimento filosófico e cientifico os povos africanos.

Quando as novas descobertas arqueológicas provam a todo o momento que bem antes do Egito, civilizações do Centro e Sul da África detinham conhecimentos avançadíssimos, os quais tem deixados os cientistas caucasianos perplexos, se tornam fruto de ignorância para os historiadores desconhecer civilizações primevas e de grande potencial tecnológico e cientifico. Infelizmente, na academia brasileira, os historiadores, e fora delas, os contestadores do saber acadêmico, como alguns militantes pretos, não conhecem a civilização egípcia e nem a núbia, e baseiam seus ensinamentos em algumas regiões que foram mutiladas pelos seqüestradores europeus, como se assim, possam falar da África. O continente-mãe tem que ser estudado com uma concepção abrangente e seguindo não somente a rota escravagista do Atlântico, mas a rota africana em direção a todos os continentes, nas diásporas voluntárias para o povoamento do planeta.

Os saberes africanos assustam os caucasianos e eles escrevem livros que pairam no ridículo ao afirmarem que foram extraterrestres que construíram ou ensinaram as grandes construções africanas. Incrível, a criatividade e devaneios só para negar os saberes das primeiras civilizações.
As primeiras sociedades africanas seguiam o calendário lunar que foi repassado mundialmente através das diásporas voluntárias no povoamento de todos os continentes. A importância da lua e suas fases ainda são observadas em diversas culturas pelas mulheres no que tange ao ciclo menstrual, quando citei acima o livro de Leviticio no capítulo 15- 19-33.

19 Mas a mulher, quando tiver fluxo, e o seu fluxo de sangue estiver na sua carne, estará sete dias na sua separação, e qualquer que a tocar, será imundo até à tarde.
20 E tudo aquilo sobre o que ela se deitar durante a sua separação, será imundo; e tudo sobre o que se assentar, será imundo.
21 E qualquer que tocar na sua cama, lavará as suas vestes, e se banhará com água, e será imundo até à tarde.
22 E qualquer que tocar alguma coisa, sobre o que ela se tiver assentado, lavará as suas vestes, e se banhará com água, e será imundo até à tarde.
23 Se também tocar alguma coisa que estiver sobre a cama ou sobre aquilo em que ela se assentou, será imundo até à tarde.
24 E se, com efeito, qualquer homem se deitar com ela, e a sua imundícia estiver sobre ele, imundo será por sete dias; também toda a cama, sobre que se deitar, será imunda.
25 Também a mulher, quando tiver o fluxo do seu sangue, por muitos dias fora do tempo da sua separação, ou quando tiver fluxo de sangue por mais tempo do que a sua separação, todos os dias do fluxo da sua imundícia será imunda, como nos dias da sua separação.
26 Toda a cama, sobre que se deitar todos os dias do seu fluxo, ser-lhe-á como a cama da sua separação; e toda a coisa, sobre que se assentar, será imunda, conforme a imundícia da sua separação.
27 E qualquer que a tocar será imundo; portanto lavará as suas vestes, e se banhará com água, e será imundo até à tarde.
28 Porém quando for limpa do seu fluxo, então se contarão sete dias, e depois será limpa.
29 E ao oitavo dia tomará duas rolas, ou dois pombinhos, e os trará ao sacerdote, à porta da tenda da congregação.
30 Então o sacerdote oferecerá um para expiação do pecado, e o outro para holocausto; e o sacerdote fará por ela expiação do fluxo da sua imundícia perante o SENHOR.
31 Assim separareis os filhos de Israel das suas imundícias, para que não morram nas suas imundícias, contaminando o meu tabernáculo, que está no meio deles.
32 Esta é a lei daquele que tem o fluxo, e daquele de quem sai o sêmem da cópula, e que fica por eles imundo;
33 Como também da mulher enferma na sua separação, e daquele que padece do seu fluxo, seja homem ou mulher, e do homem que se deita com mulher imunda.

Podemos observar uma seqüência de abstinência sexual e de práticas rituais dirigidas por homens, os sacerdotes, em ofertas de holocausto em sentido purificatório, mostrando uma mudança do que era considerado puro se transformando em imundo na sociedade patriarcal dos hebreus.

Ao longo dos milênios, as mulheres têm desaprendido a arte de menstruar, de fluir com a vida. Nas sociedades tribais, a menarca, o início do fluir do sangue, era celebrada com um rito de passagem, auxiliando a menina a realizar sua entrada para o reino do mana: o poder sagrado transmitido pelo sangue e que tanto podia dar como tirar a vida. Além de apaziguar o poder destruidor, o rito tinha como função auxiliar a menina a entender sua condição física e sua relação com a função procriadora da natureza. Ainda uma criança em espírito e condição social, a partir de suas regras, a jovem deve assumir o comando de sua vida. Sem ritos de passagem, o que temos para oferecer às nossas meninas, que as ajude a transformar e assumir sua nova identidade?

http://www.vadiando.com/textos/archives/000744.html

Ouvia sempre da minha falecida mãe e das “antigas” que não se devia ir ao candomblé mulher menstruada, uma espécie de proibição que na época, ainda criança não me interessava muito, mas sei que há proibições (quizilas) no cozimento de alimentações ritualísticas e oferendas proibitivas a participação de mulheres menstruadas.

A necessidade de numerar e entender a menstruação fez com que fosse criado um instrumento no centro da África entre 25.000 a 20.000 mil anos, denominado de Ishango.



The Ishango Bone



Descoberto no ano de 1950, pelo geólogo belga Jean de Heinzelin e uma equipe de pesquisadores ao realizar escavações no Congo, próximo às margens do lago Rutanzige (antigo lago Alberto), quando procuravam uma grande civilização pré-histórica nessa região vulcânica,
o geólogo encontrou esse precioso objeto de 10 cm de comprimento, ornado com um cristal de quartzo em uma extremidade e que trazia três séries de entalhe agrupados. O cristal de quartzo que não pode ser separado do instrumento comprova que era usado para a gravação, em culturas que se acreditavam não ter o conhecimento da escrita.
O que chamou a atenção dos estudiosos foram à datação, o ineditismo e o uso matemático do instrumento.
Conforme Dirk huylebrouck: “O BASTÃO COMPORTA uma primeira coluna de entalhes unidas em pequenos grupos: de 3 a 6 entalhes; 4 e 8; 10; 5; e, finalmente, 7 entalhes. Duas outras colunas são constituídas por grupos de 11, 21, 19, 9 e 11, 13,17 e 19 entalhes.
Heinzelin via nesses entalhes um jogo aritmético: uma operação de duplicação dos números aproximada na primeira coluna, seguida do “ritmo” de 10=1, 20=1, 20-1, 10-1 e, na seguinte, os números primos entre 10 e 20. Contestado em 1972 pelo jornalista americano Alexander Marshack que afirmou que o bastão era um calendário lunar, porque a soma de cada uma das duas últimas colunas (11, 21, 19,9e 11, 13, 17,19) o resultado é 60, isto é, dois meses lunares, e a primeira coluna totaliza 48 traços, ou um mês e meio lunar. O que deixou os estudiosos caucasianos perplexos foi que o bastão de Ishango é uma prova inconteste que os africanos já realizavam cálculos matemáticos 15 mil anos antes dos egípcios e 18 mil anos antes do surgimento da matemática na Grécia.


Coluna esquerda



Coluna do centro


Coluna direita

Na antigüidade o ciclo menstrual da mulher seguia as fases da lua com tanta precisão que a gestação era contada pelas luas. Com o passar dos tempos, a mulher foi se distanciando dessa sintonia e perdendo, assim, o contato com seus próprios ritmos e seu corpo, fato que teve como conseqüências vários desequilíbrios hormonais emocionais e psíquicos.
http://mulheresedeusas.blogspot.com/2008/01/lua-vermelha-da-menstruao-na-antigidade.html
Nos estudos da etnomatematica, observa-se que as primeiras comunidades tiveram a necessidade transcedental, criativa, objetivando a sobrevivência e a prosperidade grupal e o Ishango foi um instrumento que as mulheres africanas criaram através da observação da sua sexualidade e o calendário lunar adquirindo o conhecimento matemático para gerir e acompanhar os ciclos menstruais. Assim, o calendário lunar, não teria sido apenas métodos de conservação de tempo, mas também reflexiva da ressonância entre as fases da lua e do sagrado ciclos menstruais das mulheres.
Leia mais: http://paje.fe.usp.br/~etnomat/anais/CO01.html

African Mathematics Ma'at Techniques The Thoth Process


As mulheres africanas e suas descendentes são o fruto da criação original de YAH, detentoras de conhecimentos milenares e de saberes equilibrados, possuindo a nobre missão de resgatar e manter através dos conhecimentos uma sociedade igualitária, onde a opressão do gênero masculino sobre o feminino, seja a cada dia questionado; e através do afrocentrismo e panafricanismo um sonho de perfazermos uma sociedade sem opressores e oprimidas.

domingo, 13 de abril de 2008

Martin Luther King, Jeremiah Wright e Barack Obama – Profecia e Esperança


Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: kefingfoluke@hotmail.com

No fundo, tanto a segregação nos Estados Unidos quanto o colonialismo na África foram baseados na mesma coisa: superioridade branca e desprezo pela vida.
Martin Luther King Jr.

Existe toda uma mídia contra os militantes pretos que falam a verdade, e agem com voz profética para dirimir as dúvidas do grande engodo mundial que estamos próximos a era do aquário, e todos viverão bem e o racismo já é uma falácia e caminhamos para uma grande superação. Barack Obama traz em muito de suas falas uma nova concepção de paz e crescimento dentro dos USA para todas as cores epiteliais, usando o exemplo de sua ancestralidade, filho de um preto africano do Quênia e de uma branca norte-americana criado com uma avó branca, e é casado com uma mulher preta. Na sua concepção o discurso antigo não deve ser repetido como se entrássemos em uma área de aquários. Obama referindo à comunidade branca disse:
-“Na comunidade branca, o caminho para uma união mais perfeita significa reconhecer que os problemas da comunidade negra não existem apenas na cabeça dos negros; que o legado da discriminação --e incidentes atuais de discriminação, embora menos escancarados do que no passado-- existe e precisa ser corrigido. E não apenas com palavras, mas por meio de fatos --investimento em nossas escolas e comunidades, defesa dos direitos civis e de julgamento justo nos tribunais criminais...”
Seu pastor Jeremiah Wrigth em discursos proféticos alertou que os ataques terroristas de 11 de novembro foram às conseqüências das práticas genocidas da América contra os palestinos, na África do Sul sendo vítima do seu próprio terrorismo. Defensor e praticante da Teologia Negra de Libertação, o reverendo mostrou que nem tudo que reluz é ouro e em dezenas de sermões alertou a realidade de uma América racista. A grande censura ao Reverendo Jeremiah é porque ele é um afrocentrado, um defensor da família preta e não um eurocêntrico.
A mídia atacou Obama por ser membro de uma igreja afrocentrada e ter por pastor um militante preto. E foi um momento impar para atacar as igrejas pretas nos USA e a Teologia Negra. Obama teve que retrucar, mas, ele sabe que o seu pastor não mentiu e sabemos nós que caso ele seja escolhido e venha a ganhar a presidência os USA continuarão com a sua política imperialista no mundo através dele. Qualquer presidente dos USA representará os interesses de dominação mundial, independente de cor epitelial.
O sermão não agradou aos brancos e nem os pretos que acham que os problemas foram superados, não somente nos USA; também no Brasil. Os que concordaram com o reverendo são considerados radicais, anticristãos e procurando problemas onde não existe. O racismo acabou! Dizem eles, ou está em fase de superação. Por que colocar sal e vinagre nas feridas que já estão fechadas? Nos dizeres de Barack Obama:
- “Mas asseverei minha forme convicção --enraizada em minha fé em Deus e no povo dos Estados Unidos-- de que trabalhando juntos seremos capazes de curar algumas de nossas velhas feridas raciais, e que de fato não nos resta escolha se desejamos continuar no caminho de uma união mais perfeita”.
Novamente a vítima se torna algoz e nós, povo preto, fazemos o impossível “Racismo ao contrário”. Nós somos os culpados da escravidão. Nós somos os culpados da pobreza. Nós somos os culpados da violência. Nós, e somente nós, somos os culpados de nossas mazelas. Nós que escolhemos viver uma vida subumana nas periferias e guetos. Nós e nós. Nada eles fizeram. Nós fizemos tudo e hoje teríamos que sorrir e viver felizes agradecendo aos descendentes dos que seqüestraram os nossos ancestrais as migalhas atiradas ao chão. Nós que não queremos aprovar o “Estatuto de Igualdade Racial”. “Nós” que votamos em partidos como o DEM que quer acabar com a migalha das cotas e do Prouni. Nós e Nós somos mal agradecidos porque recusamos a esquecer o passado de violência e o presente de exclusão.
A grande questão é que o Afrocentrismo tem demonstrado o bem civilizatório das populações pretas no planeta, a amorosidade, a criação de todas as tecnologias e ciências. Não foram os povos pretos que jogaram bombas atômicas e invadiram territórios equilibrados para escravizar e se apropriar de riquezas de outrem; e as nações caucasianas e aliadas tentam destruir o planeta com a destruição da biodiversidade como se daqui não fizessem parte.
Há 40 anos ocorreu o assassinato de Martin Luther King Jr, um dos maiores líderes pretos contemporâneos. Ainda hoje, suas frases são repetidamente citadas por membros de diversas religiões, cores epiteliais e filosofias distintas. Na campanha presidencial nos USA é um referencial aos candidatos democratas, especialmente Barack Obama.
Dentro da história e militância preta há aqueles que admiram o método integracionista e pacifista usado por ele, outros discordaram. Independente dos posicionamentos, Martin Luther King Jr incomodou a América Branca e se tornou exemplo de dedicação e luta para o povo preto em todo o mundo.

No Brasil, as Igrejas pouco falam e se omitem sobre a vida de King. Posso afirmar, pois, cresci em igreja protestante e nunca ouvi em sermões dos pastores pretos e brancos nada sobre a luta deste pastor nos USA, nem de colegas de seminário. Na verdade, os pastores pretos foram bem domesticados por missionários dos USA e por pastores brancos brasileiros que não aceitam a realidade de discriminação racial na sociedade brasileira. A conseqüência é não desejarem conhecer a vida de King para o não comprometimento com a questão racial que assola ao Brasil. Omitir e não comentar nas igrejas é não se envolver com a luta da justiça entre todos os homens e mulheres. No dia 04 de abril li diversos jornais online de denominações protestantes e nada encontrei. Por que será que os grandes meios de comunicação protestante brasileiro omitem Martin Luther King? Por que as faculdades de teologia e seminários não organizaram semanas para discutir o seu legado? Por que os Colégios protestantes não fizeram gincanas de solidariedade inspirados sobre a sua vida? Por que a juventude preta de todas as igrejas o ignora?
- Omissão e descompromisso com a realidade de 15 milhões de pretas e pretos no Brasil, covardia dos pastores pretos e pretas protestantes em lutar contra o racismo nesse país e a denunciar dentro de suas igrejas e estruturas denominacionais a situação de prisão mental que vive a comunidade preta.
- Repetidores e repetidoras de teologias dogmáticas escravizadoras, anunciadores de céu e inferno, descompromissados com o bem comum do seu povo tornando-se embaixadores e embaixatrizes dos mais estranhos interesses de teologias caucasianas
Para a meditação de Bispos, Bispas, pastores, pastoras, presbíteros, presbíteras, diáconos, diaconisas, missionários, missionárias, obreiros e obreiras deixo-vos duas frases de Martin Luther King Jr:
- Não há nada mais trágico neste mundo do que saber o que é certo e não fazê-lo. Não posso ficar no meio de todas essas maldades sem tomar uma atitude.
- Por mais que eu deteste a violência, existe uma mal pior do que a violência: a covardia.
Na sua época Martin Luther King Jr. foi um radical e após 40 anos de sua morte ele é um símbolo da paz e fratrernidade para brancos e negros. Grande inspiração para Obama. Mas, esse simbolismo de paz na concepção de muitos brancos é que a população preta aceite passivamente as poucas reformas que o poder branco oferece, isso faz com que o sonho de Martin Luther King tenha se transformado um pesadelo, discorro sobre esse sonho-pesadelo no livro que lançarei ainda este mês: Afro-Reflexões.
Na campanha presidencial dos USA a mídia caucasiana ataca veementemente o Reverendo Jeremiah Wrigth porque afirmou que as feridas feitas pela escravidão, pelas racistas leis do Jim Crow e da atual exclusão da população preta estavam abertas. Palavras verdadeiras incomodam e ele seguidor de Yeshua que não se conformou com a situação de exploração do poder romano e da covardia dos sacerdotes, os chama de “raça de víboras e sepulcros caiados”.
E nas palavras de Barack Obama:
-“Não posso renegá-lo porque não posso renegar a comunidade negra”
Refletindo o anseio maior dentro da comunidade preta: as palavras do Reverendo Jeremiah Wright. O discurso não podia ser diferente como líder religioso experiente e comprometido com a população preta, ele tinha duas opções: omitir-se, esquecer os ensinamentos africanos de Yeshua e renegar seu povo ou alertar a sua igreja sobre as grandes mentiras preparadas para a comunidade preta nos USA, fazê-la enxergar a situação atual de 25% da sua população atrás das grades, dos problemas do Furucão Katrina, que para muitos pretos americanos foi um atentado, pela segregação racial ainda vigente, pela pobreza , drogas, Aids e todos os males que afetam os pretos e pretas. Ele tinha que ser um profeta ou um sacerdote. Ele optou para ser um profeta e denunciar as mazelas da sociedade racista da America. O profeta é aquele que está acima da instiutição religiosa e se preocupa em denunciar a verdade e isso o Reverendo Jeremiah fez e com muita praticidade; amigo de Farrankhan e com sua concepção panafricanista consegue superar as diferenças religiosas em prol do desenvolvimento e da verdadeira liberdade; colocou o poder americano em cheque-mate e podemos concluir que todos os questionamentos do reverendo Jeremiah demonstra que após 40 anos da morte de King; os brancos não permitem que as crianças dêem as mãos e subam fraternalmente as montanhas da Georgia.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

A GRANDE NANNY QUILOMBOLA - A MÃE DA JAMAICA

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: kefingfoluke@hotmail.com


Introdução
Ministrando aulas aos estudantes sempre reitero as mentiras dos livros didáticos, ratificando que todo o cuidado é pouco com a história oficial escrita, pois foi organizada para atender as elites brancas desse país. Alguns desses aspectos são interessantes: a omissão da resistência do povo preto ao lado da negação da formação civilizatória africana com todas as suas conseqüências e a fixação de explicar toda a história somente através das lutas de classes onde o povo preto é colocado como mais um entre os explorados aonde a concepção classista torna-se reducionista negando a problemática racial.
Infelizmente a maioria de educadores e educadoras de colorações epiteliais cheias de melanina é descompromissada com a descoberta da verdade, meros repetidores dos ensinamentos eurocêntricos e de professores oriundos da classe dominante que ridicularizam as resistências africanas e na diáspora. Cabe a nós, povo preto, o dever de desmitificar a história e suas linguagens que servem para escravizar e manter os afro-diásporicos com sentimentos de inferioridade. Cabe a você irmão e irmã a responsabilidade também da procura das verdades escondidas e perfazer o legado roubado do povo preto no mundo.
A reconstrução desse legado tem nas mulheres pretas grandes exemplos, senão os maiores, estas que são as mais belas do planeta e foram os ícones e representações de deidades nos primórdios civilizatórios em todos os anais da história mundial. Necessário é ressaltar que ao nos defrontarmos com os estudos afrocentrado, notamos que não é mera mudança semântica ou simplesmente a criação de mais um ismo, no devir histórico o Afrocentrismo, mas, a verdade que se revela por si mesma e nestas revelações afrocêntricas a cada dia a presença da mulher preta no desenvolvimento da humanidade, na quebra de paradigmas veiculados pelo eurocêntrismo baseadas na meia-verdade e na divulgação de machismos e achismos, na construção de uma história machista e branca onde a mulher é colocada como coadjuvante e simples ventre reprodutor, as recentes descobertas de escavações em todo o planeta de civilizações pretas comprovam poderosas civilizações matrilineares e matriarcais. Não se pode falar em Afrocentrismo e Panafricanismo sem resgatar a participação das nossas ancestrais como grandes líderes em terras afro-asiáticas e nas lutas de libertação na escravidão, na formação de identidades étnico-culturais e de novas nacionalidades na diáspora. Continuo afirmando que a concepção da não participação das mulheres nas decisões são concepções ocidentais e machistas. Ainda hoje o poder matriarcal é exercido em cultos de origem africana em muitos locais da diáspora representando através do simbolismo diferenças profundas do poder patriarcal ocidental e branco, onde as mulheres não passam de simples auxiliadoras.


A Grande Nanny
A Jamaica um país que é pouco conhecido no Brasil especialmente pela sua localização geográfica - terceira ilha em extensão no Caribe, menor do que Cuba e Hispanhola - e também da diferença lingüística. A maioria da população brasileira quando se fala em Jamaica entende como se fosse somente terra do reggae e de Bob Marley, desconhecendo a história da resistência dos pretos e das pretas jamaicanas.
A história da resistência dos pretos jamaicanos inicia com os primeiros seqüestrados do continente africano que fugiram dos navios em 1512 e se embrenharam nas florestas jamaicanas, iniciando o movimento de resistência “maroon”, em língua portuguesa é conhecido como mocambo, quilombo ou cafundó. A população jamaicana tem na pessoa da Grande Nanny, mulher preta e guerreira, seu maior ícone nacional, maior do que Zumbi dos Palmares no Brasil, ao passo que este fora incluído como herói nacional do povo preto somente nas últimas décadas por lutas do Movimento Negro, não sendo ainda consensual para as elites brancas brasileiras a sua inclusão, assim elas o fazem para não modificar a sua história embranquecida, omitindo a resistência do povo preto e a desqualificando, incorrendo no meu protesto e desabafo nos artigos escritos neste blogger: BRANCOS QUILOMBOLAS EM PALMARES: ROMANTISMO E MENTIRAS! e É NECESSÁRIO RESPEITAR NOSSAS MEMÓRIAS - QUILOMBOS E CRISTÃOS-NOVOS NO BRASIL NUNCA FORAM ALIADOS.
Fatos estes não ocorridos com Nanny: A Rainha Preta da Jamaica. Esta guerreira africana provavelmente nasceu entre os povos ashanti e veio de uma família nobre de guerreiras africanas, no nosso blogger discorremos sobre outra guerreira ashanti que convocou os homens para a guerra contra o invasor europeu, após os mesmos terem se acovardado: YAA ASANTEWAA: A RAINHA GUERREIRA ASHANTI e AS GUERRREIRAS DO DAOMÉ- A RESISTÊNCIA DA MULHER AFRICANA CONTRA O INVASOR FRANCÊS
Os documentos históricos sobre Nanny relatam a sua presença, conforme Deborah Gabriel, somente quatro vezes e de formas depreciativas, evidente que os documentos foram escritos pelos escravizadores britânicos. O seu nascimento ocorreu provavelmente em 1680 no povo Ashanti e a sua morte data de 1730, foi casada com Adou e não teve filhos. Em alguns relatos históricos Nanny não aceitou a escravização e quando desembarcou liderou a fuga e com mais cinco irmãos foram para as montanhas azuis e fundou a Nanny Town, liderando a guerra contra os britânicos por quase 50 anos.
A opressão dos escravizados na Jamaica na plantação da cana-de–açúcar transformou essa ilha como um dos maiores exportadores.

As revoltas dos quilombolas jamaicanos (marrons) foram intensas de 1655 até 1830, com um suporte religioso considerável de práticas africanas ancestrais, de respeito a memórias dos antepassados, perfazendo um grau elevadíssimo de auto-estima em ser africano em uma diáspora forçada. Os escravizados africanos na Jamaica são considerados por alguns historiadores como grandes revoltosos.
A luta de Nanny e sua liderança dos marrons foram de enfrentamento ao exército britânico baseada em confrontos de estratégia de guerrilhas, facilitadas por causa das cidades marrons situadas nos altos de montanhas como o caso de Nanny Town. Nanny era uma líder espiritual, uma zeladora do Obeah, religião de matriz africana praticada na Jamaica. O Obeah é também praticado em Suriname, Jamaica, Ilhas Virgens, Trinidad e Tobago, Guiana, Belize, Bahamas, St. Vicente e Granada, Barbados e em muitos outros países do Caribe. A religião dava forças nas lutas dos marrons contra representantes de uma religião européia deformada que escravizava e tirava a dignidade da liberdade. Nanny foi uma conhecedora das ervas e uma líder nata que dava aos guerreiros e guerreiras confiança que poderiam viver livres e vencer o inimigo.
No ano de 1994 o estado jamaicano homenageia Nanny com uma nota de 500 dólares jamaicanos. No Brasil o grande líder Zumbi nunca foi homenageado em nenhuma cédula nacional, porque para as elites e sua historiografia ele foi simplesmente um escravizado revoltoso e não é interessante o estado corroborar histórias de pretos e pretas que lutaram pela liberdade. Inclusive é espantoso que na cidade de Salvador o dia 20 de novembro ainda não seja feriado municipal, e é o momento político que nas próximas eleições municipais tenhamos Olívia Santana e Luís Alberto para candidatos a prefeito da cidade mais preta desse país.

A grande Nanny é um dos exemplos de resistência que devemos ensinar para as nossas crianças e para nossa militância. A rainha Nanny não é um exemplo somente para a Jamaica e sim de toda a Afro-América e continua através da oralidade mantendo viva a chama da liberdade.

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