
Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos.Pseudônimo: Kefing Foluke. E-mail: kefingfoluke@hotmail.com
“Hoje, vejo a necessidade de nós pretos sairmos da invisibilidade e descobrirmos a África abençoada dos nossos ancestrais dentro de nós”. Walter Passos.
Incrível que pareça, ainda há no seio do protestantismo nacional, grupos que discipulam jovens para se tornarem missionários na África. Quais são as motivações desses jovens de todas as cores epiteliais a sentirem-se comovidos para as missões em território africano? Que continente é este que precisa de missões cristãs? Por que jovens pretos se alistam nesses grupos missionários?
São perguntas que surgem em minha mente. Quando criança também desejava ser um missionário no continente africano, abandonar minha família, envolver-me no mato - palavra incorreta e medonha para designar floresta, essa nossa língua brasileira tem cada uma: mato,mata, significando floresta, depois dos portugueses matarem a floresta na sua colonização insana, o nome ficou, fixou-se até interessante, floresta como sinônimo de mato e mata. Começou com os portugueses matando florestas e índios, tendo como conseqüência o “matamento” e destruição do ecossistema brasileiro, fato esse também não discutido nas igrejas. Da mesma forma o vocábulo “desmatamento”, porque partindo dessa ótica tratar-se-ia da retenção da destruição das florestas, do término do “matamento” da flora, e não como é empregado, no sentido antônimo, de destruição, aniquilação da mesma.
Voltando a idéia das missões, eu sonhava em ir para a África pregar a verdade aos negros africanos. Eu os considerava atrasados e dignos de pena. Lia gibis de Tarzan, homem branco criado por macacos que era superior a todos os africanos, além disso, ouvia relatos de missionários que chegavam do continente africano. Eu achava interessantes esses relatos missionários, e em qualquer igreja da minha cidade quando chegava um missionário (a) eu queria ouvir para entender as missões.
Os nossos hinários falam em missões e de um Cristo que deixou de ser o Príncipe da Paz para se tornar um General, Capitão, um Senhor da Guerra. Há um hino escrito por Henry Maxwell Wright (1849-1931), bastante conhecido e cantado dentro de grandes Igrejas históricas, “O Pendão Real”, hino oficial da IPI – Igreja Presbiteriana Independente, que dá cores aos batalhões inimigos:
“Eis formado já os negros batalhões
Do grande usurpador
Revelai-vos hoje bravos campeões,
Nas hostes do Senhor ”.
A idéia da escuridão está presente no hino “Igreja Alerta” e essas próprias nações estão solicitando missionários, conforme o autor A. J. Rodrigues da Silva.
“Queremos luz” é o grito das nações pagãs,
Que vem atravessando o imenso mar,
Ir já, pregar as Boas-Novas de perdão,
Sem esquecer também aqui de semear.
No hino “Marchemos, Sem Temor”, o autor Robert Hawkey Moreton (1844-1917) torna Jesus o Senhor da Guerra:
“Vamos com Jesus, e marchemos sem temor
Vamos ao combate, inflamados de valor;
Eia, pois! Lutemos todos contra o mal;
Em Jesus nós temos grande general”.
A maioria dos protestantes brasileiros se transformou de Embaixador do Reino de Deus para ser soldado de Cristo e guerreiro do Exército do Senhor, sendo assim há necessidade de uma guerra santa dentro do continente africano, através das missões, para dominar religiosamente o que estava dominado politicamente através das armas e da guerra, e essa guerra santa continua através das missões. Há de fazermos algumas reflexões sobre essa visão não realista do continente africano.
Os interesses dos países de manterem a dominação africana continuam de formas mais elaboradas e sabendo nós que essas missões ainda são continuidade dos primeiros missionários americanos e europeus, com suas concepções de desprezo às culturas nativas. Atualmente há uma globalização litúrgica e de conceitos teológicos que nada têm com o evangelho de Nosso
Senhor Yeshua, outrossim, conceitos eurocêntricos de branqueamento desses países, além do mais, são retiradas ofertas para manutenção de jovens que se deslocam para o continente africano, e estas ofertas saem do trabalho suado de membros descendentes de africanos, que já somam milhões no Brasil, mas, infelizmente não são membros de maioria preta, porque estão branqueados teologicamente e culturalmente, menosprezando e negando a sua origem africana, porque ser preto na diáspora é entender o seu processo histórico e não se envergonhar do seu passado ancestral e não combater as suas origens, tornando-se instrumentos de tentativas de aniquilamento cultural do nosso próprio povo. Seguir o Evangelho de Yeshua não é combater expressões culturais milenares.
Tenho certeza que as nossas preocupações devem ser voltadas para a realidade nacional, de quase a metade da população brasileira que é Preta, conforme os últimos censos, e as igrejas deveriam se voltar para as questões da comunidade preta, investir recursos na melhoria dos membros pretos de suas igrejas, intervirem como Igreja nos graves problemas sociais nos quais vivemos e somos esquecidos, permitir que jovens pretos freqüentem suas escolas burguesas e o acessem a educação planejada para as elites brancas desse país. Torna-se necessário tirar as vendas dos olhos dos líderes religiosos que vêem a África como símbolo do mal e necessitando urgente de evangelização branqueada. Urge a necessidade de sentar com esses jovens e explicar que a colonização ocorrida no continente africano foi baseada na violência e no extermínio de milhões de pessoas, sendo esse assunto da mais alta relevância ao notarmos exemplos como o antigo Congo Belga, atual República Democrática do Congo, sendo maior que a própria Bélgica. A Grã-Bretanha desejava unir a cidade do Cabo na África do Sul à cidade do Cairo, no Egito. A França dominou todo o Magreb e outras regiões africanas, como a Costa do Marfim e o Senegal, terra dos meus ancestrais maternos. Portugueses católicos são culpados da situação de extrema pobreza de Moçambique, e retiraram tudo que puderam de Angola, da Guiné-Bissau e outras regiões africanas. Houve uma “mata” nas florestas tropicais e subtropicais da África, uma destruição das savanas, um quase aniquilamento da fauna e um violento ataque às culturas desses países, concomitantemente a demonização de culturas ancestrais. 
Foi à cristandade com uma idéia deturpada de Cristo- General que devastou o continente africano e enriqueceu os países colonialistas e neocolonialistas, que seqüestraram os seus filhos e filhas para a América.
Hoje, eu vejo a necessidade da igreja combater os graves problemas que sofremos na sociedade brasileira e se voltar para dentro de si mesma e ver que a África está aqui com seus representantes sentados e esquecidos nos templos lotados.
Hoje devemos exigir das Igrejas o respeito à memória e ao continente africano que foi sucatado e sangrado, olhando os seus filhos na diáspora dentro do continente americano. Hoje vejo a necessidade de se criar uma nova discussão teológica dentro dos seminários e das escolas bíblicas dominicais, com uma nova pedagogia baseada em livros e conceitos afrocentrados, de novos livros teológicos que não sejam meras interpretações de realidades alemãs, inglesas e norte-americanas, os quais brilhantes pastores negros repetem conceitos de Rudolf Bultmann, Paul Tillich, Dietrich Bonhoeffer, Louis Berkoff, Oscar Cullmann, Rubem Alves e tantos outros e posam como intelectuais na teologia, e infelizmente nada sabem de sua ancestralidade e nem o nome das bisavós maternas e paternas, e ignoram a história do seu povo como que eles não existissem. Desconhecem a história das primeiras comunidades africanas cristãs que surgiram antes do Cristianismo Romano e ojerizam o conhecimento ancestral da Mãe-África, a sua musicalidade e concepções maravilhosas de Deus que se revelou através de Yeshua, o Cristo. Mas são meros defensores da teologia alemã e seus teólogos, de confissões inglesas, dos conceitos liberais, fundamentalistas ou conservadores nos Estados Unidos, e acabam tendo propostas evangelicais para os negros brasileiros e africanos. Na verdade conseguem ter conceitos caucasianos e defendê-los melhor do que os seus autores.
Que as igrejas também discutam a lei 10.639 e através dessa lei sejam quebrados os preconceitos criados pela sociedade e reforçados pelas igrejas referentes aos africanos e seus descendentes no Brasil
Hoje, vejo como o momento de questionar as missões que se direcionam para salvar os “coitadinhos dos africanos” que vivem na “escuridão” e convocam jovens pretos não conhecedores da sua própria realidade, da sua história e da sua ancestralidade, tornam-se simplesmente portadores de ideologias caucasianas-ocidentais anticulturais e globalizantes, os quais não conhecem os seus próprios problemas como descendentes de africanos, porque não participam dessas questões no Brasil e são enviados para a África, acreditando em uma democracia racial brasileira e branqueados culturalmente e teologicamente, enquanto temos problemas imensos de nossa população e eles não são nem citados por aqueles que querem salvar os africanos e permitem que o nosso povo preto continue discriminado na sociedade e nas igrejas. Tornando-se necessário que os encontros de pretas e pretos se tornem um fator missionário verdadeiro de questionamentos para nossas irmãs e irmãos que ainda estão presos aos conceitos e pensamentos dos teólogos das grandes plantações sulistas americanas.
Hoje, vejo a necessidade de nós pretas e pretos sairmos da invisibilidade e descobrirmos a África abençoada dos nossos ancestrais dentro de nós.
Texto adaptado do livro: AFROREFLEXÕES, autoria de Walter Passos, a ser lançado em breve.
ALGUMAS COMUNIDADES NO ORKUT DE MISSÕES NA ÁFRICA:
RADICAL AFRICA-
FUR, quem se interessa??
TUAREG, Quem se interessa?
FUTA JALON, Quem se interessa?
WOLOF, Quem se interessa?
MANINKA, Quem se interessa?
TUKULOR, Quem se interessa?
SUSU, Quem se interessa?
HAUSA, Quem se interessa?
SONGHAI, Quem se interessa?
FULA KUNDA, Quem se interessa?
SOKOTO, Quem se interessa?
MOUROS, Quem se interessa?
FULANI, Quem se interessa?
SONINKE, Quem se interessa?
SEREER, Quem se interessa?