sábado, 13 de outubro de 2007

A MARCA DA CRUZ: BENÇÃO OU MALDIÇÃO PARA O AFRICANO?

Por: Ulisses Passos. Acadêmico de Direito, Pan-Africanista e Presidente do CNNC/BA. Pseudônimo: Aswad Simba Foluke

O apóstolo Paulo disse: “Levo no meu corpo as marcas de Cristo” (Gal. 6:17). Afirmação que tem criado diversas interpretações por diversos grupos cristãos e teólogos.
A Cruz é contestada pelas Testemunhas de Jeová como um símbolo de origem “pagã”. A conotação de paganismo historicamente é bem diversa do que possamos imaginar, sendo repetidos erros através da história e ainda hoje na interpretação etimológica da palavra “pagã”. No Primeiro Testamento, os pagãos são os caucasianos, idéia esta continuada no Segundo Testamento. Sendo um dos temas que será abordado detalhadamente no curso que será ministrado em dezembro pelo Prof. Walter Passos e Prof. Ademário Brito, em Salvador-Bahia.
A cruz em que foi assassinado Yeshua (Cristo) pelos romanos tornou-se um símbolo para a Igreja, como sinal de identificação e até de veneração. A igreja Católica e as Reformadas usam a cruz dentro dos seus templos e ultimamente Igrejas Pentecostais e Neopentecostais que antes não a aceitavam tem modificado a concepção e já as vemos ornamentando templos.
A cruz cristã, após ser apropriada pelos europeus, tornou-se o símbolo da morte e da dominação na conquista de regiões africanas, americanas, asiáticas e oceânicas. Conquistar, escravizar e cristianizar.
Na África as civilizações européias dividiram os lucros da escravidão e colonização com a Igreja Católica Apostólica Romana, tendo essa se beneficiado com as pilhagens e mortes de milhões de pessoas. A cruz era a marca da posse e a marca da morte. Nos portos de Gorée, São Paulo de Luanda e outros quando os africanos eram seqüestrados e presos para o tráfico eram marcados a ferro e brasa com o símbolo da cruz e batizados iniciando o processo de cristianização forçada para povos que não eram cristãos. A cruz tornou-se assim para muitas civilizações africanas o significado do perigo, da destruição, da escravização e da pilhagem feitas pelos caucasianos europeus e suas civilizações que em nome de um deus mercantilista sangrou o continente africanos e seus filhos e marcaram os seus corpos como propriedade e aceitação forçada de uma nova fé, de um novo nome e de uma maldita vida.
Enquanto esses fatos ocorriam em outras regiões africanas à cruz era e é um simbolismo de fé e uma identificação com Yeshua.
Em meados do século 1°, após pregar no Continente Africano, pelo Egito, Marcos ergueu sua igreja em Alexandria. Daí a cidade ser considerada a Sede da Igreja São Marcos Copta Ortodoxa. A Igreja Copta Egípcia é uma organização cristã mais antiga que a Igreja Católica Apostólica Romana e hoje tem cerca de nove milhões de egípcios, e surgiu bem antes do Islamismo, sendo seguidora de Yeshua há quase 2000 anos, como mais uma prova viva do Cristianismo de Matriz Africana.
Os Zebaleens, um grupo 40 mil Egípcios Cristãos Coptas, vivem jogados na periferia de Cairo, em quatro comunidades, em que Moqattam é a principal, com cerca de 30 mil habitantes, sobrevivendo com o único trabalho permitido: a coleta de lixos, provenientes de 20 milhões de habitantes de Cairo. São crianças, jovens, mulheres, homens e idosos sobrevivendo com ganhos em média de um dólar por dia e sem nenhuma assistência oficial ou remuneração do governo local. O trabalho dos Zebaleens é visto como o mais desprezível possível na sociedade egípcia, especialmente por causa da criação de porcos, animal considerado impuro no islamismo, cuja concessão foi permitida como mais um símbolo de humilhação.
Eles marcam seus pulsos voluntariamente com a cruz de Cristo, como forma de orgulho e oposição, como uma marca indestrutível de sua identificação com sua comunidade e igreja vítimas de um violento genocídio silencioso, essa minoria copta, carrega nos seus corpos a marca do Cristo.
O deturpado uso da Cruz ainda hoje é empregado nas missões para sangrar e amaldiçoar o continente africano, como também seus descendentes na diáspora, transformando e negando seu verdadeiro e maior simbolismo: o sacrifício de Yeshua para remissão dos pecados e união do povo preto sob o Cristianismo de Matriz Africana.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Malcolm X


Por: Aidan Dudu Labalãbã. Este é o meu pseudônimo, o qual escolhi por não aceitar os nomes dados pelo escravizador. O meu nome pela língua imposta pelos brancos é Vanessa e sou membro da Igreja Presbiteriana Unida, em Salvador-Bahia e Tesoureira do CNNC/Bahia

"As únicas pessoas que realmente mudaram a história foram as que mudaram o pensamento dos homens a respeito de si mesmos.” Malcolm X

Falar de cinema preto é maravilhoso, especialmente como uma jovem preta, pobre e cristã, vivendo em uma sociedade racista que, desde pequena, meus pais ensinaram-me a resistir. Tenho o privilégio de comentar um dos melhores filmes que assisti, diversas vezes, aqui em casa. O filme que marcou profundamente a minha vida nesse meu pouco tempo de existência foi Malcolm X, de Spike Lee. Tenho atualmente 18 anos de idade e o filme ajudou-me a ver, por outro lado, o sistema social discriminatório com o qual sou obrigada a conviver. E descobrindo assim que a problemática do povo preto é mundial. Seja aqui ou nos Estados Unidos, somos vítimas do racismo branco. Por isto estou iniciando os estudos do pan-africanismo e me considero uma africana no Brasil.
O Filme “Malcom X” foi produzido por um dos maiores cineastas pretos do mundo, Spike Lee, em 1992, tendo no elenco: Denzel Washington, Angela Bassett, Albert Hall, Al Freeman Jr., Delroy Lindo, Spike Lee e Theresa Randle. Spike Lee produziu, entre outros filmes, She's Gotta Have It (1986), Faça a Coisa Certa (1989), Febre da Selva (1990) e Mais e Melhores Blues (1991).
No filme, Spike Lee retrata a vida de Malcolm Little, que tem uma vida igual à de muitos pretos no mundo, mas com um desejo incomum e deturpado: de se parecer com o homem branco, de possuir a mulher branca, de se descaracterizar fisicamente e espiritualmente, possuindo os seus apetrechos, jeitos e trejeitos, até torna-se pior do que seu espelho: o homem branco.
No decorrer do filme observamos o avanço e tomada de consciência de Malcom, após ser preso e conviver com os seus próprios pesadelos e encontrar-se consigo mesmo através da Nação do Islã. Mudou o seu nome para Malcom X, porque os sobrenomes que temos foram colocados pelos senhores de escravizados, pois a letra X é uma incógnita nos estudos das áreas exatas.
Após a saída da prisão, Malcom X é um outro homem, com um discurso realista sobre o cotidiano da população preta dos Estados Unidos, bem diferente dos discursos de integração de Martim Luther King.
Se você ainda não assistiu a este filme, deve fazê-lo. Porém, não só; assista-o com seu grupo de amigos pretos e amigas pretas, com a sua família, com a sua igreja, para que todos possam adquirir uma nova consciência, tornando-se pan-africanistas como foi Malcom X. Considero o pan-africanismo o modo mais eficaz de solidariedade e luta para possuirmos novamente a essência que nos tentaram tirar após o seqüestro da Mãe – África.

MALCOLM X

EUA - 1992 - Drama - 192 minutos
Diretor: Spike Lee
Roteiro: Arnold Perl e Spike Lee
Direção de fotografia: Ernest R. Dickerson
Montagem: Barry Alexander Brown
Elenco: Denzel Washington, Angela Bassett, Albert Hall, Al Freeman Jr., Delroy Lindo, Spike Lee e Theresa Randle
Distribuição: Universal Pictures

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

A HOMOSSEXUALIDADE E AS IGREJAS EVANGÉLICAS

Por: Ulisses Passos. Acadêmico de Direito, Pan-Africanista e Presidente do CNNC/BA. Pseudônimo: Aswad Simba Foluke

A homossexualidade consiste em uma prática antiga das civilizações brancas (caucasianas) como a grega e a romana. Há inúmeras discussões e afirmações de que foi desconhecida das civilizações africanas. Sendo exercida no regime de escravidão, por africanos e seus descendentes, por falta de mulheres e entre as “sinhazinhas” com as escravizadas.
Há vozes discordantes sobre a homossexualidade no continente Africano e há vozes que a afirmam, como os escritos do antropólogo Luís Mott, que disse ser Zumbi, líder preto do Quilombo dos Palmares, homossexual, criando desavenças com integrantes do Movimento Negro Brasileiro.
Leia: http://www.terra.com.br/istoegente/43/reportagens/rep_gays.htm
Nas reuniões do Movimento Negro Brasileiro a homossexualidade é bastante discutida, os homossexuais negros e negras têm exigido o direito a voz e voto dentro de todos os congressos, sendo criados debates exclusivos sobre a temática, como o que ocorreu no ENJUNE – Encontro Nacional da Juventude Negra, em julho desse ano. Embora integrantes questionem a homossexualidade das pessoas pretas, afirmando que estas não devam seguir opção sexual diferente da hetero. Existem dezenas de organizações negras homossexuais e diversas redes na internet.
O Primeiro Testamento e o Segundo Testamento condenam a prática homossexual. A questão da homossexualidade é antiga dentro das igrejas protestantes e sempre foi tratada de maneira velada como se não fosse uma realidade inerente a todas as igrejas. Nós últimos anos surgiram igrejas de homossexuais no Brasil, como a Metropolitana e a Acalanto e seus pastores(as) defendem o homossexualismo como uma prática de amor igual a dos heterossexuais e inclusive o casamento de pessoas do mesmo sexo.
No artigo publicado na Revista Época o Pastor Victor Ricardo afirma: Sou pastor e sou gay "Teólogo diz que há assédio nas igrejas e que parte do preconceito contra homossexuais se deve a traduções erradas da Bíblia.
http://br.groups.yahoo.com/group/clippingevangelico/message/901
A discussão tornou-se mais iminente com o projeto de Lei 5003/2001, de autoria da Deputada Iara Bernardi - PT - que criminaliza a homofobia e que está no Plenário para votação, e o PL 7052/2001 que estabelece o dia 17 de maio, já consagrado dia Mundial contra a Homofobia, como Dia Nacional de Combate a Homofobia. Este projeto tem levantado vozes de inúmeras denominações contrárias e de pastores conhecidos.
Silas Malafaia da Assembléia de Deus tem se posicionado contra a prática homossexual: "Se toda prática deturpada, pecaminosa, imoral for legalizada, onde vai parar a nossa sociedade? Se a sociedade legalizar suas aberrações, ela se destruirá. Um erro moral nunca pode ser um direito civil.Porém, qualquer homossexual que confessar o seu pecado, receber Jesus como Salvador e obedecer à Sua Palavra, poderá tornar-se um heterossexual, poderá ser recuperado e liberto. Jesus tem poder para isto. "http://www.prsilasmalafaia.com.br/

Segundo Wesley Souza Medeiros no seu blogger Folha Cristã:"A bomba estourou neste último domingo, após o pastor Silas Malafaia fazer algumas declarações em rede nacional sobre a homosexualidade. Mas ele não foi o primeiro, já está cada vez mais na moda a onda do processo por homofobia.Me entristeço porque em todos os casos que estão acontecendo estão querendo processar pastores e membros evangélicos, porque falam aquilo que está na bíblia, e este é o grande problema, o maior de todos! É com muito pesar que chego a conclusão de que a palavra de Deus está correndo o risco de ser proibida no Brasil, e do jeito que a coisa está isso não vai demorar muito.Não sou maior do que ninguém, talvez o mais pequeno de todos, preciso assim como todos precisam, da misericórdia de Jesus Cristo, mesmo eu nunca tendo processado ninguém, talvez eu corra o risco de ser processado, não por expor minha opinião, mas por dizer que eu concordo com aquilo que diz a bíblia!"http://folhacrista.blogspot.com/2007/08/brasil-vive-onda-de-processos.html

Assista o vídeo com o Pastor Silas Malafaia: http://br.youtube.com/watch?v=guELfBEz9bk
Assista a homília completa:
http://www.overbo.com.br/modules/x_movie/x_movie_subwin.php?cid=59&lid=99
Pronunciamento do Colégio Episcopal da Igreja Metodista sobre o projeto de lei acerca da homofobia
"Afirma o ensino Bíblico de que Deus criou homem e mulher, e esta é a orientação sexual reconhecida pela Igreja. E este mesmo ensino Bíblico classifica como um pecado a prática do homossexualismo. Deste modo, é inalienável o direito da Igreja de pregar e ensinar no privado e no público contra a prática homossexual como um pecado e desobediência aos ensinos de Deus. O fato da Igreja compreender o homossexualismo desta maneira não a impede de receber, acolher e dialogar com os homossexuais.A Igreja quer, no entanto, preservar o seu direito de questionar a conduta humana, qualquer que seja ela, inclusive a conduta homossexual, de modo a poder desempenhar sua missão de pregar a reconciliação do ser humano com Deus, com o seu próximo e consigo mesmo".
Leia todo o Pronunciamento: http://www.hermeneutica.com/mensagens/metodista.html
Manifesto Presbiteriano sobre a Lei da Homofobia
Leitura: Salmo 1
A Igreja Presbiteriana do Brasil MANIFESTA-SE contra a aprovação da chamada lei da homofobia, por entender que ensinar e pregar contra a prática do homossexualismo não é homofobia, por entender que uma lei dessa natureza maximiza direitos a um determinado grupo de cidadãos, ao mesmo tempo em que minimiza, atrofia e falece direitos e princípios já determinados principalmente pela Carta Magna e pela Declaração Universal de Direitos Humanos; e por entender que tal lei interfere diretamente na liberdade e na missão das igrejas de todas orientações de falarem, pregarem e ensinarem sobre a conduta e o comportamento ético de todos, inclusive dos homossexuais.Portanto, a Igreja Presbiteriana do Brasil reafirma seu direito de expressar-se, em público e em privado, sobre todo e qualquer comportamento humano, no cumprimento de sua missão de anunciar o Evangelho, conclamando a todos ao arrependimento e à fé em Jesus Cristo”.
Rev. Dr. Augustus Nicodemus Gomes Lopes Chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie Leia todo o manifesto: http://mackenzie.br/chancelaria/manifesto.htm
São inúmeros os posicionamentos de igrejas e pessoas evangélicas independente da cor epitelial contra os homossexuais. Você leitor e leitora como se posiciona? Comente o artigo e responda a nossa enquete.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

FRED HAMPTON JR. SERÁ RECEBIDO PELO CNNC NA BAHIA




Por: Ulisses Passos. Acadêmico de Direito, Pan-Africanista e Presidente do CNNC/BA. Pseudônimo: Aswad Simba Foluke




O Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos- CNNC, a única organização cristã pan-africanista, afrocentrada e defensora do Cristianismo de Matriz Africana do Brasil, através do CNNC/BA, receberá de 11 a 14 de novembro de 2007 o irmão afro-norte-americano Fred Hampton Jr. em Salvador.
Filho de Fred Hampton ativista preto e um dos fundadores dos Black Panthers, Presidente do Partido Panteras Negras que foi assassinado em 1969, Fred Hampton Jr. tem sido um dos grandes expoentes da luta do povo preto, já cumpriu prisão pelo seu amor ao povo preto por causa da sua auto-determinação combatendo o sistema branco excludente com uma visão panafricanista de união do povo preto no planeta.
Saiba mais um pouco sobre os Panteras Negras acessando o artigo da irmã Aidan Dúdú no nosso blogger: http://cnncba.blogspot.com/2007/08/panteras-negras-tratamento-de-choque.htmlchoque.html
Os contatos para sua vinda foram feitos através da Secretaria Executiva do CNNC/Brasil a teóloga e professora Suzete Lima. O irmão Fred Hampton cumprirá uma extensa agenda de atividades em Salvador e Vitória da Conquista - BA, além de visitar os estados do Rio de Janeiro e São Paulo, onde as organizações :Missão Candace, Posse MalesUhuru e o POCC-Brasil de cunho panafricanista cuidarão da agenda desse grande militante afro-norte-americano. Na Bahia o CNNC/BA e a Missão Candace estará organizando a agenda, que constará de visitas a Escolas estaduais e municipais, organizações do Movimento Negro, guetos do povo preto, Quilombos e Universidades. Os Meios de Comunicação e organizações do Movimento Negro que queiram participar da programação em Salvador devem entrar em contato imediatamente com a direção do CNNC/Bahia através do e-mail cristaosnegros@yahoo.com.br
Em breve mais detalhes sobre a vida e luta do nosso irmão preto Fred Hampton Jr.





domingo, 30 de setembro de 2007

OS PRETOS SEM-TERRAS


Por: Aidan Dudu Labalãbã.
Este é o meu pseudônimo, o qual escolhi por não aceitar os nomes dados pelo escravizador. O meu nome pela língua imposta pelos brancos é Vanessa e sou membro da Igreja Presbiteriana Unida, em Salvador-Bahia e Tesoureira do CNNC/Bahia


O professor de sociologia, do colégio de Ensino Médio que estudo, comentou sobre os sem-terras e mostrou diversas fotos em slides as quais não apareceu nenhuma imagem de pessoas preta, achei estranho porque somos a maioria do povo brasileiro.
Meu pai foi a primeira pessoa que mapeou os quilombos do estado da Bahia, e começou este trabalho antes do meu nascimento, tenho eu agora 18 anos de idade, cresci ouvindo falar sobre as questões agrárias do povo preto e especialmente sobre quilombos e a não participação dos protestantes nessa questão. Até tratores passaram em Igreja da Assembléia de Deus dentro de quilombo,o meu pai escreveu sobre isso, e os protestantes nada disseram, e eu ainda pequena não entendia porque nada disseram e hoje eu sei que igreja formada só de preto não interessa aos poderes das igrejas que tem seus líderes todos brancos fora da nossa realidade.
Não temos imagens constantes de pretos e pretas no Movimento sem-terra, pelo menos os que aparecem na mídia, as nossas imagens são escassas, mas tenho a certeza que somos a maioria dos sem-terras nesse país. Na Bahia não se pode esconder esse fato.
O início do processo de expulsão das terras se deu especificamente após a chegada dos imigrantes brancos da Europa no projeto de branqueamento do país. Na abolição da escravatura, a população preta não estava nos planos agrários, tanto assim, que as minhas bisavós vieram do interior da Bahia. Sabemos que as pessoas migram porque não possuem terras em um país continental que não teve a coragem de fazer a reforma agrária, para beneficiar brancos sem-terras e pretos que nunca tiveram direito a posse dela.
Nas fotos apresentadas na sala de aula eu fiz algumas viagens para tentar imaginar só fotos de brancos. Eu sei que na época da escravidão houveram brancos sem-terras, e alguns fizeram acoitamento para escravos fugidos explorando a sua mão-de-obra, li isso no livro Bahia: Terra de Quilombos, escrito por meu pai quando ele escreveu sobre o Quilombo do Oitizeiro na Bahia.
Sempre ouvi do meu pai que temos de diferenciar os pretos sem-terras e os quilombolas, E AO MESMO TEMPO HÁ PRETOS SEM-TERRAS QUE FORAM QUILOMBOLAS, E HÁ PRETOS QUE ESTÃO SEM -TERRAS E NÃO FORAM PROVENIENTES DE COMUNIDADES DE QUILOMBOS. Eu só sei que sem importar muito as nomeações, o povo preto não tem terras e precisa lutar muito e serem cuidadosos para não perder as que possuem.
Os meios de comunicação não mostram os pretos sem-terras, o que aparece sempre são os pretos nas favelas, nas palafitas, nos meios urbanos, como se não estivéssemos na zona rural. É necessário mostrar a cara do Brasil Preto sem-terra, ao invés da mídia está sempre tentando esconder essa cruel realidade. Divulga-se um Brasil rico e branco, de farturas e com crescente produção agrícola que o nosso povo não tem participação nos seus lucros.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

O DIREITO DA FALA: CNNC/BA E CONNEB/BA


Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente do CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos.
Pseudônimo: Kefing Foluke.

Recebi um e-mail o qual me deixou bastante apreensivo sobre os rumos que toma o CONNEB/Bahia - Congresso de Negras e Negros do Brasil/BA - na questão da religiosidade do Povo Preto, bem diferente da decisão em Belo Horizonte, sendo assim, peço-vos que reflitam em algumas questões sobre a PLENÁRIA ESTADUAL DO CONGRESSO NACIONAL DE NEGRAS E NEGROS DO BRASIL que ocorrerá no dia 29 de setembro de 2007 (sabado), as 09h, no auditório da Faculdade Visconde de Cairu - Barris - Salvador/Ba., e um dos temas será: Religiosidade do Povo Negro.
Primeiramente parabenizo a escolha do nome de Valdina, uma irmã que conheço há 25 anos e tive o prazer em dezenas de vezes de conversar sobre diversos assuntos, e a tenho em alta consideração pela dedicação e militância em prol dos africanos na diáspora e especialmente pela defesa intransigente do povo banto no Brasil e seu verdadeiro reconhecimento, ainda velado pela crescente iorobofolia criada pela academia branca.
No que tange a minha participação a qual soube por e-mail e está para ser aprovada ou não em plenária em uma disputa com a irmã Elenira do Terreiro do Bogum, a qual será realizada hoje (27/09/07) por voto, não precisará ser realizada, eu não participarei e não permito que em nenhum momento o meu nome entre em disputa pelo direito da fala como representante de uma religião protestante. O direito da fala deve ser natural para os representantes pretos protestantes, então não haverá disputa até que sejam repensados os critérios adotados. Não irei à reunião de sábado.
Na história do candomblé da Bahia com a entrada do branco e suas influências acadêmicas a solidariedade entre as nações ficou abalada, denomino: maldade branca de divisão, de falta de respeito entre as diversas tradições africanas. O pouco que sei, acredito que nada sei sobre candomblé, e o pouco que aprendi com o meu pai e minha mãe, com os meus tios e tias, sendo eu descendente direto de sacerdotes e sacerdotisas, foram de respeito entre diversas pessoas no auge da repressão as casas de culto e na troca de experiências, exercícios de solidariedade quilombolas hoje esquecidos.
Entendo que os ensinamentos anti-solidários brancos estejam na prática inconsciente dos nossos atos, e é necessária a depuração desses atos não solidários. Não compreendo que a caminhada panafricanista não seja exercida, por isso citei o nome de algumas pessoas que sempre respeitaram a minha opção religiosa e aprendo nas trocas de experiências caminhos de respeito e solidariedade. Assim foi a minha vivência com Maria Beatriz do Nascimento e Lélia Gonzalez, mulheres quilombolas que dedicaram preciosos momentos de solidariedade e ensinamentos a um jovem protestante preto.
Um dos significados para o nome jeje na África é forasteiro, e a representação jeje também conforme desejo da plenária em Salvador passará por votação, e inclusive com uma representante dos terreiros mais tradicionais do Brasil: o Bogum, de qual conheci a falecida Doné Nicinha através de Valdina, e o Bogum nos deu tantos nomes importantes, como o falecido jornalista, advogado e poeta Jeová de Carvalho, que estudou no Colégio 02 de julho em Salvador-Bahia, e foi de origem presbiteriana, e tem em seus quadros só para citar: o Gilberto Leal, meu conhecido também de mais de 20 anos de militância. Não entendo que o povo jeje seja colocado também em votação para ter direito a fala. Pode até ser que os chamados "dinossauros" (adjetivo usado para antigos militantes do Movimento Negro), não saibam nada. Lembro-me dos conselheiros de Roboão, que execrou os “dinossauros” conselheiros do seu pai Salomão. I Reis 12:1-14.
Os meus respeitos ao povo Jeje com a irmã Elenira. Os meus respeitos ao povo Angola-Congo com a irmã Valdina e os meus respeito ao povo de Ketu com a irmã Lindinalva Barbosa. Os meus respeitos a todos os africanos na diáspora independente da religião que pratiquem, conforme sempre escrevo: não posso negar o meu irmão (a) porque professa uma fé diferente de mim e está oprimido pelo sistema branco em qualquer religião nesse país. Ele é uma vítima do racismo branco e como preto é tratado, seja protestante, católico, espírita, budista, muçulmano, de umbanda ou de candomblé.
O CONNEB a nível nacional tem como proposta reunir o povo preto no Brasil e que grande responsabilidade e desafio. Aí vem uma pergunta onde está o povo preto? Quais as religiões que praticam? Onde vivem? E por ai vai... Se desejarmos convidar o povo preto para criarmos um projeto político para esse país tem que ter representatividade, apesar de que não seja aquela dos meus sonhos, porque a dos meus sonhos pode não ser a representatividade real da qual desejo. Eu não posso criar uma falsa realidade e isso estou falando no sentido religioso especificamente. Não há como ignorar que no Brasil temos 15 milhões de pretas e pretos professando as diversas vertentes do protestantismo, e temos por alto uns 70 milhões de pretos e pretas que praticam o catolicismo romano. Não posso ficar sonhando em reuniões e quando saio das salas e dos debates acalorados chego em casa, encontro irmãos e irmãs de sangue, pais, tios, tias, primos e primas, companheiros e companheiras que não adotam o meu pensar religioso. Acredito que é necessária uma reflexão mais aprofundada sobre as religiões que estão praticando o povo preto no Brasil, e como questioná-las e inserir os seus membros nas lutas de verdadeira emancipação do nosso povo em uma rede solidaria panafricanista. Ou o CONNEB pretende através dos seus atos afirmar que a religião do preto no Brasil deve ser o candomblé? Pode até fazer politicamente e perderá a oportunidade de ouvir o povo preto brasileiro em sua diversidade religiosa.
Interessante é que alguns membros do CONNEB /BAHIA insistem em negar a voz aos protestantes pretos, mas, ainda não vi nenhuma organização religiosa que se negue a entregar projetos a organismos cristãos, como a CESE- COORDENADORIA ECUMÊNICA DE SERVIÇOS que é formada pela Igreja Católica e cinco igrejas evangélicas. Entendo que esses organismos nada fazem demais porque devem muito ao nosso povo independente de qualquer religião. Mas, será que o CNNC será bem recebido se for pedir apoio financeiro a qualquer organização de candomblé? Se a prática de algumas pessoas que se dizem porta-vozes dos terreiros é não a solidariedade e união. Não acredito que sejam os verdadeiros porta-vozes da religião praticadas pelos meus ancestrais.
O CNNC é a única organização cristã protestante preta que tem coragem de denunciar o racismo nas igrejas protestantes no Brasil e não aceita que os brancos dessas igrejas nos representem, isso deve ser levado em conta e respeitado.
Algumas sacerdotisas ainda rezam missas em seus terreiros e levam as iniciadas para a igreja católica para serem abençoadas por padres brancos, mantendo a tradição herdada do tempo da escravidão, não acredito que esta seja uma prática herdada do continente africano. Os padres brancos e seus rituais são ouvidos. Apesar de discordar dessa prática tenho todo o respeito e sempre que posso ouvir essas rainhas africanas assim o faço e o farei. Mas, conforme o desejo de algumas pessoas, os protestantes pretos devem ficar calados quando levantam as suas vozes para denunciar que as igrejas usurpadoras do Cristianismo de matriz africana os oprimem e alienam milhões de pretas e pretos nesse país, e acredito que temos que buscar apoio na irmandade preta na diáspora porque entendem e combatem o racismo.
Um debate onde somente as nações de candomblé falem não representa os cristãos protestantes pretos , acredito que também não representa os muçulmanos e nem os católicos pretos.
Como Presidente Nacional do CNNC recomendo que só participemos de debates sobre religiosidade se for de cunho panafricanista, onde todos os pretos tenham direito de fala. Temos que ouvir os protestantes, católicos, muçulmanos, umbandistas, candomblecistas e questionar que essas religiões estão propondo na luta libertária do nosso povo, no sentido prático de elaborações de propostas reais de ajuda mutua e caminhada de libertação, não sendo assim, o CONNEB não terá representatividade da maioria do povo preto neste país. O CONNEB não é uma instituição religiosa que defende uma ou aquela religião. O CONNEB acredito quer a representação dos diversos falares religiosos pretos brasileiros, se assim não o for, recomendo que o CNNC não faça mais parte da Executiva do CONNEB , deixando livremente aos seus membros a participação na construção do Congresso, se assim o desejarem.
O homem branco tentou nos calar e não permitiremos que irmãos e irmãs pretas que dizem “representar” os sábios sacerdotes e sábias sacerdotisas nos amordacem. Aprenderemos a andar como um só povo ou continuaremos dominados. Basta a Intolerância religiosa seja de quem quer que seja.

domingo, 23 de setembro de 2007

LEI 10.639: CANDOMBLÉ E PROFESSORES EVANGÉLICOS

Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente do CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos.
Pseudônimo: Kefing Foluke.

LEI No 10.639, DE 9 DE JANEIRO DE 2003.

Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira", e dá outras providências.
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1o A Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. 26-A, 79-A e 79-B:
"Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.
§ 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.
§ 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras.
§ 3o (VETADO)"
"Art. 79-A. (VETADO)"
"Art. 79-B. O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como ‘Dia Nacional da Consciência Negra’."
Art. 2o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Brasília, 9 de janeiro de 2003; 182o da Independência e 115o da República.
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA Cristovam Ricardo Cavalcanti Buarque



No ano passado ministrando um pequeno curso na Igreja Batista de São Cristovão em Salvador-Bahia uma professora preta disse- me que sentia dificuldades em trabalhar a lei 10.639 em sala de aula, porque não concordava em falar de candomblé para os seus alunos sendo ela evangélica. Senti naquele momento a dificuldade que passam milhares de educadores evangélicos pretos ao se deparar com uma novidade em suas vidas: África. As religiões de origem africana como o candomblé possuem um grande respeito pela natureza e isso deve ser ensinado.
Em verdade o desconhecimento do continente Africano e sua pluralidade geo-histórica têm levado a imensas dificuldades no que tange ao desconhecimento das diversas matrizes também religiosas que ali se originaram, e temos que ensinar que a África-Mãe é a matriz de todas as ciências, filosofias e tecnologias primevas, sendo assim, defendo o afrocentrismo como o pilar do estudo da humanidade.
Em abril desse ano convidei o professor Ademário Brito para me acompanhar em um tema inédito o qual eu acreditava desde o momento que comecei a estudar a Bíblia e suas civilizações do Primeiro Testamento: O Cristianismo de Matriz Africana.
Com o desafio aceito, pela primeira vez no Brasil, afirmamos e comprovamos essa verdade que está mudando o foque de discursos de diversos pastores que atualmente assumem a nossa concepção, afirmando que a matriz do cristianismo é a África e futuramente acredito que o equívoco de grupos pretos cristãos de realizar encontros sem nexo, como: A Presença negra na Bíblia, não mais ocorrerão. Em breve haverá cursos sobre a presença caucasiana na Bíblia.
Tenho observado os diversos cursos patrocinados por faculdades e “detentores” do saber sobre a África que são seguidores de candomblé ou admiradores. O que vemos mais são pessoas sem autoridade falarem de África resumindo-a ao Golfo de Benin, Angola e Congo, excluindo Moçambique e todo o continente africano, se tem estudado uma África “iorubizada”, em uma crescente “iorobofolia” baseada nos estudos de brancos que escreveram e retrataram em diversos livros e álbuns povos do Golfo de Benin, que possuem uma grande importância na nossa comunidade preta, mas, não são os representantes de todas as culturas africanas, ao seu lado há muitas civilizações que devem ser repassadas.
Os professores evangélicos pretos têm um conhecimento embranquecido das faculdades e um ensinamento religioso branqueado nas igrejas, fazendo com que se sintam constrangidos a falar de África e concomitantemente explicarem vodun, inquice e orixá. O interessante que a demonização em direção a África passa despercebida e como se fosse “natural”. Professores evangélicos pretos falam dos deuses copiados do continente africano pelos gregos e romanos e assimilaram um grande demônio caucasiano que é o Papai Noel e ensinam nas escolas e igrejas e colocam a sua imagem nas suas árvores natalinas.
O candomblé é uma religião demonizada pela sua origem africana, o espiritismo que lida somente com os mortos, nem é citado. O espiritismo é de origem européia.
A lei 10.639 é uma grande oportunidade para o professor evangélico preto falar das civilizações africanas antigas e mostrar como a Bíblia é um livro escrito para as civilizações pretas e por mulheres e homens pretos. Falando nisso, eu continuo desafiando teólogos e historiadores para citar os grandes eventos do Primeiro Testamento que não sejam na África e sua continuidade no que os brancos denominaram Ásia. É necessário um estudo aprofundado da Bíblia para entender a apropriação e embranquecimento dos personagens bíblicos pelos europeus.
A grande questão é que os seguidores de candomblé citam sem nenhum constrangimento e nem questionam a fé de Martin Luther King, Nelson Mandela, Desmond Tutu, Steve Biko, Angela Davis, Marcus Garvey, Winnie Mandela, WEB Dubois, Franz Fanon, os Panteras Negras, o coroinha Francisco, conhecido como Zumbi dos Palmares, João Cândido, Solano Trindade, o muçulmano Malcolm X e tantos homens e mulheres pretas. Os professores (as) evangélicos pretos têm uma grande oportunidade de falarem dessas personagens em salas de aula.
O CNNC/Bahia no próximo mês de outubro estará oferecendo um curso sobre Afrocentrismo, Pan-Africanismo e Cristianismo de Matriz Africana para professores, estudantes universitários e militantes pretos, que será ministrado pelo professor Ademário Brito e por mim, sendo uma grande oportunidade para educadores evangélicos que sentem dificuldades em trabalhar esse tema em sala de aula.
Os interessados devem entrar em contato imediato com cristaosnegros@yahoo.com.br para ter acesso ao único curso sobre a África, Pan-Africanismo e Cristianismo de Matriz Africana.
O Curso também pode ser ministrado em outros Estados, em Igrejas, Seminários, Organizações do Movimento Negro e Grupos de Professores.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

OS HEBREUS PRETOS



Por Walter Passos. Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente do CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke.

Os relatos sobre os hebreus são encontrados no Primeiro Testamento, escritos por eles mesmos. A história e arqueologia datam no aparecimento dos hebreus, entre 1950-1500 a.C. O fundador chamava-se Abraão, da cidade de Aram, filho de Terá, nascido em Ur da Caldeia. Todos nós sabemos que os povos da Mesopotâmia foram pretos de origem Cushita, conforme atestam as provas arqueológicas e lingüísticas. Sendo assim, Abraão foi um homem preto porque nesse período não havia civilizações brancas na Mesopotâmia, e seu pai , Terá, era um preto caldeu. No período da vida de Abraão e de sua saída de lá, a Mesopotâmia estava em guerra, sendo um período de migração. Os primeiros hebreus foram nômades e se estabelece­ram no delta fértil do Nilo, no final do Reino Médio do Egito..
Segundo Moacyr J. Scliar, que escreveu “Da Bíblia à Psicanálise: saúde, doença e medicina na cultura judaica” - Também não há unanimidade, entre os historiadores e arqueólogos, quanto à origem dos judeus. Poderiam ser originários da Mesopotâmia, a região entre os rios Tigres e Eufrates; ou poderiam ser nômades, que, vindos do desertos da península arábica, estabeleceram-se, no período neolítico, na região conhecida como Canaã; pode­riam ser um grupo originário dos próprios canaanitas, uma seita religiosa dissidente (Cantor, 1996, p. XV).
FALASHA (BETA YISRAEL DA ETIOPIA)
Falasha significa “exilado”, e na língua etíope significa “um desconhecido”. Os judeus negros são chamados de falashas em sentido pejorativo. Na Etiópia, se dizem descender de uma das dez tribos perdidas de Israel. São conhecidos também por "Kaila" nas regiões de Walkait e em Tchelga são conhecidos como "Fogara" ou por "Fenjas".
Há algumas tradições sobre a origem do Beta (casa) Israel, de que eles são descendentes de um grupo da tribo de Dã, dispersos na primeira diáspora. Guardam a tradição de que são descendentes de judeus que foram expulsos na época da destruição de Jerusalém no ano 70 d.C.; outra que são descendentes de um grupo que veio de Jerusalém acompanhando a Rainha de Sabá, e outra que foram convertidos ao Judaísmo no primeiro século.
Os falashas mantêm diversas tradições judaicas: guardam o sábado, não comem carne de porco, acreditam em encantos e possuem amuletos.
Foram reconhecidos como judeus, primeiramente, pelo principal Rabbi Sefardin em 1973, e então pelo principal Rabbi Ashkenazi em 1975.Em 1985 o serviço secreto israelense Mossad, juntamente com a CIA, implantaram por 03 anos a Operação Moisés, que tentou tirar da Etiópia 14 mil judeus negros.
O sucesso não foi o esperado porque somente oito mil falashas fo­ram retirados através do Sudão e levados a Israel de barco. Muitos adoeceram e retomaram a Etiópia. A Operação Moisés teve falha. Em 1991, as Forças de Defesa de Israel retiraram da Etiópia 14.200 falashas e os conduziram para Israel, essa foi a Operação Salomão. Foram enviados a Adis-Abeba 35 aviões militares e civis com tropas especiais e comandantes acostumados em guerras, para protegerem a retirada dos falashas. Estão em Israel se adaptou a vida do país, convivendo com a discriminação racial.

LEMBAS

Os cientistas afirmam que o ancestral comum dos Lembas viveu entre 2.000 e 3.100 anos, época que coincide com a vida de Arão, o irmão de Moisés. O chefe da equipe, que fez o exame de DNA, foi o geneticista inglês David Goldstein, da Universidade de Oxford, em 1999. Os lembas são cohanitas, descendentes dos sacerdotes do templo de Israel. Uma tradição afirma que eles são descendentes de Arão, irmão de Moises. Atualmente, no Judaísmo, os cohanitas possuem privilégios e obrigações.
Aproximadamente há 2.500 anos, um grupo de judeus deixou a Palestina e se estabeleceu no Yemen. Foram conduzidos pela casa de Buba. No Yemen eles construíram uma cidade chamada Ba-Sanaa, que significa “pessoas de Sanaa”. E sobre o domínio da casa Hamsi atravessaram o mar vermelho foram para a África e se dividiram em dois grupos. Um grupo ficou na Etiópia, outro grupo foi mais ao sul e se estabeleceu em uma região hoje conhecida com Tanzânia. E no Quênia construíram a Segunda cidade de Sanaa. Prosperaram e tiveram um grande aumento populacional e daí saiu um pequeno grupo que se estabeleceu em Malalavi e no Quênia. Ainda estão nesses países e são conhecidos como Ba-Mwenye (Senhores da Terra). Outro grupo, os da liderança da casa de Bakali, estabeleceram-se em Moçambique e construíram o terceiro Sanaa chamado de Ba-Sanaa. Após isso, uma parte do grupo, sob a liderança de Seremani, estabeleceu-se em Chiaramba, que hoje é Zimbábue e são conhecidos como B-lemba–­Lemba; outro grupo foi mais para o sul na região da África do Sul e estão em Venda, Louis, Trichadt, Pietrsburg e Tzaneen (pesquisa o mapa da África do Sul). O interessante é que foi feito um exame de DNA em um clã particular dos Lembas, especificamente no clã de Buba, e 53% dos homens possuem assinatura original do DNA realizada em 1999 pelo geneticista inglês David Gold Stein, da Universidade de Oxford, quem comprovou que os Lembas tem como ancestral comum Cohin. Sendo assim, eles são descendentes de Arão, irmão de Moisés, e os cohanitas eram os mais importantes sacerdotes hebreus, que cuidavam do templo e eram auxiliados pelos Levitas.
Os Lembras acreditam que há somente um Deus, e este é conhecido como Nwali. Guardam o sábado, ensinam as crianças a honrar seus pais e as suas mães, praticam a circuncisão, não comem carne de porco ou nenhum animal proibido do Antigo Testamento, não misturam leite e carne nas suas refeições, lavam sempre as mãos antes que segurem o alimento ou utensílios na cozinha e sempre agradecem a Nwali. Usam o calendário lunar, os rituais de sepultamento, as cabeças devem sempre estar em direção ao norte, para lembrar de onde vieram, e colocam uma estrela de Davi na tumba. Casam sempre dentro do grupo, têm que aprender as leis religiosas e dietéticas. Se alguma mulher quer se casar com algum lemba tem que raspar a cabeça. Deve aprender todos os costumes lemba. Eles estão construindo o templo e estudando hebraico, aprendendo sobre o Tora, sendo auxiliados por rabinos israelitas.
As provas genéticas, históricas, genealógicas, lingüísticas e arqueológicas a­testam que os hebreus antigos foram negros. E muitos desses remanescentes dos antigos hebreus que ficaram no continente africano na época de Moisés retornaram, em diversos períodos, por migrações, ao continente africano. Tiveram membros escravizados depois de milhares de anos pelos colonialistas europeus. Sabemos hoje que, dos grupos étnicos seqüestrados para o Brasil, vieram descendentes de hebreus pretos, especialmente do tráfico feito pelo Oceano Indico, da região hoje conhecida por Moçambique. Entre esses grupos podemos destacar os Chonas, Tichongas e outros. Isso significa que judeus negros foram escravizados e que há descendentes dos primeiros hebreus em terras afro-americanas.
Nas religiões de matriz africana, de tradição bantos no Brasil, uma das principais divindades ancestrais é denominado LEMBA ou LEMBARANGAGA ou GUARATINHANHA que é o Senhor da Vida ou o Senhor da Boa Vida ou o Senhor da Argila, porque, segundo a tradição, criava os seres humanos.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

POVO SANTO E POVO DE SANTO

Por: Ulisses Passos. Acadêmico de Direito, Pan-Africanista e Presidente do CNNC/BA. Pseudônimo: Aswad Simba Foluke

Esta foi uma frase da reportagem “Mesmo contrariado, movimento negro se aproxima dos evangélicos” que saiu no blog do “O cronista”, http://www.ocronista.net/18027/18090.html relatando a questão dos evangélicos pretos e os seguidores de candomblé. Hoje o jornal “A Tarde” da Bahia publicou no caderno dez, uma reportagem que tem sob o título: Jesus negão, sangue bão, de autoria do jornalista Danilo Fraga, que não colocou no caderno a integra das respostas enviadas pela diretoria do CNNC-BA, que é composta por jovens pan-africanistas, afrocentrados e defensores do cristianismo de matriz africana. O artigo que o jornalista Danilo Fraga escreveu não retrata a verdade do CNNC e será de bom grado que a real reportagem seja publicada no caderno dez.
Na análise do discurso dessas duas reportagens feitas sobre o CNNC, demonstra a perplexidade que se situa as duas matérias expostas.
O CNNC (Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos) sendo a única organização pan-africanista do Brasil defende o amor e compreensão a todos os africanos e seus descendentes na diáspora, independente de sua prática religiosa. Nós amamos os irmãos e irmãs pretas do candomblé, do catolicismo, espíritas, agnósticos, seguindo o exemplo do nosso Mestre Yeshua ( Jesus Cristo) que ama a toda a humanidade. Amar não significa que temos a mesma prática religiosa, temos as nossas diferenças conceituais no que tange a adoração e a fé. Temos o direito de adorar a Senhor de todos os senhores a nossa maneira
O CNNC acredita no pan-africanismo e não no ecumenismo religioso. O ponto que nos une aos seguidores de outras VERTENTES RELIGIOSAS É A MESMA ANCESTRALIDADE, somos membros da mesma família africana, que na diáspora seguimos caminhos religiosos diferentes, mas, estamos na mesma “barca”, saímos da mesma “barca”, no mesmo momento, e, por isso somos irmãos e irmãs na diáspora. Não podemos nos deixar enganar pelas táticas divisionárias do poder branco, que ainda tenta nos dividir, objetivando manter o controle político com a nossa divisão. Quem ganha no acirramento e na divisão do nosso povo?
Os jovens do CNNC não serão instrumentos do racismo contra o nosso povo e nem entrarão nos ventos divisionários de pessoas que não compreendem o pan-africanismo em toda a sua essência.
Pela afirmação do CNNC que o Cristianismo é de matriz africana, trouxe uma nova reflexão para os estudos históricos, sociológicos, políticos e religiosos. Não há como contestar ESSA AFIRMAÇÃO, não há contra-resposta. Quando afirmamos que Yeshua foi um homem preto e pan-africanista, afirmamos que houve uma apropriação do cristianismo pelos europeus, culminando no catolicismo romano, o qual afirma que a igreja foi fundada em Roma, portanto, cria-se até dentro das pastorais negras da igreja católica, um desafio: A essência do cristianismo é africano e não romano, sendo assim, a nossa proposta é veementemente verdadeira e resgata a história do povo preto dentro da Afro - Ásia.
Atualmente o CNNC-BA tem sido um embaixador de Yeshua. Em todas as reuniões que participamos do Movimento Negro mostramos que somos jovens atuantes, conscientes e engajados nas lutas do nosso povo e o racismo discrimina sem perguntar religião. Nós estamos de mãos dadas com todos os irmãos e irmãs pretas nas lutas pelos direitos civis seja esse irmão de qualquer opção de fé, por isso afirmamos que somos panafricanistas.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

NEGRO OU PRETO: COMO SE DECLARAR O AFRICANO NO BRASIL

Por Walter Passos.
Teólogo, Historiador, Pan-africanista, Afrocentrista e Presidente do CNNC – Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos. Pseudônimo: Kefing Foluke.


Com o avançar da luta contra a discriminação racial no Brasil, grupos se auto-declaram negros ou pretos. Alguns dizem: “preto é cor e negro é raça”. Ninguém diz que é da raça preta. Sabemos que há uma só raça, que é a humana, e ela foi criada por Deus no Jardim do Édem, segundo os criacionistas. Conforme os estudos históricos, hermenêuticos e exegéticos, os homens foram criados da cor da lama preta. Os evolucionistas acreditam que houve uma evolução do ser humano; e os fósseis mais antigos estão na África. Por conseguinte, toda a humanidade surgiu nesta terra abençoada, com bastante melanina, da cor preta.
Os europeus, com as suas línguas, renomearam locais e civilizações. Como exemplo, temos a palavra Mesopotâmia, que na língua grega significa "entre rios" (meso - pótamos). Sabemos que a Grécia começou a formar-se provavelmente entre 2.000 a.C a 1800 a. C . As civilizações que estavam na Mesopotâmia já existiam há milhares de anos e chamavam essa região “terra dos étiopes”.
Não podemos perder o foco da discussão. Essas colocações acima são apenas uma chamada à reflexão sobre a palavra negro e a palavra preto. E já vos deixo estas perguntas:
Qual civilização européia denominou os habitantes da África de negro ou preto?
Como devemos nos auto-declarar, sem um conhecimento da história, etnolingüística e da semântica?
O que está por detrás da palavra negro?
Qual é o seu verdadeiro significado?
Como se auto-declaravam, nos documentos, os antigos egípcios?
O que significa nigger e black na língua inglesa?
Não sendo eu um etnolingüista, este texto é uma provocação para que as pretas e pretos lingüistas emitam opiniões e, assim, trabalhemos para a (des)construção da dominação lingüística que paira sobre o nosso povo. Sendo esse texto bem pessoal, o leitor observa a minha preferência pelo termo preto e não negro. Acredito que todo escrito traz implícita uma dose de parcialidade. Também é fato que todos os pan-africanistas que conheço se auto-declaram africanos no Brasil e pretos na diáspora.
A palavra negro vem do latim niger e nigur, que se originou do grego necro, e significa “morte”. Você pode se lembrar de quantas palavras do radical grego necro temos na língua portuguesa? A palavra necromancia, que significa adivinhação através dos mortos, se aplica como “magia negra”. Sem falar de necrotério. Uau! Só coisa de morte. E aí começam os problemas. Foram os romanos quem usaram esta palavra, que em algumas línguas neolatinas se tornou: nègre – francês, negro – espanhol, negro – português, nero – italiano.
A língua é usada para dominar, manipular, distorcer. A língua é uma das formas mais eficazes de o explorador racista dominar um povo, e a língua portuguesa é oriunda de nações escravizadoras: os gregos e os romanos.
Na África, até a chegada dos europeus, não havia “negros” e “pretos”, mas africanos de múltiplas e variadas tradições culturais. Os africanos, de múltiplas cores, tornaram-se “negros” apenas em relação aos europeus dominadores. Assim escreveram Maestri e Carboni, em A Linguagem escravizada.
É interessante notar que a antropologia européia cria o vocábulo negro para “estudar e classificar” as civilizações invadidas, especialmente da África. A antropologia é uma das mais poderosas armas do europeu para mistificar e manipular as civilizações invadidas e dominadas.
Conforme os escritos do afrocentrista Cheik Anta Diop, os egípcios se consideravam povos da pele “preta como o carvão” e tinham apenas um termo para designar a si mesmos: kmt "os pretos" (literalmente). O adjetivo kmt significa rigorosamente "preto'', ou, pelo menos, “homens pretos”. O termo é um coletivo que descrevia, portanto, o conjunto do povo do Egito faraônico como um povo preto. E eles foram uma das mais antigas civilizações da África e do planeta.
A nossa conversa está ficando muito longa e, como disse anteriormente, estamos começando a discussão.
Ser negro ou ser preto? Ou ser africano na diáspora?
Como você leitor (a) se declara?
Esse espaço está aberto para que possamos denegrir as palavras com um empretecimento do nosso ser.

PRETAS POESIAS

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Poemas de amor ao povo preto: https://www.facebook.com/PretasPoesias