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domingo, 5 de agosto de 2012

QUILOMBO E MATRIARCADO - RAINHA NGOLA NA REGIÃO AMAZÔNICA





Walter Passos - Historiador
Skype: lindoebano

Facebook: Walter Passos


Os estudos sobre o matriarcado deveriam pautar a historiografia brasileira, mas o poder patriarcal e androcêntrico nos estudos acadêmicos cerceam e omitem o matriarcalismo nas reconstruções de sociedades africanas no Brasil.

Quando falamos em quilombo, mocambo, cafundó, terra de preto e outras designações pelos quais os estudiosos adjetivam a resistência dos escravizados através da fuga e da formação de aldeamentos, é deveras importante entender a questão de poder e as relações sociais capazes de permitir por séculos que estas experiências se tornassem viáveis até os dias atuais.

O matriarcado esteve presente em todas as migrações voluntárias dos africanos pelo planeta. Trazida com os prisioneiros (as) das guerras travadas em Mãe áfrica (sociedades matriarcais) pelos cristãos europeus (sociedades patriarcais), esse modelo de organização será o tema que discutiremos em breve.

Os bantus (“humanos”, na linguagem do Kongo) que falam cerca de quatrocentos idiomas e habitam do oeste para leste o Gabão, Camarões e norte ao sul do Sudão até a Namíbia. Os vários grupos étnicos Bantus dominaram a metalurgia do ouro e do ferro, usando este último, produziram machados, espadas, enxadas e enxós. Além disso, as habitações têm uma arquitetura particular de cabanas circulares ou aldeias chamadas de Msonge. Tais avanços permitiram a colonização de seus territórios ao longo de um período de cerca de quatro mil anos. Muitos grupos étnicos bantus foram sequestrados para as Américas e trouxeram consigo as suas experiências matriarcais.

No seu último livro, que não viu impresso, Décio Freitas visitou uma das menos conhecidas revoltas populares da história brasileira, o movimento que nos livros escolares aprendemos com o nome de Cabanagem. Dizendo em palavras vagas, foi uma insurreição ocorrida principalmente em Belém, entre 1835 e 1840, e reprimida sangrentamente – teriam morrido no total umas 30 mil pessoas, cerca de 25% da população do Pará na época. Foi designada com esse nome por motivos triviais: é que de fato a maior parte dos envolvidos vivia em cabanas pobres, em malocas improvisadas, numa vida miserável que foi, sem dúvida, o combustível da revolta.No livro A Miserável Revolução das Classes Infames, Freitas relata sobre a existência de um quilombo matriarcal na floresta amazônica, liderado pela rainha NGola e outras guerreiras, informação obtida após a tradução de cartas de Jean-Jacques Berthier, um francês que aos 14 anos de idade teve que fugir da França para Guiana Francesa após ser assediado por um pedófilo que o condenou na Revolução francesa.

Fugindo das batalhas que assolaram o país depois da independência, ele foi parar num desses mocambos matriarcais – justamente o da rainha Ngola – e viveu lá entre 1824 e 1828. Sua carta enviada ao irmão Guillaume, em Nantes, na França, foi pesquisada pelo historiador Décio Freitas para o livro A Miserável Revolução das Classes Infames e mostra com riqueza de detalhes como era a vida nesse pedaço da África em plena floresta amazônica.

Berthier informa que eram quatro quilombos adjacentes com 300 moradores em cada um deles e um principal com uma média de 700 moradores, sendo um total de 1900 habitantes. Assevera de que o quilombo principal já tinha cinquenta anos de existência e a rainha que governava já era a terceira Ngola. Um detalhe chama a atenção da descrição da rainha. ela estava em uma cadeira de espaldar alto colocada em uma plataforma, via-se na altura do espaldar uma serpente de ouro encastoada.

No decorrer do relato sobre os mocambos o poder da rainha é demonstrado com castigos impostos aos homens que só podia conversar com ela prostados de joelhos, e quando falavam algo não consensual eram castigados com até três bastonadas na cabeça. Berthier ao ser recebido para solicitar asilo não se prostou sendo imediatamente castigado, e aprendeu a lição de respeito ao matriarcado, recebendo também uma bastonada e prostou-se. Asilo aceito e algumas condições foram expostos:

- Poderia viver na comunidade como irmão, mas, não era permitido relações sexuais com as mulheres pretas, nem se pagasse o dote. O motivo apresentado pela rainha era porque as mulheres eram poucas e necessárias para a reprodução da raça preta sem mistura de sangue branco ou indígena. Mas, poderia casar com uma mulher nativa e tornaria capitão das milícias nas lutas contra os brancos que não permitiam a liberdade dos pretos e eram pérfidos.

Interessante são os relatos do francês sobre o poder matriarcal que o deixou embasbacado

A RELAÇÃO CONJUGAL POLIANDRICA

As mulheres escolhiam os companheiros e eles passavam pelo teste da convivência por alguns meses, só assim ela analisava se ele era satisfatório. Se por acaso fosse aprovado tinha que pagar um dote requisitado pela noiva e ela declarava a todos da aldeia que ele era a partir daquele momento o seu marido. As mulheres podiam ter até cinco maridos, robustos e ágeis, escolhendo qual deles ela manteria relações sexuais e os mandava embora no momento que assim entendessem. Os maridos moravam em suas próprias cabanas e elas escolhiam entre eles um que era o responsável de supervisionar a família que poderia ter 20 filhos, este “privilegiado” morava em sua cabana. Outra atribuição masculina era carregar a esposa nas costas, quando ela não queria andar a pé.

Em Moçambique, existem ainda sociedades matriarcais e poliandricas, onde as mulheres têm voz mais ativa e poder. Estas sociedades remanescentes encontram-se no norte de Moçambique. Um amigo relatou que encontrou uma mulher que teve um marido, filhos e depois o deixou, e ela encontrou outro e outro e voltou a relacionar-se com o primeiro e tem um outro que vive em casa. Eles se coordenam e visitam aquela mulher sem conflitos com o atual, aquele que vive em casa é o atual marido, enquanto os outros são SOBRESSALENTES, como elas chamam.

ECONOMIA

A economia da comunidade baseava-se no trabalho masculino na agricultura, caça, pesca, tecelagem, olaria, serralheria, extrativismo e mineração de ouro vigiados por guerreiros da rainha. O ouro era utilizado para confecção de joias para a rainha e o restante para conseguir armas. Realizavam também trocas de gêneros com holandeses da Guiana. também vendiam tabaco e mandioca para as populações ribeirinhas e praticavam a pirataria: os soldados de Ngola atacavam canoas em rios distantes, roubando os viajantes – ou então saqueavam povoações de brancos.

FORÇA DE DEFESAEra composta de guerreiros de cabeça raspada e não trabalhavam para a suas esposas e tinham o privilegio de obedecer somente à rainha Ngola. Constantemente realizavam ataques de guerrilhas a povoações dos brancos para o saque.


RELIGIÃOMantinham as práticas das religiões ancestrais e conforme relato do Frances:

"Reverenciam ídolos com feições de homens, mulheres e feras, aos quais periodicamente fazem sacrifícios. Qualquer celebração religiosa deve ser autorizada pelo feiticeiro, que é também o curandeiro em suas doenças."


Notamos um desconhecimento completo da metafísica religiosa bantu por Berthier, embasado de preconceitos cristãos sobre o que não entendia.

LAZER
Dança e música usando os instrumentos “pungo” e marimba. O missivista demonstra perplexidade com as mulheres que passavam o tempo sentadas no chão conversando, cantando e fumando tabaco.

O machismo de Berthier não entendia o matriarcalismo e na sua visão androcentrica as mulheres deveriam servir aos homens.

EDUCAÇÃOA oralidade através de contadores de histórias.


Relata Freitas: "É uma pena que Berthier não se alongue mais na narrativa sobre a sua experiência no mocambo. Seria nada menos que sensacional se desse mais informações sobre aquela sociedade poliândrica, semelhante à de Palmares e às de algumas regiões da África. Mas não indica sequer aproximadamente a localização geográfica do mocambo, embora certas referências permitam supor uma região para os lados da Guiana Francesa.
O laconismo talvez se deva ao fato de ter jurado, com sangue, perante a rainha Ngola, guardar rigoroso segredo sobre o mocambo."


Concluo este artigo citando um provérbio que com certeza se aplicou a Berthier:

"O olho nunca se esquece do que o coração vê."
-
Provérbio bantu.


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Poemas de amor ao povo preto:


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sexta-feira, 8 de junho de 2012

JOHN CHILEMBWE – UM PASTOR BATISTA CONTRA O RACISMO E O COLONIALISMO


Por Malachiyah Ben Ysrayl.
Historiador e Hebreu-Israelita
E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br
Msn: walterpassos21@yahoo.com.br
Skype: lindoebano
Facebook: Walter Passos

O Malawi ocupa uma pequena região do sudoeste do continente africano, limita-se ao norte com Tanzânia, ao leste e ao sul com Moçambique e ao oeste com a Zâmbia. O seu nome se deve ao lago Malaui ou Nyasa, que ocupa um sexto do seu território.

A capital do Malawi é a cidade de Lilongwe, localizada no centro do país, o maior centro comercial é a cidade de Blantyre - Escócia, nome dado em homenagem à terra natal do explorador e pastor presbiteriano David Livingstone, que muito contribuiu com as suas viagens de “evangelização” para a colonização da África.

LAGO MALAWI


Os Chewas constituem 90% da população da região central, a tribo Nianja predomina no sul e a Tumbuka no norte. Além disso, um número significativo de Tongas vive no Norte; Ngonis - um ramo dos Zulus que vieram de África do Sul, no início dos anos 1800 - vivem abaixo do norte e regiões menores centrais, e os Yao, que são na sua maioria muçulmanos, predominam na região Sul do país e vivem em uma faixa larga a partir de Blantyre e Zomba ao norte do Lago Malawi e no leste da fronteira com o Moçambique. Bantus de outras tribos vieram de Moçambique como refugiados.


JOHN CHILEMBWE E A REVOLTA DOS BATISTAS

Neste país, provavelmente na região Chiradzulu de Niassalândia, nasceu John Chilembwe, por volta de 1871. Seu pai era um Yao e sua mãe era uma escravizada Mang'anja (grupo étnico tradicional da área, vítima da escravidão pelos árabes e dos Yao que eram comerciantes de escravizados).

Os Yao são originais do norte de Moçambique e migraram por causa da fome em seu país e auxiliaram como intermediários para os árabes. Chilembwe é uma mistura dos dois grupos étnicos, representa a situação de ambos. Ele cresceu sob a atmosfera de insegurança predominante das regiões Sul de Niassa. Quando os britânicos colonizaram a área em 1891, nomeando de Niassalândia, eles estabeleceram um governo e missões, e procurou controlar os povos nativos da região.

John Chilembwe, um homem alto, asmático, era o cozinheiro da família do missionário batista Joseph Booth e cuidava da sua filha, tornando-se seu amigo, como consequência foi batizado na fé batista em 17 de julho de 1893 por Joseph Booth, que havia fundado a Missão Zembesi Industrial de cunho fundamentalista como uma alternativa para as mais antigas missões presbiterianas da Escócia que exploravam a população nativa. Booth criticava as missões presbiterianas e pregava uma igreja igualitária, ideia radical e que agradou ao novo convertido. Booth pregava:

"Sinceramente agora, não é uma imagem maravilhosa de ver homens elegantemente vestidos ... pregando um evangelho de autonegação aos homens e escravas .... Eu nunca me senti tão completamente envergonhado .... Devemos ... obedecer ao ensino [o] [do Evangelho]. ".

Em 1897, John viaja com a família Booth para os EUA onde frequentou o Virginia Theological College, um seminário teológico preto, e teve contato com os ensinamentos do branco abolicionista John Brown e dos pan-africanistas Booker T. Washington, Marcus Garvey e outros pretos na América. Estes ensinamentos foram determinantes para as futuras decisões a serem tomadas.

Foi diplomado por esta faculdade teológica preta e ordenado pastor batista pela National American Baptist Convention, retornou a Niassalândia e fundou a Missão Providência industrial, criando sete escolas africanas independentes, que em 1912 tinha 1000 alunos e 800 estudantes adultos. Construiu uma igreja de tijolos bem arquitetada, e em um trabalho pan-africano plantaram lavouras de algodão, café e chá.

O esforço educacional do Pastor John Chilembwe na propagação da paz e do bem-estar da população, combatendo o alcoolismo, a necessidade do trabalho e do aprendizado, a censura veemente contra a prática de homicídios, roubos e todo o tipo de crimes, o fez um homem respeitado e admirado pelo seu povo.

John Chilembwe com sua mulher, Ida, e sua filha, Emma, em uma fotografia, provavelmente entre 1910 e 1914.

A crueldade e o racismo dos brancos colonizadores o obrigaram a tomar uma decisão: Ficar omisso concordando e participando da opressão e pregando uma vida futura no céu para os membros da sua igreja ou agir em combate ao racismo. Optou por uma teologia libertária e se envolveu diretamente no sofrimento dos seus paroquianos, decisão esta tomada décadas posteriores por diversos pastores batistas que não se calaram com o sofrimento do seu povo, um dos maiores exemplos foi o de Martim Luther King.

No período anterior a 1915 a fome atingiu a região e muitos imigrantes moçambicanos vieram para a região e concomitantemente grileiros brancos começaram a se apossar das terras mais férteis e iniciaram uma cobrança exorbitante aos moradores, obrigando aos homens a migrarem para cidades distantes.

Além disso, William Jervis Livingstone, um gerente de fazenda local, tratava seus trabalhadores (muitos deles paroquianos de Chilembwe) asperamente e incendiou igrejas rurais de Chilembwe, que reclamava em voz alta sobre o racismo.

Mas a sua profunda alienação seguiu do surto da I Guerra Mundial na Europa, bem como o recrutamento, que Chilembwe lamentou, dos homens de Niassa para as batalhas contra os alemães na vizinha Tanzânia. "Entendemos que fomos convidados para derramar nosso sangue inocente na guerra deste mundo .... [Mas] haverá quaisquer boas perspectivas para os nativos ... após a guerra?" Chilembwe perguntou. "Estamos impostos a mais do que qualquer outra nacionalidade sob o sol." O restante de sua carta aberta, assinada "em nome de seus compatriotas", foi um protesto forte contra o descaso aos africanos.

Um mês depois, em janeiro de 1915, Chilembwe decidiu "dar um golpe e morrer, pois o nosso sangue vai certamente significar algo no passado." Esta era a única maneira, ele declarou, "para mostrar ao homem branco, que o tratamento que estão dispensando aos nossos homens e mulheres era péssimo e nós estamos determinados a atacar primeiro e dar o último golpe, e, em seguida, todos morrem pela forte tempestade de exército dos homens brancos." Ele falou a seus 200 seguidores da inspiração de John Brown, e advertiu-lhes para não roubar nem para molestar as mulheres brancas. Em 23 de janeiro, em diferentes ataques, seus homens decapitaram Livingstone, mataram outros dois homens brancos e vários africanos , poupando um número de mulheres brancas e crianças, saquearam uma loja de munição em uma cidade grande próxima, e se retiraram para orar. Quando os ataques não conseguiram despertar o apoio local, Chilembwe fugiu em direção a Moçambique. Desarmado, vestindo um casaco azul escuro, uma camisa de pijama listrado sobre uma camisa de cor, e calças de flanela cinza, ele foi morto em 03 de fevereiro por funcionários coloniais.

Chilembwe é reverenciado como um herói moderno em Malawi, que alcançou a independência em 1964. Ele foi o primeiro a expor os principios do inconformismo colonial e o primeiro a quebrar a crença generalizada que "os nativos estavam felizes" sob a dominação estrangeira. um precursor e mártir do nacionalismo do Malawi.

Ele é relembrado no Malwi no dia 15 de janeiro como um heroi nacional.

"É muito tarde agora para falar do que pode ou não pode ter sido. Tudo o que seja pelas razões nós somos convidados a participar na guerra, a verdade é, somos convidados a morrer para Niassalândia. Nós deixamos tudo para a consideração do Governo, esperamos na misericórdia de Deus Todo-Poderoso, que algumas coisas do dia vão dar certo e que o Governo vai reconhecer a nossa indispensabilidade, e que a justiça prevalecerá."

JOHN Chilembwe
Em nome de seus compatriotas
Niassalândia tempos No.48, 26 de novembro de 1914

LOUIS ARMSTRONG -GO DOWN MOSES


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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

CABELO DE PRETO – RESISTÊNCIA E AFIRMAÇÃO DA ANCESTRALIDADE - I LOVE MY HAIR - "MY NAPPY ROOTS" - GOOD HAIR - PARTE II

"Papai, como é que eu não tenho cabelo bom?




Por Walter Passos.
Historiador e Poeta
E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br
Msn: kefingfoluke1@hotmail.com
Skype: lindoebano
Facebook: Walter Passos

Uma amiga internauta perguntou-me se eu estava zangado com ela. É muito difícil ficarmos aborrecidos com amigos virtuais, especialmente com aqueles que conversamos ocasionalmente. O motivo da minha suposta “zanga” foi o artigo sobre os cabelos que eu escrevi e uma amiga dela enviou o link para o seu perfil no facebook. Não escrevo especificamente para nenhuma mulher preta. Escrevo para todas as mulheres pretas e homens pretos.

É necessário que falemos de amor que se transformou em ódio a si próprio, de uma forma de banzo que a mulher preta começou a ter ao se olhar no espelho. Não de saudades, mas um banzo que corroeu o âmago de seu ser e fazia chorar nas fétidas senzalas e nas casas após o cativeiro. A mulher preta, além das mazelas do racismo, preocupações de sobrevivência, do sustento das famílias, de sofrer e amar pela irresponsabilidade de muitos homens pretos em serem verdadeiros companheiros: conseqüência da quebra dos laços familiares pela escravidão. Teve uma nova incógnita a resolver: as suas madeixas, os seus cabelos. Conheço muito bem esse processo dos cabelos das pretas. A minha filha Aidan quando pequena chorava para não pentear os seus lindos cabelos. Manter os cabelos naturais das meninas pretas é difícil por causa da falta de continuidade dos conhecimentos ancestrais africanos. Mas, é fácil quando voltamos as nossas origens e é prazeroso para toda a família o olhar de pertencimento as raízes dos nossos antepassados, o retorno pode começar pelo amor e respeito aos nossos cabelos e quão gratificante é quando as nossas meninas dizem como o a linda africana no livro de Cantares de Salomão 1:5:

- Eu Sou preta e formosa.

O conhecimento foi interrompido com a escravidão como a descontinuidade de comunicação através das línguas nativas e a imposição cultural dos senhores acarretaram a não manutenção de pentes, ervas naturais e lindos penteados que as nossas ancestrais usavam; no processo escravocrata os pretos mais ebanizados eram desvalorizados pelos que tinham as peles mais claras e cabelos mais lisos.

A intenalização no africano de que a sua cor e seu cabelo forte em forma de espiral foram motivos da inferiorizarão racial alterou as atitudes das descendências futuras. O chamado cabelo “bom” se tornou um passaporte econômico-sentimental no mundo branco das Américas. A maioria dos homens pretos, já contaminados pela beleza ocidental, considera as mulheres pretas mais belas quanto mais brancas se parecerem, e o cabelo tornou-se a mensagem de beleza, limpeza e adequação a inclusão de uma sociedade desejada, e esquecer o passado africano no olhar do espelho foram, e é à saída da maioria da população africana na América.

Desde o final da escravidão começa a se tornar popular as mudanças estéticas e já em 1920 o grande Marcus Garvey exortava a população para voltar a usar a sua estética africana.

Marcus Garvey estava com toda a razão, já no inicio da década de 1900, Annie Malone, que se tornou milionária, trouxe um novo método de alisamento para as mulheres pretas patenteando o ferro quente, auxiliando as mulheres descontentes e em crise com os cabelos africanos, que usavam para o relaxamento dos cabelos a gordura de ganso gordo, gordura de porco (bacon), manteiga, e chegavam ao cumulo de usar uma faca com manteiga aquecida. Durante décadas a prática de tentar o embranquecimnento através dos cabelos fez com que muitos pretos e pretas usassem água sanitária para o clareamento, alvejantes que nas fórmulas possuíam soda caustica, uso de cremes e loções, combinado com ferro quente, a fim de “endireitar” o cabelo.

A sua ex-empregada madame CJ Walker, anteriormente Sarah Breedlove, nascida na Louisinania em 1967, filha de ex-escravizados, trabalhou como agricultora, lavadeira e cozinheira, e após sofrer uma doença de couro cabeludo, tornou-se uma poderosa empresaria ao criar uma fórmula para os cabelos das mulheres pretas em 1900. Foi à primeira preta milionária dos USA na indústria de produtos para os cabelos, e aperfeiçou o ferro quente, ampliando os dentes patenteado pela sua ex-patroa Annie Malone.

Uma das propagandas usadas por Madame CJ Walker para convencer as mulheres pretas a modificar os cabelos foi a uso de um livro infantil publicado em 1900: The Gift of the Good Fairy (O dom da fada boa)
- "Era uma vez, uma boa fada, cujos pensamentos diários eram em muito meninos e meninas de se transformarem em mulheres e homens bonitos, e de como ela poderia embelezar aqueles infelizes a quem a natureza não tivesse dado cabelos longos e ondulados e uma pele suave e encantadora”.

A propaganda retratava o cabelo que não é ondulado e liso como indesejáveis e algo que a fada boa (
Madame CJ Walker) podia corrigir. Já se passaram cem anos e as mulheres pretas ainda valorizam o cabelo liso, e sonham com a boa fada que modificará os seus cabelos.


Garrett Augustus Morgan, um inventor preto, experimentou um líquido de agulhas para máquinas de costura, e acidentalmente, descobriu que este líquido não só esticava o tecido, mas também o cabelo. Ele fez o líquido em um creme e começou a GA Morgan Refining Company Hair. Morgan também fez um óleo corante preto para o cabelo e um pente de ferro dente-curvo em 1910, para “endireitar” o cabelo.


O processo de negação do cabelo africano começa com a infância, especialmente com as meninas. A simples brincadeiras com bonecas alertam a criança das diferenças estéticas. Foi o que ocorreu com Sergi, uma menina de origem etíope, adotada por Joey Mazzarino, principal escritor de Sesame Street, e manipulador de marionetes. Sergi ao brincar com as bonecas Barbie começou a dizer coisas negativas sobre si mesma e ao seu próprio cabelo.

- "Ela estava passando por esta fase em que realmente queria o cabelo comprido e loiro.

Mazzarino, um homem branco não ignorou o problema como fazem milhões de pais e mães pretas nas Américas. Sabia que no futuro Sergi teria problemas com a auto-estima, e ele criou um muppet para mostrar a sua filha como era belo o seu cabelo.

I Love My Hair


Desejo que este vídeo fale direto ao seu coração, minha amada irmã preta que alimenta a baixo-estima por causa dos seus cabelos. Eles são lindos. Tu és bela. Remanescente das mulheres originais

O processo da indústria de relaxantes especialmente nos Estados Unidos da América se desenvolveu de maneira surpreendente e afetou todas as regiões das Américas. Atualmente a indústria do cabelo ultrapassa a cifra de 10 bilhões de dólares só nos USA. Nós os africanos nas Américas vivemos 400 anos sem usar um pente e processos de relaxamentos. O relaxamento dos cabelos nos USA é conhecido como o “crack cremoso pela dependência que criou nas mulheres pretas.

Dois importantes documentários foram produzidos recentemente nos USA: Nappy Roots: A Journey Through Black Hair Itage-2005, dirigido por Regina Kimbell, e Good Hair, produzido por Chris Rock em 2009. Com certeza irão contribuir nas nossas discussões para o entendimento deste nefasto processo de auto-violação do corpo preto.

"My Nappy ROOTS" Award winning documentary on Black hair

Este filme produzido por Regina Kimbell através de pesquisas retrata os histórico das transformações do cabelos no pretos nos USA. Kimbell pesquisou o continente africano, a escravidão em terras americanas e as consequências até os dias atuais e produziu este precioso documentário.

Sinopse:

My Nappy Roots: A Journey Through Black Hair Itage, um documentário de edutainment, tem um olhar sem precedentes de como o cabelo preto é usado como um prisma através do qual o olhar para as questões culturais, sociais e políticas na comunidade Afro-americana ao longo do tempo. O filme revela o significado e o orgulho de penteados Africanos antes da chegada dos primeiros africanos escravizados para a América, onde a luta mais ampla do povo negro começou. Esta luta cultural e social criou o surgimento dos primeiros grandes empresários negros e da bilionária indústria do cuidado de cabelo étnico que existem hoje.

Começando com as primeiras tentativas de denominar do cabelo preto, o documentário de longa-metragem apresenta um conjunto de várias técnicas e estilos, incluindo o, conk imprensa e onda, o afro, a onda Jheri e locs. Cada estilo marca um momento distinto da história americana, a política e a cultura norte-americana Africana. Explorar para além da superfície, My Nappy Roots mergulha internamente na mentalidade que criou o debate interminável de "cabelo bom versus cabelo ruim" e papel que os meios de comunicação desempenha como instigador. Desde o início do filme, um tema subjacente de superação de obstáculos se desenvolve em uma história inspiradora de sucesso e de negócio que não termina. Em vez disso, ele levanta a questão de "para onde iremos a partir daqui?"

My Nappy Roots vai contar sua história em grande parte através das pessoas que as vozes eram, e são, fundamentais para as mudanças que têm influenciado as imagens cultural, estética e o comportamento dos negros americanos. As cineastas Regina Kimbell e Jay Bluemke entrevistam celebridades conhecidas mundialmente (Vivica A. Fox, Patti LaBelle, Ella Joyce e Malcolm-Jamal Warner para citar alguns). Historiadores, autores, jornalistas, comediantes, estilistas e barbeiros, ícones da indústria de negócios como George Johnson, Produtos Johnson, Ed Gardner, Produtos Sheen Soft, Bronner Bernard do show de cabelo Bronner Brothers International e outros fornecem históricos, relatos profissionais e pessoais em suas jornadas com os cabelos de negros. A indústria do cabelo do povo preto, que é sempre passional, às vezes chocantes, e muitas vezes cômica é considerada a libertação dos negros nos Estados Unidos.

http://www.mynappyrootsthemovement.com/virginmoom.html



Good Hair

De maneira bem-humorada, o documentário aborda a identidade dos pretos nos Estados Unidos, o movimento da indústria de produtos capilares e as tentativas das mulheres pretas em alisarem os cabelos. Ao ouvir sua filha comparar o seu cabelo com o de uma amiguinha branca, o ator e cantor Chris Rock teve a idéia de produzir o documentário Good Hair. A temática central em torno da obsessão que as mulheres afro-americanas tem com o cabelo, que no final das contas reflete o conceito que elas tem de beleza. Rock colabora como produtor, roteirista e repórter. Durante o documentário, ele entrevista diversas celebridades e médicos negros. Destes, Rock considera a participação da atriz Nia Long como a mais importante.

Em Good Hair, Rock explica como o cabelo de uma mulher negra pode afetar sua atividade diária (evitando atividades que possam afetar o seu cabelo, se cair água arruina a sua peruca), finanças (o penteado pode custar milhares de dólares), e uma vida sexual (os homens são forçados a aceitar um "hands-off" da política). Roch explica porque o cabelo de uma mulher negra é um investimento desta natureza, os homens muitas vezes não são autorizados a tocá-lo durante o sexo. Rock diz: "... Você está condicionado a não ir até lá . Quando eu era um cara de namoro, namorei mulheres de diferentes raças. Sempre que eu estava com uma menina asiática ou um Porto Riquenha ou uma menina branca, minhas mãos iam constantemente em seus cabelos. Como minhas mãos estavam com sede. "O tipo de penteado que uma mulher negra tem às vezes pode funcionar como um aviso do que ela está disposta a fazer ( The Oprah Winfrey Show ).



BÁRBARA E A BONECA ENCANTADA( trecho)

- Sua mãe, depois de tanta insistência a levaria a um salão chique, proporcionando a Bárbara, o grande sonho do alisante. Então Bárbara falou para as bonequinhas:

- Vou ficar linda igual a vocês. Mamãe vai ficar bonita. De cabelo bom!



Livro: Bárbara e a Boneca Encantada (2006) de Walter Passos e Ilustração de Nattan Cerqueira. Necessitando de uma editora para publicação. Vamos fazer a parceria?

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quinta-feira, 2 de junho de 2011

OS CONFLITOS DE BETA ISRAEL COM OS CRISTÃOS ETÍOPES – PERSEGUIÇÃO MILENAR AOS HEBREUS NA ETIÓPIA – IIª PARTE


Por Walter Passos
, Historiador,Panafricanista,
Afrocentrista e Teólogo.
Pseudônimo: Kefing Foluke.
E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br

Msn: kefingfoluke1@hotmail.com

Skype: lindoebano
Facebook: Walter Passos.











"Eu sou preta, e formosa, ó
filhas de Jerusalém, como
as tendas de Quedar, como as
cortinas de Salomão ". Cantares de Salomão 1:5.



A modelo Esti Mamo nasceu em 1983 em Chilga, no noroeste da Etiópia. Ela é membro da comunidade Beta Israel.




Dando continuidade ao artigo anterior sobre a Beth Israel (Casa de Israel) notamos que há um desconhecimento de alguns irmãos e irmãs de como a tradição oral e a história documental interpretam o surgimento dos hebreus na Etiópia. Sabemos que os melhores historiadores sobre Beta Israel são os membros daquela comunidade, porque mantém tradições vivas comprovadas através da oralidade e um pertencimento milenar oriundo da tradição mosaica que não deixa dúvidas da sua originalidade, apesar de historiadores brancos tentarem colocar em dúvida uma das mais antigas comunidades hebréias existentes no mundo. Dúvida esta desfeita pelos próprios rabinos do judaísmo (askenazis e sefarditas) os quais sem saída tiveram discussões em exaustivas reuniões e chegaram à conclusão: A Casa de Israel é composta de verdadeiros hebreus.

Entre algumas hipóteses que criaram sobre Beta Israel, uma tenta colocar em dúvida a sua origem hebraica, as outras três informam a sua provável origem, sendo a nº 1 aceita pela oralidade da comunidade, a saber:

(1) O Beta Israel são descendentes da tribo israelita de Dan.
(2) São descendentes de Menelik I, filho do rei Salomão e da rainha de Sabá.
(3) São descendentes dos cristãos etíopes e de “pagãos” que se converteram ao judaísmo séculos atrás.
(4) São descendentes de hebreus que fugiram de Israel para o Egito depois da destruição do Primeiro Templo em 586 a.C, e acabaram por se instalar na Etiópia.

As hipóteses um, dois e quatro se completam na própria explicação da comunidade, corrobora o histórico de suas migrações de Israel. A tradição oral, preservada pelos sacerdotes da comunidade, explica que houve uma migração dos filhos de Israel para o exílio no Egito, após a destruição do Primeiro Templo pelos assírios no ano de 586 a.C. e também no exílio babilônico. Estes hebreus permaneceram por centenas de anos no Egito até o reinado de Cleópatra que a auxiliaram na guerra contra Cesar Augustus, sendo derrotados na guerra, eles fugiram para a Arábia do Sul, posteriormente foram para o Yemen; outros se dirigiram para o Sudão até chegarem à Etiópia.

Alguns membros da comunidade de Beta Israel afirmam que as suas origens são Danitas contemporânea a Moisés, quando alguns Danitas partiram após o Êxodo e mudaram-se para sul, até a Etiópia. Eldad, o Danita, realmente descreve ao menos três ondas de imigração israelita para a esta região, criando outras tribos israelitas e reinos, incluindo as primeiras levas que se instalaram em um remoto reino da "tribo de Moisés": este foi o mais forte e mais seguro reino hebreu de todos, com aldeias agrícolas, cidades e grande riqueza. É importante ressaltar que houve diversos reinos israelitas na África os quais não são citados porque são provas incontestes da cor dos descendentes de Avraham (o pai de muitas nações pretas).

Os hebreus na Etiópia mantiveram os seus costumes da época mosaica sem influência do judaísmo (não existe esta palavra nos escritos sagrados) e seus talmudes (interpretações da lei criada pelos askenazis). As tradições de Beta Israel estão baseadas no Torá que está escrito em pergaminhos e outros livros considerados sagrados como o de Enoque, seus costumes são bem antigos e muitos deles somente praticados pela comunidade e eram desconhecidos pelos chamados judeus (origem européia) atuais.

Beta Israel viveu no Norte e Noroeste da Etiópia, em mais de 500 vilarejos espalhados por um vasto território, entre populações muçulmanas e populações cristãs. A maioria se concentrava na área em torno do lago Tana e ao norte no Tigre, Gonder Wello e regiões, e entre os Semien, Wolgait, Dembia, Segelt, Lasta, Quara, Belesa, e um pequeno número viveu nas cidades de Gonder e Adis Abeba.

Os hebreus da Etiópia sempre foram considerados estrangeiros, pessoas estranhas a região, por manterem vivos os costumes ancestres do mosaismo, foram discriminados e perseguidos, tendo resistidio por milhares de anos. Tanto assim que o termo falasha significa estrangeiros.

O Kebra Nagast, relato escrito em Ge'ez das origens da linha salomônica dos Imperadores da Etiópia, é legitimamente questionado pela casa de Beth Israel. O objetivo do livro é proclamar a Glória dos Reis. Não a glória dos reis hebreus, mas a glória dos reis cristãos, escrito, em sua maioria, provavelmente no século XIV para deslegitimar a dinastia Zagwe, e proclamar a dinastia salomônica que é uma dinastia cristã reverenciada como legitima na Etiópia e pelos grupos rastafáris nas Américas, considerada pelo Beth Israel como uma dinastia usurpadora do trono hebreu e transformadora das tradições ancestrais. O Kebra Nagast é considerado uma falácia pelos verdadeiros hebreus.

A resistência dos hebreus após a conversão de Ezana ao cristianismo (religião branca européia) realizado por Frumêncio foi ativa, onde se recusaram a adotar o cristianismo e ocorreu uma guerra civil entre os hebreus e os cristãos, os hebreus migraram para a serra de Siemen e fundaram o Reino de Siemen (Reino dos Gideões) na parte oeste-norte da Etiópia, cujo primeiro rei foi Fineas.

As guerras foram constantes por causa das perseguições do império cristão etíope. No século nono, durante uma batalha, o rei hebreu foi morto, assumindo o reinado a sua filha que se tornou a imperatriz hebréia Judith que aliada ao povo de Agaw investiu contra o império axumita no ano de 960. As tropas da confederação das tribos de Israel e Agaw, lideradas pela Rainha Judith, invadiram a capital de Axum conquistando-a e destruindo-a, queimaram inúmeras igrejas e impuseram o Estado hebreu sobre Axum. Além disso, o trono Axumita foi arrancado e as forças da Rainha Judith saquearam e incendiaram o mosteiro de Debre Damo, que a época era um tesouro e uma prisão para os parentes do sexo masculino do imperador da Etiópia, matando todos os herdeiros potenciais do imperador. A rainha hebréia Judith governou por 40 anos, tendo os seus sucessores governados por mais de 400 anos toda a Etiópia.


"CAMPO DE JUDITH": uma área repleta de ruínas de prédios destruídos, que segundo a tradição foram arruinadas pelas forças da Rainha Judith.


A Idade de Ouro do reino de Beta Israel ocorreu, de acordo com a tradição etíope, entre os anos 858-1270, na qual o reino hebreu floresceu. Durante esse período, os israelitas espalhados pelo mundo ouviram falar pela primeira vez as histórias de Eldad ha-Dani que aparentemente visitou o reino. Marco Polo e Benjamin de Tudela também mencionaram um reino israelita independente na Etiópia nos escritos desse período. Este período termina com a ascensão da dinastia cristã salomônica.


No ano de 1270, os cristãos assumem de novo o poder e longas guerras começam, e no reinado do imperador cristão Yeshaq (1414-1429) o reino hebreu é invadido e dividido em três províncias, sendo forçada a conversão de muitos israelitas ao cristianismo, sob a ameaça de que ou se convertiam ou perdiam as terras. Yeshaq decretou: "Aquele que é batizado na religião cristã pode herdar a terra de seu pai, caso contrário, deixá-lo ser um Falāsī". Isso pode ter sido a origem do termo "Falasha" (falāšā, "andarilho", ou "pessoa sem-terra"). Neste período os hebreus foram considerados pessoas de segunda categoria, inferiores aos cristãos.

Os israelitas não se curvaram as humilhações e a apropriação de suas terras pelos cristãos e em 1450 após reativarem o exército invadiram o império cristão etíope, mas foram derrotados, resultando no massacre durante sete anos de milhares de hebreus.

Quando os muçulmanos invadem a Etiópia na sua guerra de expansão pelo território africano, os hebreus fazem um pacto de paz e auxiliam os exércitos cristãos contra o inimigo do Islã, sendo derrotados pelos muçulmanos e sofrendo mais uma vez um violento massacre das tropas otomanas e do sultanato de Adal. Como apoio do império cristão axumita e de seus aliados portugueses e das ordens dos jesuítas conseguem expulsar os muçulmanos, mas, com o auxílio das forças de Portugal e da Ordem dos Jesuítas, o império etíope, sob o domínio do imperador Gelawdewos, invadiu o reino hebreu e executou o rei Jorão. A conseqüência dessa traição dos cristãos foi que o reino hebreu se tornou restrito a região das Montanhas Semien.

Com a morte de Jorão, o rei Radi assume o trono hebreu e faz guerra contras o imperador cristão Menos, conseguindo reforçar as suas defesas das montanhas Semien. No governo do imperador cristão Sarsa Denge, o reino hebreu é novamente invadido e o rei hebreu Gósen e muitos de seus soldados foram executados. O desespero dos hebreus levou a muitos membros do reino a cometer o suicídio. Em 1627, o imperador Susenyos invade o reino hebreu e após derrotá-lo, anexa-o ao império etíope.

"Os homens e mulheres Falasha lutaram até a morte das alturas escarpadas da sua fortaleza... lançaram-se sobre o precipício ou cortaram a gargantas uns dos outros ao invés de serem presos, era um Masada Falasha. [Os líderes rebeldes] queimaram toda a história escrita dos Falasha e todos os seus livros religiosos, era uma tentativa de erradicar para sempre a memória hebraica da Etiópia” "(Righteous Judeus, AAEJ Imprensa, 1981).

Os hebreus foram capturados e vendidos como escravos, forçados ao batismo cristão, e tiveram negado o direito à própria terra. A independência de Beta Israel foi retirada, assim como ocorreu com seus irmãos israelitas em Massada, séculos antes em Israel.


Alpha Blonde - Massada


Continua no próximo artigo.

Shalom!



sábado, 21 de maio de 2011

OS CONFLITOS DE BETA ISRAEL COM OS CRISTÃOS ETÍOPES – PERSEGUIÇÃO MILENAR AOS HEBREUS NA ETIÓPIA.



Por Walter Passos, Historiador,Panafricanista,
Afrocentrista e Teólogo.
Pseudônimo: Kefing Foluke.
E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br
Msn:kefingfoluke1@hotmail.com
Skype: lindoebano
Facebook: Walter Passos.

É deveras complicado para muitas pessoas entender as interpretações histórico-religiosas sobre a Etiópia. O desconhecimento das populações do Vale do Nilo proporciona uma historiografia e analises étnico-sociais duvidosas, obtusas e confusas difundidas por escritores e pensadores eurocentristas, acadêmicos pretos, estudiosos religiosos e grupos afro-americanos.

Durante toda história etíope, advieram diferentes interesses econômicos que conseqüentemente geraram conflitos pelo poder político, tais conflitos alteraram a tradição oral e as concepções do sagrado. São distintas cosmovisões anacrônicas em um mesmo território e sempre estiveram em conflito, apesar de no primeiro olhar parecerem estar entrelaçadas. Sendo assim, é muito importante a compreensão desses ethos pelos afro-diaspóricos, principalmente os grupos que se utilizam daquela ancestralidade na fundamentação de seus posicionamentos filosóficos e religiosos.

A Etiópia, décimo maior país da África em extensão territorial, abrange cerca de 1.138.512 km² e principal constituinte da região conhecida como Chifre da África. É limitada a norte e a nordeste pela Eritréia, a leste por Djibuti e Somália, a sul pelo Quênia e a oeste e a sudoeste pelo Sudão.
A Etiópia é conhecida por suas medalhas de ouro olímpicas, igrejas esculpidas em rochas, o lugar onde se originou o grão de café e por ser um dos locais descritos pela ciência como origem dos primeiros seres humanos.

Há cerca de 80 diferentes grupos étnicos na Etiópia, os dois maiores são: Oromo e Amhara, ambos falam línguas afro-asiáticas. O grupo Oromo (Galla) é aproximadamente 40% da população e concentra-se principalmente na parte sul etíope. Os grupos Amhara e Tigrean correspondem a 32% da população e tradicionalmente dominam a política etíope. O grupo Sidamo vive nos sopés ao sul e nas regiões de savana correspondendo a 9%, enquanto o Shankella compõe cerca de 6% da população e residem na fronteira ocidental. O somali (6%) e Afar (4%) habitam as regiões áridas do leste e sudeste. Os povos do Nilo vivem no oeste e sudoeste ao longo da fronteira do Sudão. O Gurage representam 2% da população, e 1% restante é composto de outros grupos. O Beta Israel (chamados pejorativamente de Falashas e conhecidos como "judeus negros") vive nas montanhas de Simen e atualmente são cerca de 4.500 pessoas, isto porque a maioria dos 140 mil migrou para Israel. Outros grupos minoritários como os Beja vivem na região norte, o Agau no planalto central, e o povo Sidamo na encosta sul e regiões da savana são os remanescentes dos primeiros grupos que habitaram a Etiópia.


FACES OF ETHIOPIA



Entre os diversos grupos que formaram a história etíope, dois nos dão subsídios ao que desejamos pontuar: Beta Israel e os membros da Igreja Ortodoxa Etíope (Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo, que se compõe pelas diversas etnias). E, na Afro – América, os seguidores da filosofia Rastafari que tem como referencial e utopia a Etiópia, pátria espiritual do movimento religioso Rastafari.

Logo, ressalto que não há pretensão em um artigo de um blogger escrever uma tese. O principal objetivo deste texto é iniciar uma discussão para entendermos melhor estas diferenças no território etíope, as causas e conseqüências do exílio dos hebreus de Beta Israel, a formação do cristianismo ortodoxo e a referencia da história etíope por grupos afro-americanos.

BETA ISRAEL

Beta Israel (Casa de Israel), erroneamente chamados de Falashas (estrangeiros), é formada por hebreus que saíram de Israel a milhares de anos atrás e depois de varias migrações se instalaram nas montanhas de Gondar na Etiópia, tendo como referência a terra dos seus ancestrais (Israel), sabedores que não pertencem originariamente ao território etíope.


IGREJA CRISTÃ ETIOPE

A Igreja Cristã Ortodoxa Etíope surge no século IV com a conversão do rei Ezana de Axum, foi um dos mais influentes e poderosos impérios mundiais e um dos primeiros a instituir o cristianismo como religião oficial de Estado. Saiba mais lendo o artigo: AXUM - AS IGREJAS ESCULPIDAS EM ROCHAS NA ETIÓPIA


Ethiopian Orthodox Church Song




RASTAFARI

A filosofia rastafari é pan-africanista, oriunda da interpretação de uma revelação do grande líder Jamaicano Marcus Garvey, tornando-se conhecida internacionalmente a partir da década de 60 do século passado, tendo como um dos principais objetivos a repatriação dos africanos nas Américas. Como disse, a Etiópia é a pátria espiritual do movimento religioso Rastafari.

Como vimos, são períodos linearmente diferentes que em certo momento na história se encontram: o Mosaismo de Beta Israel e o Cristianismo de Ezana criando conflitos de poder, perseguições e no século XX exílio para o primeiro grupo. Por outro lado, o Movimento Rastafari surge após a escravidão nas Américas, intimamente ligado à história da Igreja Cristã Etíope.

Os rastafaris que tem como um dos seus princípios a genealogia salomônica descrita no livro Kebra Nagast, assim legitimam as dinastias etíopes como descendentes diretos de Menelik, filho do rei Salomão e da rainha Makeda de Sabá. Devemos atentar que o Kebra Nagast apresenta Salomão como descendente da tribo de Judá, por isso os rastafaris elegeram o imperador etíope Haile Sellasie, como o Leão de Judá, o Mashiach (Messias). Título e função não reconhecidos pelo próprio monarca, um fervoroso seguidor da Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo.

Peter Tosh "Rastafari Is"



A Etiópia tem laços históricos com as três mais importantes religiões do mundo que se dizem abraâmicas. Foi um dos primeiros países cristãos no mundo, tendo adotado oficialmente o cristianismo como religião do Estado no século IV d.C. Mantêm algumas observâncias do Tora, como: a guarda do sábado, a circuncisão masculina após o nascimento e regras alimentares,entre elas, a proibição da ingestão de carne de porco. Além disso, as mulheres da Igreja Ortodoxa Etíope são proibidas de entrar nos locais de adoração quando menstruadas, cobrem a cabeça com um lenço e sentam-se separadas nas igrejas, os homens sempre à esquerda e as mulheres à direita (quando de frente para o altar).


Um importante diferencial da Igreja Etíope e de outras igrejas cristãs é a tradição de que Menelik levou a Arca da Aliança para a Etiópia. Sendo cristã compactuam com a concepção européia de um messias branco (Jesus Cristo) e não compactuam com a filosofia Rastafári sobre Haille Selassie como sendo o Messias. Na fé dos Rastas, Haile Selassie é reverenciado como Jah Ras Tafari I, o Messias, o “Cristo Negro” que ascendeu ao Trono do Rei Davi em Adis Abeba, capital da Etiópia.

Em certos escritos e vídeos alguns grupos rastafaris colocam Beta Israel como referência, causando uma enorme confusão.

Deixando essas duas linhas de interpretação da Igreja ortodoxa Etíope e dos Rastafaris, iremos nos centrar no conflito milenar entre a maioria etíope cristã e a minoria hebréia de Beta Israel. É muito importante pontuar que Beta Israel não aceita o Kebra Nagast, concomitantemente, não veio com Menelik conforme os escritos e tradição etíope. Beta Israel, segundo a sua própria oralidade, é da tribo de Dan (danitas) não são da tribo de Judá (judeus). Não aceitam a Trindade, ao contrário, são monoteístas, e tem como base de fé o Torá e o Tanach. Ignoram a tradição etíope e a filosofia rastafari. É importante ressaltar, que Beta - Israel e os hebreu-israelitas nas Américas não se utilizam do termo JAH, porque não existe no Torá e no Tanach. O nome do Eterno é YHWH e em muitos trechos do Tanach é citado como YAH.

Não confunda a tribo de Judá e a dinastia salomônica com Beta Israel que é da tribo de Dan. Não esqueçam Jacó (Israel) foi pai de 12 filhos, e originou as 12 tribos de Israel, sendo a tribo de José, dividida em duas: Mannasés e Efraim. Beta Israel e a dinastia salomônica foram para a Etiópia em momentos distintos e por razões diferentes, apesar de serem da descendência de Israel. Beta Israel não aceita como verdadeiro o cristianismo etíope.

Ressaltando mais uma vez, a história dos hebreus (Beta Israel) foi de extrema perseguição desde que o cristianismo chega à Etiópia, com as transformações da tradição oral e as novas concepções de poder criadas pela suposta dinastia salomônica. Neste sentido, no próximo artigo discorremos sobre a negação do Kebra Nagast por Beta Israel e as guerras de sobrevivência dentro da Etiópia dos hebreus da tribo de Dan (Beta Israel), enfrentando guerras violentas contra o império cristão axumita, perseguição do fascismo de Mussolini e vitimas da ditadura etíope, da guerra civil e da fome, até que fugiram retirados por tropas israelitas (askenazis), através da Operação Moisés (1984) e da Operação Salomão (1991).



Shalom!!!

quarta-feira, 20 de abril de 2011

NINA SIMONE – UMA DIVA PAN-AFRICANISTA


Por Walter Passos
, Historiador,Panafricanista,
Afrocentrista e Teólogo.
Pseudônimo: Kefing Foluke.
E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br
Msn:kefingfoluke1@hotmail.com
Skype: lindoebano





Completar-se-á no dia 21 de abril, oito anos da morte de uma das mais importantes mulheres pretas, agraciada com uma das mais belas vozes da diáspora, que não se calou e lutou contra o racismo : Nina Simone, seu nome tem um significado especial, Nina vem de pequena e Simone de uma atriz da qual era fã: Simone Signoret.

Nascida em 21 de fevereiro de 1933, em Tryon, Carolina do Norte, era a sexta filha dos oitos filhos de Mary Kate e John D. Waymon, um pastor metodista. O seu nome de nascimento foi Eunice Kathleen Waymon. A sua casa estava sempre cheia de música, e ela aprendeu a tocar piano no início de sua infância.

Foi a sua voz de contralto, seu timbre rico e sua interpretação distinta dos padrões, blues e composições de jazz, que a levou à fama na música, apelidada de "Alta Sacerdotisa do Soul", é conhecida como um das mais talentosas cantoras, compositoras e pianistas de seu tempo, se tornou parte integrante do movimento dos direitos civis e depois abraçou o movimento Black Power.

As canções de Nina Simone foram adotadas pelo movimento dos direitos civis, incluindo hinos como Backlash Blues, Old Jim Crow, Four Women e To Be Young, Gifted and Black. A última foi composta em homenagem a sua amiga Lorena Hansberry e se tornou um hino para o poder crescente do movimento negro.

Nina analisa de forma contundente em Four Women a situação das mulheres pretas.

Nina Simone - Four Women



A primeira é Tia Sara, representa a escravidão das africanas na América, mulher forte e resistente.

"Minha pele é negra
Meus braços são longos
Meu cabelo é de lã
Minhas costas são fortes
Forte o suficiente para tirar a dor
Tem sido infligida novamente e novamente
O que eles me chamam
Meu nome é tia Sarah
Meu nome é tia Sarah"

A segunda é apelidada de “Siffronia”, uma mulher mestiça forçada a viver “entre dois mundos”, uma mulher oprimida , e destaca o sofrimento do povo preto nas mãos de pessoas brancas em posições de poder.

"Minha pele é amarela
Meu cabelo é longo
Entre dois mundos
Eu pertenço
Meu pai era rico e branco
Ele forçou minha mãe numa noite
O que eles me chamam
Meu nome é siffronia
Meu nome é siffronia"

A terceira mulher é uma prostituta que se refere à canção como "uma coisa doce".

"Minha pele está bronzeada
Meu cabelo é bom,
Meus quadris convidá-lo
E meus lábios são como o vinho
Garotinha sou eu?
Qualquer um que tenha dinheiro para comprar
O que eles me chamam
Meu nome é coisa doce
Meu nome é coisa doce"

A última é uma mulher amargurada e volátil, um produto das gerações de opressão e sofrimento cometidos pela sociedade racista e suportados pelo povo africano nas Américas.

"Minha pele é marrom
E a minha forma é difícil
Eu vou matar a primeira mãe que eu vejo
Porque minha vida tem sido muito áspera
Estou terrivelmente amarga nestes dias
Porque meus pais eram escravos
O que eles me chamam
Meu Nome é Pêssegos."

Outra bela canção de Nina foi Mississippi Goddamn, escrita na década de 1960, em resposta ao assassinato de Medgar Evers no Mississipi e quatro garotas em um bombardeio de uma igreja preta no Alabama.

Ela canta "Tudo que eu quero é a igualdade para a minha irmã, meu irmão, meu povo e eu", continua: "Ah, mas este país está cheio de mentiras.



Em Backlash Blues, Ela canta:

"Você levanta os meus impostos, congela o meu salário
E manda meu filho para o Vietnã...
Você me dá casas de segunda classe
E escolas de segundo classe..."



TO BE YOUNG, GIFTED AND BLACK



"Ser jovem, talentoso e negro,
que precioso sonho lindo
Ser jovem, talentoso e negro,
Abra seu coração para o que quero dizer

Em todo o mundo sabe
Há bilhões de meninos e meninas
Quem é jovem, talentoso e negro,
E isso é um fato!

Jovem, talentoso e preto
Temos de começar a dizer aos nossos jovens
Há um mundo esperando por você
Esta é uma missão que está apenas começando

Quando você se sente realmente mal
Sim, há uma grande verdade que você deve saber
Quando você é jovem, talentoso e preto
Sua alma está intacta

Jovem, talentoso e preto
Como eu desejo saber a verdade
Há momentos em que eu olhe para trás
E eu sou assombrado por minha juventude

Ah, mas a minha alegria de hoje
Será que todos nós podemos ter orgulho de dizer
Ser jovem, talentoso e preto
É onde se deve estar"

OLD JIM CROW



"Old Jim Crow
Está aqui há muito tempo
Começou as obras do diabo
Até o morto e enterrado
Old Jim Crow
Sim, você não sabe
Está tudo acabado agora
Está tudo acabado agora

Old Jim Crow
Você sabe que é verdade
Quando você fere meu irmão
Você me machucou demais
Old Jim Crow você não sabe
Está tudo acabado agora"

Leia mais sobre o que foi o Jim Crown, clicando aqui.



WHY (THE KING OF LOVE IS DEAD)



"O que vai acontecer agora? Em todas as nossas cidades?
Meu povo está subindo, pois eles estão vivendo em mentiras.
Mesmo que tenha que morrer
Mesmo se tiver que morrer no momento em que eles sabem que é a vida
Mesmo nesse momento que você sabe que é a vida
Se tiver que morrer, está tudo certo
Porque você sabe que é a vida
Você sabe o que é liberdade para um momento de sua vida

Mas ele tinha visto da montanha
E ele sabia que não podia parar
Sempre que vivem com a ameaça de morte à frente
Gente é melhor você parar e pensar
Todo mundo sabe que estamos à beira
O que vai acontecer, agora que o rei está morto?

Todos nós podemos derramar lágrimas, não vai mudar nada
Ensine o seu povo: Será que eles vão aprender?
Você deve sempre matar com queima e queima com armas
E matam com armas de fogo e queimar - você não sabe como nós temos que reagir?

Mas ele tinha visto da montanha
E ele sabia que não podia parar
Sempre que vivem com a ameaça de morte à frente
Gente é melhor você parar e pensar
Todo mundo sabe que estamos à beira
O que vai acontecer, agora que o Rei do amor está morto?"

A sua vida foi de muitas lutas dentro dos Estados Unidos da América e o racismo fez com que deixasse aquele país, indo viver em diversos locais do planeta, inclusive na Libéria, morreu na França em 2003 e suas cinzas foram espalhadas por países africanos.

Suas músicas continuam a ser o baluarte do jazz e do blues ao redor do mundo, fornecendo a muitos cantores e grupos, inspirando gerações de grande talento, de Aretha Franklin até Índia Aire e Norah Jones.

domingo, 15 de agosto de 2010

VERDADEIRO PAI DA MEDICINA – IMHOTEP OU HIPÓCRATES?





Por Walter Passos
, Historiador,Panafricanista,
Afrocentrista e Teólogo.
Pseudônimo: Kefing Foluke.
E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br
Msn:kefingfoluke1@hotmail.com

Skype: lindoebano



"No Egito, os homens são mais hábeis em Medicina do que qualquer outra da espécie humana". Homero, em Odisséia.



Na historiografia, o erro crucial é a falsificação da história africana, realizada por autores do eurocentrismo, problema identificado por Cheik Anta Diop em seus diversos escritos. Este vilipêndio foi programado e com objetivos perversos; a falácia do eurocentrismo tentou apagar da memória mundial a verdade histórica, e afetar psicologicamente os africanos e afro-diaspóricos, conseguindo êxito na diminuição da auto-estima de bilhões de pessoas. A denúncia desta perversidade eurocêntrica é um dos caminhos que todo historiador na África ou em diáspora deve participar, desenvolvendo e tendo em prática a afrocentricidade.

Fico deveras preocupado quando ouço intelectuais pretos se gabarem de possuir conhecimentos de proeminentes teóricos europeus que criaram, decretaram e difundiram a inferioridade intelectual dos africanos, exemplos: Voltaire (1694-1778), Cuvier (1769-1832), Gobineau (1816-1882) Lévy-Bruhl (1857-1939) Hume (1711-1776) Kant (1724-1804) Hegel (1770-1831), entre outros.

Já participei de debates onde doutores afro-diaspóricos cheios de empáfia se apresentam como weberianos, marxistas, gramscinianos, pós-modernistas, e diversas outras adjetivações, combatendo o conhecimento afrocêntrico. Lembro da frase muito peculiar de Malcolm X:

“É preciso ter muito cuidado, muito cuidado mesmo, ao apresentar a verdade ao homem preto que nunca antes ouviu a verdade a respeito de si mesmo, de sua espécie e do homem branco”.

O filosofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel afirmou:

“A África, na história, ficou reclusa, sem conexão com o resto do mundo, é a terra do ouro, recolhida em si mesma, o país da infância, que além da época da história consciente, está enterrada na escuridão da noite.”


Presunçoso, racista e desinformado este filósofo alemão, desconhecia o grande conhecimento preto-africano, se o conhecesse não escreveria esta asneira (asno).

Nesta falsificação da história foi necessário promover uma civilização branca ocidental, como símbolo do conhecimento, da sabedoria aonde todas as ciências se tornaram “racionais”. Elegeram a civilização helênica. Não satisfeitos tentaram mascarar a genes de todo o conhecimento humano: África.

Ignóbeis gregos que plagiaram os conhecimentos africanos antigos, mas, os documentos históricos os desmentem, os próprios escritos gregos são provas de onde obtiveram o conhecimento como meros aprendizes, os quais são corroborados com os monumentos e escritos feitos pelos reais criadores na África.

Dentre esses grandes plágios e absorções de conhecimentos a medicina africana foi uma das maiores vítimas, tema que discorrerei com as amadas e amados ledores deste blogger.

Hipócrates, Herófilo, Erasístrato (“pai da fisiologia?”), Galeno de Pergamo, reconheceram de que suas informações são Khemitas, estudadas no templo de Imothep, em Memphis.

Quando falamos em história da medicina, todo estudante das ciências médicas cita o grego Hipocrates, considerado o pai da medicina, líder da Escola de Cós, autor de vários tratados médicos, e sendo homenageado até hoje com “O juramento de Hipócrates” nas formaturas dos médicos e médicas, vejamos um trecho:

"As coisas sagradas devem ser ensinados as pessoas puras, é um sacrilégio se comunicar com pessoas de fora até que tenham iniciado nos mistérios da ciência. Palavras de Hipocrates repetindo os seus mestres das Escolas de Mistérios no Egito.

Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto.” Juramento de Hipocrates.


HIPPOCRATES OF COS (THE FATHER OF MEDICINE)




As pesquisas históricas comprovaram que Hipocrates aprendeu medicina no Egito e plagiou diversos ensinamentos, entre eles, o diagnóstico de infertilidade feminina. Hipocrates sempre fora fiel aos ensinamentos, iniciado nos Templos de Thoth, dos seus mestres egípcios das Escolas de Mistérios.

O conhecimento da medicina chegou à Grécia em três momentos complementares. A princípio, as relações comerciais entre egípcios e os povos do Mediterrâneo levaram o conhecimento de sua avançada ciência em relação àqueles povos, principalmente aos gregos. Em seguida, espantados com os conhecimentos imensurável dos egípcios, os mesmos gregos, como Sócrates e Hipocrates, foram ao Egito aprender nas chamadas Escolas dos Mistérios. Por fim, a invasão de Alexandre e o roubo de preciosos documentos médicos que se tornaram excepcional fonte documental de estudos para os gregos nas ciências médicas e posteriormente para os romanos.

IMHOTEP – VERDADEIRO PAI DA MEDICINA

Antes de adentramos ao conhecimento real de Imhotep, vejamos algumas curiosidades sobre o verdadeiro pai da medicina:

São atribuídas obras arquitetônicas belíssimas a Imhotep, dentre elas se destaca a Pirâmide de Djoser (também chamada pirâmide escalonada ou dos degraus).

Observe agora o detalhe com o nome de IMHOTEP em hieróglifo, proveniente do complexo da pirâmide de Sakkara.

Entre outras coisas Imhotep também é atribuída à previsão e prevenção de uma fome de sete anos que veio sobre a terra, ele previu a fome depois de interpretar um sonho do faraó Djoser. Neste sonho do deus do Nilo falou ao faraó, e Imhotep foi o único que poderia interpretar o sonho. Qualquer pessoa com algum conhecimento básico da Bíblia notará imediatamente que esta história é idêntica à de José, o menino pastor que foi vendido como escravizado por seus irmãos, Joseph agora, depois de muitas tentativas finalmente chegou ao Egito, onde ele previu e, impedido, uma fome de sete anos, tornou-se o grão-vizir para faraó da época e em todo o Egito a única pessoa que estava acima dele, foi o faraó, similar à vida de Imhotep.


E, como não poderia deixar de ser, a Indústria branca do cinema hollywoodiana tem usado a chamada sétima arte para distorcer os fatos históricos africanos, e usaram a personagem Imhotep colocando como vilão, um ser perverso, mesquinho que ressuscita pensando no seu bem-estar e sem preocupações humanitárias. O ator do filme A Múmia e o Retorno da Múmia são o sul-africano Arnold Vosloo. No filme, Imhotep é condenado à pior de todas as maldições egípcias após ter se relacionado com Ank-Su-Namon amante do faraó Seti I, do qual era seu sacerdote. Assim, após um grupo de pesquisadores acordarem a múmia (Imhotep) de seu túmulo, as pragas do Egito caem sobre a cidade e a maldição sobre aqueles que o acordaram.



O verdadeiro pai das ciências médicas, Imhotep, viveu no Egito antigo em (2700-2670 a.C), o significado do seu nome é: "aquele que vem em Paz”. Foi também, administrador, teólogo, escritor, astrônomo e arquiteto.

Imhotep é um exemplo do culto da personalidade. Aproximadamente 100 anos após a sua morte, foi considerado como um semideus médico. Em aproximadamente 525 a.C., cerca de 2.000 anos após a sua morte, foi elevado à categoria de um deus, e substituiu Nefertum na tríade grande em Mênfis. No Cânon de Turin era considerado como filho de Ptah. Imhotep, conjuntamente Amenhotep, foi os únicos egípcios mortais que alcançaram o estatuto de deuses. Foi também associado com Thoth, deus da sabedoria, da escrita e da aprendizagem.

Patrono dos médicos, no Egito, endeusado na época e invocado nas orações, ele foi adorado pelos gregos como Asclépio e pelos romanos como Esculápio. Os pagãos - cristãos romanos o consideravam “Príncipe da Paz”. Imhotep viveu durante a Terceira Dinastia no corte do Faraó Zoser, Imhotep havia morrido 2500 anos antes do nascimento de Hipócrates. Foi honrado pelos Romanos e os imperadores Claudius e Tibério ordenaram que fossem feitas inscrições louvando Imhotep nas paredes dos seus templos egípcios.

Imhotep escreveu textos médicos, a ele é creditada a autoria do papiro de Edwin Smith, é a única cópia de parte de um antigo livro egípcio sobre trauma da cirurgia. O mais antigo escrito de literatura médica, e é o mais antigo documento cirúrgico do mundo. È considerado pelos grandes professores das ciências médicas ocidentais como o berço do pensamento analítico da medicina.

Possui mais de 90 termos anatômicos e 48 lesões são descritas, uma das grandes importâncias deste grande legado da medicina que contem 17 páginas riquíssimas sobre questões médicas- cirúrgicas da traumatologia, abordando diagnósticos e métodos de tratamento. Fez os primeiros prontuários médicos da história.

Um dos fatores que chama a atenção deste papiro é a descrição anatômica dos pés a cabeça, demonstrando vasto conhecimento sobre o coração, rins, bexiga, baço, fígado e ureteres que as escolas médicas da Idade Média seguiram e é usado até hoje nas escolas de medicina.


Fundou uma escola de medicina em Memphis, e diagnosticou e tratou mais de 200 doenças, entre elas: 15 doenças do abdômen, 11 da bexiga, 10 do reto, 29 dos olhos, 18 da pele, cabelos, unhas e língua. Também conhecia a posição e a função dos órgãos vitais e da circulação do sistema sanguíneo. Imhotep extraía os remédios das plantas.

ANCIENT AFRICA BY VAN SERTIMA PT 3



Imhotep entrou na história por seus conhecimentos médicos e vasta sabedoria. No Egito havia também a biblioteca Faraônica Imhotep, que armazenavam todos os seus tratados de medicina e cirurgia. Na Grécia os templos dedicados a ele se tornaram centros de estudos médicos.

O povo cantou provérbios séculos mais tarde após a sua morte e 2500 anos depois, havia tornado um deus da medicina, nos quais os gregos, que o chamam Imouthes, reconheceu o seu próprio Asclépio.

IMHOTEP, O MÉDICO



De acordo com Clemente de Alexandria, os Egípcios possuíam mais de 42 livros de Hermenêutica, e cerca de seis livros médicos, a saber: sobre a construção do corpo, sobre as doenças, sobre os equipamentos (o médico), sobre a medicação, os olhos (sobre doenças), sobre as condições das mulheres.

O maior compêndio de medicamento foi compilado por Hermes, um médico de origem grega que estudou no Egito, e constou de seis livros. O primeiro dos seis livros estava diretamente relacionado à anatomia, outro psíquico, outro de farmacologia e outros temas.

“A arte de curar está dividida. Cada tratamento médico de uma doença, e não vários, e tudo está cheio de doutores. Há médicos para os olhos, para a cabeça, os dentes, para o corpo e medicina interna.” Heródoto, Histórias, II, 84



THE LEGACY OF IMHOTEP




Detalhando inscrição egípcia instrumentos médicos, incluindo serras ósseas, ventosas, facas e bisturis, afastadores, escalas, lanças, cinzéis e instrumentos dentários.


A medicina em Kemet, segundo textos encontrados freqüentemente relatam que os médicos, eram: oculistas, dentistas que usavam fios de ouro e realizaram obturações com cimento mineral e outras técnicas foram amplamente usadas. Havia especialistas, incluindo médicos veterinários. A documentação é vastíssima sobre a medicina e muitos papiros foram encontrados trazendo a luz os conhecimentos africanos sobre a ciência médica, que descreve as doenças, e o tratamento aplicado em todas as áreas da medicina, incluindo ginecologia, cirurgia óssea e as queixas de olhos, entre outras doenças.





Os antigos egípcios inventaram também a prótese para os que nasciam com deformidade ou sofriam algum acidente. Em 2007, uma múmia feminina datada entre 1000 e 600 a.C foi encontrado um dedo protético criado a partir de madeira e couro.

Criaram os primeiros hospitais do mundo, os santuários de cura onde médicos e sacerdotes cuidavam dos doentes.

O estudo da anatomia e fisiologia mostra um grau de conhecimento do funcionamento do corpo humano, sua estrutura, o trabalho do coração e vasos sanguíneos.
Entre os diversos procedimentos do antigo estava à trepanação (cirurgia do crânio) e a cesariana.

O conhecimento médico no antigo Egito tinha uma reputação excelente, e os governantes de outros impérios solicitavam aos faraós egípcio de enviar-lhes o melhor médico para tratar os seus entes queridos. Se você vivesse no chamado “mundo antigo” o seu centro médico de referência seria Kemet (Egito). E se quisesse se tornar um bom médico ou médica iria estudar no Egito, país das melhores faculdades de medicina e dos melhores médicos do mundo. Na terra dos pretos você aprenderia com profundidade a medicina.

"Os egípcios eram hábeis na medicina mais do que qualquer outra arte." Heródoto.

No próximo número, a segunda parte deste artigo.

Shalom!

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