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sábado, 8 de dezembro de 2012

A SABEDORIA DA LEBRE NOS CONTOS DE TIO REMUS - RESISTÊNCIA A ESCRAVIDÃO NOS CONTOS ANCESTRAIS





Por Malachiyah Ben Ysrayl - Historiador e Hebreu-Israelita
Skype: lindoebano
Facebook: Walter Passos

Ouvi diversas fábulas em minha infância contada pelos mais antigos, principalmente à noite, e algumas ainda guardo na memória. São fábulas cujos personagens eram animais personificados, sempre contendo conteúdo valorativo moral.

Hoje, compreendo terem sido relatos das experiências de milhares de anos que atravessaram o Oceano Atlântico com os ancestrais africanos, o que pode ser comprovado pelas inúmeras referências ao longo da história, especialmente nos contos da lebre.

As referências à lebre são abundantes na mitologia e literatura de Kemete (Egito). O deus Osíris, marido de Ísis, foi chamado de Un-Nefer, e retratado com a cabeça de uma lebre. Como Un-Nefer, A lebre também teve um poder simbólico em Kemete (Egito) desde os tempos imemoriais o deus Osíris com a cabeça de lebre anualmente recebia sacrifícios  para dar vida ao Rio Nilo, concomitantemente possibilitar a sobrevivência da sociedade kemetiana.


Deusa Wenet
  
A deusa lebre, guardiã do outro mundo, citada no livro dos mortos.
A lebre também aparece como um sinal hieroglífico. Este hieróglifo que é chamado de "Wn" simboliza a essência da própria vida, e retrata uma lebre sobre uma onda única de água, a própria substância de que a vida surgiu das águas primordiais de Nun em antigos mitos de criação de Kemete.

A lebre possui na África um simbolismo de renascimento. Conta-se em uma mitologia que a Lua queria dar aos humanos a imortalidade e enviou a lebre como mensageira:

- Assim como a Lua morre e ressuscita assim será você. Disse a Lua à lebre.

Mas confundido a mensagem, a Lebre divulgou disse:

- Assim como a lua morre e perece, assim serão vocês.

As pessoas da Terra acreditaram nessas palavras e tornaram-se mortais.

Quando a Lua ouviu o que a lebre havia feito, ela ficou tão irritada que bateu na Lebre com uma vara e dividiu o seu nariz. Mas como elas continuam a viverem juntas, têm reparado a sua amizade.

As civilizações da África Ocidental, Central e Austral possuem tradições narrativas da lebre que por sua esperteza e astucia na sobrevivência contra os predadores ensinam belíssimas histórias, sendo usadas didaticamente para o aprendizado.  No ocidente se estes ensinamentos ancestres africanos são conhecidos por fábulas onde se apresenta a lebre como um animal malandro.

Com inteligência, a lebre consegue sobreviver à hiena nos contos da África ocidental. Na Zâmbia é conhecida como Kalulu, enfrenta e engana o Leão.  Na Nigéria é considerada pela sua esperteza como um doutor.

Com a invasão da África e as guerras realizadas pelos europeus, os prisioneiros das guerras foram escravizados e sequestrados para as Américas e com eles vieram os contos didáticos das lebres.  Estes contos das lebres foram repassados através da tradição oral e usados como métodos de resistência aos escravizadores (predadores leões e hienas) que são representados na América pela raposa.

Os autores eurocentristas quando estudaram esses simbolismos de resistência africana na escravidão denominam a lebre de malandro, quando deveriam chamá-la de sabia, os quais constataram nas histórias do tio Remus.

Tio Remus foi uma série de histórias infantis escritas por Joel Chandler Harris, jornalista branco de ascendência irlandesa, que ouviu esses contos por escravizados quando viveu em uma fazenda em Plantation Turnwold. Harris passou centenas de horas na senzala, ele era menos autoconsciente e percebia a sua origem humilde como ilegítimo filho de cabeça vermelha de um imigrante irlandês, o que o ajudou a promover uma ligação íntima com os escravizados.

Ele absorveu as histórias, a linguagem, e inflexões de pessoas como o tio George Terrell, a velha Harbert e a tia Crissy.  Os contos afro-americano de animais que compartilhavam, mais tarde, se tornaram a base e a inspiração para Harris sobre os contos de Tio Remus. George Terrell e Old Harbert, em particular, se tornaram modelos para Tio Remus, bem como modelos para Harris.

A primeira história foi publicada em 20 de julho de 1879 e o primeiro livro em novembro de 1880. Até os dias atuais os contos do Tio Remus já foram traduzidos para mais de 40 idiomas.

As lições aprendidas  da personagem fictícia  Tio Remus demonstram que o mais fraco (escravizados pretos) puderam, muitas vezes, triunfar sobre uma força física superior (senhores brancos), utilizando seu intelecto. Outro fator importante no trabalho foi à manutenção nas histórias dos falares dos pretos do sul dos Estados Unidos da América.


No período da luta dos Direitos Civis alguns setores criticaram a personagem tio Remus como um escrito racista, não sendo a totalidade dos pretos americanos.

A Disney produziu “Canção do Sul”, em 1946, com Tio Remus e seus amigos animais animados. A produção contou com atores mirins em um enredo e definição favorável ao Tio Remus entrelaçamento seus fios sobre a lebre e a Raposa. Foi relançado novamente uma década depois.

O filme recebeu alguma reação negativa do público nos Estados Unidos, mas não tanto quanto poderia. Isso porque o filme nunca foi lançado em sua totalidade. Os executivos da Disney foram sábios o suficiente para prever algum conteúdo do filme pode ser visto como politicamente incorreto e racista.

A Canção do Sul (Dublado) Filme Completo





ACESSE PRETAS POESIAS:



domingo, 5 de agosto de 2012

QUILOMBO E MATRIARCADO - RAINHA NGOLA NA REGIÃO AMAZÔNICA





Walter Passos - Historiador
Skype: lindoebano

Facebook: Walter Passos


Os estudos sobre o matriarcado deveriam pautar a historiografia brasileira, mas o poder patriarcal e androcêntrico nos estudos acadêmicos cerceam e omitem o matriarcalismo nas reconstruções de sociedades africanas no Brasil.

Quando falamos em quilombo, mocambo, cafundó, terra de preto e outras designações pelos quais os estudiosos adjetivam a resistência dos escravizados através da fuga e da formação de aldeamentos, é deveras importante entender a questão de poder e as relações sociais capazes de permitir por séculos que estas experiências se tornassem viáveis até os dias atuais.

O matriarcado esteve presente em todas as migrações voluntárias dos africanos pelo planeta. Trazida com os prisioneiros (as) das guerras travadas em Mãe áfrica (sociedades matriarcais) pelos cristãos europeus (sociedades patriarcais), esse modelo de organização será o tema que discutiremos em breve.

Os bantus (“humanos”, na linguagem do Kongo) que falam cerca de quatrocentos idiomas e habitam do oeste para leste o Gabão, Camarões e norte ao sul do Sudão até a Namíbia. Os vários grupos étnicos Bantus dominaram a metalurgia do ouro e do ferro, usando este último, produziram machados, espadas, enxadas e enxós. Além disso, as habitações têm uma arquitetura particular de cabanas circulares ou aldeias chamadas de Msonge. Tais avanços permitiram a colonização de seus territórios ao longo de um período de cerca de quatro mil anos. Muitos grupos étnicos bantus foram sequestrados para as Américas e trouxeram consigo as suas experiências matriarcais.

No seu último livro, que não viu impresso, Décio Freitas visitou uma das menos conhecidas revoltas populares da história brasileira, o movimento que nos livros escolares aprendemos com o nome de Cabanagem. Dizendo em palavras vagas, foi uma insurreição ocorrida principalmente em Belém, entre 1835 e 1840, e reprimida sangrentamente – teriam morrido no total umas 30 mil pessoas, cerca de 25% da população do Pará na época. Foi designada com esse nome por motivos triviais: é que de fato a maior parte dos envolvidos vivia em cabanas pobres, em malocas improvisadas, numa vida miserável que foi, sem dúvida, o combustível da revolta.No livro A Miserável Revolução das Classes Infames, Freitas relata sobre a existência de um quilombo matriarcal na floresta amazônica, liderado pela rainha NGola e outras guerreiras, informação obtida após a tradução de cartas de Jean-Jacques Berthier, um francês que aos 14 anos de idade teve que fugir da França para Guiana Francesa após ser assediado por um pedófilo que o condenou na Revolução francesa.

Fugindo das batalhas que assolaram o país depois da independência, ele foi parar num desses mocambos matriarcais – justamente o da rainha Ngola – e viveu lá entre 1824 e 1828. Sua carta enviada ao irmão Guillaume, em Nantes, na França, foi pesquisada pelo historiador Décio Freitas para o livro A Miserável Revolução das Classes Infames e mostra com riqueza de detalhes como era a vida nesse pedaço da África em plena floresta amazônica.

Berthier informa que eram quatro quilombos adjacentes com 300 moradores em cada um deles e um principal com uma média de 700 moradores, sendo um total de 1900 habitantes. Assevera de que o quilombo principal já tinha cinquenta anos de existência e a rainha que governava já era a terceira Ngola. Um detalhe chama a atenção da descrição da rainha. ela estava em uma cadeira de espaldar alto colocada em uma plataforma, via-se na altura do espaldar uma serpente de ouro encastoada.

No decorrer do relato sobre os mocambos o poder da rainha é demonstrado com castigos impostos aos homens que só podia conversar com ela prostados de joelhos, e quando falavam algo não consensual eram castigados com até três bastonadas na cabeça. Berthier ao ser recebido para solicitar asilo não se prostou sendo imediatamente castigado, e aprendeu a lição de respeito ao matriarcado, recebendo também uma bastonada e prostou-se. Asilo aceito e algumas condições foram expostos:

- Poderia viver na comunidade como irmão, mas, não era permitido relações sexuais com as mulheres pretas, nem se pagasse o dote. O motivo apresentado pela rainha era porque as mulheres eram poucas e necessárias para a reprodução da raça preta sem mistura de sangue branco ou indígena. Mas, poderia casar com uma mulher nativa e tornaria capitão das milícias nas lutas contra os brancos que não permitiam a liberdade dos pretos e eram pérfidos.

Interessante são os relatos do francês sobre o poder matriarcal que o deixou embasbacado

A RELAÇÃO CONJUGAL POLIANDRICA

As mulheres escolhiam os companheiros e eles passavam pelo teste da convivência por alguns meses, só assim ela analisava se ele era satisfatório. Se por acaso fosse aprovado tinha que pagar um dote requisitado pela noiva e ela declarava a todos da aldeia que ele era a partir daquele momento o seu marido. As mulheres podiam ter até cinco maridos, robustos e ágeis, escolhendo qual deles ela manteria relações sexuais e os mandava embora no momento que assim entendessem. Os maridos moravam em suas próprias cabanas e elas escolhiam entre eles um que era o responsável de supervisionar a família que poderia ter 20 filhos, este “privilegiado” morava em sua cabana. Outra atribuição masculina era carregar a esposa nas costas, quando ela não queria andar a pé.

Em Moçambique, existem ainda sociedades matriarcais e poliandricas, onde as mulheres têm voz mais ativa e poder. Estas sociedades remanescentes encontram-se no norte de Moçambique. Um amigo relatou que encontrou uma mulher que teve um marido, filhos e depois o deixou, e ela encontrou outro e outro e voltou a relacionar-se com o primeiro e tem um outro que vive em casa. Eles se coordenam e visitam aquela mulher sem conflitos com o atual, aquele que vive em casa é o atual marido, enquanto os outros são SOBRESSALENTES, como elas chamam.

ECONOMIA

A economia da comunidade baseava-se no trabalho masculino na agricultura, caça, pesca, tecelagem, olaria, serralheria, extrativismo e mineração de ouro vigiados por guerreiros da rainha. O ouro era utilizado para confecção de joias para a rainha e o restante para conseguir armas. Realizavam também trocas de gêneros com holandeses da Guiana. também vendiam tabaco e mandioca para as populações ribeirinhas e praticavam a pirataria: os soldados de Ngola atacavam canoas em rios distantes, roubando os viajantes – ou então saqueavam povoações de brancos.

FORÇA DE DEFESAEra composta de guerreiros de cabeça raspada e não trabalhavam para a suas esposas e tinham o privilegio de obedecer somente à rainha Ngola. Constantemente realizavam ataques de guerrilhas a povoações dos brancos para o saque.


RELIGIÃOMantinham as práticas das religiões ancestrais e conforme relato do Frances:

"Reverenciam ídolos com feições de homens, mulheres e feras, aos quais periodicamente fazem sacrifícios. Qualquer celebração religiosa deve ser autorizada pelo feiticeiro, que é também o curandeiro em suas doenças."


Notamos um desconhecimento completo da metafísica religiosa bantu por Berthier, embasado de preconceitos cristãos sobre o que não entendia.

LAZER
Dança e música usando os instrumentos “pungo” e marimba. O missivista demonstra perplexidade com as mulheres que passavam o tempo sentadas no chão conversando, cantando e fumando tabaco.

O machismo de Berthier não entendia o matriarcalismo e na sua visão androcentrica as mulheres deveriam servir aos homens.

EDUCAÇÃOA oralidade através de contadores de histórias.


Relata Freitas: "É uma pena que Berthier não se alongue mais na narrativa sobre a sua experiência no mocambo. Seria nada menos que sensacional se desse mais informações sobre aquela sociedade poliândrica, semelhante à de Palmares e às de algumas regiões da África. Mas não indica sequer aproximadamente a localização geográfica do mocambo, embora certas referências permitam supor uma região para os lados da Guiana Francesa.
O laconismo talvez se deva ao fato de ter jurado, com sangue, perante a rainha Ngola, guardar rigoroso segredo sobre o mocambo."


Concluo este artigo citando um provérbio que com certeza se aplicou a Berthier:

"O olho nunca se esquece do que o coração vê."
-
Provérbio bantu.


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Poemas de amor ao povo preto:


ACESSE PRETAS POESIAS:

sexta-feira, 8 de junho de 2012

JOHN CHILEMBWE – UM PASTOR BATISTA CONTRA O RACISMO E O COLONIALISMO


Por Malachiyah Ben Ysrayl.
Historiador e Hebreu-Israelita
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O Malawi ocupa uma pequena região do sudoeste do continente africano, limita-se ao norte com Tanzânia, ao leste e ao sul com Moçambique e ao oeste com a Zâmbia. O seu nome se deve ao lago Malaui ou Nyasa, que ocupa um sexto do seu território.

A capital do Malawi é a cidade de Lilongwe, localizada no centro do país, o maior centro comercial é a cidade de Blantyre - Escócia, nome dado em homenagem à terra natal do explorador e pastor presbiteriano David Livingstone, que muito contribuiu com as suas viagens de “evangelização” para a colonização da África.

LAGO MALAWI


Os Chewas constituem 90% da população da região central, a tribo Nianja predomina no sul e a Tumbuka no norte. Além disso, um número significativo de Tongas vive no Norte; Ngonis - um ramo dos Zulus que vieram de África do Sul, no início dos anos 1800 - vivem abaixo do norte e regiões menores centrais, e os Yao, que são na sua maioria muçulmanos, predominam na região Sul do país e vivem em uma faixa larga a partir de Blantyre e Zomba ao norte do Lago Malawi e no leste da fronteira com o Moçambique. Bantus de outras tribos vieram de Moçambique como refugiados.


JOHN CHILEMBWE E A REVOLTA DOS BATISTAS

Neste país, provavelmente na região Chiradzulu de Niassalândia, nasceu John Chilembwe, por volta de 1871. Seu pai era um Yao e sua mãe era uma escravizada Mang'anja (grupo étnico tradicional da área, vítima da escravidão pelos árabes e dos Yao que eram comerciantes de escravizados).

Os Yao são originais do norte de Moçambique e migraram por causa da fome em seu país e auxiliaram como intermediários para os árabes. Chilembwe é uma mistura dos dois grupos étnicos, representa a situação de ambos. Ele cresceu sob a atmosfera de insegurança predominante das regiões Sul de Niassa. Quando os britânicos colonizaram a área em 1891, nomeando de Niassalândia, eles estabeleceram um governo e missões, e procurou controlar os povos nativos da região.

John Chilembwe, um homem alto, asmático, era o cozinheiro da família do missionário batista Joseph Booth e cuidava da sua filha, tornando-se seu amigo, como consequência foi batizado na fé batista em 17 de julho de 1893 por Joseph Booth, que havia fundado a Missão Zembesi Industrial de cunho fundamentalista como uma alternativa para as mais antigas missões presbiterianas da Escócia que exploravam a população nativa. Booth criticava as missões presbiterianas e pregava uma igreja igualitária, ideia radical e que agradou ao novo convertido. Booth pregava:

"Sinceramente agora, não é uma imagem maravilhosa de ver homens elegantemente vestidos ... pregando um evangelho de autonegação aos homens e escravas .... Eu nunca me senti tão completamente envergonhado .... Devemos ... obedecer ao ensino [o] [do Evangelho]. ".

Em 1897, John viaja com a família Booth para os EUA onde frequentou o Virginia Theological College, um seminário teológico preto, e teve contato com os ensinamentos do branco abolicionista John Brown e dos pan-africanistas Booker T. Washington, Marcus Garvey e outros pretos na América. Estes ensinamentos foram determinantes para as futuras decisões a serem tomadas.

Foi diplomado por esta faculdade teológica preta e ordenado pastor batista pela National American Baptist Convention, retornou a Niassalândia e fundou a Missão Providência industrial, criando sete escolas africanas independentes, que em 1912 tinha 1000 alunos e 800 estudantes adultos. Construiu uma igreja de tijolos bem arquitetada, e em um trabalho pan-africano plantaram lavouras de algodão, café e chá.

O esforço educacional do Pastor John Chilembwe na propagação da paz e do bem-estar da população, combatendo o alcoolismo, a necessidade do trabalho e do aprendizado, a censura veemente contra a prática de homicídios, roubos e todo o tipo de crimes, o fez um homem respeitado e admirado pelo seu povo.

John Chilembwe com sua mulher, Ida, e sua filha, Emma, em uma fotografia, provavelmente entre 1910 e 1914.

A crueldade e o racismo dos brancos colonizadores o obrigaram a tomar uma decisão: Ficar omisso concordando e participando da opressão e pregando uma vida futura no céu para os membros da sua igreja ou agir em combate ao racismo. Optou por uma teologia libertária e se envolveu diretamente no sofrimento dos seus paroquianos, decisão esta tomada décadas posteriores por diversos pastores batistas que não se calaram com o sofrimento do seu povo, um dos maiores exemplos foi o de Martim Luther King.

No período anterior a 1915 a fome atingiu a região e muitos imigrantes moçambicanos vieram para a região e concomitantemente grileiros brancos começaram a se apossar das terras mais férteis e iniciaram uma cobrança exorbitante aos moradores, obrigando aos homens a migrarem para cidades distantes.

Além disso, William Jervis Livingstone, um gerente de fazenda local, tratava seus trabalhadores (muitos deles paroquianos de Chilembwe) asperamente e incendiou igrejas rurais de Chilembwe, que reclamava em voz alta sobre o racismo.

Mas a sua profunda alienação seguiu do surto da I Guerra Mundial na Europa, bem como o recrutamento, que Chilembwe lamentou, dos homens de Niassa para as batalhas contra os alemães na vizinha Tanzânia. "Entendemos que fomos convidados para derramar nosso sangue inocente na guerra deste mundo .... [Mas] haverá quaisquer boas perspectivas para os nativos ... após a guerra?" Chilembwe perguntou. "Estamos impostos a mais do que qualquer outra nacionalidade sob o sol." O restante de sua carta aberta, assinada "em nome de seus compatriotas", foi um protesto forte contra o descaso aos africanos.

Um mês depois, em janeiro de 1915, Chilembwe decidiu "dar um golpe e morrer, pois o nosso sangue vai certamente significar algo no passado." Esta era a única maneira, ele declarou, "para mostrar ao homem branco, que o tratamento que estão dispensando aos nossos homens e mulheres era péssimo e nós estamos determinados a atacar primeiro e dar o último golpe, e, em seguida, todos morrem pela forte tempestade de exército dos homens brancos." Ele falou a seus 200 seguidores da inspiração de John Brown, e advertiu-lhes para não roubar nem para molestar as mulheres brancas. Em 23 de janeiro, em diferentes ataques, seus homens decapitaram Livingstone, mataram outros dois homens brancos e vários africanos , poupando um número de mulheres brancas e crianças, saquearam uma loja de munição em uma cidade grande próxima, e se retiraram para orar. Quando os ataques não conseguiram despertar o apoio local, Chilembwe fugiu em direção a Moçambique. Desarmado, vestindo um casaco azul escuro, uma camisa de pijama listrado sobre uma camisa de cor, e calças de flanela cinza, ele foi morto em 03 de fevereiro por funcionários coloniais.

Chilembwe é reverenciado como um herói moderno em Malawi, que alcançou a independência em 1964. Ele foi o primeiro a expor os principios do inconformismo colonial e o primeiro a quebrar a crença generalizada que "os nativos estavam felizes" sob a dominação estrangeira. um precursor e mártir do nacionalismo do Malawi.

Ele é relembrado no Malwi no dia 15 de janeiro como um heroi nacional.

"É muito tarde agora para falar do que pode ou não pode ter sido. Tudo o que seja pelas razões nós somos convidados a participar na guerra, a verdade é, somos convidados a morrer para Niassalândia. Nós deixamos tudo para a consideração do Governo, esperamos na misericórdia de Deus Todo-Poderoso, que algumas coisas do dia vão dar certo e que o Governo vai reconhecer a nossa indispensabilidade, e que a justiça prevalecerá."

JOHN Chilembwe
Em nome de seus compatriotas
Niassalândia tempos No.48, 26 de novembro de 1914

LOUIS ARMSTRONG -GO DOWN MOSES


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domingo, 13 de maio de 2012

A MULHER PRETA E O DESAFIO DA MATERNIDADE EM UMA SOCIEDADE RACISTA



Por Walter Passos
Historiador
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Os desafios das nossas ancestrais pretas se tornaram dores inextinguíveis com o surgimento do tráfico transatlântico e o sequestro de crianças, adolescentes e adultos. A separação causou sofrimento em milhões de mães africanas, este inimaginável aos nossos pensamentos, e a tristeza pairou em todo o período do sequestro, porque a separação do ventre materno: África: significou a separação de mães amorosas e filhos amados.

Para a mulher preta escravizada nas Américas à maternidade trouxe desafios outrora desconhecidos em terras africanas, afastadas dos rituais religiosos do nascimento e de iniciação em muitas sociedades, abalou o processo identitário, especialmente nos nascimento de gêmeos.

A mulher preta no Brasil Colônia e Império enfrentou desafios em uma nova sociedade, onde os ritos de nascimentos são ignorados, e a maternidade em muitos casos é decorrente do estupro, de nascimento de filhos considerados ilegítimos pelos progenitores; senhores de engenhos e seus filhos e em muitos casos os chamados “filhos de padres”. Propagando uma nova realidade nas relações de maternidade e da escravidão: a crise da mestiçagem e a negação cultural da ancestralidade materna e da própria genitora, casos estes relatados em diversos exemplos na literatura brasileira.

Na escravidão, a função materna da escravizada vai se adequar aos desejos de lucro do senhor de engenho. A gravidez tinha concepções diferentes para muitos senhores de engenho, eram novas bocas a alimentar no processo produtivo, ou uma necessidade de aumentar a renda, sendo assim muitos senhores engravidam as escravizadas, e vendem os bebes considerados por eles, apenas uma mercadoria.

Ocorreu no Brasil, houve uma quebra da ancestralidade e de conceitos maternos africanos com a resistência na prática de aborto e do infanticídio, mais uma vez, a escravidão desfigurou o papel da maternidade, abalando estruturas milenarmente construídas de gestação e criação em território africano.

Nesse ínterim, cria-se no Brasil um elaborado mito de maternidade: a Mãe Preta, uma mulher feliz que amamentava os filhos de senhores e foi ativa participante de um país sem racismo e poucos conflitos. A Mãe Preta da democracia racial de Gilberto Freire e seguidores.

Na realidade, a Mãe-preta foi uma mulher infeliz é obrigada a amamentar os filhos dos seus algozes, enquanto os seus filhos foram vendidos e os que ficaram sofriam de inanição, por pouco leito materno. Muitas escravizadas, as chamadas amas de leite forneceram lucros às boas famílias católicas ao terem os seus peitos alugados para amamentação de crianças brancas.

Abaixo: Fernando Simões Barbosa com ama–de–leite – Euge

Mauricio – Recife, c.1860–1869. Crédito: Fundação Joaquim Nabuco, e Monumento a mãe-preta na matriz da Fraternidade Eclética Universal.

Uma realidade nova se propagou: a função de ser mãe solteira em uma sociedade patriarcal e racista. A dificuldade em criar os seus filhos obrigou as mulheres pretas a deixarem os seus bebes enjeitados nas Santas Casas a Roda dos Expostos.

A pobreza extrema que foi jogada a população preta no Brasil reforça os laços do chamado compadrio, onde muitas crianças foram entregues a parentes, pessoas estranhas e as chamadas comadres endinheiradas ou de melhor situação financeira criando uma rede de exploração de crianças que em muitos casos serviram como serviçais nas residências de famílias mais abastadas. As mulheres pretas não foram culpadas dessas atitudes.

Com o advento da abolição da escravatura a mulher preta traz consigo os traumas da escravidão e novos desafios teve que enfrentar, por causa da maioria das famílias desestruturadas. Além da pobreza, aprender a vencer desafios e preconceitos em uma sociedade judaico-cristã: Mulher preta, pobre e mãe-solteira.

2PAC - DEAR MAMA (LIVE) - LEGENDADO


A mulher preta é uma heroína na sociedade racista, não só como provedora de muitos lares, mas, como sustentáculo das tradições ancestrais. Quando os seus filhos e filhas começam a enfrentar as discriminações por causa da cor da pele, a mãe é o apoio e a orientação para a preservação da autoestima. E ela que suporta e procura os meios de combater a discriminação, é o verdadeiro amor que sofre com as tristezas e exulta com as vitórias.

O desafio da maternidade ainda é para muitas mulheres pretas questões de profundas análises, porque só elas sabem, os grandes desafios que vão enfrentar para o sustento e a educação dos seus filhos e filhas.

Felizmente, as mulheres pretas apesar das dificuldades herdadas da escravidão dos nossos ancestrais e dos novos desafios após a abolição da escravatura, tem mantido as nossas tradições e formando gerações de pretas e pretos orgulhosos de terem o prazer de chamar uma mulher preta de: mãe.


SIZZLA - THANK YOU MAMA


Shalom!

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sábado, 10 de dezembro de 2011

JEZABEL SEDUTORA E PECADORA – ESTEREÓTIPOS DA MULHER PRETA ESCRAVIZADA



Por Walter Passos

Historiador 
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Os cristãos evangélicos sempre citam o exemplo de Jezabel quando censuram as mulheres. Quem foi Jezabel? Uma mulher da história dos hebreus, princesa fenícia, filha do rei Etbaal, e esposa do rei Acabe de Israel cerca de 870-853 a.C. (1Rs 16.29-31; 18.19). Jezabel era alta sacerdotisa da deusa Astarte, esposa do deus Baal. Conhecida pela prática de diversos pecados conforme as leis dos israelitas. O Torá proíbe o casamento de hebreus com pessoas estrangeiras e Acabe desobedeceu a lei. Na tradição cristã, uma comparação com Jezabel indica uma pessoa pagã, apóstata, que usa a manipulação e a sedução para enganar os santos de Deus (homens cristãos) em pecados de imoralidade, idolatria e sexualidade, associada na escravidão as mulheres pretas pelos escravizadores cristãos.



A idéia dos europeus de que a mulher preta é lascívia antecede a escravidão. Nos contatos com civilizações africanas não compreenderam alguns aspectos culturais, como a prática da poligamia em algumas sociedades, alguns rituais e danças de mulheres seminuas foram interpretadas como decadência moral e lascividade, sob os olhares daqueles que se consideravam superiores racialmente. As mulheres africanas são relatadas por eles como de fogo e quentes, que criam estratégias para conseguir amantes. William Bosman descreveu as mulheres pretas na Costa da Guiné como "fogo" e "quente" e "muito mais quente do que os homens."

Na dominação do território africano por potências européias as mulheres africanas foram estigmatizadas de tentadoras e aceitavam felizes as relações afetivas e estereotipadas como lascivas. Mentira dos escritores europeus.


O encontro das culturas européias com as africanas foi de não integração, crises e censuras, demonização e uso sexual forçado do corpo da mulher africana, gerando tanto na áfrica como nas América, descendentes do estupro: os mulatos.

A mulher preta nos USA no período escravocrata teve uma concepção de luxuria e promiscuidade, o que continuou após a escravidão. No Brasil, o epíteto de Jezabel não entrou em voga por causa da colonização católica, apesar da concepção de luxuria e promiscuidade tenha se atribuído as mulheres escravizadas. Gilberto Freire as acusa de prostituição doméstica, feitiçaria e magia sexual e Jorge Amado as descreve em seus romances como possuidoras de ardentes desejos sexuais. No geral a mulher preta sempre foi adjetivada de uma série de estereótipos negativos, como sendo lasciva, volúvel, mulher à toa, prostituta.

Jezabel é a menina má, a preta sedutora que atrai os homens brancos para a cama, desestruturando as boas famílias puritanas. Para os escravizadores: Jezabel "é a fêmea promíscua com um apetite sexual insaciável."

Em contraponto a imagem da mulher branca é: mansidão, auto-respeito, autocontrole, modéstia e pureza sexual. Isso criou em muitos países que tiveram a escravidão o desejo do homem preto de se relacionar com a mulher pura, a mulher branca.

Muitos relatos da escravidão, as mulheres puras usavam os corpos das mulheres consideradas impuras para a prostituição, inclusive casos aberrantes de freiras que viviam do dinheiro da venda da carne preta no mercado do sexo. A ganância de Jezabel e sua promiscuidade na era das mulheres escravizadas. Vítima de seguidos estupros a africana no mundo escravizado era um objeto de uso descartável e procriadora de crianças, já no ventre escravizadas.

É de mister importância ressaltar que a Jezabel também foi retratada como a mulata nos USA, a mulher misturada tendo alguns traços europeus, descendente das relações do homem branco com a escravizada. No Brasil, o ideário da mulata nas musicas e no samba incentivam a idéia, da preta gostosa e detentora de encantos sexuais inigualáveis. Temos que atentar que em toda a América escravagista a mulher preta, denominada de diversos epítetos foi e é considerada a tentadora e pecadora. A destruidora de lares na visão das mulheres brancas.

No documentário abaixo, relata-se o trabalho de profissionais da dança, mas, o título reporta a tal famosa sensualidade das mulatas.

TRAILER DO DOCUMENTÁRIO "MULATAS! UM TUFÃO NOS QUADRIS"



NEY MATOGROSSO - DA COR DO PECADO



Conforme o Dr. David Pilgrim, a mulher preta possuidora de dotes sexuais irresistíveis, foi também estigmatizada nos USA como feia, aberração, viciada em bebidas alcoólicas, mas sempre indicando que esta pronta e desejosa para atos de libertinagem. Uma mulher digna de pena dos homens brancos e bons cristãos.

As meninas pretas não ficaram livres do ideário de sexualidade do escravizador, em toda a América, casos hoje que seriam considerados atos de pedofolia foram praticados. No Brasil, diversas meninas serviram de iniciação a prática sexual de senhores e seus filhos. Nos USA a propaganda da precoce sexualidade das meninas pretas foi divulgada, vede a caricatura: o olhar, o sorriso e a barriga, sugerem uma gravidez.
Outras caricaturas foram feitas das mulheres pretas de Jezabel encontradas no Museu Jim Crown:

Na imagem abaixo notamos que cinzeiros foram produzidos para demonstrar a sensualidade exagerada das mulheres pretas. No Brasil, o hábito de “disputar a nega” em jogos de dominó, dado, baralho e outros, relembram que as mulheres pretas serviram como satisfação sexual desenfreada dos senhores de escravizados.

O estereotipo de Jezabel para as mulheres escravizadas e a continuidade no período pós-abolição demonstra a grande falácia de uma sociedade hipócrita e racista, que violentou as culturas africanas, dividiu as famílias, se apropriou da mão -de- obra, demonizou os conceitos filosóficos e religiosos. A sociedade escravocrata na América foi a incorporação de Jezabel pelos seus pecados e falta de respeito a vida.



O grupo religioso Israel United in Christ postou um vídeo recentemente sobre a idéia que eles possuem de Jezabel na atualidade, postado abaixo como curiosidade.

THE CHARACTERISTICS OF A JEZEBEL




Notamos que a prostituição atribuída às mulheres pretas na África e nas Américas foi uma imposição hipócrita branca e masculina. As mulheres pretas vêem e interpretam a história de outras formas, são outras histórias, e sabem que os homens brancos escravizadores usaram os corpos das mulheres nas mais horrendas violações da história humana. As mulheres pretas devem reescrever a história da África e da escravidão com o olhar feminino.

Os homens pretos repetem a falácia do invasor e escravizador europeu quando interpretam a história com olhares e conceitos de poder masculino e este olhar interpretativo está ocorrendo na África e nas Américas. Nos USA, as músicas do rap retratam as mulheres pretas como vadias, e algumas delas compartilham dessa ideologia, como se vê no clipe musical abaixo.

50 CENT - DISCO INFERNO



É uma continuidade dentro da comunidade de falta de respeito e do ideário de Jezabel criada pelo escravizador.

No Brasil, não apenas alguns cantores de rap, mas grupos de pagode e funk reforçam a criação do invasor europeu na África, a continuidade do senhor de escravizados e atualmente a sociedade racista de falta de respeito, as nossas avós, mães, tias, irmãs, filhas e companheiras.

Na Bahia, a deputada Maria Maia (PT/BA) propôs um projeto de lei (PL 9.203/2011) que trata da “proibição do uso de recursos públicos para contratação de artistas que em suas músicas, danças ou coreografias desvalorizem, incentivem a violência ou exponham as mulheres a situação de constrangimento.” O referido projeto está em discussão na Comissão de Constituição e Justiça da Assembléia Legislativa e já recebeu o apoio de outras deputadas. Ocorre que grupos de pagode estão descrentes na aprovação da lei, tendo em vista que, segundo eles, se trata da “cultura popular”, tal cultura se conceitua como o desrespeito e a prostituição - chamada de putaria – das mulheres pretas. Abaixo, confira a resposta de dois famosos grupos de pagado da Bahia ao mencionado projeto de lei.

O TROCO-BLACK STYLE FIEL A PUTARIA [NOVA]




Os homens pretos precisam refletir sobre essa repetição ideológica. A mulher como objeto, como carne que pode ser violada, desrespeitada está proporcionando a violência não só ideológica, mas espiritual e física. Um número incontável de mulheres são agredidas e assassinadas por homens pretos a todo o momento. Jezabel foi uma mulher de extremo poder e de manipulação, poder este que nunca passou pela mulher na escravidão e pós-abolição, porque o poder da mulher e do homem preto aflorava quando resistia e mantinha as suas tradições. Atualmente, feministas vêem Jezabel como uma feminista que lutou contra o poder masculino em Israel. A mulher preta foi o maior suporte de resistência do nosso povo. A mulher preta deve continuar reagindo às ideologias que não só as afetam, mas a todo o povo preto.
Shalom!

domingo, 20 de novembro de 2011

I AM SLAVE – EU SOU UMA ESCRAVA PARA VOCÊ

Por Ulisses Passos.
Bacharel em Direito (Estácio de Sá/FIB),
Acadêmico de Línguas Estrangeiras da UFBA,
Pan-Africanista.
Pesquisador das relações étnico-raciais e jurídicas.
Pseudônimo: Aswad Simba Foluke. E-mail: ulisses_soares@hotmail.com. Facebook: Ulisses Passos.

Um ótimo filme de produção inglesa para a televisão estreou no Channel 4, em 30 de agosto de 2010, é uma excepcional história de luta de uma mulher para a liberdade da escravidão moderna. Dirigido por Gabriel Ranger e escrito por Jeremy Block, estrelados pela linda atriz nigeriana de 25 anos de idade, radicada na Inglaterra, Oluwunmi Olapeju Mosaku. Deleita-nos com uma interpretação brilhante, onde Malia nos leva a uma reflexão aprofundada e visceral do problema que passou a personagem e sua luta de superação.

Malia nunca esqueceu quem ela é: uma jovem Nuba orgulhosa que teve uma infancia feliz com os seus pais amorosos e dedicados. O costa-marfinense, Isaach de Bankolé, que já participou de mais de 30 filmes, interpreta Bah, o pai de Malia, um guerreiro Nuba que amava a sua família. Outra personagem de destaque é a atriz belga de origem árabe, Lubna Azabal, que interpreta a senhora opressora.



O filme busca retratar, principalmente, a história de Mende Nazer, escritora e ativista dos direitos humanos e uma ex- escravizada no Sudão. Mende Nazer é uma princesa do povo Nuba, seqüestrada aos doze anos de idade e escravizada após ataque de milícias muçulmanas pós-governo a sua aldeia nas montanhas. Durante seis anos foi escravizada por uma família na cidade de Cartum, capital do Sudão, vítima de pressões psicológicas, forçada ao trabalho doméstico e abusada sexualmente. No ano de 2000, aos 18 anos de idade foi enviada como escravizada para o diplomata sudanês Abdel al Koronky na cidade de Londres, onde o seu martírio continuou. Conseguindo fugir da escravidão em 11 de setembro de 2000 com a ajuda de um compatriota do Sudão.

Empreendeu uma grande luta para conseguir asilo político na Inglaterra, tendo seu pedido negado, recebeu apoio de grupos importantes anti-escravidão moderna, e teve a autobiografia, intitulada: Slave – The True Story Of Girl’s Lost Childhood and Her Fight for Survival escrita por ela e Damien Lewis publicada na Alemanha, com o impacto do livro a Inglaterra lhe concedeu asilo permanente.

A imprensa britânica , após esse episodio, tem constatado a veracidade de milhares de fatos, recentemente o jornal Daily Telegraph publicou um artigo do jornalista Heidi Blake o qual entrevistas policiais que investigam e vítimas da escravidão. O Diretor-Superitendente de Polícia Richard Martin, relatou:

- "Algumas das experiências, as vítimas são literalmente acorrentadas a pia da cozinha, trabalhando 20 horas por dia, 7 dias por semana para ganhar pouco ou nada.

-"Há outras que só foram autorizadas a comer as migalhas da mesa da cozinha, deixadas pelas crianças no fim das refeições, para que eles não eram sequer alimentados corretamente. E em torno de tudo o que você tem pessoas sendo agredidas e abusadas pelas famílias que estão dentro. Tivemos mulheres que foram estupradas. "Ela acrescentou que um número de casos suspeitos em curso envolvidos com imunidade diplomática. Esta é uma criminalidade grave perpetrada pelos diplomatas estrangeiros, alguns dos quais estão envolvidos em um sistema de escravidão moderna. Os casos que foram relatados têm sido horríveis, de terror e brutalidade, enfrentada por aquelas presas pela escravidão doméstica em Londres e no Reino Unido."

- "Kalayaan, uma instituição de caridade com base no oeste de Londres, ajuda cerca de 350 trabalhadores migrantes que foram forçadas à escravidão a cada ano. Cerca de 20 por cento deles relatam ter sido agredidas fisicamente por seus empregadores."
A escravidão moderna de homens e mulheres pretas africanos, infelizmente, ainda é uma realidade em países europeus, asiáticos e africanos. Supõem que na Inglaterra existam 5.00 mil escravizadas e no Sudão 20.00 mil. Famílias inglesas trazem 15.00 trabalhadores domésticos a cada ano e centenas empreendem fuga


Um bom filme para toda a família, ótimo para se fazer uma reflexão sobre a situação de africanos que ainda sofrem o descaso nos seus países e servem como mão-de-obra escravizada nos países europeus, outrora escravizadores.

Assista o filme no Youtube, clicando aqui


Trailer: I AM SLAVE


















ACESSE PRETAS POESIAS:

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

BRASIL: CARTA MAGNA DO RACISMO



Por Aidan Foluke, membro da COPATZION,
Tesoureira do CNNC/BA e Acadêmica de Enfermagem.
E-mail: vanessasoares13@hotmail.com
Skype: aidanfoluke



Ulisses Soares Passos, concluiu o curso de Ciências Jurídicas e Sociais (Direito), com 22 anos de idade, na Estácio/FIB, apresentando a monografia de final curso com o tema BRASIL: CARTA MAGNA DO RACISMO, auferindo nota máxima com louvor pela banca examinadora. Diante disso, presta-se o devido reconhecimento ao presente estudo, com objetivo de difundí-lo e incentivar novas pesquisas correlatas entre Direito e Escravização.


Sinopse da monografia:



Todos os seres humanos nascem com direitos inalienáveis. Estes direitos capacitam os indivíduos a buscarem uma vida digna — sendo assim, nenhum governo pode conferi-los, mas todos os governos devem protegê-los.

A liberdade, construída sobre uma base de justiça, tolerância, dignidade e respeito — independentemente da etnia, religião, convicção política ou classe social — permite aos indivíduos desse Estado buscar esses direitos fundamentais. Quando tal premissa é respeitada, tem-se a verdadeira democracia, haja vista que esta é o conjunto de princípios e práticas que protegem a liberdade humana em seu sentido lato, seus direitos fundamentais e sociais.

Acontece que o processo de formação do Estado brasileiro, assim como o da maioria dos Estados Americanos, ocorreu com a constituição de uma colônia de exploração e sob o manto do trabalho escravizado, do racismo institucionalizado e das relações sociais verticalizadas, todos fundamentados no massacre aos Direitos Humanos e na destituição integral de grupos étnicos, culturas, idiomas, costumes e, principalmente, identidades, com intuito único de satisfação econômica às antigas metrópoles e seus reinados.

A opressão e a supressão aos direitos humanos, à época, foram patrocinadas pelas mais variadas formas de governo, dentro de suas estruturais estatais e normativas, entretanto foi abominada com a instituição da democracia e a necessidade, por vezes oportunidade, da instituição do Estado democrático de Direito, cuja função primaz é proteger direitos humanos fundamentais como a liberdade de expressão e de religião; o direito a proteção legal igual; e a oportunidade de organizar e participar plenamente na vida política, econômica e cultural da sociedade.

Diante disso, o Estado brasileiro foi o principal causador da supressão desses direitos, fomentando em si os mais variados tipos de desigualdades, em especifico a étnico-racial, refletida em sua maioria por diferenças sociais, econômicas e pelas mais variadas formas de preconceito, em que esta nação patrocinou legalmente durante mais de quatro séculos o massacre físico e psicológico daqueles que teriam direitos sob sua proteção.

Nesse contexto, pós-abolicionismo nenhuma medida pelo Estado foi aplicada, omitindo-se este em relação àqueles em cujo poder de império fora utilizado, e hoje, sendo maioria da população, exigem que ações reparatórias, e não somente afirmativas, sejam devidas pelo Estado brasileiro, àqueles que são herdeiros das incontáveis conseqüências advindas do maior meio de destituição e destruição da figura humana: a Escravização.

Para tanto, principia–se, no Capítulo 1, a análise da escravidão no Brasil, seus princípios e conjunturas, assim como o seu histórico fundamentado no modo de produção escravista que fundamentaram o seqüestro e morte de milhões de africanos. Assim como, a análise da legitimidade do direito no estudo da escravidão.

No Capítulo 2, tratando de apresentar as legislações do escravismo que continuam a propagar os pensamentos de diferenciação étnica, como a chegada dos imigrantes e a eugenia, aplicada principalmente na criminologia e nos estudos forenses.

No Capítulo 3, tratando de descrever a constituição outorgada de 1824 e as leis abolicionistas e as influências de outras manifestações e conquistas jurídicas dos afro-descendentes.

Quanto à Metodologia empregada, registra-se que, que na investigação foi utilizado o Método Indutivo Bibliográfico, cuja coleta de dados obedeceu todo rigor cientifico e encontra-se com as bibliografias destacadas.

Ao praticar, adaptar e desenvolver os conteúdos estudados para elaboração de um trabalho científico é possível delimitar um paralelo entre a teoria e a realidade, utilizando-se de uma metodologia científica. Pode-se empregar mais de um método de análise, portanto, é possível realizar uma pesquisa ao mesmo tempo qualitativa e quantitativa.

No caso em tela, a pesquisa foi de analise bibliografia, delineada a partir de análise crítica de livros, artigos, teses, notícias, leis, jurisprudências e documentários ligados à temática.

Destaca-se que diante do escasso material disponível na área jurídica, as fontes bibliográficas pairam sobre analises importantes de historiadores, antropólogos e sociólogos, o que não prejudica a presente monografia, posto que a relação intrínseca entre as ciências sociais e jurídicas quanto ao aspecto do fato jurídico e fato social garante a fidedignidade das informações prescritas e da analise jurídica do fato em tela.

Ainda ressalta-se por oportuno não se aplicar a costumeira divisão – Direito Civil e Direito Criminal - enquadrada nos estudos de Direito e Escravidão. No presente trabalho a escravidão não é fim de si mesma, mas ponte para o entendimento das conseqüentes políticas de igualdade material, diante das mazelas por aquela deixadas em todo o seio social, fazendo do estudo de seus melindres indispensável à justificativa das políticas sociais afirmativas e reparatórias.

Conclui-se ser inegável que o sistema jurídico se fizesse valer na escravidão desde sua gênese, enquanto norma e fato social desde início. Ao analisar os institutos normativos da escravização, encontram-se de bulas papais até códigos completos, ambos disciplinando relações dos escravizados com seus mercadores e proprietários, além de suas relações internas, como casamentos e cultos religiosos, como as externas como a alforria e sua repersonificação no julgamento em instância criminal.

Ao analisar as normas percebeu-se que o direito disciplinou veementemente as relações escravizado X escravizador, assegurando ao segundo todos os alicerces na exploração do primeiro, indenizando-o inclusive quando aquele tinha o seu direito de propriedade sobre outrem tolhido.

Nesse Diapasão, resta declarar que desde gênese, quando América portuguesa, as discriminações étnico-raciais se fizeram presentes dentro do ordenamento jurídico aplicados no Brasil, e mesmo diante, da ruptura do maior processo de exploração da história da humanidade, nada foi estabelecido aos milhões de africanos e seus descendentes no Brasil. A estes foram reservados as favelas, guetos, e todos os espaços ora constituídos para abrigar aos que ao Estado não mais serviam.

Por fim, cita-se Roberto Lyra Filho, hoje reconhecido como patrono da teoria crítica no Brasil, quem desenvolveu o conceito de direito como "um processo histórico de legítima organização social da liberdade", afirmando a necessidade de a ciência jurídica, com o apoio da sociologia e da filosofia jurídicas, voltar-se também para a análise histórica dos processos sociais em busca daqueles critérios de atualização dos padrões de justiça (finalidades éticas) e de legitimidade (mecanismos razoáveis de decisão e de aplicação do direito), na incessante busca de Justiça por aqueles que durante quatro séculos só presenciaram a diferença.

PRETAS POESIAS

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