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sábado, 16 de junho de 2012

OS JARAWA – UM POVO PRETO EM EXTINÇÃO – SAFARI E ZOO HUMANO


Por Walter Passos - Historiador 
E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br
Msn: kefingfoluke1@hotmail.com
Skype: lindoebano
Facebook: Walter Passos


Habitantes das Ilhas Andamam estão localizados em arquipélagos no Oceano Índico na Baía de Bengala, entre a península indiana ao oeste e a Birmânia no norte e leste. A maioria das ilhas é parte do Andaman e Nicobar na Índia, enquanto um pequeno número ao norte do arquipélago pertence à Birmânia.



Nestes arquipélagos habitam remanescentes dos primeiros grupos humanos que migraram do continente africano há aproximadamente 60.000 mil anos. Alguns destes grupos foram extintos após o contato com invasores ingleses que propiciaram um verdadeiro etnocídio através de assassinatos, doenças infectocontagiosas, mudanças dos hábitos alimentares, introdução dos vícios do tabaco e do alcoolismo e a exploração sexual.

Os primeiros invasores britânicos criaram um assentamento em 1789 e iniciaram o processo destrutivo, como se pode ler no diário do governador britânico à época, onde menciona que recebeu instruções para destruir os nativos por intermédio do álcool e do ópio.

Assim, como muitos outros grupos originais, a maioria dos membros da tribo Bo - grupo étnico primevo - sucumbiu às doenças introduzidas pelos britânicos no século XIX. O desaparecimento de Sr Boa em janeiro de 2010, último remanescente da população, também significa o desaparecimento de uma das línguas mais antigas do mundo. O desejo demoníaco dos antigos britânicos, infelizmente cumpriu-se:

BOA SR, THE LAST MEMBER OF THE BO TRIBE, SINGS


Entre os grupos remanescentes, iremos nos ater a explanação sobre os Jarawa, a principio porque seu estudo é de suma importância do pan-africanismo os estudos dos povos pretos em África, das migrações voluntárias e dos prisioneiros das guerras árabes e cristãs que espalharam os africanos em diversas regiões do planeta, e não podemos esquecer-nos dos judeus e os seus lucros com o tráfico. Sendo fundamental para nós o entendimento da história da humanidade e da compreensão do ódio e propagação da supremacia branca contra os povos originais.

VISITING THE JARAWA TRIBE PT. 2


Os Jarawa vivem nas ilhas ocidentais do Grande e Médio Andaman no Oceano Índico, onde são caçador-coletores, caçam porcos selvagens e lagartos, pescam com arcos e flechas e coletam sementes, frutos e mel. Eles são nômades e vivem em grupos de 40 a 50 pessoas, cujo total da população não ultrapassa o total de 300 pessoas, todos sob tutela do governo indiano, com situação de sobrevivência crítica. Desde os primeiros contatos em 1998 a ameaça da extinção é quase inevitável.


Diversas empresas de turismo organizam safáris humanos (excursões para fotografarem e verem o “exótico”), prática de civilizações brancas com os povos pretos o chamado zoo humano. Inclusive foi criado um resort turístico perto da comunidade expondo a população a pessoas estranhas a sua cultura que trazem influências nefastas, há casos de abusos de jogarem comida e pagarem a policiais para as mulheres jarawas dançarem para eles:

INDIGENOUS PEOPLE ON DISPLAY IN "HUMAN ZOO" IN INDIA


ANDAMAN TRIBES LURED TO DANCE FOR TOURISTS


Na década de 70 do século passado foi construída uma estrada no território Jarawa que trouxe colonos, madeireiros e caçadores. Afetando o ecossistema da floresta e os caçadores ilegais matando os animais usados na alimentação da população.

JARAWA MAN DENOUNCES POACHERS INVADING THEIR LAND


As doenças também estão ameaçando a existência dos Jarawa, foi detectado um surto de sarampo e outras epidemias trazidas por pessoas estranhas ao habitat. O governo da Índia também objetiva levar as poucas crianças para o aprendizado da língua e dos costumes da civilização, que porá fim a milenar cultura e todo o conhecimento adquirido dos ancestrais em milhares de anos.

Outro perigo que ronda a população dos Jarawa são as campanhas de evangelização dos cristãos que como raposas astutas tentam entrar na comunidade Jarawa para disseminar ensinamentos comprovadamente perigosos com palavras de salvação e no fundo contribuirão para mais um etnocídio de um povo original. Não podemos ficar omissos.

As visitações das “pessoas de boas intenções” apesar das “proibições” do governo indiano tem demonstrado um perigo constante à preservação do povo jarawa, sendo crianças os alvos prediletos.

JARAWA TRIBE OF ANDAMAN ISLANDS


A diminuta população dos Jarawa necessita do apoio internacional para ter uma chance da não findar. A historiografia relata diversas civilizações pretas que desapareceram após contatos com o mundo “civilizado branco".


Os métodos de extermínio físico e cultural são vários, desde o morticínio violento praticado por grupos economicamente interessados nas terras habitadas por estes povos (genocídio freqüentemente brindado com a impunidade ou mesmo o patrocínio de governos racistas, autoritários e/ou corruptos) e destruição de seus ecossistemas, até pressões psicológicas coletivas insuportáveis: através da discriminação pública, da imposição de programas “educativos” que anulem os valores próprios destas culturas, da “evangelização” de missões confessionais que impõe modelos religiosos frontalmente opostos à cosmologia e culturas tradicionais destes povos, entre outros.

A imposição de um mundo globalizado para as civilizações nativas esconde interesses econômicos, culturais, religiosos e racistas que devem ser combatidos por todas e todos que respeitam a diversidade humana e o direito a terra e a vida.

Shalom!

ENDANGERED JARAWA - INDIA

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domingo, 13 de maio de 2012

A MULHER PRETA E O DESAFIO DA MATERNIDADE EM UMA SOCIEDADE RACISTA



Por Walter Passos
Historiador
E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br
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Os desafios das nossas ancestrais pretas se tornaram dores inextinguíveis com o surgimento do tráfico transatlântico e o sequestro de crianças, adolescentes e adultos. A separação causou sofrimento em milhões de mães africanas, este inimaginável aos nossos pensamentos, e a tristeza pairou em todo o período do sequestro, porque a separação do ventre materno: África: significou a separação de mães amorosas e filhos amados.

Para a mulher preta escravizada nas Américas à maternidade trouxe desafios outrora desconhecidos em terras africanas, afastadas dos rituais religiosos do nascimento e de iniciação em muitas sociedades, abalou o processo identitário, especialmente nos nascimento de gêmeos.

A mulher preta no Brasil Colônia e Império enfrentou desafios em uma nova sociedade, onde os ritos de nascimentos são ignorados, e a maternidade em muitos casos é decorrente do estupro, de nascimento de filhos considerados ilegítimos pelos progenitores; senhores de engenhos e seus filhos e em muitos casos os chamados “filhos de padres”. Propagando uma nova realidade nas relações de maternidade e da escravidão: a crise da mestiçagem e a negação cultural da ancestralidade materna e da própria genitora, casos estes relatados em diversos exemplos na literatura brasileira.

Na escravidão, a função materna da escravizada vai se adequar aos desejos de lucro do senhor de engenho. A gravidez tinha concepções diferentes para muitos senhores de engenho, eram novas bocas a alimentar no processo produtivo, ou uma necessidade de aumentar a renda, sendo assim muitos senhores engravidam as escravizadas, e vendem os bebes considerados por eles, apenas uma mercadoria.

Ocorreu no Brasil, houve uma quebra da ancestralidade e de conceitos maternos africanos com a resistência na prática de aborto e do infanticídio, mais uma vez, a escravidão desfigurou o papel da maternidade, abalando estruturas milenarmente construídas de gestação e criação em território africano.

Nesse ínterim, cria-se no Brasil um elaborado mito de maternidade: a Mãe Preta, uma mulher feliz que amamentava os filhos de senhores e foi ativa participante de um país sem racismo e poucos conflitos. A Mãe Preta da democracia racial de Gilberto Freire e seguidores.

Na realidade, a Mãe-preta foi uma mulher infeliz é obrigada a amamentar os filhos dos seus algozes, enquanto os seus filhos foram vendidos e os que ficaram sofriam de inanição, por pouco leito materno. Muitas escravizadas, as chamadas amas de leite forneceram lucros às boas famílias católicas ao terem os seus peitos alugados para amamentação de crianças brancas.

Abaixo: Fernando Simões Barbosa com ama–de–leite – Euge

Mauricio – Recife, c.1860–1869. Crédito: Fundação Joaquim Nabuco, e Monumento a mãe-preta na matriz da Fraternidade Eclética Universal.

Uma realidade nova se propagou: a função de ser mãe solteira em uma sociedade patriarcal e racista. A dificuldade em criar os seus filhos obrigou as mulheres pretas a deixarem os seus bebes enjeitados nas Santas Casas a Roda dos Expostos.

A pobreza extrema que foi jogada a população preta no Brasil reforça os laços do chamado compadrio, onde muitas crianças foram entregues a parentes, pessoas estranhas e as chamadas comadres endinheiradas ou de melhor situação financeira criando uma rede de exploração de crianças que em muitos casos serviram como serviçais nas residências de famílias mais abastadas. As mulheres pretas não foram culpadas dessas atitudes.

Com o advento da abolição da escravatura a mulher preta traz consigo os traumas da escravidão e novos desafios teve que enfrentar, por causa da maioria das famílias desestruturadas. Além da pobreza, aprender a vencer desafios e preconceitos em uma sociedade judaico-cristã: Mulher preta, pobre e mãe-solteira.

2PAC - DEAR MAMA (LIVE) - LEGENDADO


A mulher preta é uma heroína na sociedade racista, não só como provedora de muitos lares, mas, como sustentáculo das tradições ancestrais. Quando os seus filhos e filhas começam a enfrentar as discriminações por causa da cor da pele, a mãe é o apoio e a orientação para a preservação da autoestima. E ela que suporta e procura os meios de combater a discriminação, é o verdadeiro amor que sofre com as tristezas e exulta com as vitórias.

O desafio da maternidade ainda é para muitas mulheres pretas questões de profundas análises, porque só elas sabem, os grandes desafios que vão enfrentar para o sustento e a educação dos seus filhos e filhas.

Felizmente, as mulheres pretas apesar das dificuldades herdadas da escravidão dos nossos ancestrais e dos novos desafios após a abolição da escravatura, tem mantido as nossas tradições e formando gerações de pretas e pretos orgulhosos de terem o prazer de chamar uma mulher preta de: mãe.


SIZZLA - THANK YOU MAMA


Shalom!

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domingo, 6 de maio de 2012

SALIF KEITA – A VOZ DE OURO DA ÁFRICA


Por Malachiyah Ben Ysrayl.

Historiador e Hebreu-Israelita
E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br
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Salif Keita é descendente direto do fundador do Império Mali, Sundiata Keita, nasceu na aldeia de Djoliba, no Mali, em 25 de Agosto de 1949, e por ser albino foi expulso da família na adolescência, pois o albinismo é um sinal de azar na cultura mandinka.


Mali - SALIF KEITA – AFRICA


A discriminação contra o albinismo ocorre em diversos países africanos. Nascer com deficiência de melanina é considerado maldição em muitas culturas, inclusive nos relatos dos hebreus, também uma civilização africana, onde pessoas que quebravam as regras religiosas eram punidas com a perda da melanina. Esta realidade comprova que ser preto não é maldição nas civilizações africanas e na civilização hebraica, como outrora foi difundido.

Exemplo disso, há uma espécie de maldição genética no caso de Geazi, descrito no livro bíblico de II Reis 5:27, vejamos: “Portanto a lepra de Naamã se pegará a ti e à tua descendência para sempre. Então Geazi saiu da presença dele leproso, branco como a neve.”

Com o avanço do estudo da genética, sabemos que o albinismo é um distúrbio congênito caracterizado pela ausência completa ou parcial de pigmento na pele, cabelos e olhos, devido à ausência ou defeito de uma enzima envolvida na produção de melanina, podendo ocorrer tanto em seres humanos, como também em animais e plantas. Ele é hereditário e pode ser classificado em dois tipos: tirosinase-negativo (quando não há produção de melanina) e tirosinase-positivo (quando há pequena produção de melanina).

Os massacres e sacrifícios humanos de albinos e o comércio de partes de seus corpos têm sido relatados na Tanzânia, Burundi e Quênia e não passaram despercebidos por Salif Keita que se empenhou em uma luta para proteção e conscientização para combater a discriminação dos albinos.

Fontes históricas afirmam que entre a população Mandi do Sudão a tradição ensinava que quando aparecesse o primeiro branco eles seriam destruídos. Então é compreensível o receio aos albinos pelas gerações passadas. Torna-se necessário para compreender esse posicionamento extremo, um estudo mais acurado da questão do albinismo em território africano e saber das mudanças comportamentais e quando, na verdade, começaram a existir esses casos de assassinatos e mutilações.

Albinos Killed For Their Organs


Salif Keita por ser de família nobre não poderia dedicar a sua vida a música por ser um atributo aos griots. Esta herança real significava que sob o sistema de castas do Mali, que ele nunca deveria ter se tornado um cantor, que foi considerado como um papel de griot e disse:

-"Passei dois anos vivendo no mercado, tocando violão e cantando em bares e cafés".

Ele quebra essa regra e como um albino rejeitado, se desloca para Bamako, a mais importante cidade do Mali e inicia a sua vida musical com a o grupo "Rail Band de Bamako", onde canta musicas tradicionais com ritmos modernos. Sua música combina tradicionais estilos de música do Oeste Africano, com influências da Europa e Américas, mantendo um estilo global islâmico. Instrumentos musicais que são comumente apresentados no trabalho de Keita incluem balafons e djembes, guitarras, Koras, órgãos, saxofones, e sintetizadores

As convulsões políticas, sob a junta militar no Mali, durante a década de 1970 obrigou Keita a fugir do país, primeiro para a Costa do Marfim e, posteriormente, para a França.

Em 1973, Keita se juntou ao grupo "Les Ambassadeurs" e, mudou o nome do grupo para "Les Ambassadeurs Internationaux". A reputação do grupo subiu a nível internacional e, em 1977, Keita recebeu o prêmio da Ordem Nacional das mãos do presidente da Guiné, Sékou Touré.

CULTNE - SALIF KEITA EM SALVADOR - BAHIA


Em 2004, Salif retorna ao Mali com sua esposa e seus onze filhos para estar mais perto de suas raízes ancestrais.

MALI - SALIF KEITA - NYANAFIN


O ultimo albúm de Keita recebeu críticas positivas de todo o mundo musical:

“O último álbum de Keita, “La Différence”, foi produzido por volta do final de 2009. O trabalho é dedicado à luta da comunidade mundial albino (vítimas de sacrifício humano), para que Keita foi cruzada toda a sua vida. Em uma das faixas do álbum, o cantor chama os outros para compreender que a diferença não significa ruim e para mostrar o amor e compaixão para com os albinos como todos os outros: "Eu sou preto / minha pele é branca / assim que eu sou branco e meu sangue é negro [albino] / ... eu adoro isso, porque é uma diferença que é linda .. "," alguns de nós são bonitos alguns não são / alguns são pretos outros são brancos / toda a diferença que foi de propósito .. para nós, para completar um ao outro / vamos todos vivenciar o amor e dignidade / O mundo vai ser bonito.

La Différence é o único álbum que pela primeira vez Keita combina claramente e corajosamente diferentes influências melódicas para produzir uma sensação musical altamente original, com uma vasta gama de recurso. O álbum foi gravado entre Bamako, Beirute, Paris e Los Angeles. Esta sensação musical única é reforçada por campos soulful na faixa "Samigna" que emanam da trombeta do grande músico libanês Ibrahim Maaluf.

"La Différence” venceu um dos maiores prêmios musicais da sua carreira: o the Best World Music 2010 pela Victoires de la musique.”

LA DIFFÉRENCE" BY SALIF KEITA


A vida de Salif Keita tem sido um exemplo de superação, demonstrando com a sua música que qualquer tipo de discriminação não contribui para o amor e o respeito à humanidade. Keita não demonstra rancor pelos acontecimentos pregressos, mas trabalha com a conscientização de que as pessoas com albinismo são seres humanos como todos os outros. As diferenças têm que ser respeitadas.

sábado, 28 de abril de 2012

A RESISTÊNCIA AFRICANA EM MARTINICA - AG`YA - LADJA OU DANMYE



Por Malachiyah Ben Ysrayl.
Historiador e Hebreu-Israelita
E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br
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Há muito ainda que se conhecer sobre a história da resistência dos africanos nas Américas.

A mídia e os estudos eurocêntricos não tem nenhum interesse em informar que em toda a América escravista houve diversas formas de dizer não à escravidão e de afirmar o pertencimento à ancestralidade. Como tenho afirmado, é necessário um estudo da América Africana, porque geopoliticamente a América é brancamente dividida: América Anglo-Saxônica, América Latina, Luso América, e outras renomeações que os colonizadores e suas geografias dominantes criaram objetivando colocar os africanos nas últimas categorias de identificação.

Contudo, há uma América Africana que não se cala e torna-se necessário que ela seja estudada e difundida para as nossas crianças, só assim poderão entender a crueldade do tráfico transatlântico que sangrou o continente africano e espalhou as nossas famílias por toda o continente americano.

A história da Martinica, como em toda a América Africana, foi de lutas de classes e racismo, baseado no extermínio dos nativos, na escravidão e exploração da mão de obra africana, aonde muitos judeus que vieram da capitania de Pernambuco, em 1654, fugindo da Inquisição Portuguesa, se enriqueceram com o infamante tráfico e exploração da mão de obra escravizada da Costa Ocidental Africana. Os judeus enriqueceram com a exploração dos africanos em toda a América escravista.

O imperialismo francês com a ideia de liberdade, igualdade e fraternidade para os franceses dominou extensas regiões na África, Ásia e América. Para os africanos, o lema foi: Escravidão, desigualdade e hostilidade, fato este ocorrido nos domínios franceses na América: Haiti, Guiana Francesa, Guadalupe, Martinica e outras regiões nas Américas.

Um dos seus mais ilustres nativos da Martinica foi Frantz Fanon que tem dois livros conhecidos pela intelectualidade preta: Pele Negra, Máscaras Brancas e Os Condenados da Terra.

Outro importante intelectual foi Aimé Fernand David Césaire, poeta, dramaturgo, ensaísta e político da negritude, publicou diversas obras e seu pensamento e a sua poesia influenciaram não só escritores francófonos, mas também outros intelectuais africanos e pretos americanos, na luta contra o colonialismo e a aculturação. Fundou o jornal “L'Étudiant noir”. Foi nas páginas desta publicação que apareceu pela primeira vez o termo “Negritude”. Este conceito, forjado por Aimé Césaire em reação à opressão cultural do sistema colonial francês, visava rejeitar o projeto francês de assimilação cultural e promover a África e a suas culturas.

Na Martinica foi desenvolvida uma arte marcial muito interessante chamada AG `YA - OLADJA DANMYE, que foi documentada pela primeira vez no ano de 1936.



No primeiro olhar parece um jogo de capoeira angola, uma vadiação dos velhos mestres, mas, não é capoeira. As origens do AG `YA - OLADJA DANMYE ainda são controversas, e não é uma compilação da capoeira brasileira, porque já em 1936 já era praticado na Martinica, fato documentado pela pesquisadora Katherine Dunham.

Não vou entrar em uma explicação da origem da capoeira e muito menos a sua comparação com AG `YA - OLADJA DANMYE porque existem grandes mestres de capoeira que podem nos ensinar bem e merecem toda a nossa atenção e respeito. Recordo-me quando frequentava a academia do saudoso Mestre João Pequeno na década de 80, ele me ensinou que a capoeira era a dança do NGOLO, uma espécie de dança da zebra praticada em Angola que os rapazes dançavam para conquistar namorada, nas palavras do Seu João. Alguns mestres que estão lendo o artigo podem nos explicar melhor sobre AG `YA - OLADJA DANMYE e a Capoeira. O espaço está aberto para os mestres e nós ansiosos para aprender.
Jogo de capoeira:



Como historiador, sei que não há um local especifico ou de dominação da ancestralidade africana nas Américas. Onde foi levado o africano ai chegou as suas manifestações e recriações ancestres, exemplo este que vemos nas religiões de matriz africana: Santeria em Cuba, Orisa de Trinidad e Tobago, Vodun no Haiti, Winti no Suriname, Candomblé no Brasil, para exemplificar.

AG `YA - OLADJA DANMYE, como toda arte marcial de origem africana, se desenvolveu na necessidade da resistência do escravizado ao opressor branco, da manutenção das danças ancestrais e da continuidade de lutas praticadas nas terras africanas.

É um arte que tem a finalidade de anular o oponente, alguns afirmam que parece com uma luta praticada no Senegal. É acompanhada por toques de tambores e cantoria. As artes africanas possuem a espiritualidade, a musicalidade e a dança.



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sábado, 7 de abril de 2012

Os HEBREUS DE ELEFANTINA - COMUNIDADE NO ANTIGO KEMETE


Por Malachiyah Ben Ysrayl.

Historiador e Hebreu-Israelita
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Os Hebreus constituíram-se quanto povo dentro do território africano. Tal composição possuiu sua gênese em Mizraim, no Kemete (atual Egito), e de lá se consolidou em Canaã, após o Êxodo sob a direção de Moshe.

Importante destacar que Kemete e Canaã eram um só território africano para aquelas civilizações, cuja divisão territorial somente ocorreu muito recentemente com a invasão das civilizações brancas e a drástica alteração toponímica, através da construção do canal de Suez.

Importante também compreender que Kemete, potencia comercial, naval e intelectual da época, era um local propício para o desenvolvimento e constituição do povo hebreu, seja para acolhê-los durante os diversos períodos de crises econômicas enfrentadas, alianças militares e mercantis, seja pelas necessidades de asilo e migrações populacionais, principalmente em decorrência das diversas guerras hebraicas que culminaram nas diásporas.

Por conta de seu desenvolvimento econômico, Kemete foi o local ideal e mais seguro para a sobrevivência dos hebreus, desde a época de Avraham (Abraão, pai de muitos pretos).

Em outra análise, não há como concordar com alguns grupos afrocentristas, notadamente inimigos dos hebreu-israelitas, que habitualmente se referem à civilização de Kemete para atribuí-la todo o conhecimento, restando aos hebreus a absorção e adaptação cultural, ao passo que também negam a pretitude de Israel, apoiando, por ignorância, a farsa Askenazi.

Esta análise equivocada demonstra ausência do conhecimento histórico de Kemete e de suas relações econômicas, políticas e culturais. Sem mais delongas, não podemos esquecer que o povo hebreu se origina em Kemete e a sua cor epitelial não era diferenciada, tanto assim que em diversos relatos eles são considerados um só povo, como é o preto hoje.

Hebreus Israelitas cativos na Babilônia

No livro de Bereshit (Gênesis) há diversos relatos dos hebreus se parecerem com os habitantes de Mizraim, alguns exemplos: Os dez irmãos de Yosef não o reconheceram, no sepultamento de Yaacov e Moshe cresceu na corte do faraó. Inclusive Yahoshua foi levado para Mizraim com os seus pais Yosef e Miryahm fugindo de Herodes por causa da matança das crianças de Beit Lehem.

Após esse introito, necessário para elucidar alguns temas sobre a comunidade dos hebreus em Kemete, discorreremos sobre a comunidade hebraica de Elefantina, uma ilha do rio Nilo, a oeste de Aswan, na fronteira com a Núbia (Sudão), que se estabeleceu na região no V século antes da nossa eram comum.



Elefantina é uma palavra de origem grega que significa elefante, os antigos habitantes de Mizraim chamavam de Yebo, que também significa elefante, este nome surge por causa dos elefantes que foram levados do sul para a Núbia. A ilha possuía uma importância geográfica estratégica por causa das constantes guerras entre Kemete e o poderoso império de Kush.

Por que os hebreus se instalaram na Ilha de Yebo? Há algumas hipóteses:

- O rei Manasses da Judéia enviou soldados que se estabeleceram em Elefantina apoiando o Império de Mizraim.

- Mercenários judeus foram enviados para o Egito durante o reinado do faraó Psammetichusis II, o rei Zedequias teria sido o responsável pelo ato. Isto porque, o rei Zedequias foi o único governante de Judá contemporâneo com Psammetichusis II. Desde então, Mizraim teria sido mais propenso a apoiar os rebeldes antibabilônicos, a presença de mercenários judeus em MIzraim pode ter sido visto como um ato de cooperação contra um inimigo comum. Corroborando com essa hipótese, extraímos o escrito no Livro de II Reis:

"Com isso, todas as pessoas [restante dos judeus em Judá] desde o menor até o maior, juntamente com os oficiais do exército, fugiu para o Egito com medo dos babilônios." (2 Reis 25:26).

Alguns profetas falam da presença de hebreus no Egito, entre eles, Isayah:

"Veja, eles virão de longe,
alguns do norte, alguns do oeste,
alguns da região de Assuão [Siena]. " -Isayah 49:12

A vivência dos hebreus em Elefantina ainda é estudada com afinco, pois permite através de uma vasta quantidade de documentações, entre elas, papiros e sítios arqueólogicos, o entendimento da diáspora dos hebreus.

Elefantina era conhecida como a terra do deus Khnub, originário de Kush-Nubia como outros importantes deuses e deusas de Kemete. Originalmente esse deus é representado como um homem com cabeça de carneiro. Os hebreus construíram um templo para YHWH parecido com o templo de Salomão o qual foi destruído por egípcios, por causa dos holocaustos, que incluíam ovelhas, bois e cabras. O sacrifício de carneiros no templo era claramente uma das principais causas da revolta dos egípcios. Um documento encontrado retrata a destruição final do templo em 410 aC, Segundo o documento, os sacerdotes egípcios de Khnub cooperou com Vidranga que enviou o seu filho Nefayan no comando de um exército egípcio e ordenou "o templo de YHWH na Fortaleza de Elefantina tem que ser destruído"

Há um papiro que solicitar ao rei Dario da Persa a reconstrução do templo de Elefantina, acesse o link:

http://www.kchanson.com/ancdocs/westsem/templeauth.html

Na ilha diversos papiros denominados como “Papiros de Elefantina”, foram encontrados nos assoalhos das casas, vasos de cerâmica e jarros. Estes documentos escritos em aramaico, e alguns em hierático e demótico, relatam a vida cotidiana, isto é, assuntos políticos, religiosos, econômicos e sociais. Os documentos legais encontrados estão preocupados com ações judiciais; vendas; casamento, empréstimo, presentes e outros contratos relacionados com posses de propriedade.

De especial importância é a "Carta da Páscoa", que remonta a 419 a.C. A carta era de Ananias para Jedenayah da guarnição israelita em Elefantina. Em sua carta, Hennanyah instruiu os hebreus a "manter o Festival do Pão Ázimo" e "serem puros e cuidadosos.", juntamente com outras instruções relacionadas à observância do festival. Os estudiosos suspeitam que Hennanyah tenha sido o irmão da figura bíblica, Neemyah.

O destino desconhecido da comunidade de Elefantina pode ser interpretado de maneiras variadas. Uma possibilidade é a migração para a Núbia, assim como os soldados egípcios fizeram durante o tempo de Psammetichus. Sendo assim, seria uma estranheza se os hebreus fossem brancos de olhos azuis como são os askenazis, que se dizem judeus e habitam no território de Israel e se originam do Cáucaso.

Outra hipótese, mais instigantes, é que caminharam para o ocidente da África, devido a diversas tradições orais de grupos étnicos que afirmam terem vindo de Mizraim ou Kemete (Antigo Egito) e de Kush-Núbia e resguardam em sua linguística e costumes, hábitos inteiramente hebraicos.

Shalom!

domingo, 29 de janeiro de 2012

MENINA BONITA DO LAÇO DE FITA- LIVRO INFANTIL POLITICAMENTE CORRETO - MESTIÇAGEM COMO IDEÁRIO DAS ELITES


Por Malachiyah Ben Ysrayl.

Historiador e Hebreu-Israelita
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Sempre apreciei literatura infantil. Durante a infância até a adolescência, eu li e, muitas vezes, reli inúmeras revista em quadrinhos, livros infantis e recortes de jornais. Ainda hoje, assisto desenhos animados e continuo gostando de literatura para crianças.

Naquela época, eu não compreendia a ideologia intrínseca em cada uma daquelas publicações, e mesmo com a “visão de menino”, sabia que naquelas histórias eu não me encontrava - toda criança procura nos personagens uma identificação -, nelas eu apenas me embranquecia e concomitantemente com a discriminação racial vivida, eu vivia mergulhado em crises. Sem perceber, as mensagens simbólicas de poder sempre me colocavam como inferior em uma sociedade branca judaico-cristã.

Atualmente, neste afã mercadológico da nova literatura, leio os livros infantis como observador e crítico das mazelas que ocasionam para as crianças pretas, em especial aqueles livros escritos por pessoas que não estão inseridas na realidade dos africanos e seus descendentes no Brasil, nem conosco mantém compromissos étnicos-identitários.

Por desafios, aprendi a escrever contos na tentativa de suprir a fantasia dos meus filhos e filhas pretas, quando ao buscar, não encontravam uma literatura adequada e específica para crianças pretas naquele período, desta forma, eu mesmo tive que criar as histórias.

Quando meus filhos estavam pequenos, havia uma febre de programas televisivos endereçados a crianças, como a Xuxa e muitos outros. Tais programas exaltavam o imaginário mundo das fadas e princesas européias, a dita beleza dos traços caucasianos, a ilusão da superioridade fenotípica branca e a degradação da figura das pessoas pretas.

Não permiti que os meus filhos assistissem a Xuxa e suas Paquitas, e hoje eles me agradecem. Da mesma maneira, nunca presenteei minhas filhas com bonecas de fenótipos europeus, sempre lhes dava bonecos e bonecas pretas, cujos nomes faziam referência a ilustres líderes com Zumbi, ou a belíssimos nomes africanos como Dandara, com as quais elas interagiam umbilicalmente com a pretitude. Dessa maneira, meus filhos aprenderam as suas histórias e se sentiam felizes, refletindo, ainda crianças, sobre a sua origem africana e, desde lá, conscientes de enfrentar com cabeça erguida a vida real de racismo na educação brasileira.

Os livros paradidáticos traziam mensagens que não satisfaziam a minha necessidade de informá-los sobre a sua ancestralidade africana e onde eles pudessem ser vistos. Então, comecei a colher informações e usando a criatividade escrevi dezenas de histórias e muitas delas com a participação deles, uma interação de africanidade onde os meus filhos foram participes, proporcionando a eles, hoje, o pertencimento como africanos, uma consciência adquirida desde a tenra infância, através dos contos escritos por mim.

A literatura infantil é iconográfica, com representações estéticas raciais, discursos ideológicos e poderosas influências simbólicas. O livro infantil não é pautado na inocência, mas nos interesses e projeções do autor e na manutenção da submissão daqueles considerados subalternos na sociedade. O livro infantil é a mensagem política do adulto, e sua explicação do mundo para as crianças, e naquele mundo, o preto não ocupa o lugar de poder e desconhece os padrões da ancestralidade. O livro infantil para o povo preto tem que ser considerado como arte-educação-política de literatura libertária para as nossas crianças.

Um dos livros didáticos apresentado ao meu filho caçula na 1ª série do ensino fundamental foi MENINA BONITA DO LAÇO DE FITA, escrito por Ana Maria Machado, uma renomada escritora com “mais de 100 livros publicados no Brasil e em mais de 18 países somando mais de dezoito milhões de exemplares vendidos. Os prêmios conquistados ao longo da carreira de escritora também são muitos, tantos que ela já perdeu a conta. Em 2003, Ana Maria foi eleita para ocupar a cadeira número 1 da Academia Brasileira de Letras, substituindo o Dr. Evandro Lins e Silva. Pela primeira vez, um autor com uma obra significativa para o público infantil havia sido escolhido para a Academia.”

Fonte: http://www.anamariamachado.com/biografia

MENINA BONITA DO LAÇO DE FITA


Este livro é conceituado pela crítica nacional e internacional, admirado pela maioria dos professores, e divulgado por uma parcela importante de militantes do MOVIMENTO NEGRO BRASILEIRO, inclusive mulheres, sendo referência pela maioria de professoras pretas. Sobre ele, irei tecer algumas reflexões críticas.

A princípio, merece destaque o fato do livro não ser pensando para a comunidade preta, ao contrário, a autora se inspira em sua filha, uma menina branca de ascendência italiana, conforme se pode extrair das informações do seu sitio pessoal na internet. Vejamos:

“Este livro, para mim, é uma história que surgiu a partir de uma brincadeira que eu fazia com minha filha recém-nascida de meu segundo casamento. Seu pai, de ascendência italiana, tem a pele muito mais clara do que a minha e a de meu primeiro marido. Portanto, meus dois filhos mais velhos, Rodrigo e Pedro, são mais morenos que Luísa. Quando ela nasceu, ganhou um coelhinho branco de pelúcia. Até uns dez meses de idade, Luísa quase não tinha cabelo e eu costumava por um lacinho de fita na cabeça dela quando íamos passear, para ficar com cara de menina. Como era muito clarinha, eu brincava com ela, provocando risadas com o coelhinho que lhe fazia cócegas de leve na barriga, e perguntava (eu fazia uma voz engraçada): “Menina bonita do laço de fita, qual o segredo para ser tão branquinha?” E com outra voz, enquanto ela estava rindo, eu e seus irmãos íamos respondendo o que ia dando na telha: é por que caí no leite, porque comi arroz demais, porque me pintei com giz etc. No fim, outra voz, mais grossa dizia algo do tipo: “Não, nada disso, foi uma avó italiana que deu carne e osso para ela...” Os irmãos riam muito, ela ria, era divertido. Um dia, ouvindo isso, o pai dela (que é músico) disse que tínhamos quase pronta uma canção com essa brincadeira, ou uma história, e que eu devia escrever.”
Fonte: http://www.anamariamachado.com/historia/menina-bonita-do-laco-de-fita

No primeiro olhar, o livro totalmente inocente conta a história de uma menina pretinha questionada por um coelho branco o porquê da sua cor epitelial, responde simploriamente, frases que a maioria não responderia:

- Menina bonita do laço de fita, qual é o teu segredo para ser tão pretinha?

A menina não sabia, mas inventou:

­- Ah deve ser porque eu caí na tinta preta quando era pequenina...
- Ah, deve ser porque eu tomei muito café quando era pequenina.
- Ah, deve ser porque eu comi muita jabuticaba quando era pequenina.
A menina não sabia e... Já ia inventando outra coisa, uma história de feijoada...

As respostas da menina sem nome fazem referências a uma gama de preconceitos incutidos que muitas crianças pretas ouvem para justificar a sua cor de pele. Um dos exemplos, é que as pessoas nascem pretas porque estão sujas:

“Cai na tinta preta (o sujo de tinta).”

Também é Interessante é a explicação da mãe da menina, outra personagem sem nome, que explica a cor da filha assim:

“quando a mãe dela que era uma mulata linda e risonha, resolveu se meter e disse:
- Artes de uma avó preta que ela tinha...”

Observemos que a mãe sem nome e adjetivada como “uma mulata” - fruto da miscigenação - e nós sabemos que o termo mulato não é aceito pelos setores do Movimento Negro por exprimir através da própria sociedade branca escravocrata, o filho considerado híbrido, o homem afeminado em diversos romances da literatura brasileira, a mulher sexualmente fácil, a rejeição da mulher preta. Por outro lado, a idéia de mulatismo agrada as classes dominantes por criar uma sociedade sem conflitos e impor o poder do homem branco sobre as mulheres pretas na construção de uma sociedade na concepção de Gilberto Freire.

A mulata sem nome e sem consciência racial explica a cor da menina sendo decorrente das:

- Artes de uma avó preta que ela tinha...

Quais foram estas artes? A avó preta foi uma mulher arteira, sexualmente falando, que teve relações com um homem branco, sendo estas artes (sexo) o motivo da menina ser preta? As artes são da mulher preta e não do homem branco. O homem branco na sociedade escravocrata brasileira e posteriormente após a escravidão, não faz artes, a responsabilização sempre é das mulheres pretas. Consequentemente, lembremos, que na escravidão, quando diversas mulheres pretas foram estupradas pelos senhores e seus filhos, elas que fizeram as artes. No período pós-abolição, as mulheres pretas continuam a fazer artes e terem os seus filhos “mulatos”. A autora poderia ter usado o termo:

- Por causa de um amor que a avó preta dela tinha.

Contudo, foi de extremo equivoco a autora explicar a ascendência da menina pretinha envolvendo as artes de uma avó preta e omitir o seu avô branco.

O coelho branco, símbolo de fertilidade, é um questionador e acha a menina preta bonita e deseja tornar-se preto. É o homem branco cordial, que “ama o povo preto”, e tenta se tornar preto. Ele faz diversas tentativas e não consegue alterar sua cor epitelial.

- Aí o coelho, que era bobinho, mas nem tanto, viu que a mãe da menina devia estar mesmo dizendo a verdade, porque a gente se parece sempre é com os pais, os tios, os avós e até com os parentes tortos.

Dentro daquele contesto, ainda não compreendi com clareza o que são parentes tortos.

Todavia, através da relação sexual com uma coelhinha preta, completa o seu desejo de uma ninhada multiétnica. Na representação do homem branco cordial e da sociedade sem conflitos raciais:

“- E se ele queria ter uma filha pretinha e linda que nem a menina, tinha era que procurar uma coelha preta para casar.
Não precisou procurar muito. Logo encontrou uma coelhinha escura como a noite, que achava aquele coelho branco uma graça.”

O coelho branco sempre é uma graça, lindo e poderoso que encantou a coelhinha preta igual à menina e neste casamento surge uma ninhada de coelhos semelhante à sociedade brasileira: sem graves problemas raciais, na concepção equivocada e maldosa da autora. O que nos chama a atenção é que o coelho branco segue os padrões sociais aceitos e contrai núpcias com a coelhinha preta que o achou uma graça, enquanto a avó da menina faz artes, é a preta arteira, a pecadora, a jezabel.

“-Foram namorando, casando e tiveram uma ninhada de filhotes, que coelho quando desanda a ter filhote não para mais! Tinha coelhos de todas as cores: branco, branco malhado de preto, preto malhado de branco e até uma coelha bem pretinha.”

As idéias de pluralidade racial, multietnicidade e cordialidade nas mentes das crianças são programadas pela autora, que no âmago do discurso com esta brincadeira para uma criança branca escreve um livro sem nenhuma preocupação com a comunidade preta brasileira, sem quaisquer fundamentos históricos, e reproduz um ideário das elites brancas deste país: Uma civilização brasileira sem conflitos, sem mazelas da escravidão cristã, sem luta de classes, sem importância referencial da África, uma sociedade mestiça, um livro a base do pensamento de Gilberto Freire. Um louvor a mestiçagem, em resumo: um livro “politicamente correto”.

O livro nega toda a idéia de construção de relação que devemos ter com a nossa ancestralidade africana, apesar de no seu início sugerir que “Ela ficava parecendo uma princesa das terras da áfrica, ou uma fada do Reino do Luar”. Ela sugere em contraposição a princesa das terras da África à história das fadas brancas do Reino de Luar. Temos que criar nas nossas crianças um referencial apropriado de afrocentricidade, porque o que se coloca neste conto ainda é uma idéia de branqueamento embutido na menina pretinha do laço de fita.

Não podemos aceitar a continuidade do mito do paraíso racial e o pluriculturalismo na educação deve ser baseado no respeito às diferenças e não na negação da história do povo preto.

Acredito que é uma covardia quando mascaramos das crianças a sua realidade e as inserimos em outro mundo como se fosse seu, quando deixamos que se sintam no mundo branco e elas descobrem sozinhas que este mundo não as querem com a sua ancestralidade.

PRETAS POESIAS

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